31 de mai de 2008


certa vez, o caro amigo mauro pinheiro encontrou um livrinho numa biblioteca francesa, de autoria de carlos batista (ao que parece, francês, apesar do nome), com aforismos sobre o ofício.
abaixo, um deles:

A obra de um tradutor consiste em ousar deslocar os nós de uma língua para as malhas de uma outra; a palavra serpente foi traduzida no idioma dos esquimós pela expressão “cano que morde”. Poder-se-ia também dizer “salsicha que desliza” ou “cadarço que sibila”.

carlos batista, trad. mauro pinheiro

imagem: matisse, http://nautikkon.blogspot.com

30 de mai de 2008

palimpsesto XVI

mas nunca se queixou de seus males e não creio que se apoquentasse muito por eles, aceitando-os, resignada, como uma conseqüência natural de sua desventura.

pirandello, o falecido mattia pascal, trad. mário da silva
(porém, segundo a ed. nova cultural, seria fernando corrêa fonseca)

29 de mai de 2008

ni même


Abélard: Inutile d'avoir la moindre idée de sa philosophie, ni même de connaître le titre de ses ouvrages. Faire une allusion discrète à la mutilation opérée sur lui par Fulbert. Tombeau d'Eloïse et d'Abélard: si l'on prouve qu'il est faux, s'écrier: "vous m'ôtez mes illusions".

 


Flaubert, Dictionnaire des idées reçues.

palimpsesto XV

pouco desejoso de entrar em contato com os seus dentes, fiquei quieto, mas, acreditando que eles dificilmente entenderiam insultos tácitos, pus-me infelizmente a piscar os olhos e a fazer caretas para o trio.

emily brontë, o morro dos ventos uivantes, trad. oscar mendes
(atribuída pela ed. nova cultural a silvana laplace)

25 de mai de 2008

sr. bispo, parte II


Cosmoterapia
Editora: Alvorada
ISBN: 8572321438

COSMOTERAPIA -A CURA DOS MALES HUMANOS PELA CONSCIENCIA COSMICA
Autor: ROHDEN, HUBERTO
Editora: ALVORADA
ISBN 8572321438

e aqui temos a ficha da british lady:

ISBN: 85-7232-143-8
TÍTULO: COSMOTERAPIA
EDIÇÃO: 3
ANO DE EDIÇÃO: 1996
EDITORA: MARTIN CLARET
http://www.bn.br/site/default.htm

será tão utópico assim esperar que os isbns das fichas cadastrais da Fundação Biblioteca Nacional correspondam aos livros efetivamente impressos?

24 de mai de 2008

seu bispo, ói nóis aqui de novo


AGOSTINHO
Autor: ROHDEN, HUBERTO
Editora: ALVORADA
ISBN 8572321241

AGOSTINHO
Autor: ROHDEN, HUBERTO
Editora: ALVORADA
ISBN 8572321241
http://brasil.abatata.com.br/cvl/40495_1_d.Medieval.html

alguém saberia me explicar por que a obra acima, de isbn 8572321241, publicada por uma editora chamada alvorada, aparece cadastrada na fbn (agência brasileira do isbn) em nome da martin claret (sem sequer nome de autor)?

ISBN: 85-7232-124-1
TÍTULO: AGOSTINHO
EDIÇÃO: 7
ANO DE EDIÇÃO: 1996
EDITORA: MARTIN CLARET
http://www.bn.br/site/default.htm

já sei que não adianta perguntar ao departamento do "não tenho nada a ver com isso". e duvido que a claret ou a alvorada respondam.

pelo jeito, mais um caso de ir ao bispo.

23 de mai de 2008

palimpsesto XIV

Aí, encontraram à porta o carcereiro, espécie de gigante de seis pés de altura e de pernas arqueadas; sua figura ignóbil tornara-se hedionda por efeito do terror.

stendhal, o vermelho e o negro, trad. luiz costa lima
(atribuída pela nova cultural a maria cristina f. da silva)

21 de mai de 2008

palimpsesto XIII

Meu caro amigo, que é então o coração humano? Apartar-me de você, que tanto estimo, você, de quem eu era inseparável, e andar contente!

