30 de abr de 2008

aviso aos navegantes


em algumas tentativas de autodefesa, a editora nova cultural vem tentando circunscrever à coleção "obras-primas" o problema de suas edições com algumas irregularidades aqui apontadas.

repetindo, a título de esclarecimento, a coleção "obras-primas" da nova cultural foi lançada em 2002 com patrocínio da suzano celulose, para venda em bancas de jornal. inicialmente seria composta por 40 títulos, e algum tempo depois, devido ao êxito da iniciativa, segundo a diretoria editorial, resolveram ampliar a coleção para 50 títulos.

os cotejos realizados mostram que boa parte desses títulos foi editada com alteração nos créditos de tradução, sendo que as traduções pertenciam, na verdade, a outros autores, que assim, mesmo em sua maioria já falecidos, foram afetados em seus direitos morais, os leitores enganados, e o patrimônio cultural do país lesado.

por outro lado, está demonstrado também que essa prática de alteração dos créditos dos tradutores na editora nova cultural não se iniciou em 2002, e vinha ocorrendo pelo menos desde 1995.

assim, parece descabida a tentativa da nova cultural de limitar esse problema à coleção obras-primas de 2002-2003 (a qual, diga-se de passagem, alterou o nome dos verdadeiros tradutores em alguns milhões de exemplares).

é muito importante que as pessoas tenham consciência dos volumes com que estamos tratando: por princípio, este é em si um procedimento absolutamemente ilegal, quer tenha ocorrido em 1, 1.000 ou 1.000.000 de exemplares. todavia, quando a superfície de exposição é realmente em escala industrial, o princípio legal continua igualmente ferido, porém o dano é exponencialmente maior.

então está-se falando, apenas no âmbito da coleção obras-primas, de exemplares fraudados na casa de quase 3 milhões de exemplares, segundo depoimentos dados pela própria nova cultural à imprensa. cada livro tem como superfície de exposição, entre lar e bibliotecas públicas, uma base mínima de 10 pessoas, ou seja, apenas nos casos já devidamente apresentados, estamos falando de dezenas e dezenas de milhões de leitores sem o devido acesso às informações corretas.

em primeiro lugar, restringir o problema dos plágios ao período de 2002-2003 não atenua de maneira alguma os danos que disso decorreriam e que são incalculáveis.

em segundo lugar, a insistência em circunscrevê-lo a esse período chega a chamar a atenção por ser tão forçada.

o que está se tentando proteger no período anterior a 2002, se é uma evidência palmar que as alterações se iniciaram em 1995?

27 de abr de 2008

o mestre da modéstia II

Sete Fragmentos para um Retrato (cont.)

3
Na sua versão alemã, o judeu emigrado de Berlim era outra pessoa. Despia o formalismo e a sobriedade engomada e se revelava um interlocutor espirituoso e mor-daz. Durante anos, tínhamos uma paixão comum: os escritores alemães de estilo aforístico, os esgrimistas de paradoxos lapidares e malvadezas bem-formuladas, que seriam letais, se as palavras tivessem esse poder que só os intelectuais lhes conseguem atribuir. Nunca mais conheci um alemão que tivesse um conhecimento tão perfeito dessa tradição literária. Ela era fruto de uma cultura extremamente refinada da conversação, ambientada nos círculos literários e artísticos berlinenses e nos cafés vienenses antes de 1933/1938 e retratada, com relação ao universo dos literatos vienenses, no livro Die Tante Jolesch de Friedrich Torberg, pelo qual Herbert Caro tinha uma especial predileção.

A máscara brasileira tornou-se quase que uma segunda natureza de Herbert Caro. Era a sua imagem pública e foi tomada como sua verdadeira natureza. No fundo, ela sempre foi uma máscara. Herbert Caro foi até o fim da vida o mesmo judeu berlinense, nascido em 1906 e ligado por laços indissolúveis à sua cidade natal e ao ambiente cultural da sua infância e juventude. Já no início dos anos 70 ele me falava extensamente das pessoas que conhecera no célebre Romanisches Café em Berlim, um ponto de encontro muito apreciado pelos intelectuais e artistas dos anos vinte. E lembro-me ainda bem do desconcerto do escritor alemão Christoph Meckel, que levei no início dos anos 80 à casa de Herbert Caro. A nossa conversa com Herbert Caro lhe pareceu fantasmagórica. Girou apenas em torno da Alemanha e de Berlim até 1933, como se os acontecimentos posteriores não tivessem ocorrido.

