25 de jul de 2008

sapienza/isbns


"só que a sapienza, depois de dar uns calotes na fundação biblioteca nacional e publicar uns livros com uns isbns que nem constam na respectiva agência nacional" - para explicar os "calotes" e ninguém achar que saio por aí atirando a esmo, exponho minhas diligências.

já há algum tempo, em contato com a fundação biblioteca nacional, a resposta que obtive foi que apenas a agência brasileira do isbn é habilitada a fornecer números de isbn. perante minha insistência, perguntando então o que seriam isbns estampados em livros e que não constam cadastrados no site da agência, a resposta foi a mesma: não existe esta hipótese, apenas a agência pode atribuí-los etc.etc. e perante a insistência em minha insistência, a senhora de lá ficou meio nervosinha e disse que já tinha explicado: isbn só pela fbn, e ponto final.

a ilação fica por conta do leitor e consulente perplexo.

segue a pesquisa feita no site da fbn, com todos os títulos publicados pela editora sapienza cadastrados na agência brasileira do isbn (11 ao todo):

Editora Sapienza
Prefixo Editorial: 98126
RESULTADO DA BUSCA: 11 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página

ISBN e TÍTULO
85-98126-01-2 ARTE DA ESTRATEGIA
85-98126-02-0 OSMAR SANTOS :OMILAGRE DA VIDA
85-98126-03-9 DESCOMPORTE-SE
85-98126-04-7 IRAQUE: A GUERRA PELAS MENTES
85-98126-05-5 ARTE DE ENRIQUECER
85-98126-06-3 FELIZ NATAL
85-98126-07-1 VIVER BEM COM QUALIDADE - O FATOR WE// NESS
85-98126-08-X O LIVRO DE OURO DA SABEDORIA
85-98126-09-8 HISTORIA DA FILOSOFIA
85-98126-10-1 A REPUBLICA DE PLATÃO
85-98126-11-X JORNALISTA: PROFISSÃO MULHER

fonte: http://www.bn.br/site/default.htm

já a consulta sobre a famosa arte da guerra em adaptação* do suposto nikko bushidô, isbn 8598126152, resulta em: registro não foi encontrado.

* na edição da sapienza, fala-se em "adaptação de nikko bushidô". já na edição do jardim dos livros, fala-se em tradução direto do chinês e adaptação de nikko bushidô.
o fenômeno de upgrade se verifica também no pinga-pinga nova cultural -> best-seller -> sapienza. mirtes ugeda coscodai começa como revisora, passa para co-organizadora e termina como co-autora da história da filosofia.

outras obras publicadas pela sapienza, como As 100 leis da felicidade, de Petter Adams, ISBN 8598126128; Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã, ISBN 8598126209; Eu Amo Você, de Petter Adams, ISBN 8598126136; mais outro Livro de Ouro da Sabedoria, de Cláudio Varela, 2a. ed. revisada [sic] e atualizada, ISBN 8598126144, e de novo A República de Platão, ISBN 8598126179, tampouco constam nos cadastros da fundação biblioteca nacional, agência brasileira do isbn, que, repetindo pela enésima vez, é o único organismo habilitado a fornecer os benditos isbns.

como o número do isbn, além de ser obrigatório, tem se tornado cada vez mais a principal referência para a identificação de livros, sinto-me quase tentada a compará-lo com, por exemplo, o número do cpf ou rg das pessoas. são números de identificação exclusivos, irrepetíveis, e apenas um órgão federal específico pode atribuí-los.

se eu usar um número de cpf inexistente na receita, vai ser crime de falsidade ideológica. se o livro usar um número de isbn inexistente na agência brasileira do isbn, vai ser o quê?

[em tempo: a lei que prevê a obrigatoriedade do ISBN é a Lei do Livro, lei federal n° 10.753 de 2003:
"Art. 6º Na editoração do livro, é obrigatória a adoção do Número Internacional Padronizado, bem como a ficha de catalogação para publicação". ]
imagem: jornaljovensemacao.zip.net

24 de jul de 2008

o pega-pega e o pinga-pinga IV

a estação mais intrigante do "pega-pega da arte da guerra" é o assombrado jardim dos livros, sobre o qual pairam alguns espectros de outras paragens.

a história é comprida e um tanto confusa, mas vamos lá.

