30 de set de 2008

o globo: "muito em comum"

com a gentil autorização do jornal o globo, transcrevo a matéria publicada em 19/04/2008 no caderno prosa & verso, de autoria de miguel conde.

Muito em comum
Tradutores brasileiros denunciam plágios em série e organizam movimento de protesto
Miguel Conde

O que leva uma editora a plagiar traduções que ela mesma já havia publicado, substituindo em seus livros o nome de tradutores famosos pelo de pessoas desconhecidas, que além de não servirem como chamariz para os leitores em alguns casos parecem nem mesmo existir? É difícil de entender, mas é o que fez repetidas vezes nos últimos anos a editora paulista Nova Cultural.

De 1995 a 2002, a empresa publicou 22 títulos que, na opinião de especialistas, são plágios de traduções que integravam o catálogo da Abril Cultural, do qual a Nova Cultural é herdeira. Em 2002, eles foram reunidos na popular coleção Obras Primas, impressos em tiragens iniciais de 60 mil exemplares, bem acima da média nacional, e vendidos em bancas de jornal.

A primeira denúncia de plágio num livro da coleção (“Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand) foi feita em 2002 por Ivo Barroso. No ano passado, surgiram novos casos: o tradutor Saulo von Randow Júnior afirmou que a tradução de “Ivanhoé”, de Walter Scott, era plagiada, e o jornal “Folha de S. Paulo” denunciou as traduções dos “Contos”, de Voltaire, e de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Mas uma série de cotejos feitos nos últimos meses por Denise Bottmann — tradutora de clássicos como “Comunidades imaginadas” (Companhia das Letras), de Benedict Anderson e “Piero de La Francesca” (Cosacnaify), de Roberto Longhi — e um grupo de profissionais da área indica que a extensão das fraudes é muito maior, a ponto de fazer deste o maior caso conhecido de plágios de traduções na indústria editorial brasileira. Ela chama a troca de créditos de “escárnio”:

— A Nova Cultural está tripudiando uma herança construída pelo esforço de toda uma geração, está adulterando a história do país. É um grande escárnio, uma grande fraude.

Divulgando a história no blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/, Denise organizou um abaixo-assinado em repúdio a plágios e pela valorização do ofício de tradutor no Brasil, que já recebeu adesão de mais de 300 profissionais, entre eles Lia Wyler, Ivo Barroso, Jorio Dauster, Paulo Franchetti e Geraldo Holanda Cavalcanti.

Procurada em fevereiro, a Nova Cultural disse que a apuração do episódio seria concluída em um mês. Na quinta-feira, num fax assinado pelo assessor da diretoria Shozi Ikeda, a editora afirmou: “Em setembro de 2007, um Editor da Nova Cultural ao consultar algumas das obras da coleção Obras Primas, notou diferenças na coleção feita em 2002 contra a obra publicada em 1978. Quando colocado o problema para a Diretoria, esta, de imediato, instruiu que fosse feita uma averiguação minuciosa”.

A Nova Cultural afirmou que está tratando o problema com os detentores de direitos das traduções (nos anos 1970, a Abril Cultural fez acordos para publicar traduções lançadas originalmente por outras empresas), e que “determinou a retirada de circulação e venda” de todas obras sobre as quais houvesse suspeita. A editora disse ainda que a equipe responsável pela coleção Obras Primas não trabalha mais lá, e por isso “não existe forma de determinar quais as falhas” que provocaram os problemas.

Continua nas páginas 2 e 3

Caderno: Prosa & Verso

OBRAS SOB SUSPEITA
“A DIVINA COMÉDIA”, Dante: Tradução de Fábio Alberti seria de Hernâni Donato.
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“MADAME BOVARY”, Flaubert: Trad. de Enrico Corvisieri seria de Araújo Nabuco.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas.
“FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” E “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.


Livros têm páginas idênticas e mesmos erros

Para especialistas, fraude é única explicação possível; nomes de supostos tradutores podem ter sido inventados
A coordenadora editorial da coleção Obras Primas era Janice Florido, hoje na Ediouro. Ela diz que não se lembra quem era o encarregado de negociar os direitos de tradução. O editor da coleção, Eliel Silveira Cunha, hoje na Miro Editorial, diz que nunca lidou com isso, nem sabia quem era o responsável. A outra editora, Fernanda Cardoso, não foi localizada pelo GLOBO.

No entanto, e apesar do que sugere a resposta da Nova Cultural, as trocas nos créditos das traduções são anteriores à coleção, afirma Denise Bottmann. Começaram a acontecer em 1995, sete anos antes de ela ser lançada. Na época, a Abril Cultural já tinha deixado de existir e os livros eram editados pela Nova Cultural, parte do grupo CLC, controlado por Richard Civita (ele e seu irmão, Roberto, dividiram a herança editorial deixada pelo pai dos dois, Victor).

Os primeiros títulos afetados, apontam as comparações, foram “Suave é a noite”, de F. Scott Fitzgerald; “A mulher de trinta anos”, de Balzac; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde; “Ana Karênina”, de Tolstói; e “Os irmãos Karamazóvi”, de Dostoiévski. Como nas outras trocas de crédito, nomes de intelectuais importantes foram substituídos pelos de pessoas desconhecidas: Lígia Junqueira por Enrico Corvisieri; José Maria Machado pelo mesmo Enrico Corvisieri, depois substituído em 2002 por Gisele Donat Soares; Oscar Mendes por Maria Cristina F. da Silva; João Gaspar Simões por Mirtes Ugeda Coscodai; Natália Nunes e Oscar Mendes por (mais uma vez) Enrico Corvisieri.