Goethe, Werther, trad. Galeão Coutinho
(atribuída pela Nova Cultural a Alberto Maximiliano)

19 de mai de 2008

"A primeira tradução de Machado de Assis para ... o português"


vejam a matéria de miguel conde no blog prosa online, sobre a atribuição de isbn e catalogação de traduções do português para o português na fundação biblioteca nacional.

vejam também a matéria postada por renato pacca, no blog traduzindo o juridiquês: "uma tradução mágica do Bruxo do Cosme Velho?"
imagem: emoticons, weeping

18 de mai de 2008

palimpsesto XII

Brilham por algum tempo à face do dia,
E logo, a um aceno teu, passam os fantasmas;
Já não se vêem traços de toda a agitada cena,
Senão o que diz a lembrança - As coisas que existiram!

Henry Fielding, Tom Jones, trad. Octavio Mendes Cajado
(atribuída pela Nova Cultural a Jorge Pádua Conceição)

martin claret na fundação biblioteca nacional




CATÁLOGO DO ISBN
ISBN: 85-7232-501-8
TÍTULO: A FARSA DE INES PEREIRA
AUTOR: VICENTE, GIL
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-457-7
TÍTULO: A ENCARNACAO
AUTOR: ALENCAR, JOSE DE
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-447-X
TÍTULO: QUINCAS BORBA
AUTOR: ASSIS, MACHADO DE
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-715-0
TÍTULO: PAPÉIS AVULSOS
AUTOR: MACHADO DE ASSIS
TRADUTOR: MARCELLIN TALBOT
EDIÇÃO: 1
ANO DE EDIÇÃO: 2006
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
EDITORA: MARTIN CLARET


ISBN: 85-7232-671-5
TÍTULO: RESSURREICAO
AUTOR: ASSIS, MACHADO DE
TRADUTOR: MARINS, ALEX
EDITORA: MARTIN CLARET

:
ISBN: 85-7232-564-6
TÍTULO: O VELHO DA HORTA
AUTOR: VICENTE, GIL
TRADUTOR: GONÇALVES, JUAN
EDITORA: MARTIN CLARET


ISBN:85-7232-511-5
TÍTULO: MARILIA DE DIRCEU
AUTOR: GONZAGA
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-528-X
TÍTULO: O PRIMO BASILIO
AUTOR: QUEIROZ, ECA DE
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-500-X
TÍTULO: A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA
AUTOR: CORTESAO, JAIME
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-607-3
TÍTULO: SONETOS
AUTOR: BOCAGE
TRADUTOR: MASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET

http://www.bn.br/site/default.htm



[atualizado em 25/03/2009] - outros disparates:


ISBN: 85-7232-696-0
TÍTULO: A LÍNGUA E O ESTILO DE RUI BARBOSA
AUTOR: GLADSTONE CLARES [sic]
TRADUTOR: JEAN MELVILLE
EDITORA: MARTIN CLARET

ISBN: 85-7232-714-2
TÍTULO: POESIA DE RICARDO REIS
AUTOR: FERNANDO PESSOA
TRADUTOR: MARCELLIN TALBOT
EDITORA: MARTIN CLARET

17 de mai de 2008

isbn/fbn/minc


A FBN, através da Coordenadoria Geral do Livro e Leitura é responsável pelo desenvolvimento da política nacional para o livro e promoção literária. [...] É representante no Brasil do International Standard Book Number (ISBN) - http://www.bn.br/site/default.htm

O sistema ISBN é controlado pela Agência Internacional do ISBN, que orienta, coordena e delega poderes às Agências Nacionais designadas em cada país. A Agência Brasileira, com a função de atribuir o número de identificação aos livros editados no país, é, desde 1978, a Fundação Biblioteca Nacional, a representante oficial no Brasil. - http://www.bn.br/site/default.htm