4
Durante muitos anos, Herbert Caro publicou crônicas semanais sobre discos de música erudita no antigo Correio do Povo. Como fui músico ativo até 1975, chegamos a brigar muitas vezes com amigável dureza sobre afirmações que ele fazia nesses artigos, e que na verdade não passavam de juízos literários, mais ou menos opiniáticos e impressionistas, sobre as obras, os intérpretes e os seus estilos, com um pronunciado sabor de dicionário ou guia desse ou daquele gênero de música.

A mãe de Caro, que faleceu no início dos anos 70, tinha estudado canto antes de casar, mas não exercera a profissão. Seguindo a praxe das famílias alemãs de classe média, Herbert Caro tomou aulas de música durante a sua infância. Contou-me certa vez que não progrediu e levou a professora de piano quase ao desespero. O testemunho da viúva, dado poucos meses antes da sua morte em dezembro de 1992, sugere que a transformação de Herbert Caro em apaixonado amante da música foi sobretudo obra da esposa. Após a morte do marido, ela não conseguiu mais ouvir música em casa. A música lhe evocava o companheiro morto e escancarava a solidão.

Nina Caro me disse que o marido inicialmente não gostava de concertos e não freqüentava o Theatro São Pedro. Anos mais tarde, ele começou a comprar os primeiros elepês, na época em que eles eram importados. E mais tarde ele passou a es-crever as conhecidas crônicas semanais para o Correio do Povo, continuadas depois com menor freqüência no jornal Zero Hora. Quando eu lhe dizia que a pertinência da sua linguagem se subtraía a uma discussão em virtude da sua estranheza ao objeto musical, ele me respondia freqüentemente que não queria escrever súmulas de teses de doutorado sobre música. O pseudo-argumento não me fazia mudar de opinião, mas o consenso se restabelecia em outro plano, no interesse comum pela música.

De resto, não se deve esquecer que a atividade de Herbert Caro como resenhista da produção nacional de elepês de música erudita já era limitada pela própria impossibilidade de criticar pertinentemente as interpretações, fossem elas bem-sucedidas ou simplesmente incompetentes. Havia uma expectativa, um acordo tácito entre os fabricantes, os lojistas, o público e o crítico, que obrigava este último a não ir além da resenha informativa e anunciar a obra aos potenciais compradores. A discussão efetiva não interessava e era objetivamente impossível. Porto Alegre nunca contou com uma opinião pública musical suficientemente articulada e diferenciada, como ela se desenvolveu na Europa setecentista e oitocentista, onde o numeroso público dos concertos - o núcleo da assim chamada opinião pública - se compunha em boa parte de amadores qualificados e ativos e onde, por conseguinte, o ofício de crítico cedo passou a ser exercido por profissionais competentes, muitas vezes capazes de ajuizar a importância de uma obra a partir da leitura silenciosa do texto musical.

(cont. aqui)

Peter Naumann, intérprete de conferências

23 de abr de 2008

palimpsesto XI

abe devia partir da gare saint-lazare às onze horas. estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do palácio de cristal; suas mãos, que tinham a vaga cor acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira.

scott fitzgerald, suave é a noite, tradução de lígia junqueira
(atribuída pela ed. nova cultural a enrico corvisieri)

18 de abr de 2008

palimpsesto X

o velho, que se mantinha muito direito, ia adiante, dando grandes passadas rítmicas, com as suas pernas ligeiramente tortas. graças a um movimento vigoroso e compassado, que não lhe custava mais que balançar os braços em marcha, como se brincasse, amontoava medas altas e uniformes. dir-se-ia que não era ele, mas apenas a gadanha afiada que cortava a erva suculenta.

tolstoi, ana karênina, trad. joão gaspar simões
(atribuída a mirtes ugeda pela ed. nova cultural)