Pequenas alterações em alguns trechos
Em alguns casos, como em “O retrato de Dorian Gray”, até os erros das traduções anteriores são reproduzidos. “Suit of armor”, ou “um jogo completo de armadura”, foi traduzido por Oscar Mendes por “coleção de armaduras”. Em outro exemplo, “exquisite life” vira “vida estranha”, quando o correto seria bela, maravilhosa, refinada. Ambos equívocos, entre outros, são repetidos na tradução atribuída a Maria Cristina F. da Silva.

— O que foi feito é uma apropriação indébita, é quase o equivalente a roubar uma sepultura. O mais chocante é que não foi uma coisa ocasional, era uma política editorial — diz Jorio Dauster, tradutor de Vladimir Nabokov e J.D. Salinger, entre outros.

Os cotejos mostram páginas e páginas com textos idênticos, às vezes com troca de algumas palavras por sinônimos, como é o caso do trecho de “A mulher de trinta anos”, de Balzac, reproduzido na primeira página deste caderno. A possibilidade de que tradutores diferentes cheguem a soluções idênticas com tanta freqüência é descartada por profissionais da área como Ivo Barroso:

— São casos incontestáveis, com repetições extensas demais para serem coincidências. Na poesia isso é especialmente claro, porque há questões como a escolha do adjetivo, da colocação do verbo, do ritmo, da sinonímia, que já tornam difícil que dois tradutores traduzam dois versos seguidos da mesma forma. Quando você encontra então 160 versos iguais, não tem como não ter certeza. O que fizeram é insuportável: apagaram os nomes de tradutores com uma história, uma identidade tradutória, para botar no lugar os de uns quaisquer.

Pessoas desconhecidas no meio literário, Enrico Corvisieri, Leonardo Codignoto, Vera M. Renoldi, Fábio M. Alberti e outros supostos autores das traduções da Nova Cultural são elogiados em páginas da internet pela qualidade do seu trabalho. Quem quiser transmitir os cumprimentos diretamente a eles, porém, terá dificuldades. Buscas na internet mostram apenas referências às traduções, e os nomes não constam da lista telefônica.

Ainda mais intrigante é a identidade por trás de Calvin Carruthers, creditado como tradutor de “A metamorfose”, de Franz Kafka. Calvin Carruthers é o nome de um personagem representado por Vic Tayback no filme “Horror, blood and lace”. O último filme em que Tayback atuou foi “Horseplayer”, de Kurt Voss, no qual ele representou um personagem chamado Gregor Samsa — nome do protagonista de “A metamorfose”. Não há nenhum cotejo, porém, que indique se essa tradução é um plágio, ou se Carruthers foi apenas um pseudônimo escolhido por um tradutor real.

Nos últimos anos, a editora Martin Claret também foi alvo de denúncias de plágio. Seu catálogo, composto principalmente por obras em domínio público, atribui a Pietro Nassetti traduções de Marx, Descartes, Rousseau, Nietzsche, Weber, Shakespeare, Kafka, Platão, Maupassant, Doistoiévski, Goethe, Baudelaire, Sun-Tzu, Aristóteles, Durkheim, Schopenhauer, Ovídio, Maquiavel, Eurípides, Esopo e Voltaire, entre outros. A Objetiva está negociando a compra de parte da editora.

NOS TEXTOS, A ABERTURA DO BRASIL PARA O MUNDO

Heloisa Gonçalves Barbosa

As primeiras traduções efetuadas no Brasil, como se poderia esperar, foram de textos religiosos vertidos pelos jesuítas, do português ou do latim, para a língua mais falada na época pelos índios na costa do Brasil, o tupi, ou sua versão adaptada pelos padres, a língua geral. Com a proibição do uso desse idioma pelo Marquês de Pombal em 1759, a expulsão dos jesuítas e a imposição do uso do português como língua de instrução no Brasil, declina e cessa a produção textual em língua geral.

Mas, devido à proibição de qualquer manufatura, ou seja, da existência e operação de qualquer maquinário no Brasil colônia, nada era produzido aqui, inclusive o papel e, conseqüentemente, o livro. Existiram, porém, traduções “piratas”, feitas por intelectuais brasileiros, muitas vezes reproduzidas manualmente, que circulavam às escondidas, como ocorreu com os textos que influenciaram a Inconfidência Mineira. Houve, no século XVIII, um projeto de tradução e publicação de obras científicas e técnicas, bem como foram traduzidos, em iniciativas isoladas, tratados religiosos, morais e filosóficos, assim como algumas biografias.

É com a chegada da família real ao Brasil em 1808 e a fundação da Imprensa Régia que verdadeiramente se inicia a produção de traduções das grandes obras literárias no Brasil. Como é consenso entre pesquisadores e historiadores na área de tradução, as nações em formação traduzem e traduzem muito. Essas traduções importam gêneros inexistentes na literatura que os recebe, de preencher lacunas. À infante literatura brasileira faltava praticamente tudo. E foi por meio das traduções que se realizou sua aproximação com a cultura ocidental.