16 de mai de 2008

sem comentários


CATÁLOGO DO ISBN
ISBN: 85-7232-715-0
TÍTULO: PAPÉIS AVULSOS
AUTOR: MACHADO DE ASSIS
TRADUTOR: MARCELLIN TALBOT
EDIÇÃO: 1
ANO DE EDIÇÃO: 2006
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
EDITORA: MARTIN CLARET

pronto, virei analfabeta de vez

CATÁLOGO DO ISBN
ISBN: 85-7232-671-5
TÍTULO: RESSURREICAO
AUTOR: ASSIS, MACHADO DE
TRADUTOR: MARINS, ALEX
EDITORA: MARTIN CLARET

começo a achar que isso é muito sério, não só pela martin claret, para a qual não encontro palavras com as quais possa me expressar.

mas principalmente e sobretudo pela FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, que atribui ISBN, registra a catalogação dessas barbaridades e lhes dá seu aceite, sua corroboração, seu aval.

é revoltante.

ALÔ, ALÔ, GENTE, ACORDA!

15 de mai de 2008

e aprendendo sempre mais

CATÁLOGO DO ISBN
ISBN: 85-7232-500-X
TÍTULO: A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA
AUTOR: CORTESAO, JAIME
TRADUTOR: NASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET
esse mundo engana a gente mesmo: os sonetos de bocage foram traduzidos para o português, quem escreveu o livro de jó foi jó, quem escreveu a carta de pero vaz de caminha foi jaime cortesão, e sua obra foi traduzida para o português por pietro nassetti.

ah, dona conceição, dona conceição, minha professora do quarto ano primário!

14 de mai de 2008

e continuando a aprender

e eu que pensava que a autoria do livro de jó era tema em discussão, muitos falando em moisés, outros em salomão, e por aí afora, sendo a única coisa certa que jó jamais escreveu o livro de jó...

quantas vezes a verdade está debaixo do nosso nariz e a gente não vê!

CATÁLOGO DO ISBN
ISBN: 85-7232-670-7
TÍTULO: O LIVRO DE JO
AUTOR: JO
TRADUTOR: MARINS, ALEX
EDITORA: MARTIN CLARET

13 de mai de 2008

vivendo e aprendendo

ué, bocage não era um tal de um poeta lá de portugal que escreveu em português um monte de sonetos famosos?

CATÁLOGO DO ISBN
ISBN: 85-7232-607-3
TÍTULO: SONETOS
AUTOR: BOCAGE
TRADUTOR: MASSETTI, PIETRO
EDITORA: MARTIN CLARET
ih, gente, aprendi tudo errado na escola.

12 de mai de 2008

nova cultural, avaliação II


de mais a mais, por que essa insistência da NC em afirmar, pela terceira ou quarta vez, que foi ela mesma que constatou os problemas?

se foi, ótimo, tanto melhor - realmente é feio uma editora com o renome da NC ficar levando puxão de orelha dos cidadãos em público, e bem faz em tentar se defender, dizendo que ela sozinha já tinha percebido o problema antes que ele viesse à tona.

mas aí, por outro lado, fico ainda mais intrigada pois, se ela constatou as irregularidades em setembro de 2007, por que até hoje, passados oito meses, ainda estamos discutindo isso?

não teria dado tempo mais do que suficiente para algum esclarecimento que fosse além dos alegados surtos de amnésia e ignorância da empresa em relação aos fatos, e da mania de invocar a ausência da famosa equipe que saiu faz três anos da editora?

o que, diga-se de passagem, nem corresponde plenamente à verdade, visto que o sr. shozi ikeda, que assinou o criminoso contrato de sublicenciamento de alguns títulos da coleção "Obras-primas" para a l&pm em 2003, parece continuar firme, forte e fiel na empresa em pleno 2008, até se fazendo porta-voz dela.

digamos então que o papelão agora parece ser outro: ir empurrando com a barriga as providências necessárias junto ao público leitor e à sociedade ludibriada em sua boa-fé. e aí, me desculpem dizer, mas, quanto mais tempo passa, mais feio fica.