diz adam sun: a arte da guerra pela ed. jardim dos livros, "lançada em tradução e adaptação de Nikko Bushidô, é um embuste desde o frontispício até o último capítulo". consiste em "um mega-arrastão nas versões brasileiras de Sunzi Bingfa. Simplesmente surrupiou a produção intelectual de José Sanz (Record, 1983), Mirian Paglia Costa e Caio Fernando Abreu (Cultura, 1994), Sueli Barros Cassal (L&PM, 2000) e Ana Aguiar Cotrim (Martins Fontes, 2002). Não contente, Bushidô arrebanhou também o prodigioso editor Martin Claret e seu prestativo colaborador Pietro Nassetti", que por sua vez haviam se apropriado da tradução portuguesa de ricardo iglésias.

como adam sun, além de respeitado jornalista, ex-chefe de checagem da revista veja e atual chefe de checagem da piauí, é tradutor e responsável pela tradução de a arte da guerra direto do mandarim, publicada pela editora conrad em 2006, ele sabe do que está falando.

bom, voltando ao jardim espectral. até onde sei, a jardim dos livros é uma pequena editora de são paulo criada em 2006 pelo jornalista cláudio varela. mas a arte da guerra, o tal "embuste" em nome de nikko bushidô, publicada pela jardim dos livros, na verdade tinha sido publicada inicialmente pela editora sapienza, em 2005.

ora, é aqui que surge a conexão com outra estupefaciência da picaretagem nacional e é aqui também que surge o gancho com a matéria da piauí: o que é ou era a editora sapienza?
a sapienza foi uma pequena e efêmera editora (2003-2005) do sr. cláudio varela, que com seu irmão ado varela carrega "larga experiência no mercado editorial, em editoras como Nova Cultural, Best Seller".

sigam o fio: aquele enrico corvisieri que era o queridinho nos plágios da nova cultural andou trafegando para a ed. best-seller. a ed. best-seller, que também pertencia ao grupo c.l.c., do indômito richard civita, dono da nova cultural, foi vendida à editora record em 2004. só que, antes disso, a best-seller/c.l.c. tinha publicado algumas coisas em nome do tal enrico corvisieri - entre elas a república de platão.

resumindo, esta república de enrico platão corvisieri (1997, nova cultural, os pensadores) migrou para a best-seller/c.l.c. (2000), retornou à nova cultural (2004) e, depois da venda da best-seller para a record, seguiu de mala e cuia para a editora sapienza (2005), do sr. cláudio varela.

além da república, a sapienza acolheu outro suspeitíssimo título migrado da finada best-seller/c.l.c., e também oriundo da coleção "os pensadores" da nova cultural: história da filosofia, de autoria atribuída à sra. mirtes ugeda coscodai (em parceria com bernadette abrão), aquela mesma que já tinha assinado alguns plágios nas obras-primas (ana karênina e os três mosqueteiros).

o pinga-pinga é: nova cultural -> best-seller/c.l.c. -> sapienza, no mais autêntico estilo da "técnica lavoisier".

só que a sapienza, depois de dar uns calotes na fundação biblioteca nacional e publicar uns livros com uns isbns que nem constam na respectiva agência nacional, resolveu mudar de nome e em 2006 virou "jardim dos livros". então relançou a colcha de retalhos de nikko bushidô, que veio a revelar suas verdadeiras cores sob o enérgico espanador de adam sun.

e aí, em março deste ano, cláudio varela [ex-nova cultural, ex-best-seller, ex-sapienza, jardim dos livros] se uniu a luiz fernando emediato [geração editorial/ex-ediouro], e juntos, mais a editora leitura de belo horizonte, resolveram criar uma nova frente editorial.

claro que o leitor sempre deseja o melhor a todos, a gente faz votos de sucesso, para dispor de um mercado editorial forte, limpo, honesto e diversificado.

mas, pelo que vi até agora, os outros dois títulos lançados com o selo "jardim dos livros" na nova frente comandada pela geração editorial - a saber, o essencial de jesus e o essencial do alcorão - não prometem grande transparência.
consultando seus isbns (978-85-60018123 e 978-85-60018147), surge o seguinte resultado:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN - Nenhum registro foi encontrado.

imagens: the hollow men, mtparnaso.blogspot.com; flog.clickgratis.com.br

23 de jul de 2008

piauí III - martin claret


no pega-pega da arte da guerra, vamos deixar o jardim dos livros para depois, e pular direto para a martin claret.