17 de abr de 2008

palimpsesto IX

o último quadro, no entanto, representava um drama. próximo ao coelho, que continuava a comer, via-se um rapaz em posição estendida como se estivesse morto. a jovem contemplava-o, abrindo o seio com uma espada, e os frutos da árvores tinham-se tornado escuros.

jeanne já estava a renunciar à compreensão da história quando descobriu num canto da gravura um animalzinho tão microscópico que o coelho, se fosse real, tê-lo-ia comido como uma verdade qualquer. e no entanto era a efígie de um leão.

guy de maupassant, uma vida, trad. ascendino leite
(atribuída pela nova cultural a roberto domênico proença)

16 de abr de 2008

o mestre da modéstia I

um querido amigo, peter naumann, que sabe do respeito que tenho pelo discretíssimo mestre herbert caro, envia esse perfil, que chegou a ser nomeado "definitivo" pelo saudoso gerd bornheim:


SETE FRAGMENTOS PARA UM RETRATO

1
Conheci Herbert Caro em fins de 1968, quando estava me preparando para o vestibular na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Ainda me lembro dele, sentado na estreita biblioteca da sede antiga do Instituto Goethe na subida da Rua Dr. Flores. Reinava na biblioteca no turno da tarde e orientava os freqüentadores interessados em literatura alemã. Quando alguém aparecia e perguntava pelos livros de Johannes Mario Simmel, dizia não conhecer esse autor e remetia o visitante à sua ajudante do turno da manhã, que cuidava mais da literatura que os alemães chamam "trivial".

Classificava os seus leitores de acordo com a sua preferência por Johannes Mario Simmel, um dos autores de best-sellers mais vendidos, ou Georg Simmel, um filósofo alemão da virada do século. Seus momentos de glória, cada vez mais raros, eram as visitas de leitores dos clássicos da língua alemã do séc. XVIII até a primeira metade do séc. XX. Eram formados por alguns membros da colônia alemã e por imigrantes alemães de origem judaica.

Hoje, passados mais de quatro anos após a sua morte e mais de dois anos depois da morte da viúva, boa parte da literatura alemã da biblioteca de Herbert Caro e da do seu pai está na minha casa.

Lembro-me com saudade de Herbert Caro e de seu amigo, o médico Alexander Preger, outro imigrante alemão de origem judaica, com quem ele tomava um cafezinho todas as tardes de segunda à sexta-feira num bar da Rua Andrade Neves, às 15:00 hs, perpetuando ao sabor de um cafezinho bem brasileiro a sociabilidade do intelectual berlinense do fim dos anos vinte.

Os livros estão aqui, mas não posso mais conversar com Herbert Caro na nossa língua materna sobre Heinrich Heine, Theodor Fontane, Heinrich e Thomas Mann, Ludwig Börne, Karl Kraus, Kurt Tucholsky, Alfred Polgar, Arthur Schnitzler, sobre os grandes epistológrafos alemães e aus-tríacos do século passado e da primeira metade do nosso século e sobre outros autores maiores e menores, que ele não freqüentava com fins profissionais, para escrever uma tese ou outra coisa parecida, mas que simplesmente faziam parte da sua vida.

2
Na minha geração talvez eu seja a única pessoa que ainda pode testemunhar um aspecto da personalidade de Herbert Caro, que passou despercebido a quase todos os que o conheceram aqui - com exceção dos judeus alemães, que entretanto se mantiveram relativamente segregados na sua cultura de origem.

Herbert Caro, que estudara Direito para satisfazer o pai, um renomado advogado berlinense, e chegara a doutorar-se sem muito entusiasmo na universidade de Heidelberg, era um homme de lettres à antiga - na sua versão alemã.

As barreiras da língua e da cultura impediram que ele desse a conhecer essa faceta em público. Aqui ele se apresentava na sua versão brasileira - que era uma máscara apropriada para o baile cultural porto-alegrense, mas não revelava a sua verdadeira identidade. Dotado de uma in-vejável e bem treinada memória, ele aprendera rapidamente o português.