imagem: www.portuguesbrasileiro.istockphoto.com

11 de mai de 2008

nova cultural, avaliação I


passo à pouco edificante tarefa de tentar avaliar as declarações da ed. nova cultural na matéria "plágio leva l&pm a processar editora", fsp, 10/05/2008, p. E11, http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada (para assinantes uol ou fsp)

afirma o jornal que procurou a editora, e esta declarou que "o assunto está sendo tratado diretamente com as empresas editoras detentoras dos direitos, com as quais a Nova Cultural mantém e/ou manteve contratos".

poderia a Nova Cultural esclarecer melhor essa declaração aos leitores? ou o público terá de ficar especulando o sentido dessa frase?

quais editoras? que contratos?

seriam outros contratos de sublicenciamento como no caso ocorrido com a L&PM? neste caso, a Nova Cultural sublicenciou também a outras editoras o direito de publicação de edições fraudulentas? e quais teriam sido as editoras que compraram traduções plagiadas?

ou seriam contratos por meio dos quais essas editoras teriam cedido, elas, à NC os direitos de publicação das traduções? e neste caso quais seriam elas?a globo, a nova aguilar (ediouro), a civilização brasileira (record), a saraiva?

a globo, por exemplo, afirmou recentemente à imprensa que nunca foi procurada pela NC...

e quando os plágios da nova cultural foram feitos a partir de edições portuguesas?

e quando são editoras que encerraram suas atividades e não existem mais?

e quando são traduções caídas em domínio público?

não, não, isso está muito vago...

e se a NC mantém e/ou mantinha contrato legítimo e regular de cessão de direitos com essas tais editoras, vivas, mortas, nacionais, estrangeiras, a troco do quê havia de rompê-los com uma política editorial ilícita, se ela está e/ou estaria protegida por tais contratos?

é muita poeira nos olhos para mim, é muita nuvem de juno para minha compreensão.

em português rasteiro, e numa avaliação grosseira, parece mais conversa para boi dormir.

a NC parece esquecer a quem ela deve satisfações: é a nós brasileiros, que compramos esses exemplares e lhe demos nosso suado dinheirinho, nela depositando nossa fiel crença de que, assim fazendo, estaríamos adquirindo "uma coleção literária valiosa que se torna patrimônio cultural da família" (http://www.obrasprimas.com.br/colecao.htm).

10 de mai de 2008

o mestre da modéstia III

Sete Fragmentos para um Retrato (conclusão)

5
Como muitos judeus alemães, Herbert Caro recebeu, como ele mesmo me disse várias vezes, uma educação basicamente laica. Para compreender melhor esse fenômeno, deve-se lembrar que uma das melhores possibilidades de ascensão social para um judeu alemão no séc. XIX era a participação na cultura burguesa do país, tal como ela se articulara na literatura e na música. Participar da cultura oficial ou mesmo promovê-la significava emancipar-se das estreitezas da condição judaica numa sociedade na qual o anti-semitismo estava profundamente arraigado. Essa é uma das razões da presença marcante dos intelectuais de origem judaica nas universidades alemãs. Essa é uma das razões da presença dos artistas de origem judaica, sem os quais a cultura alemã simplesmente teria sido outra.

A família de Herbert Caro não foi exceção. Eu mesmo o percebi em 1968 e nos anos posteriores muito mais como alemão do que como judeu. Sua condição judaica sempre me pareceu comparativamente secundária e mesmo marginal. Na sua biblioteca, ela era discretamente indicada por um retrato emoldurado de Moses Mendelssohn. Ainda em 1992 a sua viúva me disse que ele chegou ao Brasil sem o menor interesse pelas tradições culturais e religiosas do judaísmo. O exílio e as notícias do holocausto despertaram nele a consciência da sua origem, da existência de algo que ultrapassava os limites da construção autônoma da identidade. Pouco a pouco ele passou a freqüentar a sinagoga. Foi um dos fundadores da SIBRA (Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Bene-ficiência), que congregava os judeus de origem alemã. Nina Caro me disse ainda em 1992 que ele passou a assumir cada vez mais a sua origem judaica, em solidariedade aos seus companheiros de exílio. Ele mesmo me afirmou no início dos anos oitenta que era um dos poucos judeus de Porto Alegre que ainda sabiam recitar as velhas orações fúnebres, o que lhe valia muitos convites para velórios. Cumpria esse dever piedoso sem alarde, discretamente, e com um grão de ironia e ceticismo.

