31 de dez de 2008

encerrando o ano (mais chatterley)

























em 2 posts anteriores, e isso, é certo? e richter, comentei a edição de o amante de lady chatterley, atualmente na coleção de bolso da record, e solenemente plagiada pela martin claret sob as complacentes barbas de sua colega.

continuei um pouco as pesquisas, e a história dessa tradução recua ainda mais no tempo.

a tradução que aparece na civilização brasileira em nome de rodrigo richter, em 1959, na verdade foi publicada inicialmente em 1938, pela agência minerva. a página de rosto dessa edição de 1938 já traz os dizeres "versão integral inexpurgada", e na página da imprenta consta "versão autorizada". não consta o nome do tradutor.


a agência minerva publica uma segunda edição em 1941 e uma terceira em 1946, com o apêndice "em defesa de 'lady chatterley'".

em 1956 o título reaparece na civilização brasileira, onde segue sua carreira por algumas décadas. é apenas em 1959 que a civilização brasileira acrescenta em suas edições os créditos de tradução em nome de "rodrigo richter", o qual se mantém até hoje, no catálogo da record.

com esses achados, o caso parece se tornar ainda mais interessante. trata-se de uma tradução que vem desde 1938, tendo portanto completado 70 anos de existência.

quanto ao verdadeiro tradutor, que se manteve anônimo por vinte anos, não posso afirmar nada. "rodrigo richter" pode ser um pseudônimo, pode ser um nome emprestado, pode ser alguém de verdade. isso, decerto, a record há de saber melhor do que eu.

quanto à sua edição inicial em 1938, o curioso é que foi publicada pela agência minerva. em seu reduzidíssimo catálogo, constam na mesma época a publicação de um livro de l. bertrand, a maçonaria, seita judaica: suas origens, sagacidade e finalidades anticristãs (1938), em alardeada tradução do integralista e anti-semita gustavo barroso; o famosíssimo os protocolos dos sábios de sião (1936), traduzido, anotado, comentado e "apostilado" também por ele; e ainda o grande processo de berna sobre a autenticidade dos "protocolos" - provas documentais (1936), do mesmo gustavo barroso.

na mesma década de 1930, gustavo barroso publicou várias obras pela civilização brasileira, pela nacional e pela brasiliana (as colunas do templo; brasil, colônia de banqueiros; judaísmo, maçonaria e comunismo; a história secreta do brasil em 3 vols.; história militar do brasil). até os anos 1950 fazia parte do quadro de sócios da civilização brasileira, ainda subsidiária da companhia editora nacional.

isso parece sugerir vivamente que a conexão entre a agência minerva e a civilização brasileira, com a migração de o amante de lady chatterley, teria se dado por meio de gustavo barroso.

a curiosidade que fica é como, em primeiro lugar, a agência minerva teria decidido publicar em seu microcatálogo um título decididamente polêmico, ao lado de peças de propaganda anti-semita traduzidas ou "apostiladas" pelo mais ruidoso e profícuo ideólogo integralista do país. [aqui talvez fosse o caso de se levarem em conta as posições protofascistas de lawrence, que certamente seriam prato cheio para alimentar a propaganda integralista no brasil...]

humildemente julgo que a própria vetustez da tradução em si poderia fornecer bons subsídios para o estudo de práticas tradutórias do passado. além disso, um estudo desses entrelaçamentos editoriais ajudaria a compor em mais detalhes o cenário ideológico e cultural da primeira metade do século 20. talvez resultasse algo mais interessante do que esses trabalhos de pobres aluninhos enganados, que se dedicam pacientemente a estudar as "traduções" de jean melville, alex marins, pietro nassetti, enrico corvisieri, mirtes ugeda, fábio m. alberti e così via.

tanto mais fortes razões, a meu ver, para que a record proteja esse patrimônio, sob sua guarda e responsabilidade, contra apropriações da martin claret e outras quaisquer.

até 2009!

30 de dez de 2008

trivia II


ainda nas sarjetas. como disse, não que isso acrescente muita coisa, só dá um certo colorido.

o monstrengo covacultural/suzano das pseudo-obras-primas teve seu lançamento alardeado com todas as trombetas em agosto de 2002. dona janice da nova cultural e dona christine do instituto ecofuturo já vinham alardeando desde 2000 o grande feito da democratização cultural que iriam promover. trataram das verbas, dos contratos, dos percentuais, só se esqueceram de uma coisa: as obras que lhes garantiriam o rico dinheirinho dos papalvos que, ao comprar tal coleção, acreditavam na promessa de estar migrando automaticamente para o mundo da alta literatura.

os livrecos já estavam nas bancas, quando a nó cultural* mandou seus releases brasil afora e a revista veja, do caridoso irmão roberto civita, deu uma colher de chá e publicou o teor da tal coleção que resgataria os oprimidos e humilhados de sua triste condição de sub-aculturados.

o curioso neste release da nova (in)cultural/suzano publicado pela revista veja e reproduzido em vários outros veículos é que boa parte dele não corresponde ao que foi efetivamente (e fraudulentamente) publicado na coleção obras-primas da nova (in)cultural/suzano.

pois vejam o que ela anunciava em seu release e o que fato aconteceu (sem falar dos plágios, apenas das trapalhadas na grande imprensa) - repito, o release foi publicado depois do lançamento dos primeiros volumes, quando seria de se supor que a coleção já estaria definida:

- crime e castigo sairia em nome de natália nunes; saiu anônimo;
- o leopardo sairia em nome de calvin carruthers (é, aquele mesmo dos filmes de terror); saiu em nome do barato trocadilho de leonardo codignoto;
- tom sawyer deveria sair em tradução de "terezinha monteiro" [leia-se therezinha monteiro deutsch]; saiu no nome legítimo de luísa derouet - talvez contrafação, mas não plágio;
- morte em veneza e tonio kroeger, de thomas mann, que sairiam em nome de calvin carruthers, mais uma vez, foram substituídos de última hora por as três irmãs, de tchecov, na tradução autêntica de maria jacintha;
- o morro dos ventos uivantes, que sairia em nome de uma tal "dirce tashima sato", acabou saindo em nome de outra igual desconhecida "silvana laplace";
- o pobre pirandello do falecido mattia pascal e dos seis personagens, com fraude anunciada em nome de "enrico corvisieri", acabou saindo na fraude de "fernando corrêa fonseca";
- tom jones que, na ciranda bandida da cova cultural, deveria sair em nome de uma desconhecida "lucília trindade", acabou saindo no nome de outro ilustre fantasma, "jorge pádua conceição";
- werther e fausto de goethe, anunciados neste release em nome do tal fábio maximiliano alberti, acabaram saindo com o criativo pseudônimo de alberto maximiliano;
- tentaram impingir a fraude de naná a vera maria renoldi, figura de carne e osso, que por alguma razão foi substituída de última hora pelo fantasmagórico roberto valeriano;
- há também o ridículo caso das tragédias de shakespeare, anunciadas no release em nome de paranhos touceiros: foram publicadas na tradução legítima de beatriz viégas-farias, após uma falcatrua indizível que a nova cultural plantou em cima da lpm que, bobamente, lhes cedeu a bela tradução de beatriz em troca das ridículas fraudes de fábio alberti e enrico corvisieri;
- dorian gray, que a nova (in)cultural anunciou em tradução de oscar mendes, acabou publicado em nome do inefável enrico corvisieri;
- anunciada a publicação de ilusões perdidas em todos os meios de comunicação do país; a nova (in)cultural na última hora deu para trás sem qualquer explicação e lançou mais uma fraude em nome de enrico corvisieri, com a mulher de trinta anos.