No entanto, num primeiro momento, as traduções publicadas pela Imprensa Régia não tinham como objeto ainda as grandes obras literárias, mas visavam preencher lacunas mais básicas, ou seja, fundamentar os conhecimentos técnicos necessários para construir o país em formação. Desta forma, os primeiros livros impressos foram traduções de textos de matemática e engenharia que viriam a auxiliar nesse propósito. A primeira obra literária traduzida e publicada pela companhia foi o “Essay on Criticism” (Ensaio sobre a crítica) do pensador e poeta inglês Alexander Pope.

No século XIX, porém, o custo do papel, no Brasil, era elevadíssimo, o que fazia com que os editores brasileiros precisassem importar e mesmo contrabandear esse insumo. Uma conseqüência dessa situação, pouco conhecida dos brasileiros, é que a maioria dos autores nacionais do período, entre eles Machado de Assis e José de Alencar, teve seus livros impressos primeiro em Portugal, Inglaterra ou França, depois enviados ao Brasil. O mesmo ocorria com as traduções de obras literárias, que eram produzidas em Paris para serem despachadas para o Brasil.

Essas traduções eram, na maioria, o que se convencionou chamar “traduções indiretas”: não eram feitas a partir do texto no idioma original, mas de uma versão para um idioma mais conhecido no Brasil, principalmente o francês, ou mesmo cotejando-se várias traduções para as línguas latinas, mais acessíveis para nós. É o caso das traduções do alemão, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, ou de vários autores russos, como Dostoiévski, Tolstói, Gogol.

Foi somente após a Primeira Guerra que casas editoriais foram inauguradas em grande número no Brasil. Na década de 1930, Getúlio Vargas incentivou essas empresas, o que as fez quase dobrar em quantidade. Na era pós-Vargas, porém, esse tipo de empreendimento entra em declínio novamente. Grandes editoras sobreviveram, no entanto, podendo-se nomear, por exemplo, a Editora Globo, a José Olympio e a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato. Em seguida, associações com o capital estrangeiro possibilitaram a abertura e a sobrevivência de muitas outras empresas do ramo livreiro no Brasil.

Essas casas preocuparam-se em trazer para o leitor brasileiro desde as grandes obras da literatura universal, ou detentores do prêmio Nobel, até histórias de detetives e romances de aventura. Para realizar as traduções, foram contratados intelectuais e autores de peso, dentre eles Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Monteiro Lobato, Mário Quintana, Sérgio Milliet e Clarice Lispector.

A partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, porém, a principal influência cultural no Brasil, que era francesa, passa a ser americana e o fenômeno observado é a intensa tradução do best-seller americano, ao lado dos livros de auto-ajuda e das biografias dos famosos. A própria coleção de obras-primas da literatura, da Nova Cultural, mostra um peso maior dos textos traduzidos do inglês. Compõem boa parte da coleção traduções feitas ainda no período em que eram escritores e críticos literários os convidados a produzir traduções, algumas delas excelentes, feitas, muitas vezes, a custa de enormes esforços pessoais. A importância desse tipo de empreendimento, para um país como o nosso, às margens da cultura ocidental é, naturalmente, o de reunir e trazer ao público brasileiro esse acervo cultural da humanidade.

Para cumprir essa missão, uma vez vencida a questão material, do custo do papel, as empresas do ramo livreiro no Brasil ainda precisam vencer outros problemas nacionais que dificultam o acesso da população ao livro. O principal deles é a distribuição: como fazer o livro chegar ao público e chegar a ele com preços acessíveis? Em um país onde há cidades com várias farmácias, mas sem nenhuma livraria, o livro precisa ser levado ao leitor pelo supermercado, pelo jornaleiro. E em edições mais baratas, em formatos semelhantes ao livro de bolso americano. É essa necessidade que favorece a reedição de velhas traduções de textos antigos, já no domínio público: o fato de ser desnecessário o pagamento de direitos autorais barateia o produto.

Hoje, porém, busca-se uma aproximação maior do original. Há uma profissionalização do tradutor, em escolas de formação em nível de graduação e pós-graduação, bem como há intensa pesquisa na área no país. Isso permite que sejam feitas “re-traduções” das obras canônicas, aquelas que freqüentam as listas de livros que todos devem ler, responsáveis pela formação do gosto literário no mundo ocidental, agora diretamente do texto original completo, as traduções chamadas “diretas”. Um exemplo importante são as traduções dos grandes romances russos, cujos re-tradutores são literatos, acadêmicos e pesquisadores tais como Paulo Bezerra e Boris Schneiderman.

Atualmente, como bem se sabe, 80% do que é publicado no Brasil são traduções. Apesar disso, é difícil ter uma exata dimensão da verdadeira contribuição da tradução para a literatura brasileira. Desde o século XIX, tão avassaladora é a invasão de textos traduzidos que o próprio Machado de Assis se preocupava com a influência dos romances-folhetim franceses, tal como “Os três mosqueteiros” (1844), de Alexandre Dumas, pai, e “A dama das camélias” (1848), de Alexandre Dumas Filho, cuja influência se faz sentir, por exemplo, nos romances “Lucíola” e “Senhora”, de José de Alencar.

Vários teóricos da tradução acreditam que a evolução da literatura mundial se deve à tradução e que, logicamente, não pode haver literatura comparada sem traduções — e sem tradutores, cujos nomes devem ser mencionados na obra publicada por força de lei, a Lei dos Direitos Autorais.