Quando chegou ao Brasil, a medida do bom vernáculo se pautava por Ruy Barbosa na oratória e na prosa em geral e pelos parnasianos na poesia. A renovação da Semana de Arte Moderna e dos romancistas de 1930 não surtira maior efeito no Rio Grande do Sul. Predominava o gosto pelas palavras raras e empoladas, pelo rebuscamento na sintaxe, pela mesóclise. Por trás de tudo isso, a norma tácita de que assuntos elevados - como a cultura - demandavam uma línguagem elevada.

Na antiga Editora Globo, Herbert Caro fora encarregado da elaboração de vários dicionários escolares, entre eles um latino-português e um português-alemão. Para se desincumbir da tarefa, leu o dicionário de Cândido de Figueiredo de A a Z e lançou assim as bases do seu conheci-mento do léxico da nossa língua, verdadeiramente prodígioso. Sem a camisa-de-força da gramática e da estilística normativas de então, esse conhecimento invejável certamente teria sido melhor aproveitado.

Quando falava ou escrevia em português, Herbert Caro não se distinguia de muitos notáveis da cultura porto-alegrense tradicional. Os textos eram bem-comportados, as idéias quase sempre também. O padrão culto do português de então determinava-lhe não apenas o estilo, mas o próprio pensamento, que se revestia de gravidade e circunspecção.

Assim ele escreveu certa vez sobre o pianista Roberto Szidon que tinha estudado sob a égide de Ilse Warncke, nossa professora comum. Quem conheceu Ilse Warncke, não pode imaginá-la se-gurando uma égide por cima do jovem Roberto Szidon (aos leitores mais jovens, informo aqui que égide é sinônimo de escudo).

(continua aqui)

Peter Naumann, intérprete de conferências

15 de abr de 2008

palimpsesto VIII

"- Sou eu então - dirá ele - que mantenho, nessa detestável morada, meu semelhante, talvez meu igual, meu concidadão, um homem enfim!? Sou eu que todos os dias o agrilhôo, que fecho sobre ele essas odiosas portas!? Talvez o desespero se haja apoderado da sua alma; lança aos céus o meu nome, de envolta com maldições; e sem dúvida atesta contra mim o grande Juiz que nos observa e que nos deve julgar a ambos."

voltaire, o homem de quarenta escudos, trad. mário quintana
(que a ed. nova cultural dizia ser de roberto domênico proença)

veja também a matéria de marcos strecker, folha de s.paulo
http://recantodaspalavras.wordpress.com/2007/12/15/novo-caso-de-plagio-em-traducao/#comment-159

14 de abr de 2008

palimpsesto VII

cantar, sonhar, passar, ter liberdade e fibra,
ter a vista segura, e ter a voz que vibra,
pôr o meu feltro à banda e - espanto dos perversos -
por um sim por um não bater-me, ou fazer versos

edmond de rostand, cirano de bergerac, trad. carlos porto carreiro
(atribuída a fábio m. alberti pela ed. nova cultural)

acompanhe a restauração feita por ivo barroso em
http://www.revista.agulha.nom.br/ibarroso4.html

a sombra

treze maneiras de olhar um melro
11.
atravessou connecticut
num coche de vidro.
uma vez o medo o trespassou:
foi quando tomou por melros
a sombra da carruagem.
wallace stevens, trad. joão moura jr.

13 de abr de 2008

palimpsesto VI

Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas.

émile zola, naná, tradução de eugênio vieira
(atribuída a roberto valeriano pela nova cultural)

12 de abr de 2008

palimpsesto V

... eles entraram numa dessas vagas conversações em que o acaso das frases nos conduz a todo instante ao centro fixo de uma simpatia comum.

gustave flaubert, madame bovary, tradução de araújo nabuco
(atribuída pela nova cultural a enrico corvisieri)

veja também a matéria publicada na folha de s.paulo em
http://recantodaspalavras.wordpress.com/2007/12/15/novo-caso-de-plagio-em-traducao/#comment-159

aos pares

aos pares nadam fantasmas,
aos pares, banhados em vinho.
no vinho que regam sobre ti,
nadam fantasmas aos pares.