6
Herbert Caro foi também alemão no seu medular apoliticismo. Lembro-me bem do início dos anos 70, quando comecei a compreender as conseqüências do golpe militar de 1964 e do fim do Estado de Direito, coroado com o escabroso AI-5 e pelo conseqüente desrespeito dos direitos humanos, o terrorismo governamental, a tutela das universidades por militares, a cassação de professores e parlamentares, a perseguição aos estudantes, sindicalistas e opositores, as prisões sem mandado nem acompanhamento judicial, as torturas e os assassinatos - tolerados, ocultados ou mesmo promovidos pelo governo, aplaudidos aberta ou discretamente ou consentidos pela classe média -, o amordaçamento da imprensa, a vitória da mediocridade na vida pública.

Na medida em que eu adquiria consciência dessa realidade e ia perdendo com vergonha crescente a ingenuidade da ignorância, custava a compreender por que Herbert Caro, que fugira da Alemanha de Hitler, não se sensibilizava com esses crimes - diferentemente do seu grande amigo Érico Veríssimo, que recusara a concessão do título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, alegando não poder aceitar tal honraria de uma universidade que tinha cassado professores. Não quero justificar essa atitude do velho amigo, mas creio poder compreendê-la melhor nos dias atuais. À semelhança de muitos intelectuais alemães de inclinação liberal, ele percebia a política como algo imundo, negativo. O melhor era ficar de fora e não sujar as mãos. Talvez o silêncio de Herbert Caro diante das ignomínias do regime militar tivesse uma segunda razão, ditada pela milenar prudência do judeu errante: por que ele, emigrado da Europa para não ser enxotado ou encaminhado à solução final, haveria de se meter em embrulhos?

7
Herbert Caro gostava muito de jogos de palavras. Qualquer fato, por miúdo que fosse, servia de pretexto para engendrá-los. Quando o mot d'esprit não surgia ao natural, Herbert Caro fabricava-o pacientemente. Vistos à distância, esses jogos de palavras não são difíceis de datar. Na sua maioria, expressam um humor manso e inofensivo, cheio de bonomia, ligeiramente vitoriano e nesse sentido anacrônico. Merecem freqüentemente a crítica de Karl Kraus: Was nicht trifft, trifft auch nicht zu – O que não fere, não confere. Lembro-me, no entanto, de um, que hoje ainda é citável e está soterrado em uma das crônicas reunidas na antologia Balcão de Livraria, publicada pelo Instituto Nacional do Livro em 1960. Herbert Caro toma como mote um desfile de calouros pelo centro de Porto Alegre, faz alguns comentários sobre o significado da universidade e das liberdades acadêmicas na Europa tradicional e arremata a descrição da passeata com a seguinte frase: Estavam presentes todas as faculdades, com exceção das mentais.

Peter Naumann, intérprete de conferências (texto escrito em 1994)


9 de mai de 2008

a dupla questão da metafísica transcendental

por algum mistério que apenas o mais excelso filósofo das especulações espácio-temporais poderia se atrever a especular, o ano de 1978 se tornou o grande Ano Zero da editora nova cultural.

da parte dos humanos mortais, nada parece ter acontecido de tão cataclismático em nossa vulgar datação correspondente ao ano de 1978 (afora o lançamento da coleção Os Pensadores da Abril Cultural - mas não é deles que se trata).

em algumas vezes a nova cultural, expressando-se por meio de diferentes porta-vozes, inclusive na grande imprensa e em longa matéria na famosa revista Veja, da Editora Abril, apontou o ano 1978 como um marco nas edições de grandes obras da literatura universal.

opa, opa, gente, sou ignorante, mas have i missed something nessa história?

pedi esclarecimentos à nova cultural e à editora abril aqui neste blog - o que aconteceu em 1978 que nem sequer no histórico da editora abril consta, mas que tem servido como grande ponto de referência e justificativa nas pesquisas da nova cultural, para rastrear até sua suposta primogenitura a verdadeira autoria das traduções publicadas em 1995 e 1996 pelo círculo do livro e/ou pela nova cultural?