HELOISA GONÇALVES BARBOSA é tradutora e Ph.D. em teoria da tradução pela Universidade de Warwick, Inglaterra; professora da Faculdade de Letras da UFRJ e ex-presidente do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA)

Em blogs e e-mails, a classe em pé de guerra

Tradutores reagem a plágios, cobram menção de créditos, e em alguns casos querem receber direitos autorais
Notícias de plágios de tradução na Nova Cultural e na editora Martin Claret fizeram com que os tradutores iniciassem uma campanha de valorização da profissão. Bem à moda dos tempos atuais, é uma militância que tem sido exercida por meio de blogs e e-mails. Além de fazerem cotejos de traduções em páginas da internet, eles organizaram um abaixo-assinado com mais de 300 adesões e têm enviado mensagens a suplementos culturais reclamando sempre que uma reportagem ou artigo deixa de mencionar o nome do tradutor de um livro. O movimento se articula em torno do blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/.

Nos momentos de maior arroubo das conversas virtuais, há quem sugira que a inclusão do nome do tradutor nas capas dos livros deveria ser obrigatória. Outros defendem que o tradutor, como o autor, tenha uma participação nas vendas do livro. Até agora, porém, a luta não saiu do plano virtual. A tradutora Denise Bottmann, uma das organizadoras desse movimento, diz que falta dinheiro para levar a causa aos tribunais.

— Estamos esperando que algum escritório de advocacia se interesse e encampe essa luta contra os plágios — diz ela, sem endossar as reivindicações mais extremas. — Essa é nossa luta principal. Como ação correlata, temos uma série de pessoas enviando mensagens à imprensa e a editoras universitárias pedindo que em toda menção a um livro traduzido seja incluído o nome do tradutor.

Editor elogia iniciativa, mas vê exageros

Paulo Franchetti, que foi tradutor e hoje dirige a editora da Unicamp, diz que a campanha contra os plágios é uma questão de justiça intelectual, mas afirma que no bojo da discussão têm ocorrido exageros.
— Surgiu uma campanha pelo destaque absoluto do nome do tradutor, o que também não é o caso. O que tem que ter é a garantia de um registro explícito, como também devem ter o capista, o autor do projeto gráfico, os revisores. Um livro é uma produção coletiva — diz.

O crítico Luiz Costa Lima, cuja tradução de “O vermelho e o negro”, de Stendhal, está entre as que teriam sido plagiadas pela Nova Cultural, diz que a mobilização dos tradutores foi o resultado mais importante do caso até agora.
— O que me parece importante não é simplesmente o caso em si, mas a situação extremamente precária da tradução neste país — afirma.

Um tradutor ocasional, que se dedica ao ofício movido pelo interesse por obras específicas, Costa Lima reclama da remuneração recebida pelos tradutores brasileiros.
— Num país em que encontrar um bom leitor da própria língua, o português, já não é fácil, a tradução assume uma importância fundamental. Apesar disso, ela continua sendo entre nós uma atividade extremamente mal paga. Se nós temos traduções de qualidade, não é porque as editoras paguem bem, mas porque há tradutores que se interessam especialmente por determinados livros — diz.

O Sindicato Nacional de Tradutores (Sintra) estabelece um piso de R$24 por lauda traduzida, mas a própria diretora da entidade, Elyzabeth Thompson, admite que muitas editoras pagam menos do que isso. Embora poucas empresas respeitem a tabela, o pagamento pode aumentar em função da reputação do tradutor, da dificuldade do trabalho, ou da língua de origem da obra.

Um dos principais especialistas em tradução financeira no Brasil, Danilo Nogueira acredita que o resultado da baixa remuneração é que os melhores profissionais acabam desistindo de traduzir livros.
— Eu não traduzo livros porque não dá dinheiro, é muito difícil viver do que pagam as editoras. As pessoas que trabalham com livro são jornalistas, escritores, professores que traduzem nas horas vagas. O Antonio Houaiss traduziu o “Ulisses” de Joyce recebendo um salário mínimo por mês. É um esporte, não é uma profissão. Em outras áreas da tradução, por contraste, as pessoas são muito bem pagas. A diferença chega a dez para um — afirma.

Para Modesto Carone, situação tem melhorado

O pagamento de direitos autorais a tradutores é defendido por alguns profissionais como uma forma de aumentar a remuneração e, em conseqüência, garantir que os trabalhos possam ser feitos com mais tempo (e, espera-se, qualidade). Sergio Flaksman, tradutor de Truman Capote e George Orwell, entre outros, diz que as editoras têm se mostrado mais receptivas a esse tipo de acordo:
— A baixa remuneração faz com que a média da tradução no Brasil hoje não seja satisfatória. Isso obriga as editoras a investir muito em controle de qualidade, às vezes com até três revisões da tradução. Seria não apenas melhor, mas também mais justo, que o tradutor recebesse uma parcela de direitos autorais. Afinal, é um trabalho que em boa medida é de criação, e que deveria ser contemplado de acordo.

O presidente do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, discorda das críticas dos tradutores, e questiona a idéia de pagamento de direitos autorais.
— Hoje temos traduções muito boas no Brasil, uma situação muito melhor do que a de décadas atrás. Os tradutores estão sendo mais valorizados. Agora, o pagamento de percentual sobre as vendas do livro é injusto. Às vezes o tradutor tem um trabalhão com um livro enorme que não vende nada, e às vezes um outro faz um livro fácil, pequeno, que vende à beça.