UFA! eis aqui o release divulgado pela revista veja: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/210802/obras_primas.html

o ponto é que nem a própria equipe da dona janice parecia saber o que estava fazendo. a questão era só financeira, no maior improviso de revirar os baús herdados. então montaram um release todo atrapalhado, meio à balda, com atribuições aleatórias dos créditos - depois que a coleção já havia sido lançada. tipo, nóis fais e depois vê o que é que vira. este é o conceito cultural de democratização cultural da nova cultural e do instituto ecofuturo. vixe, é cultura demais para meu caminhãozinho!


* de novo agradeço ao anônimo colaborador do blog a adequada alcunha.
imagens: till eulenspiegel, www. erich_hat_jetzt_zeit.de

29 de dez de 2008

trivia I


não que faça muita diferença, mas vão aí uns rudimentos sobre a construção de "pseudônimos".

começa assim: a cova cultural* resolve publicar a toque de caixa uma coleção tirada do baú, "obras-primas", um monstrengo montado a partir de vários pedaços de coleções anteriores da abril cultural, com o patrocínio da suzano celulose bancando 50% da edição.

ela descobre que não detém os direitos de publicação de boa parte dos títulos, mas não vai se deixar desacorçoar por um detalhe desses. fácil, é só trocar os nomes dos verdadeiros tradutores por outros nomes, alguns de gente de verdade, outros inventados. afinal, que diferença faz... (isso me lembra o que me contaram do editor da claret num encontro que ele teve com uma das inúmeras editoras lesadas: "ué, mas por que tanta história? é só uma tradução, é tudo a mesma coisa!")

e assim fábio m. alberti, um fulaninho de carne e osso, assina o terceiro volume da coleção, a divina comédia, inaugurando o capítulo das fraudes na coleção covaculturaliana. é o terceiro volume, mas digo que é ele que inaugura porque os volumes anteriores (dom quixote e os trabalhadores do mar) trazem as traduções em domínio público dos dois viscondes e de machado de assis.

aí dona janice resolve pular o nome da tradutora natália nunes no quarto volume, e no quinto volume ressurge o mesmo fábio m. alberti, agora em cyrano de bergerac. todos hão de convir que não são as obras mais banais do mundo, e que o tal fábio foi trêfego e ligeirinho em abocanhar essas iguarias.
[em tempo, o m. é de "maximiliano": fábio maximiliano alberti.]

seguem-se alguns enricos corvisieris, umas mirtes ugedas, e lá pelas tantas a turminha bem-humorada das cobras-primas fica indecisa sobre o nome a atribuir às traduções de fausto e werther, em substituição aos nomes de silvio meira e galeão coutinho.

é então que tiram do chapéu um tal "alberto maximiliano" para ornar o volume de goethe nas obras-primas cova-culturais. em vista do exposto acima, a fonte de inspiração dispensa maiores esclarecimentos.

uma outra solução, mais indireta, mas também mais zombeteira, foi a que a divertida trupe deu ao sumiço de rui cabeçadas nos créditos de tradução de o leopardo: criou-se o espectral leonardo codignoto. o processo mental não é difícil de acompanhar, mas é como uma piada: se explicar, perde a graça, e o leitor certamente entenderá a composição do trocadilho.

já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome "calvin carruthers". esse caso saiu na matéria do prosa&verso do globo, mas vou repetir aqui.

calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.

bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de "calvin carruthers" como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?

aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado "calvin carruthers". e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver a filmografia dele.) aqui o processo mental da turminha covaculturaliana é mais elaborado, com uma triangulação das referências, mas nada muito complicado. o complicado é o despudor com que se exibe o prazer pelo escárnio.

a clara sensação que a gente tem é de uma criançada pintando o diabo a quatro e achando suas molecagens muito espertas e engraçadas. o problema é quando as pequenas travessuras se põem a serviço de uma prática editorial desonesta, que atinge milhões de pessoas. aí perdem qualquer graça.

*agradeço ao comentarista anônimo deste blog o bem-azado apelido de cova cultural.

imagem: cordel sobre o plágio, www.globoonliners.com.br

28 de dez de 2008

matéria no prosa online

 Muito em comum 

Tradutores brasileiros denunciam plágios em série e organizam movimento de protesto 
Miguel Conde 

O que leva uma editora a plagiar traduções que ela mesma já havia publicado, substituindo em seus livros o nome de tradutores famosos pelo de pessoas desconhecidas, que além de não servirem como chamariz para os leitores em alguns casos parecem nem mesmo existir? É difícil de entender, mas é o que fez repetidas vezes nos últimos anos a editora paulista Nova Cultural. De 1995 a 2002, a empresa publicou 22 títulos que, na opinião de especialistas, são plágios de traduções que integravam o catálogo da Abril Cultural, do qual a Nova Cultural é herdeira. Em 2002, eles foram reunidos na popular coleção Obras Primas, impressos em tiragens iniciais de 60 mil exemplares, bem acima da média nacional, e vendidos em bancas de jornal. A primeira denúncia de plágio num livro da coleção (“Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand) foi feita em 2002 por Ivo Barroso. No ano passado, surgiram novos casos: o tradutor Saulo von Randow Júnior afirmou que a tradução de “Ivanhoé”, de Walter Scott, era plagiada, e o jornal “Folha de S. Paulo” denunciou as traduções dos “Contos”, de Voltaire, e de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Mas uma série de cotejos feitos nos últimos meses por Denise Bottmann — tradutora de clássicos como “Comunidades imaginadas” (Companhia das Letras), de Benedict Anderson e “Piero de La Francesca” (Cosacnaify), de Roberto Longhi — e um grupo de profissionais da área indica que a extensão das fraudes é muito maior, a ponto de fazer deste o maior caso conhecido de plágios de traduções na indústria editorial brasileira. Ela chama a troca de créditos de “escárnio”: — A Nova Cultural está tripudiando uma herança construída pelo esforço de toda uma geração, está adulterando a história do país. É um grande escárnio, uma grande fraude. Divulgando a história no blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/, Denise organizou um abaixo-assinado em repúdio a plágios e pela valorização do ofício de tradutor no Brasil, que já recebeu adesão de mais de 300 profissionais, entre eles Lia Wyler, Ivo Barroso, Jorio Dauster, Paulo Franchetti e Geraldo Holanda Cavalcanti. Procurada em fevereiro, a Nova Cultural disse que a apuração do episódio seria concluída em um mês. Na quinta-feira, num fax assinado pelo assessor da diretoria Shozi Ikeda, a editora afirmou: “Em setembro de 2007, um Editor da Nova Cultural ao consultar algumas das obras da coleção Obras Primas, notou diferenças na coleção feita em 2002 contra a obra publicada em 1978. Quando colocado o problema para a Diretoria, esta, de imediato, instruiu que fosse feita uma averiguação minuciosa”. A Nova Cultural afirmou que está tratando o problema com os detentores de direitos das traduções (nos anos 1970, a Abril Cultural fez acordos para publicar traduções lançadas originalmente por outras empresas), e que “determinou a retirada de circulação e venda” de todas obras sobre as quais houvesse suspeita. A editora disse ainda que a equipe responsável pela coleção Obras Primas não trabalha mais lá, e por isso “não existe forma de determinar quais as falhas” que provocaram os problemas. Continua nas páginas 2 e 3 Caderno: Prosa & Verso 