de cabelo trançado
em esteira, semeiam-se.
joga de novo teu dado
e mergulha num olho dos pares.

paul celan, aos pares. tradução de flávio r. kothe

11 de abr de 2008

palimpsesto IV

luca signorelli, dante

A fraude, seguida por remorso eterno, é praticada traindo-se a confiança conquistada ou tramando danos contra o próximo que confia desprevenido.

dante, a divina comédia, tradução de hernâni donato
(atribuída pela nova cultural a fábio m. alberti)

10 de abr de 2008

palimpsesto III

Mas, de repente, parei, porque atrás daquelas árvores vi uma coisa que me gelou: o Rapazinho, o Rapazinho que estava ali, quieto, com olhos de louco, a olhar, na fonte, a irmãzinha afogada.

pirandello, seis personagens à procura de um autor
trad. brutus pedreira
(atribuída a fernando corrêa fonseca pela ed. nova cultural)

ka

eu tinha ka; nos dias da branca china, eva, descendo na neve do balão de andré, ouvindo a voz "vai!", deixados nas neves esquimós os rastros dos pés nus, - esperança - estranharia, ao ouvir esta palavra.

khlébnikov, ka, trad. aurora bernardini


beketchai

palimpsesto II

espíritos sutis te enleiam e te dominam,
a um mundo de ilusões e cegueira te inclinam...

goethe, fausto, tradução de silvio meira
(atribuída a alberto maximiliano pela ed. nova cultural)

9 de abr de 2008

palimpsesto I

honra à beleza! contempla o teu cavaleiro,
que voltou da longínqua terra dourada;
riquezas não traz, nem delas necessita,
salvo seus braços fortes e o seu corcel de guerra;
as rijas esporas, e, para investir contra o inimigo,
a lança e o gládio que o jogam por terra!
eis da sua luta todos os troféus!
ei-los! e mais a esperança de um sorriso de tekla!

walter scott, ivanhoé, tradução de brenno silveira
(atribuida a roberto nunes whitaker pela ed. nova cultural)

8 de abr de 2008

amor à vida, anelo pela morte, desespero no meio-tempo



entre vários livros de absoluta paixão, a volta (ou a outra volta) do parafuso e apanhador em campo de centeio ocupam um lugar de bem razoável destaque.
todavia, implicante como sou, nunca gostei muito dos títulos, chegando ao cúmulo de colocar uma nota de tradutor (a qual foi publicada! - embora, sorry, não lembre onde) dizendo que the turn of the screw estava à espera de um bom título em português.
a Santa Pórcia dos Metidos e Desavisados me poupou desse gesto de arrogância quanto ao meu engasgo com apanhador em campo de centeio, e hoje choveu a chuva da misericórdia sobre o pecador oculto. embora, como menina repreendida que nunca engole bem as razões do certo, ainda mantenha minhas dúvidas sobre a fortíssima conotação de ébrio desespero brutal dos sentidos embutida em "in the rye", dou a mão relutante à palmatória.
obrigada, amigo:


DE QUE VALE UM TÍTULO?

“... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Ninguém que tenha lido a obra-prima de J.D.Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.

A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.

Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português The Catcher in the Rye. Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.

É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio”. Phoebe o corrige, dizendo que o certo é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”, e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao “erro” de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.

Voltando ao nosso drama lingüístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Heureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.

Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.

Em espanhol, saíram-se com El cazador oculto, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!

O francês nos brindou com L’attrape-coeurs, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.

E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou Uma agulha no palheiro (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o “Psycho” hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger Uma Agulha no Palheiro foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The Catcher in the Rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.” *

* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos “Foda-se” se transformam em pálidos “Vai à merda”. Graves problemas de sinonímia ou de anatomia?

Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título A Sentinela do Abismo. O Autor preferiu, entretanto, o título O Apanhador no Campo de Centeio.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.

E você, já leu o Apanhador?

Jorio Dauster
crédito da imagem: ginko fine art

ao caro amigo ivo barroso

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como um triste palimpsesto poderá se tornar uma alegre jornada de redescoberta.
http://www.revista.agulha.nom.br/ibarroso3.html