Apesar da discordância quanto aos direitos autorais, Flaksman concorda que os editores têm valorizado o trabalho de tradução, o que para ele se percebe no aumento do número de traduções feitas diretamente da língua de origem. Modesto Carone, maior tradutor de Kafka no Brasil, também acha que a situação tem melhorado:
— Há uma consciência maior da importância de um bom trabalho. Antes, nem se tomava conhecimento de quem tinha feito a tradução. Esse não é mais o caso.


UMBERTO ECO E A TAREFA DE INTERPRETAR CONTEXTOS

Autor analisa as dificuldades da tradução

Quase a mesma coisa, de Umberto Eco. Tradução de Eliana Aguiar. Revisão técnica de Raffaella de Fillipis Quental. Editora Record, 458 pgs. R$50

Daniel Estill

O tradutor Danilo Nogueira, especializado na área financeira, costuma dizer que “traduzir é fácil, difícil é traduzir direito”. Partindo de pressuposto semelhante, Umberto Eco, no primeiro capítulo de seu “Quase a mesma coisa”, amplo livro sobre as dificuldades da tradução, fala sobre essa suposta facilidade ao analisar as traduções feitas pelo Altavista. Ele submete o sistema automático de tradução gratuito disponível pela internet a uma tarefa cruel: a tradução do trecho inicial do Gênesis, retirado da versão inglesa da Bíblia de King James.

Eco tortura a máquina de traduzir obrigando-a a passar o trecho do inglês para o espanhol e para o alemão, e depois de volta ao inglês. Os resultados são todos altamente discutíveis, mas o fato é que o programa traduz e um leitor minimamente informado reconhecerá aquilo como o Gênesis.

O exercício, no entanto, não pretende humilhar a máquina ou seus criadores, mas sim exemplificar uma noção corrente, e simplória, de que traduzir significa apenas encontrar o vocábulo equivalente a uma palavra de um determinado idioma em outro. Mas como sabe qualquer estudante das centenas de cursos de tradução que vêm proliferando pelo mundo nas últimas décadas, um tradutor profissional não traduz palavras, mas textos. E ao falarmos em textos, sejam eles de que área for, literários, financeiros, médicos, não há como escapar do conceito maior em que estão inseridos, ou seja, seus contextos. Para um tradutor, o contexto é tudo, mas para uma máquina ele praticamente inexiste.

O livro de Eco analisa os mais variados aspectos da tradução em profundidade. Apesar de sua limitada experiência como tradutor de fato, restrita a “dois livros de grande empenho”, “Exercices de style”, de Queneau, e “Sylvie”, de Gérard de Nerval, o autor argumenta que, ao longo de sua vasta experiência editorial, revisou muitas traduções alheias, além de participar ativamente do processo de tradução de suas obras, em estreita colaboração com os tradutores.

Isso, segundo ele, permite-lhe falar com conhecimento de causa sobre questões-chave da tradução, como a noção de fidelidade ao original ou sobre o seu grande achado: o tradutor como negociador. Uma negociação que implica considerar a situação em que o original foi produzido e sua finalidade, e como manter seu efeito no idioma de destino.

Nessas negociações, há que se considerar aspectos formais (ritmo, registro, vocabulário), época e situação histórica em que o texto foi produzido, os leitores do original e os leitores da tradução. Situações intraduzíveis, que Eco considera como “perdas irremediáveis”, podem ser compensadas em momentos posteriores, graças a um exercício de criatividade do tradutor, adicionando um toque de humor, um trocadilho, a um trecho em que isso não existia.

O livro ajuda a compreender a tradução como um dos fenômenos mais antigos, complexos e essenciais da história da Humanidade. E que hoje ganha cada vez mais visibilidade e importância pelo crescimento e diversificação dos meios de comunicação e interação entre os povos. Para finalizar, vale mencionar a segurança do texto em português da tradutora Eliana Aguiar e da revisora técnica, Raffaella de Fillippis Quental. Principalmente pela pesquisa de traduções em português não incluídas pelo autor, que utiliza exemplos em inglês, alemão, espanhol e italiano, predominantemente. Na ausência de traduções disponíveis, a própria tradutora encarregou-se da tarefa. Um ato de correção e respeito editorial.

DANIEL ESTILL é tradutor, jornalista e mestre em teoria literária pela USP

© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

minc, mec, cultvox

1. MINC
Prezada Sra Denise Bottmann, Em atenção às suas perguntas, datadas de 27 de março de 2008, informamos que:

[...]
3) Portal Domínio Público Não compete ao Ministério da Cultura a gestão do Portal Domínio Público e sim ao Ministério da Educação. Informo que encaminharemos o seu email para o Senhor Marco Antônio Rodrigues responsável pela administração do sítio domíniopublico.gov.br. Segue abaixo o contato do responsável, caso a senhora queira conversar com ele: Sr. Marcos Antônio RodriguesMEC – Telefone (61) 2104-8100
[...]
Atenciosamente,
Marcos Alves de Souza
Coordenador-Geral de Direito Autoral
Ministério da Cultura