OBRAS SOB SUSPEITA “A DIVINA COMÉDIA”, Dante: Tradução de Fábio Alberti seria de Hernâni Donato. “CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes. “CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro. “O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima. “MADAME BOVARY”, Flaubert: Trad. de Enrico Corvisieri seria de Araújo Nabuco. “ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões. “O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas. “FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho. “CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana. “O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes. “O FALECIDO MATTIA PASCAL” E “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci. “TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado. “NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira. “O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes. “A MULHER DE 30ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado. “OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado. “LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana. “UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite. “SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira. “IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira. Livros têm páginas idênticas e mesmos erros Para especialistas, fraude é única explicação possível; nomes de supostos tradutores podem ter sido inventados A coordenadora editorial da coleção Obras Primas era Janice Florido, hoje na Ediouro. Ela diz que não se lembra quem era o encarregado de negociar os direitos de tradução. O editor da coleção, Eliel Silveira Cunha, hoje na Miro Editorial, diz que nunca lidou com isso, nem sabia quem era o responsável. A outra editora, Fernanda Cardoso, não foi localizada pelo GLOBO. No entanto, e apesar do que sugere a resposta da Nova Cultural, as trocas nos créditos das traduções são anteriores à coleção, afirma Denise Bottmann. Começaram a acontecer em 1995, sete anos antes de ela ser lançada. Na época, a Abril Cultural já tinha deixado de existir e os livros eram editados pela Nova Cultural, parte do grupo CLC, controlado por Richard Civita (ele e seu irmão, Roberto, dividiram a herança editorial deixada pelo pai dos dois, Victor). Os primeiros títulos afetados, apontam as comparações, foram “Suave é a noite”, de F. Scott Fitzgerald; “A mulher de trinta anos”, de Balzac; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde; “Ana Karênina”, de Tolstói; e “Os irmãos Karamazóvi”, de Dostoiévski. Como nas outras trocas de crédito, nomes de intelectuais importantes foram substituídos pelos de pessoas desconhecidas: Lígia Junqueira por Enrico Corvisieri; José Maria Machado pelo mesmo Enrico Corvisieri, depois substituído em 2002 por Gisele Donat Soares; Oscar Mendes por Maria Cristina F. da Silva; João Gaspar Simões por Mirtes Ugeda Coscodai; Natália Nunes e Oscar Mendes por (mais uma vez) Enrico Corvisieri. Pequenas alterações em alguns trechos Em alguns casos, como em “O retrato de Dorian Gray”, até os erros das traduções anteriores são reproduzidos. “Suit of armor”, ou “um jogo completo de armadura”, foi traduzido por Oscar Mendes por “coleção de armaduras”. Em outro exemplo, “exquisite life” vira “vida estranha”, quando o correto seria bela, maravilhosa, refinada. Ambos equívocos, entre outros, são repetidos na tradução atribuída a Maria Cristina F. da Silva. — O que foi feito é uma apropriação indébita, é quase o equivalente a roubar uma sepultura. O mais chocante é que não foi uma coisa ocasional, era uma política editorial — diz Jorio Dauster, tradutor de Vladimir Nabokov e J.D. Salinger, entre outros. Os cotejos mostram páginas e páginas com textos idênticos, às vezes com troca de algumas palavras por sinônimos, como é o caso do trecho de “A mulher de trinta anos”, de Balzac, reproduzido na primeira página deste caderno. A possibilidade de que tradutores diferentes cheguem a soluções idênticas com tanta freqüência é descartada por profissionais da área como Ivo Barroso: — São casos incontestáveis, com repetições extensas demais para serem coincidências. Na poesia isso é especialmente claro, porque há questões como a escolha do adjetivo, da colocação do verbo, do ritmo, da sinonímia, que já tornam difícil que dois tradutores traduzam dois versos seguidos da mesma forma. Quando você encontra então 160 versos iguais, não tem como não ter certeza. O que fizeram é insuportável: apagaram os nomes de tradutores com uma história, uma identidade tradutória, para botar no lugar os de uns quaisquer. Pessoas desconhecidas no meio literário, Enrico Corvisieri, Leonardo Codignoto, Vera M. Renoldi, Fábio M. Alberti e outros supostos autores das traduções da Nova Cultural são elogiados em páginas da internet pela qualidade do seu trabalho. Quem quiser transmitir os cumprimentos diretamente a eles, porém, terá dificuldades. Buscas na internet mostram apenas referências às traduções, e os nomes não constam da lista telefônica. Ainda mais intrigante é a identidade por trás de Calvin Carruthers, creditado como tradutor de “A metamorfose”, de Franz Kafka. Calvin Carruthers é o nome de um personagem representado por Vic Tayback no filme “Horror, blood and lace”. O último filme em que Tayback atuou foi “Horseplayer”, de Kurt Voss, no qual ele representou um personagem chamado Gregor Samsa — nome do protagonista de “A metamorfose”. Não há nenhum cotejo, porém, que indique se essa tradução é um plágio, ou se Carruthers foi apenas um pseudônimo escolhido por um tradutor real. Nos últimos anos, a editora Martin Claret também foi alvo de denúncias de plágio. Seu catálogo, composto principalmente por obras em domínio público, atribui a Pietro Nassetti traduções de Marx, Descartes, Rousseau, Nietzsche, Weber, Shakespeare, Kafka, Platão, Maupassant, Doistoiévski, Goethe, Baudelaire, Sun-Tzu, Aristóteles, Durkheim, Schopenhauer, Ovídio, Maquiavel, Eurípides, Esopo e Voltaire, entre outros. A Objetiva está negociando a compra de parte da editora. 