me desculpe, gente, mas embolar o meio do campo não é a melhor política não.

não vamos perder o foco: em 1995-96 a editora nova cultural começa a publicar uns nomes estranhos de tradutores em reedições de obras traduzidas já bem consagradas. aí, em 2002, com o maior carnaval possível na imprensa, a nova cultural e a suzano celulose lançam a coleção obras-primas, com inúmeras publicidades sobre suas benemerências públicas, coleção esta, porém, que reaproveita alguns títulos já meio estranhos de 1995-96 e lança outros igualmente ou mais estranhos ainda, dizendo que tudo isso é pela democratização da leitura no brasil e com a paralela contribuição de fundos (1% do faturamento das vendas de alguns milhões de exemplares meio esquisitos da nova cultural) para a ong "ler é preciso" da suzano.

e querem que a gente engula um tal fábio m. alberti que posa de carlos porto carreiro, e fique dando dinheiro honesto e suado para ter em nossas prateleiras um "patrimônio cultural da família" composto por nomes como enrico corvisieri, mirtes ugeda coscodai, fábio m. alberti, maria cristina figueiredo da silva, carmen da silva lomonaco, roberto nunes whitaker, alberto maximiliano, silvana laplace, fernando corrêa fonseca e sabe-se lá mais o quê?

e depois dizem que até reconhecem as irregularidades, mas não sabem por que elas ocorreram, visto que os funcionários da época já foram todos embora, e por isso "não existe forma de determinar quais as falhas" ...

só que o sr. shozi ikeda - que, como assessor da diretoria da nova cultural, manda um fax no dia 17 de abril de 2008 ao jornal o globo do rio de janeiro - é o mesmo que co-assinou o contrato de sublicenciamento de edições meio estranhas para a l&pm em janeiro de 2003.

então como é que eles podem dizer que os funcionários daquela época não estão mais na empresa? o mesmo fulano que assina como diretor em 2003, e em 2008 se apresenta como assessor de diretoria, diz que notaram diferenças e irregularidades, mas que ninguém sabe de nada? pois se ele mesmo estava lá naquela época e continua estando agora..., como é que fica?

vixe, memoriol neles! sr. shozi, acorda!

7 de mai de 2008

resposta da abi

Estimada Denise Bottmann,

Recebi e agradeço o envio do dossiê sobre a pirataria praticada na edição de obras literárias com fraude na indicação da autoria das traduções, cujos responsáveis são vítimas da subtração de seus direitos autorais e de sua produção intelectual.

Estamos denunciando essa fraude no Site da ABI (www.abi.org.br) e nos ocuparemos do assunto em próximas edições do Jornal da ABI.

Ficaremos à disposição para a divulgação de textos e materiais em defesa dos autores lesados.

Cordialmente
Maurício Azêdo
Presidente da ABI

who's who

perguntam-me por vezes: "mas quem é enrico corvisieri? quem são essas pessoas que assinam cópias de traduções? elas existem ou são inventadas?" - e eu digo: "não sei... quem deveria responder é a nova cultural!" em todo caso, hoje publico um who's who básico, a partir de referências dadas na internet.

abaixo estão os nomes apresentados pela nova cultural como tradutores de obras publicadas na coleção "imortais da literatura universal" e na coleção "obras-primas". aqui já mostrei que são ou versões muitíssimo semelhantes ou reproduções idênticas de traduções antigas, de autoria de outras pessoas. os títulos cotejados estão destacados em vermelho. os demais constam na internet como trabalhos atribuídos a essas pessoas, mas não foram objeto de exame meu.