2. MEC
Prezada Sra. Denise,
Agradecemos a sua compreensão. Está em curso um projeto de migração das obras já cadastradas no Domínio para para uma base de metadados compatível com outras bases e que dê conta de informações como a identificação dos tradutores. Na verdade, há poucas obras traduzidas no Portal, dadas as especificidades da legislação. Apesar de, na seção "Quero Colaborar", haver menção à possibilidade de colaboração de tradutores, nunca recebemos colaboração desse tipo. Por outro lado, os usuários se queixam quando só disponiblizamos as obras em suas línguas de origem, por isso é dado destaque a obras como as de Dante e as de Shakespeare.
O caso das obras de Shakespeare (respondendo à outra mensagem) é similar ao da Divina Comédia, só que os arquivos, reproduzidos do site Cultvox, ao qual se dá crédito, não incluem mesmo indicação do(s) tradutor(es). Já entramos em contato com o site, buscando esclarecimentos, mas até o momento não obtivemos retorno. A próxima etapa será confrontar as versões do Portal com traduções de domínio público, como as de António Feliciano de Castilho, para tentar identificá-las.

Atenciosamente,
Marco Antonio Rodrigues
Portal Domínio Público
MEC/SEED/DITEC

Denise Bottmann escreveu:
> prezadeo sr. marco antonio rodrigues:> agradeço a informação.> o problema é que, no meu entender, o nome do tradutor deveria constar > já na própria apresentação do título da obra e do nome do autor.> só descobrimos quem é o tradutor fazendo o download da obra, a qual > muitas vezes nem interessaria, visto que as pessoas também costumam > escolher as obras pelo tradutor, e não só pelo autor.> faço a sugestão de passarem a incluir o nome do tradutor logo na > página de apresentação da obra disponível para download.>> atenciosamente,> denise bottmann>> ----- Original Message ----- From: "Dominio Publico" <dompub@mec.gov.br>> To: <dbottmann@uol.com.br>> Sent: Friday, March 28, 2008 12:32 PM> Subject: Re: Fale Conosco - Dominio Publico>>> Prezada Sra. Denise,>> Muitos arquivos que disponibilizamos são originalmente publicados por> outras iniciativas. No caso de A Divina Comédia, a fonte original é o> portal ebooksBrasil, devidamente identificado no arquivo e em nosso> Portal. Quanto ao tradutor, é identificado na segunda página como sendo> José Pedro Xavier Pinheiro (1822-1882). Informações sobre esse> autor/tradutor podem ser obtidas em> http://www.sidie.inf.ufsc.br/bdnupill/Consulta/Autor_nav.php?autor=4724>> Atenciosamente,>> Marco Antonio Rodrigues> Portal Domínio Público> MEC/SEED/DITEC>>> dbottmann@uol.com.br escreveu:>>> Nome: denise bottmann>> E-mail: dbottmann@uol.com.br>> Comentários:>> por favor, de quem é a tradução da divina comédia aqui disponível? >> fico no aguardo e agradeço a atenção denise bottmann>>

Prezada Sra. Denise,Em anexo, a resposta que o Domínio Público recebeu do site Cultvox, que originalmente publica os arquivos de Shakespeare. Como havia antecipado, faremos agora uma triagem dos arquivos traduzidos constantes do acervo do Portal que não tenham identificação do(s) tradutor(es), para pesquisa em acervos físicos sobre a origem dessas versões.

Atenciosamente,
Marco Antonio Rodrigues
Portal Domínio Público
MEC/SEED/DITEC

em anexo a pífia resposta da Cultvox ao MEC:

Caro sr. Marco,
O Cultvox.com recebe livros eletrônicos grátis e agradece a quem colabora.
Não sabemos quem traduz as obras
Obrigado
Leo

4. perante a pifiedade, indaguei e recebi os esclarecimentos da CULTVOX:

Cara sra. Denise,
Qualquer informação adicional, converse com nossa diretora: Ana, 11.34.73.83.48.

Att,
Leo
----- Original Message -----
From: Denise Bottmann
To: Suporte - Cultvox
Sent: Tuesday, April 01, 2008 9:46 AM
Subject: Re: informação
sim, obg, entendi que vocês recebem livros grátis, o que não entendi é porque não se coloca o nome do tradutor. como vocês se precavêem contra eventuais problemas se os colaboradores não informam de onde extraíram a colaboração?
agradeço,
d.

----- Original Message -----
From: Suporte - Cultvox
To: Denise Bottmann
Sent: Tuesday, April 01, 2008 9:43 AM
Subject: Re: informação
Sra. denise,
Como disse, os livros GRÁTIS não são comercializados. A tradução de livros comercializados está creditada no próprio livro.

Att,
Leo
----- Original Message -----
From: Denise Bottmann
To: Suporte - Cultvox
Sent: Tuesday, April 01, 2008 9:38 AM
Subject: Re: informação
bom dia, leo
agradeço a resposta.
e esse procedimento é adotado como correto? mesmo para os livros comercializados? não é possível solicitar aos colaboradores os nomes dos tradutores para evitar suspeitas de pirataria?
denise

----- Original Message -----
From: Suporte - Cultvox
To: Denise Bottmann
Sent: Tuesday, April 01, 2008 8:57 AM
Subject: Re: informação
Cara sra. Denise,
O Cultvox.com recebe livros eletrônicos grátis e agradece a quem colabora. Não sabemos quem traduz as obras