NOS TEXTOS, A ABERTURA DO BRASIL PARA O MUNDO 
Heloisa Gonçalves Barbosa 

As primeiras traduções efetuadas no Brasil, como se poderia esperar, foram de textos religiosos vertidos pelos jesuítas, do português ou do latim, para a língua mais falada na época pelos índios na costa do Brasil, o tupi, ou sua versão adaptada pelos padres, a língua geral. Com a proibição do uso desse idioma pelo Marquês de Pombal em 1759, a expulsão dos jesuítas e a imposição do uso do português como língua de instrução no Brasil, declina e cessa a produção textual em língua geral. Mas, devido à proibição de qualquer manufatura, ou seja, da existência e operação de qualquer maquinário no Brasil colônia, nada era produzido aqui, inclusive o papel e, conseqüentemente, o livro. Existiram, porém, traduções “piratas”, feitas por intelectuais brasileiros, muitas vezes reproduzidas manualmente, que circulavam às escondidas, como ocorreu com os textos que influenciaram a Inconfidência Mineira. Houve, no século XVIII, um projeto de tradução e publicação de obras científicas e técnicas, bem como foram traduzidos, em iniciativas isoladas, tratados religiosos, morais e filosóficos, assim como algumas biografias. É com a chegada da família real ao Brasil em 1808 e a fundação da Imprensa Régia que verdadeiramente se inicia a produção de traduções das grandes obras literárias no Brasil. Como é consenso entre pesquisadores e historiadores na área de tradução, as nações em formação traduzem e traduzem muito. Essas traduções importam gêneros inexistentes na literatura que os recebe, de preencher lacunas. À infante literatura brasileira faltava praticamente tudo. E foi por meio das traduções que se realizou sua aproximação com a cultura ocidental. No entanto, num primeiro momento, as traduções publicadas pela Imprensa Régia não tinham como objeto ainda as grandes obras literárias, mas visavam preencher lacunas mais básicas, ou seja, fundamentar os conhecimentos técnicos necessários para construir o país em formação. Desta forma, os primeiros livros impressos foram traduções de textos de matemática e engenharia que viriam a auxiliar nesse propósito. A primeira obra literária traduzida e publicada pela companhia foi o “Essay on Criticism” (Ensaio sobre a crítica) do pensador e poeta inglês Alexander Pope. No século XIX, porém, o custo do papel, no Brasil, era elevadíssimo, o que fazia com que os editores brasileiros precisassem importar e mesmo contrabandear esse insumo. Uma conseqüência dessa situação, pouco conhecida dos brasileiros, é que a maioria dos autores nacionais do período, entre eles Machado de Assis e José de Alencar, teve seus livros impressos primeiro em Portugal, Inglaterra ou França, depois enviados ao Brasil. O mesmo ocorria com as traduções de obras literárias, que eram produzidas em Paris para serem despachadas para o Brasil. Essas traduções eram, na maioria, o que se convencionou chamar “traduções indiretas”: não eram feitas a partir do texto no idioma original, mas de uma versão para um idioma mais conhecido no Brasil, principalmente o francês, ou mesmo cotejando-se várias traduções para as línguas latinas, mais acessíveis para nós. É o caso das traduções do alemão, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, ou de vários autores russos, como Dostoiévski, Tolstói, Gogol. Foi somente após a Primeira Guerra que casas editoriais foram inauguradas em grande número no Brasil. Na década de 1930, Getúlio Vargas incentivou essas empresas, o que as fez quase dobrar em quantidade. Na era pós-Vargas, porém, esse tipo de empreendimento entra em declínio novamente. Grandes editoras sobreviveram, no entanto, podendo-se nomear, por exemplo, a Editora Globo, a José Olympio e a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato. Em seguida, associações com o capital estrangeiro possibilitaram a abertura e a sobrevivência de muitas outras empresas do ramo livreiro no Brasil. Essas casas preocuparam-se em trazer para o leitor brasileiro desde as grandes obras da literatura universal, ou detentores do prêmio Nobel, até histórias de detetives e romances de aventura. Para realizar as traduções, foram contratados intelectuais e autores de peso, dentre eles Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Monteiro Lobato, Mário Quintana, Sérgio Milliet e Clarice Lispector. A partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, porém, a principal influência cultural no Brasil, que era francesa, passa a ser americana e o fenômeno observado é a intensa tradução do best-seller americano, ao lado dos livros de auto-ajuda e das biografias dos famosos. A própria coleção de obrasprimas da literatura, da Nova Cultural, mostra um peso maior dos textos traduzidos do inglês. Compõem boa parte da coleção traduções feitas ainda no período em que eram escritores e críticos literários os convidados a produzir traduções, algumas delas excelentes, feitas, muitas vezes, a custa de enormes esforços pessoais. A importância desse tipo de empreendimento, para um país como o nosso, às margens da cultura ocidental é, naturalmente, o de reunir e trazer ao público brasileiro esse acervo cultural da humanidade. Para cumprir essa missão, uma vez vencida a questão material, do custo do papel, as empresas do ramo livreiro no Brasil ainda precisam vencer outros problemas nacionais que dificultam o acesso da população ao livro. O principal deles é a distribuição: como fazer o livro chegar ao público e chegar a ele com preços acessíveis? Em um país onde há cidades com várias farmácias, mas sem nenhuma livraria, o livro precisa ser levado ao leitor pelo supermercado, pelo jornaleiro. E em edições mais baratas, em formatos semelhantes ao livro de bolso americano. É essa necessidade que favorece a reedição de velhas traduções de textos antigos, já no domínio público: o fato de ser desnecessário o pagamento de direitos autorais barateia o produto. Hoje, porém, busca-se uma aproximação maior do original. Há uma profissionalização do tradutor, em escolas de formação em nível de graduação e pós-graduação, bem como há intensa pesquisa na área no país. Isso permite que sejam feitas “retraduções” das obras canônicas, aquelas que freqüentam as listas de livros que todos devem ler, responsáveis pela formação do gosto literário no mundo ocidental, agora diretamente do texto original completo, as traduções chamadas “diretas”. Um exemplo importante são as traduções dos grandes romances russos, cujos retradutores são literatos, acadêmicos e pesquisadores tais como Paulo Bezerra e Boris Schneiderman. Atualmente, como bem se sabe, 80% do que é publicado no Brasil são traduções. Apesar disso, é difícil ter uma exata dimensão da verdadeira contribuição da tradução para a literatura brasileira. Desde o século XIX, tão avassaladora é a invasão de textos traduzidos que o próprio Machado de Assis se preocupava com a influência dos romances-folhetim franceses, tal como “Os três mosqueteiros” (1844), de Alexandre Dumas, pai, e “A dama das camélias” (1848), de Alexandre Dumas Filho, cuja influência se faz sentir, por exemplo, nos romances “Lucíola” e “Senhora”, de José de Alencar. Vários teóricos da tradução acreditam que a evolução da literatura mundial se deve à tradução e que, logicamente, não pode haver literatura comparada sem traduções — e sem tradutores, cujos nomes devem ser mencionados na obra publicada por força de lei, a Lei dos Direitos Autorais. HELOISA GONÇALVES BARBOSA é tradutora e Ph.D. em teoria da tradução pela Universidade de Warwick, Inglaterra; professora da Faculdade de Letras da UFRJ e ex-presidente do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA) Em blogs e e-mails, a classe em pé de guerra Tradutores reagem a plágios, cobram menção de créditos, e em alguns casos querem receber direitos autorais Notícias de plágios de tradução na Nova Cultural e na editora Martin Claret fizeram com que os tradutores iniciassem uma campanha de valorização da profissão. Bem à moda dos tempos atuais, é uma militância que tem sido exercida por meio de blogs e e-mails. Além de fazerem cotejos de traduções em páginas da internet, eles organizaram um abaixo-assinado com mais de 300 adesões e têm enviado mensagens a suplementos culturais reclamando sempre que uma reportagem ou artigo deixa de mencionar o nome do tradutor de um livro. O movimento se articula em torno do blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/. Nos momentos de maior arroubo das conversas virtuais, há quem sugira que a inclusão do nome do tradutor nas capas dos livros deveria ser obrigatória. Outros defendem que o tradutor, como o autor, tenha uma participação nas vendas do