aí é sempre mais do mesmo. e adam sun tem pleno conhecimento do mar de lama em que ela se move.
"nos domínios da claret, aparentemente a desatenção com o alheio é método", pietro nassetti - "sim, sim", "sim, ele mesmo" - é "o erudito", "o azougue", o prestimoso e prolífico parceiro do "octogenário Claret... habituado à perene ligeireza". já fazem parte do folclore.

mas, indo aos fatos: a arte da guerra publicada pela martin claret, avisa-nos adam sun, é uma apropriação da versão portuguesa de ricardo iglésias, a partir do inglês, na tradução de samuel b. griffith. a cópia foi assinada pelo indefectível nassetti. e, como sempre, o sr. claret afirma que corrigirá "esse erro", lançará uma nova tradução "e está tudo resolvido". simples como isso.

alerta o articulista: talvez claret "mantenha em catálogo, distraidamente, toda uma coleção de vítimas de apropriação indébita". como são mais de 300 traduções sob suspeita, várias delas já comprovados casos de plágio, e como a santillana-prisa (objetiva) pelo jeito desistiu de bancar a aquisição da martin claret, sabe-se lá como ficarão as coisas.

com tanta desmoralização assim, de tudo o que diz respeito ao objeto "livro" - a obra, o autor, o tradutor, o revisor, o capista, o editor, o proprietário, o livreiro, as associações de classe dos editores, as associações de classe dos livreiros, o leitor, as escolas, as bibliotecas, tudo, tudo enlameado, uns com sua delinqüência, outros com sua conivência, outros com o desrespeito e danos sofridos, a sociedade como um todo vítima de um ultraje sem igual na história cultural do país -, eu não estranharia se algum dia a casa caísse.

22 de jul de 2008

piauí II - dpl


retomando: a revista piauí n. 22, de julho de 2008, publicou um artigo muito interessante sobre fraudes e plágios em traduções, escrito por adam sun:
http://www.revistapiaui.com.br/artigoaspx?id=675&unica=1, ou pelo google.

o nome do artigo é "O pega-pega da Arte da Guerra", com o subtítulo "Um clássico chinês em adaptações policiais para todos os gostos".

o articulista pega o triste destino de a arte da guerra, de sunzi (ou sun-tzu) em algumas edições suas no brasil e acompanha seus aventurosos périplos. o circuito do pega-pega é composto de três estações: a editora DPL, a editora Jardim dos Livros e a editora Martin Claret.

a dpl, editora de livros de auto-ajuda, fez uma salada de referências das edições em inglês usadas para a tradução, e acabou tropeçando nas próprias pernas. até onde consigo entender, tratava-se mais de um certo tolo afã de querer parecer "culta". na verdade a edição de base usada para a tradução teria sido apenas uma: a de lionel giles. o principal problema que coloca o articulista é a questão dos direitos patrimoniais referentes à tradução feita por lionel giles e adotada para a tradução brasileira, que não teriam sido respeitados. lionel giles morreu em 1958, e portanto sua tradução não está em domínio público.

em todo caso, sob os ouropéis da dpl parece que houve de fato uma tradução, devidamente apresentada como interposta, com respeito ao direito moral de lionel giles. o livro traz notas e comentários aparentemente originais de caio bastos toledo, e assim por diante.

resumindo, não teria havido plágio nem apropriação fraudulenta de traduções em português já existentes, e sim desrespeito aos direitos patrimoniais do tradutor inglês, além do desrespeito ao leitor brasileiro, ludibriado com iscas de pseudo-erudição.

um pinóquio para a dpl.
que feio, dona dpl. não faça mais isso, está bem?


imagens: www.erich-hat-jetzt-zeit.de; walt disney, pinóquio

21 de jul de 2008

piauí I


a revista piauí n. 22, de julho, traz um artigo excelente, chamado "O pega-pega da Arte da Guerra", escrito por Adam Sun.

a matéria é deliciosa, mas tem um grau de complexidade nas informações que fiquei quase doida ao ler. ela envolve bastante gente: nova cultural, sapienza, dpl, martin claret, jardim dos livros. o articulista é muito sério, e as informações são de extrema relevância.

se alguém pesquisar a fundo, é mais bombástico do que qualquer outra coisa já publicada a respeito.

voltarei a ela mais adiante.