Obrigado
Leo

----- Original Message -----
From: Denise Bottmann
To: suporte.cultvox@uol.com.br
Sent: Friday, March 28, 2008 11:03 PM
Subject: informação
boa noite

gostaria de saber, se possível, qual é a política editorial dos e-books disponibilizados pela cultvox, no que se refere aos direitos autorais das obras e, em caso de obras traduzidas, aos direitos autorais das traduções.
vejo que o texto de freud sobre a histeria, por exemplo, não traz o nome do tradutor. mesmo que a tradução esteja em domínio público, segundo consulta ao MINC e ao portal do domínio público, do MEC, é obrigatória a menção do nome do tradutor.
assim, em vista de ter constatado essa omissão em alguns títulos oferecidos pela cultvox, gostaria de ser esclarecida a este respeito.

agradeço a atenção,
denise bottmann


obs.: material acrescentado em 13 de abril de 2009, para manutenção de arquivo.

campanha "este patrimônio não, obrigada"





imagem: shunkosai hokuei obake, wikipedia

carta às entidades de livros

mandei essa cartinha para a cbl, o snel, a abrelivros e todas as respectivas listas de associados, um a um. ufa! ninguém vai poder dizer que não sabe.

À Câmara Brasileira do Livro

Prezados srs. diretores, conselheiros e associados da CBL

Desde outubro de 2007 avolumam-se as notícias na imprensa sobre irregularidades cometidas em livros publicados por algumas editoras de projeção. Tais práticas consistem na publicação de grandes obras da literatura universal, em traduções feitas no passado por importantes nomes de nossa cultura nacional, todavia agora atribuídas a outros nomes quaisquer.
É uma situação muito grave, pois essa substituição indevida dos nomes dos tradutores em dezenas e dezenas de livros tem sido estampada em milhões de exemplares, que estão presentes em lares, escolas e bibliotecas de todo o Brasil. Esses livros têm se tornado referência bibliográfica constante em pesquisas, artigos e teses acadêmicas, sendo até mesmo indicados como bibliografia para concursos públicos, vestibulares e exames em geral.
Urge defendermos a integridade da produção editorial no país. Esperamos contar com a firme posição da Câmara Brasileira do Livro em defesa do público leitor, do trabalho intelectual e da sociedade em geral.

Atenciosamente,

Denise Bottmann
dbottmann@uol.com.br

moção pedindo apoio à abl e à abi

reproduzo aqui o teor das moções que fizemos pedindo apoio à abl e à abi, enviadas no dia 28/04, com histórico e dossiê anexos.

À Academia Brasileira de Letras (À Associação Brasileira de Imprensa)

Ilmo. Sr. Presidente Cícero Sandroni (Ilmo. Sr. Presidente Maurício Azêdo)

Os tradutores integrantes do movimento Assinado: Tradutores vêm pedir a atenção desta Casa para alguns fatos graves que estão ocorrendo com o uso das traduções no país.

Nos últimos meses, a imprensa divulgou sérias irregularidades ocorridas na publicação de muitas obras da literatura universal. Consta que editoras como Nova Cultural e Martin Claret publicaram livros traduzidos há décadas por intelectuais consagrados do Brasil e de Portugal, mas atribuindo as traduções dessas obras a outras pessoas. Assim é que nomes como Mario Quintana, Ligia Junqueira, Galeão Coutinho, Octavio Mendes Cajado e muitos outros foram substituídos, nessas edições, por nomes quaisquer, e suas traduções foram copiadas, por vezes com alterações de superfície.

Considerando que são, em sua maioria, livros de bolso ou para venda em bancas, impressos em grandes tiragens e em muitas reedições, tais práticas, já por princípio inaceitáveis, assumem vulto ainda mais alarmante, resultando em muitos milhões de exemplares espalhados em lares, escolas e bibliotecas públicas de todo o país. As bibliotecas universitárias oferecem a alunos e professores edições fraudadas, e milhares de teses, monografias, estudos, artigos, reproduzem em suas referências bibliográficas créditos de traduções suspeitas, apagando a memória desse patrimônio tradutório laboriosamente construído ao longo de muitas décadas.

Julgamos que a dimensão dos fatos é de tal monta que atinge toda a sociedade, pondo em risco as próprias bases de credibilidade do trabalho intelectual e da produção editorial no país. Apelamos a esta Casa, cuja tradição de defesa da integridade de nosso patrimônio cultural todos reconhecem, para que erga sua bandeira contra os malfeitos em curso.

Respeitosamente,

seguem-se 137 assinaturas.

isbn: mais 70 anos de direito autoral sobre traduções suspeitas?


tenho uma dúvida, totalmente singela, de cidadã que acredita na importância das instituições do país.

respeito muito o papel da biblioteca nacional, e fico impressionada com a importância da fundação biblioteca nacional como agência nacional exclusiva de atribuição do código de isbn.

tentei alguns contatos com a fbn, mas não tive os esclarecimentos solicitados.

uma das dúvidas colocadas era, a título de exemplo:
- por que o resultado da consulta feita no setor de serviços a profissionais difere do resultado obtido na consulta ao catálogo geral?