livro. Até agora, porém, a luta não saiu do plano virtual. A tradutora Denise Bottmann, uma das organizadoras desse movimento, diz que falta dinheiro para levar a causa aos tribunais. — Estamos esperando que algum escritório de advocacia se interesse e encampe essa luta contra os plágios — diz ela, sem endossar as reivindicações mais extremas. — Essa é nossa luta principal. Como ação correlata, temos uma série de pessoas enviando mensagens à imprensa e a editoras universitárias pedindo que em toda menção a um livro traduzido seja incluído o nome do tradutor. Editor elogia iniciativa, mas vê exageros Paulo Franchetti, que foi tradutor e hoje dirige a editora da Unicamp, diz que a campanha contra os plágios é uma questão de justiça intelectual, mas afirma que no bojo da discussão têm ocorrido exageros. — Surgiu uma campanha pelo destaque absoluto do nome do tradutor, o que também não é o caso. O que tem que ter é a garantia de um registro explícito, como também devem ter o capista, o autor do projeto gráfico, os revisores. Um livro é uma produção coletiva — diz. O crítico Luiz Costa Lima, cuja tradução de “O vermelho e o negro”, de Stendhal, está entre as que teriam sido plagiadas pela Nova Cultural, diz que a mobilização dos tradutores foi o resultado mais importante do caso até agora. — O que me parece importante não é simplesmente o caso em si, mas a situação extremamente precária da tradução neste país — afirma. Um tradutor ocasional, que se dedica ao ofício movido pelo interesse por obras específicas, Costa Lima reclama da remuneração recebida pelos tradutores brasileiros. — Num país em que encontrar um bom leitor da própria língua, o português, já não é fácil, a tradução assume uma importância fundamental. Apesar disso, ela continua sendo entre nós uma atividade extremamente mal paga. Se nós temos traduções de qualidade, não é porque as editoras paguem bem, mas porque há tradutores que se interessam especialmente por determinados livros — diz. O Sindicato Nacional de Tradutores (Sintra) estabelece um piso de R$24 por lauda traduzida, mas a própria diretora da entidade, Elyzabeth Thompson, admite que muitas editoras pagam menos do que isso. Embora poucas empresas respeitem a tabela, o pagamento pode aumentar em função da reputação do tradutor, da dificuldade do trabalho, ou da língua de origem da obra. Um dos principais especialistas em tradução financeira no Brasil, Danilo Nogueira acredita que o resultado da baixa remuneração é que os melhores profissionais acabam desistindo de traduzir livros. — Eu não traduzo livros porque não dá dinheiro, é muito difícil viver do que pagam as editoras. As pessoas que trabalham com livro são jornalistas, escritores, professores que traduzem nas horas vagas. O Antonio Houaiss traduziu o “Ulisses” de Joyce recebendo um salário mínimo por mês. É um esporte, não é uma profissão. Em outras áreas da tradução, por contraste, as pessoas são muito bem pagas. A diferença chega a dez para um — afirma. Para Modesto Carone, situação tem melhorado O pagamento de direitos autorais a tradutores é defendido por alguns profissionais como uma forma de aumentar a remuneração e, em conseqüência, garantir que os trabalhos possam ser feitos com mais tempo (e, espera-se, qualidade). Sergio Flaksman, tradutor de Truman Capote e George Orwell, entre outros, diz que as editoras têm se mostrado mais receptivas a esse tipo de acordo: — A baixa remuneração faz com que a média da tradução no Brasil hoje não seja satisfatória. Isso obriga as editoras a investir muito em controle de qualidade, às vezes com até três revisões da tradução. Seria não apenas melhor, mas também mais justo, que o tradutor recebesse uma parcela de direitos autorais. Afinal, é um trabalho que em boa medida é de criação, e que deveria ser contemplado de acordo. O presidente do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, discorda das críticas dos tradutores, e questiona a idéia de pagamento de direitos autorais. — Hoje temos traduções muito boas no Brasil, uma situação muito melhor do que a de décadas atrás. Os tradutores estão sendo mais valorizados. Agora, o pagamento de percentual sobre as vendas do livro é injusto. Às vezes o tradutor tem um trabalhão com um livro enorme que não vende nada, e às vezes um outro faz um livro fácil, pequeno, que vende à beça. Apesar da discordância quanto aos direitos autorais, Flaksman concorda que os editores têm valorizado o trabalho de tradução, o que para ele se percebe no aumento do número de traduções feitas diretamente da língua de origem. Modesto Carone, maior tradutor de Kafka no Brasil, também acha que a situação tem melhorado: — Há uma consciência maior da importância de um bom trabalho. Antes, nem se tomava conhecimento de quem tinha feito a tradução. Esse não é mais o caso. UMBERTO ECO E A TAREFA DE INTERPRETAR CONTEXTOS Autor analisa as dificuldades da tradução Quase a mesma coisa, de Umberto Eco. Tradução de Eliana Aguiar. Revisão técnica de Raffaella de Fillipis Quental. Editora Record, 458 pgs. R$50 Daniel Estill O tradutor Danilo Nogueira, especializado na área financeira, costuma dizer que “traduzir é fácil, difícil é traduzir direito”. Partindo de pressuposto semelhante, Umberto Eco, no primeiro capítulo de seu “Quase a mesma coisa”, amplo livro sobre as dificuldades da tradução, fala sobre essa suposta facilidade ao analisar as traduções feitas pelo Altavista. Ele submete o sistema automático de tradução gratuito disponível pela internet a uma tarefa cruel: a tradução do trecho inicial do Gênesis, retirado da versão inglesa da Bíblia de King James. Eco tortura a máquina de traduzir obrigando-a a passar o trecho do inglês para o espanhol e para o alemão, e depois de volta ao inglês. Os resultados são todos altamente discutíveis, mas o fato é que o programa traduz e um leitor minimamente informado reconhecerá aquilo como o Gênesis. O exercício, no entanto, não pretende humilhar a máquina ou seus criadores, mas sim exemplificar uma noção corrente, e simplória, de que traduzir significa apenas encontrar o vocábulo equivalente a uma palavra de um determinado idioma em outro. Mas como sabe qualquer estudante das centenas de cursos de tradução que vêm proliferando pelo mundo nas últimas décadas, um tradutor profissional não traduz palavras, mas textos. E ao falarmos em textos, sejam eles de que área for, literários, financeiros, médicos, não há como escapar do conceito maior em que estão inseridos, ou seja, seus contextos. Para um tradutor, o contexto é tudo, mas para uma máquina ele praticamente inexiste. O livro de Eco analisa os mais variados aspectos da tradução em profundidade. Apesar de sua limitada experiência como tradutor de fato, restrita a “dois livros de grande empenho”, “Exercices de style”, de Queneau, e “Sylvie”, de Gérard de Nerval, o autor argumenta que, ao longo de sua vasta experiência editorial, revisou muitas traduções alheias, além de participar ativamente do processo de tradução de suas obras, em estreita colaboração com os tradutores. Isso, segundo ele, permite-lhe falar com conhecimento de causa sobre questõeschave da tradução, como a noção de fidelidade ao original ou sobre o seu grande achado: o tradutor como negociador. Uma negociação que implica considerar a situação em que o original foi produzido e sua finalidade, e como manter seu efeito no idioma de destino. Nessas negociações, há que se considerar aspectos formais (ritmo, registro, vocabulário), época e situação histórica em que o texto foi produzido, os leitores do original e os leitores da tradução. Situações intraduzíveis, que Eco considera como “perdas irremediáveis”, podem ser compensadas em momentos posteriores, graças a um exercício de criatividade do tradutor, adicionando um toque de humor, um trocadilho, a um trecho em que isso não existia. O livro ajuda a compreender a tradução como um dos fenômenos mais antigos, complexos e essenciais da história da Humanidade. E que hoje ganha cada vez mais visibilidade e importância pelo crescimento e diversificação dos meios de comunicação e interação entre os povos. Para finalizar, vale mencionar a segurança do texto em português da tradutora Eliana Aguiar e da revisora técnica, Raffaella de Fillippis Quental. Principalmente pela pesquisa de traduções em português não incluídas pelo autor, que utiliza exemplos em inglês, alemão, espanhol e italiano, predominantemente. Na ausência de traduções disponíveis, a própria tradutora encarregou-se da tarefa. Um ato de correção e respeito editorial. DANIEL ESTILL é tradutor, jornalista e mestre em teoria literária pela USP © 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