1. nomes cuja única referência na internet se refere à própria obra de plágio:
- silvana laplace:
emily brontë, o morro dos ventos uivantes

- leonardo codignoto:
tommaso di lampedusa, o leopardo

- gisele donat soares:
honoré de balzac, a mulher de trinta anos

- roberto valeriano:
émile zola, naná

- alberto maximiliano:
goethe, fausto
goethe, werther

- roberto nunes whitaker:
walter scott, ivanhoé

- jorge pádua conceição:
henry fielding, tom jones

- roberto domenico proença:
voltaire, contos
guy de maupassant, uma vida

- carmen lia lomonaco:
joseph conrad, lord jim

- fernando corrêa fonseca:
luigi pirandello, o falecido mattia pascal
luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor

2. nomes com poucas referências na internet, mas tb ligados a outras obras ou atividades editoriais:
- maria cristina figueiredo da silva:
oscar wilde, o retrato de dorian gray (1996, depois substituída em 2002 por enrico corvisieri) stendhal, o vermelho e o negro
- outras traduções:
john westwood, como preparar um plano de marketing, 1997, ed. clio;
john fletcher, como conduzir entrevistas eficazes, 1997, ed. clio;
robert kline, ancestrais, 1990, ed. nova cultural;
don pendleton, caçada impiedosa, 1988, ed. nova cultural

- fábio m. alberti:
edmond rostand, cyrano de bergerac
dante alighieri, a divina comédia
- outras atividades:
revisor: educação ambiental: princípios e práticas, ed. gaia; traduzindo o economês, bestseller; o retrato de dorian gray, 2003, nova cultural; os anjos existem, loyola;
preparador: aprenda a perdoar e tenha uma vida feliz, ediouro; como o mundo virou gay, ediouro; antes de tudo, ediouro; serial killer: louco ou cruel, ediouro;
tradutor: formação inicial na vida religiosa, loyola

3. nomes com diversas menções na internet, sobretudo com atividade relacionada à nova cultural e à bestseller (esta tb pertencente na época à c.l.c. s/a, proprietária da nova cultural, tendo sido vendida à record em 2004):
- enrico corvisieri:
scott fitzgerald, suave é a noite
honoré de balzac, a mulher de 30 anos (1995, substituído em 2003 por gisele donat soares)
oscar wilde, o retrato de dorian gray (2002)
fiodor dostoievski, irmãos karamázovi (1995)
gustave flaubert, madame bovary (2002)
- outras traduções:
platão, a república, coleção pensadores, 1997, nova cultural; 2002, bestseller; 2005, sapienza platão, apologia de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
platão, eutífron, coleção pensadores, nova cultural;
platão, críton, coleção pensadores, nova cultural;
platão, fédon, coleção pensadores, nova cultural;
descartes, discurso do método, coleção pensadores, 1999, nova cultural
descartes, meditações sobre a filosofia primeira, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
descartes, as paixões da alma, coleção pensadores, 1999, nova cultural;

francesco santoianni, todos os ratos do mundo, 1993, bestseller;
salwa salem e laura maritano, cabelos ao vento, 1993, bestseller;
sveva casati modignani, o corsário e a rosa, 1996, bestseller
jane austen, orgulho e preconceito, bestseller, 1997; bestseller/record, 2004, 2006

- mirtes ugeda coscodai:
leon tolstoi, ana karênina
alexandre dumas, os três mosqueteiros
- outras traduções:
xenofonte, apologia de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
xenofonte, ditos e feitos memoráveis de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
- outras atividades:
revisora de bernadette siqueira abrão (org.), história da filosofia, pensadores, 1999, nova cultural,
autora, com bernadette siqueira abrão, de dicionário de mitologia, 2000, bestseller
organizadora, com bernadette siqueira abrão, de história da filosofia, 2002, bestseller
autora, com baby abrão, de história da filosofia, 2005, ed. sapienza
autora, com walter sagardoy, de adivinhar com cartas, nova cultural
autora, com walter sagardoy, de alimentação do bebê, nova cultural
autora, com walter sagardoy, de boa forma pós-parto
autora, com walter sagardoy, de guia do bebê

6 de mai de 2008

be happy


não é que a letrinha esteja muito miúda: dá para ver que o nome da editora, abaixo do nome do autor huberto rohden, é alvorada.

será mais um caso de dupla identidade, martin claret e alvorada?

pois, até onde sei, o caminho da felicidade de huberto rohden ganhou direito de cidadania no mundo dos livros com o isbn 85 (brasil), 7232 (prefixo editorial da mc), 147 (cadastro da obra), 0 (dígito verificador), ou seja, 8572321470.

british lady, quando vossa senhoria vai se dar conta de que não é bonito lavar as mãos?

quanto aos créditos, nem adianta perguntar nada. a gente só pergunta para quem tem alguma possibilidade de ouvir.