minha pesquisa foi muito específica. explico:
- a editora nova cultural publicou uma edição de suave é a noite, atribuindo sua tradução a enrico corvisieri, sendo que era algo muito parecido com a tradução que eu tinha lido vinte anos antes na tradução de ligia junqueira. quando anunciei essa similaridade, a nova cultural veio a público e afirmou que havia retirado os títulos suspeitos (entre eles, suave é a noite) de catálogo.
mas acontece que, em meio a todas essas indefinições que parecem prevalecer na administração editorial da nova cultural (os diretores atuais desconhecem os fatos, a ex-diretora responsável não lembra o que aconteceu durante seus anos à frente do departamento editorial, o ex-editor afirma que nunca esteve a par de nada referente a traduções etc.), constatei que a edição de 1995 de suave é a noite, tão profundamente semelhante à tradução de ligia junqueira, de décadas antes, constava na fundação biblioteca nacional sob o número de isbn 85-351-0612-X, com créditos de tradução em nome de enrico corvisieri, na consulta ao catálogo geral.

no entanto, na consulta ao serviço para profissionais, o mesmo isbn não apresentava qualquer crédito de tradução.

tudo isso me confunde um pouco, como simples cidadã consultando os catálogos de um serviço público da maior importância, como é a fundação biblioteca nacional, de mais a mais a única agência autorizada a atribuir isbn's no brasil.

mas suponhamos que o catálogo geral da biblioteca nacional seja confiável, e o catálogo específico para profissionais da mesma instituição esteja incompleto ou siga outros critérios de catalogação.

aí temos que a tradução de suave é a noite atribuída a enrico corvisieri tem seu registro feito na BN desde 1995.

como não entendo bem dessas coisas, devo supor que, a partir de 1995, todos os direitos patrimoniais desta tradução estarão reservados por 70 anos para a editora nova cultural?

é isso?

nova cultural: "os pensadores"

constato que a editora nova cultural retirou de seu catálogo e venda online alguns títulos da coleção "os pensadores".

pessoalmente, acho pouco provável que a razão para tal providência tenha sido um súbito fim do estoque das edições. aqui fica um pouco longo explicar por que acho pouco provável, mas, se alguém se interessar, basta perguntar. sinto-me mais propensa a achar que essa iniciativa talvez se deva aos mesmos motivos que levaram a ed. nova cultural a retirar os livros da coleção "obras-primas" sobre os quais pairavam algumas suspeitas.

a história é longa; eu havia começado algumas pesquisas a respeito da coleção "os pensadores", mas por falta de tempo ainda não tinha chegado a nenhum cotejo mais conclusivo. em todo caso, apenas a título de informação, as obras que inicialmente despertaram minha curiosidade na coleção "os pensadores" tinham seus créditos de tradução atribuídos a enrico corvisieri e a mirtes ugeda coscodai.

talvez caiba lembrar:
1. enrico corvisieri é o nome ao qual foram atribuídas várias traduções de obras publicadas pela nova cultural, objetos de exaustivos cotejos com traduções consagradas anteriores, de autoria de outros tradutores, a saber:
- suave é a noite (1ª. ed. 1995, retomada na coleção obras-primas)
- a mulher de 30 anos (1ª. ed. 1995, retomada na coleção obras-primas atribuída a gisela donat soares)
- retrato de dorian gray (2003, atribuída antes, em 1995, a maria cristina figueiredo da silva, que também assina a tradução de o vermelho e o negro nas obras-primas)
- irmãos karamázovi (1ª. ed. 1996), fazendo até constar que seria uma suposta tradução do original russo (na verdade seguindo fielmente os passos da tradução de natália nunes e oscar mendes, por interposição do inglês)
- madame bovary (2002) (sublicenciada para a l&pm entre 2003 e 2008, ao que parece sem que esta fosse devidamente alertada sobre a alteração dos créditos de tradução)

na coleção "os pensadores", na edição da nova cultural (não confundir com abril cultural) sob a direção editorial de janice florido, enrico corvisieri responde pelas traduções de:
a. platão:
- apologia de sócrates
- eutífron
- críton
- fédon
- a república (que já fora recolhida antes, passando a ser editada pelo selo best-seller e mais tarde pela editora sapienza)

b. descartes:
- 0 discurso do método- meditações sobre a filosofia primeira
- as paixões da alma

2. mirtes ugeda é a pessoa que assina as traduções publicadas pela nova cultural, também cotejadas e aqui apontadas pela excessiva semelhança com traduções consagradas anteriores, da autoria de outros tradutores:
- ana karênina
- os três mosqueteiros

na coleção "os pensadores" da nova cultural sob a direção editorial de janice florido, mirtes ugeda coscodai responde pelas traduções de:
- apologia de sócrates (xenofonte)
- ditos e feitos memoráveis de sócrates (xenofonte)

naturalmente, a ed. nova cultural há de ter tido suas razões para retirar esses títulos de "os pensadores".

de minha parte, noto apenas que os créditos de tradução de alguns dos livros retirados do catálogo de "os pensadores" coincidem com alguns nomes que constavam na coleção "obras-primas", e que também foram retirados de catálogo.

em todo caso, é uma vergonha que a nova cultural mantenha a publicidade visual de títulos da coleção "obras-primas", com tantos títulos plagiados: http://www.obrasprimas.com.br/

posts de 10 a 30 de abril de 2008


mestre bosi

A carta-denúncia de Denise Bottmann revelou a existência de uma ação editorial lesiva não aos nomes de ilustres tradutores de obras clássicas para o Português como também à integridade mesma da vida intelectual no Brasil.

É dever imperioso de todos nós, escritores e leitores, associar-nos a essa justa reivindicação.Alfredo Bosi
Professor de Literatura Brasileira - USP
Membro da Academia Brasileira de Letras