26 de dez de 2008

mudam-se os tempos...


versão claret até setembro de 2008: assumo tudo, corrijo tudo, faço os ressarcimentos que forem necessários.


versão claret depois de novembro de 2008: a culpa toda é de alguém que trabalhou na empresa dez anos atrás.



matéria simpática de jefferson maleski sobre usucapião autoral, e sábios conselhos: "Então não compre os livros usucapiados pelas editoras farsantes. Não financie o tráfico e o contrabando de obras literárias. E, acima de tudo, divulgue as informações aos outros".

25 de dez de 2008


agradeço a todas as mensagens, lembranças e presentes que recebi da turminha que não gosta de plágio.

ateus, cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, o que for: paz na terra aos homens de boa vontade ainda é a mensagem mais forte que conheço, e este é meu voto a todos.



chagall, le message biblique (detalhe)

24 de dez de 2008

o bom combate

e os bons meninos de 2008 não se decepcionarão com santa klaus.



santa klaus, de calder

pois vejam lá:

- luiz costa lima recebe sua indenização da nova (in)cultural pelo plágio de o vermelho e o negro, de stendhal, vergonhosamente copiado e atribuído a uma tal "maria cristina f. da silva";

- dr. marco túlio de barros e castro, advogado que atuou neste caso, avisa que está para sair na grande imprensa a errata e retratação pública da nova (in)cultural nesta espoliação a luiz costa lima;

- hernâni donato, grande figura de nossa história cultural, declara que na primeira quinzena de janeiro finalmente sairá alguma proposta concreta do sr. richard civita quanto aos malfeitos da nova (in)cultural no caso de sua primorosa recriação da divina comédia, criminosamente copiada pela dita nova (in)cultural em nome de um tal "fábio m. alberti";

- elena quintana, solenemente espoliada no caso das traduções de mario quintana, coloca à frente a editora globo em defesa do nome de seu tio : contos de voltaire, tradução criminosamente atribuída pela nova (in)cultural a um tal "roberto domenico proença", e lord jim, tradução criminosamente atribuída pela nova (in)cultural a uma tal "carmen lia lomonaco";

- regina galante declara estar dando andamento a providências judiciais contra o crime cometido contra seu pai galeão coutinho, miseravelmente espoliado pela nova (in)cultural na edição de werther de goethe, e está criando uma fundação galeão coutinho, para melhor preservar sua memória;

- ângela xavier de brito declara que tão logo venha ao brasil tomará as providências judiciais em defesa da obra de seu avô, carlos porto carreiro, brutalmente espoliado pela nova (in)cultural no plágio de cyrano de bergerac;

- liliane mendes cajado afirma andamento para processar os crimes cometidos pela nova (in)cultural contra a memória de seu falecido marido, octavio mendes cajado, em tom jones e os três mosqueteiros, em plágios em que a nova (in)cultural atribui as traduções respectivamente a um tal "jorge pádua conceição" e à tal "mirtes ugeda coscodai";

- o advogado dr. andré meira declara estar atendendo à necessidade de uma atitude urgente em resolver o saque perpetrado contra seu avô, silvio meira, criminosamente espoliado pela nova (in)cultural em sua tradução de fausto;

- oscar mendes tem seus direitos morais defendidos pela editora globo na espoliação que sofreu em sua tradução o morro dos ventos uivantes;

- joão paulo monteiro toma providências para pôr cobro ao despudorado plágio de sua tradução de o leviatã perpetrado pela martin claret;

- joão paulo monteiro declara que tomará providências judiciais pela apropriação criminosa praticada pela martin claret da tradução de o desespero humano, feita por seu pai adolfo casais monteiro;

- a família de monteiro lobato declara ter tomado suas providências judiciais contra a criminosa apropriação da martin claret da tradução de o livro da jângal;

- o advogado dr. clóvis f. da silva ramos declara estar tomando as providências judiciais cabíveis contra a criminosa apropriação praticada pela martin claret da tradução de moby dick, feita por seu pai péricles eugênio da silva ramos;

- a editora vozes declara estar procedendo às providências cabíveis em relação ao crime de plágio cometido pela martin claret contra as traduções de floriano de souza fernandes, que significa orientar-se no pensamento; resposta à pergunta: que é "esclarecimento"? e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade, de kant;

- a editora l&pm entra com ação cautelar contra a nova (in)cultural por contrato fraudulento em que lhe vendeu criminosamente traduções plagiadas: a divina comédia e a mulher de trinta anos;

- a editora l&pm declara estar finalizando o acerto das indenizações por danos morais e materiais em acordo extra-judicial com a nova (in)cultural por contrato de venda criminosa de plágios, acima citados;