2 de mai de 2008

digressões voláteis sobre a volatilidade

Em 2004, em matéria citando a então diretora editorial da ed. Nova Cultural, sra. Janice Florido, o jornal O Guaruçá nos informava que, "Concebida com a colaboração de grandes nomes, como José Arthur Giannotti, Antônio Cândido, Gérard Lebrun e Carlos Estevão Martins, entre outros, a coleção [Os Pensadores] tem sido indicada como referência de leitura pelas mais renomadas instituições de ensino do país".

E noticiava: "A cada semana vai ser lançado um livro. O primeiro é Sócrates, em seguida será a vez de Platão, em edição que trará como brinde A República".

Essa República de Platão, com tradução em nome de Enrico Corvisieri, vinha sendo editada pela Nova Cultural desde 1997 (isbn 8535110046), tendo em 1999 o isbn 8535118713.

Não entro aqui no mérito da tradução em si. O que entendo é que a Nova Cultural começou a editá-la como parte de seus pensadores em 1997, e em 2004 resolveu dar de brinde (segundo a matéria do jornal O Guaruçá) como segundo volume da coleção destinada à venda em bancas de jornal.

Nesse meio-tempo A República de Platão, na tradução de Enrico Corvisieri, estava sendo editada também pela ed. BestSeller, desde 2002 (até onde sei, isbn 8571237875). E, logo após ser brindada aos compradores da coleção Nova Cultural/Suzano, passou a ser publicada por uma obscura editora chamada Sapienza, de efêmera existência.

A partir de 2005, A República de Platão, no catálogo da Sapienza Editora, começa a ser chamada de A República de Platão, ora de autoria atribuída ao próprio Platão e com tradução de Enrico Corvisieri, ora de autoria atribuída a alguém chamado Cláudio Varela, conforme consta em seu registro na Fundação Biblioteca Nacional ((isbn 8598126101).

A Ed. Nova Cultural anuncia até hoje em seu site que são "traduções feitas por renomados estudiosos e com acabamento primoroso, [e] esta coleção foi feita para durar".

Posso tributar à minha ignorância o fato de nunca ter ouvido falar de Enrico Corvisieri como renomado estudioso do pensamento grego clássico. Mas, de qualquer modo, a mim o que causa um certo turbilhão mental é ver A República de Platão numa sarabanda envolvendo tantos selos editoriais e tantos diferentes números de ISBN em tão poucos anos.

BUSCA NO CATÁLOGO DO ISBN
ISBN 8535110046
TÍTULO: A REPUBLICA (PENSADORES 21 - BRINDE)
AUTOR: PLATAO
ANO DE EDIÇÃO:1997
EDITORA: ROMANCES NOVA CULTURAL

BUSCA NO CATÁLOGO DO ISBN
ISBN 8535118713
TÍTULO: OS PENSANDORES [sic]
AUTOR: AMARAL, ANNA LIA
AUTOR: VARIOS AUTORES
AUTOR: SILVA, CARLOS DO NASCIMENTO
EDITORA: ROMANCES NOVA CULTURAL
* a título de esclarecimento: vários pensadores desta época foram registrados com o mesmo isbn

BUSCA NO CATÁLOGO DO ISBN
ISBN 8571237875
TÍTULO: REPUBLICA DE PRATAS [sic]
AUTOR: PLATAO
TRADUTOR: CORNSTER, ENRICO [sic]
EDITORA: BEST SELLER

BUSCA NO CATÁLOGO DO ISBN
ISBN 8598126101
TÍTULO: A REPUBLICA DE PLATÃO
AUTOR: CLAUDIO VARELA
ANO DE EDIÇÃO: 2005
EDITORA: SAPIENZA EDITORA

obs.: quanto aos problemas de digitação nos catálogos da fundação biblioteca nacional, constituem um caso à parte.