imagem: jang.com.pk

15 de jul de 2008

pimenta no zóio

o mundo é engraçado.

a ed. nova cultural, essa mesma que deu azo à revolta inicial dos tradutores contra apropriações descaradas de antigas traduções (mário quintana, araújo nabuco etc.), adorava acionar judicialmente outras editoras.

e acionava por quê? ora, por plágio! e plágio de quê? de SABRINA!

e a sra. janice florido, a coordenadora editorial da nova cultural, responsável, entre outras coisas, pela parceria com a suzano/ecofuturo para financiar a pavorosíssima coleção usurpadora de traduções superconsagradas da grande literatura universal, não se calava quando achava que algum concorrente tinha copiado, por exemplo, o folhetim "sedução e vingança". [a propósito, sabrina é uma revistinha editada com 365 títulos por ano, na faixa de 18 mil exemplares por edição, segundo informações prestadas por dona janice.]

pois que coisa terrível, não é mesmo, dona janice? mas aí o que foi que aconteceu? a sra. gostou da idéia do concorrente de copiar uma história da Sabrina, e resolveu implantar a coisa na coleção Obras-Primas? só que então em escala industrial, começando direto com 60 mil exemplares em cada tiragem, e várias tiragens para cada título? e não com os livrinhos da chamada "linha cor-de-rosa", mas com goethe, dostoievski e tantos outros mais para o plúmbeo ou o azul-escuro?

ou foi diferente? por favor, conte aqui para nós de onde saiu essa sua idéia. já sabemos que a sra. tem esse problema de memória, que não lembra bem as coisas e além do mais é uma pessoa muito ocupada, mas a gente fica curioso, entende?

a siciliano, para onde a sra. foi depois de sair da nova cultural, sabia dessas coisas? e a ediouro, sabe de tudo isso?

imagem: till eulenspiegel, http://www.pro-herten.de/

11 de jul de 2008

a pasmaceira das editoras


shangyang reflete sobre os mistérios do mundo - http://www.wikipedia.com/

como todos sabem, a nova cultural, que posa de grande paladina da democratização do livro, a partir de 1995 saiu por aí saqueando antigas traduções consagradas.

deu uma maquiadazinha de leve - ou nem isso, só copiou mesmo e mandou bala -, colocando um nome qualquer de pseudo-tradutor nas obras das quais se apropriou, e saiu vendendo centenas de milhares, até milhões de exemplares dessa inédita iniciativa.

pois eu queria ver agora é o corre-corre das editoras lesadas.a l&pm, que foi solenemente embrulhada pela nova cultural num contrato ridículo de venda de falsas traduções, se sentiu ferida em seus brios e tomou suas providências, exigindo indenização por danos morais e materiais causados pela tal da nova cultural.

consta que esta abaixou a cabeça e assumiu toda a culpa (também, ia fazer o quê?).

e as outras?

segue abaixo a relação de casas editoriais lesadas pela coleguinha delas, tomando para si traduções que não eram suas e publicando-as com outros créditos na deplorável coleção "obras-primas":

1. Livraria Martins
- Madame Bovary
- Werther
- Uma vida
- Ivanhoé

2. Editora Globo
- Contos
- O morro dos ventos uivantes
- Tom Jones
- Lord Jim

3. José Aguilar (Nova Aguilar)
- Crime e castigo- Ana Karênina
- O retrato de Dorian Gray
- Os irmãos Karamázovi

4. Civilização Brasileira (Record)
- O falecido Mattia Pascal
- Seis personagens à procura de autor
- Suave é a noite

5. Cultrix (Pensamento)
- A divina comédia

6. Pongetti- Cyrano de Bergerac

7. Bruguera- O vermelho e o negro

8. DIFEL (Record)- O leopardo

9. Agir (Ediouro)- Fausto

10. Círculo dos Leitores (Portugal)- Naná

11. Saraiva- Os três mosqueteiros

12. Clube do Livro- A mulher de trinta anos

a essas alturas, eu me pergunto: por que esse silêncio ensurdecedor das editoras lesadas? (apenas 3 deixaram de existir, bruguera, clube do livro e pongetti.)

será que elas esquecem que a razão exclusiva de sua existência é o leitor, a única fonte que lhes permite viver, e que respeito é bom e todo mundo gosta?

p.s. por questão de justiça, devemos informar que a globo começou a se mexer também.