- a editora globo entra com ação contra a nova (in)cultural por apropriação criminosa de cinco traduções, por danos morais e materiais, e na fase inicial de notificação extra-judicial demonstra-se insatisfeita com a posição da notificada, reservando-se o direito de dar andamento às providências que considerar necessárias;

- a ediouro firma acordo extra-judicial com a martin claret, com ressarcimento financeiro à editora lesada em várias dezenas de títulos criminosamente plagiados e o compromisso de retirá-los da praça;

- a editora hedra aciona a martin claret pela apropriação criminosa da introdução e notas de metamorfoses de ovídio, estando na fase de notificação extra-judicial;

- a edusp veta a participação da martin claret em sua tradicional feira do livro;

- a academia brasileira de letras, a união brasileira de escritores, o pen club do brasil e a academia brasileira de imprensa manifestam seu repúdio contra a prática criminosa do plágio;

- o ministério da cultura e a coordenação geral dos direitos autorais do governo federal se debruçam sobre o problema;

- a ong ler é preciso, da suzano celulose, parceira na criminosa escalada dos plágios na nova (in)cultural, e que tem como padrinho o bibliófilo josé mindlin (o qual considera o plágio uma prática inadmissível), encaminha o problema a seu departamento jurídico;

- são publicadas mais de 10 matérias em jornais e revistas da grande imprensa ao longo de 2008 sobre os crimes de enorme vulto praticados nos últimos 15 anos pela nova (in)cultural e pela martin claret (também conhecida como mata-cultura), além de dezenas e dezenas de artigos em sites e blogs no brasil e no exterior;

- cerca de 600 intelectuais brasileiros das mais diversas formações e áreas de atuação se manifestam contra as fraudes e plágios editoriais;

- o problema do plágio é debatido em vários fóruns, palestras e mesas-redondas, no rio de janeiro, são paulo, campinas, são josé do rio preto, florianópolis e outras cidades.

como começo, acho até bem razoável ;-)

23 de dez de 2008

noël


a todos os que não gostam de plágio, um pouco das cores e luzes de matisse.








imagem: matisse, maquette pour le vitrail nuit de noël, chapelle de vence

22 de dez de 2008

richter

ainda sobre o amante de lady chatterley.

num post anterior (e isso, é certo?), seguindo o binômio "contra a impunidade e pela memória", comentei um pouco esse lado da impunidade, do corporativismo entre os editores, da indiferença pelo bem cultural, do desrespeito pelo leitor, expressos com clareza meridiana pela editora record, na figura de seu coordenador editorial sérgio frança.

agora, um pouco o lado da memória.

em termos muito despretensiosos, acho que há umas coisas que merecem atenção nessa tradução de o amante de lady chatterley em nome de rodrigo richter.

pois vejam: o livro saiu por umas 10 editoras diferentes no brasil, desde 1941 até a data de hoje (mas as traduções são poucas; o que há são vários casos de licença de publicação). desde que foi publicado pela primeira vez na itália, em 1928, lady chatterley's lover (na versão final de lawrence, a chamada "terceira versão") foi proibido pela censura britânica, sendo publicado em outros países, mas na inglaterra circulando ou clandestinamente ou numa versão "expurgada" durante 30 anos. em 1959, num julgamento nos estados unidos, a suprema corte liberou a edição da obra integral no país, abrindo a brecha para novo julgamento na inglaterra, onde foi liberada em 1960.

no brasil, a civilização brasileira publica em 1956 a versão integral "inexpurgada"; em 1958 sai uma versão "autorizada"; em 1959, a versão "inexpurgada" volta em nova capa e diagramação. não comparei a versão autorizada e as versões inexpurgadas, e estou citando os créditos estampados nas três edições [referências disponíveis em ana sofia mariz, pp. 134-35].

capa de eugênio hirsch, civ. brasileira, 1959

em 1964, 1966, 1972, 1982 continuam saindo edições pela civilização, sempre em nome de rodrigo richter, como tradução do original integral. ela também aparece em 1972 como o 33o. volume da coleção "imortais da literatura universal", da abril cultural. mais tarde, essa tradução em nome de rodrigo richter passa a ser publicada pela companhia editora nacional, com edições em 1974, 1977, 1980 e 1985. (deve ter mais alguma que não localizei, pois em meu exemplar de 1980 consta "4a. edição".)

e aí segue-se um lapso bastante longo, 22 anos, até ser relançada em 2007, desta vez em formato pocket na coleção de bolso da record.

a meu ver, há aí um ponto interessante: trata-se de uma tradução com mais de 50 anos de idade, circulando em sucessivas reedições até o presente. mesmo não sendo propriamente um primor, de certa forma tem resistido ao teste do tempo e continua a cativar leitores.

existem outras traduções: por exemplo a de fernando ximenes (ediouro) e a de glória loreto sampaio (graal), que também foram publicadas pela publifolha e pela superclássicos da abril.

mas vamos seguir o fio da tradução de 1956 da civilização: pouco antes de ressurgir na record em 2007, ela cai vítima de um procedimento que tem se tornado cada vez mais frequente nos últimos 10/15 anos.

em 2005, a editora martin claret lança o amante de lady chatterley, em circulação até hoje. trata-se de cópia literal, integral e "inexpurgada" da tradução em nome de rodrigo richter.

para obter o número de isbn, a martin claret cadastrou a tradução na fundação biblioteca nacional em nome daquele "jean melville" de triste fama. já no exemplar impresso, consta um ectoplasma que atende pela alcunha de "jorge luís penha".

assim, richter tem seu venerando périplo, iniciado cinco décadas antes, subitamente interrompido de chofre, mas prossegue sua jornada e chega à record. a resposta da record, ao ser avisada do plágio, está no post e isso, é certo?, acima indicado.

então juntem tudo isso: um livro que, sob vários aspectos, é um marco da literatura mundial, passa 30 anos censurado, é editado no brasil em sua versão integral antes mesmo de cair a censura, essa tradução completa se mantém até hoje, com meio século de movimentada existência nas costas, incluindo até uma rude espoliação - a gente sente uma espécie de densidade nessa trajetória, que acho interessante e, quem sabe, importante de ser lembrada e resgatada.

pena que hoje em dia essa tradução esteja nas mãos de uma editora que parece não dar um figo seco pela memória cultural do país e não se mostra disposta a defender um patrimônio intelectual que está sob sua guarda e responsabilidade. enquanto isso, o nome de rodrigo richter continua entre as vítimas arroladas na lista deste blog.

[em tempo: tive muita dificuldade em localizar maiores referências sobre a pessoa de rodrigo richter. até comecei a pensar que podia ser um nom de plume, mais do que compreensível em vista das circunstâncias. mas às vezes pode ser também um daqueles segredos de polichinelo que só a tonta aqui não sabe... ]


veja aqui a continuação: é bastante interessante!



21 de dez de 2008

das defesas de tese aos exames vestibulares



cisco costa, do blog filisteu, noticia o recente caso de plágio no vestibular de uma universidade federal.


merece uma boa dose de reflexão.

20 de dez de 2008

20/12

imagem: calder, dtarpennation, flickr


hoje faz um ano que foi criado o assinado-tradutores. por razões que não vêm ao caso, afastei-me dele uns três meses atrás, e há cerca de dois meses ele fechou seu acesso ao público.

mas hoje não é disso que quero falar. acho bonito e importante lembrar as coisas: enquanto elas existem, a gente trabalha, cuida, vai fazendo, vai acompanhando - isso com tudo na vida, a meu ver. quando elas deixam de existir, não podem ser esquecidas.

então quero registrar aqui meu respeito pelo trabalho, atenção e cuidado que tantas pessoas dedicaram à luta contra o plágio naquele fórum. desde os quase 560 signatários do abaixo-assinado contra as fraudes editoriais, as centenas de apoios recebidos, o administrador fábio said, até as várias pessoas que se envolveram no trabalho concreto e diário na defesa de nosso patrimônio literário e cultural: saulo randow jr., ivo barroso, robert finnegan, mônica martins, jorio dauster, federico carotti, mauro gama e outros mais, pesquisando, cotejando, divulgando, amarrando contatos, angariando apoios, ligando, escrevendo, dando depoimentos na imprensa, correndo atrás das coisas.

foi de fato um trabalho coletivo num blog coletivo em prol de uma causa coletiva.

e foi digno enquanto durou, que é o que importa!

19 de dez de 2008

e isso, é certo?

imagens: gaelx, flickr; smiley, knockout

sei de pelo menos 5 editoras que tomaram providências concretas em relação aos descalabros da nova cultural e da martin claret. ótimo, é o que se espera mesmo.


assim, muito me espanta o seguinte caso. entro em contato com a editora record e digo:

"refiro-me especificamente à edição de o amante de lady chatterley, de d. h. lawrence, em tradução de rodrigo richter, originalmente pertencente à civilização brasileira e depois à companhia editora nacional, cujos direitos de publicação certamente a record deve ter adquirido, visto publicar a referida obra em sua coleção 'best-bolso'.
ora, acontece que a editora martin claret publica exatamente a mesmíssima tradução, sem qualquer retoque ou cosmético, atribuindo-a, porém, a um desconhecido 'jorge luís penha'.
quero crer que a record há de tomar as devidas providências para que tal engodo não venha a confundir o público leitor."

pois responde-me o coordenador editorial da record, sr. sérgio frança:

"Nossa empresa não firmou qualquer acordo de co-edição com as editoras mencionadas em seus emails e desconhece a utilização de nossos textos por essas editoras;
[a outra editora era a best-seller, quando pertencia à c.l.c., dona da nova cultural]
Nossa empresa aguardará qualquer iniciativa dos interessados diretos, os tradutores dessas obras, que são os titulares dos eventuais direitos, na forma da lei."

ah, então o interessado direto é o tradutor espoliado? o leitor não existe? o compromisso com a qualidade e integridade editorial não existe? o conceito de "bem cultural" é puramente fictício? o setor editorial, na visão expressa pelo referido coordenador editorial da record, pouco se importa com a qualidade e a honestidade do mercado? e nem mesmo a concorrência desleal lhe importa? o plágio não é juridicamente definido como crime?

de mais a mais, à diferença do que parece pensar o sr. sérgio frança, o interessado direto é, até onde consigo entender:
- em primeiro lugar, o leitor - o qual, no entanto, está na difícil posição de não ser legitimado juridicamente para acionar a empresa delinquente, e quando avisa o titular dos direitos de publicação (a editora) que foi lesado, ainda tem de ouvir declarações no mínimo surpreendentes;
- em segundo lugar, a própria editora - que se esperaria que tivesse ética empresarial suficiente para proteger o consumidor de seus produtos prevenindo e impedindo falsificações, e para proteger os direitos patrimoniais (nem digo os morais) da obra que está sob sua responsabilidade.

deplorável constatar que não é assim que pensa nem se comporta um dos maiores grupos editoriais do país.

em tempo: meu arrazoado se funda no pressuposto de que a record é a detentora legítima dos direitos de publicação de o amante de lady chatterley. do contrário, aí seria o fim do mundo mesmo.

18 de dez de 2008

certo!

todo final de ano, a edusp promove uma feira do livro na usp, com mais de uma centena de editoras oferecendo seus livros com 50% de desconto.

agora em novembro, estava prevista a participação daquela bizarra empresa que se diz editora, a martin claret, ao lado das editoras de verdade.

pois consta de fonte segura que a pretensa editora recebeu um comunicado dos organizadores, participando-lhe que não poderia integrar esta décima edição da feira do livro na usp.

isso mesmo, dona edusp, parabéns pelas providências. ajude a preservar a integridade e dignidade intelectual!

(só para lembrar: em setembro, na feira da anpuh/usp, também com o apoio da edusp, não tinha sido bem assim)

14 de dez de 2008

será que vou ter que explicar?

perfect circle, annihilation

fiquei traumatizada quando acharam que defendo de alguma maneira o engessamento da cultura, e quando um pobre mental-handicapped achou que minhas imagens eram gratuitas... quanto aos handicapped ones, não posso fazer muita coisa. quanto aos demais: sou pela livre circulação da cultura, o que não significa compactuar e muito menos aceitar a mutilação da história (o que significa mutilação de nós mesmos).

13 de dez de 2008

o contrário


o contrário de todas essas coisas ruins é, por exemplo, a magnífica iniciativa do viva vox, grupo
de pesquisa em filosofia clássica e contemporânea (ufs).

os organizadores aldo dinucci (viva vox) e alfredo julien (mnemosyne) lançaram agora em novembro a tradução de epicteto em edição bilíngüe comentada.

a edição está disponível para download gratuito a todos os interessados, numa iniciativa - esta sim - de democratização do conhecimento.

12 de dez de 2008

e tira diploma


que ninguém entenda isso como troça ou escárnio - pelo contrário, é muito sério. quero apenas mostrar a infiltração insidiosa e descontrolada da delinquência intelectual que está ocorrendo em nossas melhores instituições de ensino, vítimas da irresponsabilidade venal e criminosa de algumas editoras.

vou dar um último exemplo da presença da claret, agora na mais famosa universidade pública do país.

trata-se de um paciente estudo comparativo das várias traduções da poética de aristóteles em inglês, francês, italiano e português, tendo o original grego como base.

pietro nassetti se faz presente na referida tese com sua "recente tradução para o português" (2003), porque, segundo o autor, embora não goze do crédito de outras traduções mais reputadas, por vezes oferece "soluções bastante interessantes".

bom, essa suposta tradução de nassetti da poética de aristóteles, até onde sei, é uma apropriação da tradução feita por antonio pinto de carvalho a partir da versão francesa art rhétorique et art poétique, de jean voilquin e jean capelle, pela garnier, 1944. a tradução de antonio pinto de carvalho foi publicada pela difel em 1958, teve várias edições até 1964, e desde então tem sido constantemente reeditada pela tecnoprint e ediouro.

de mais a mais, não é que antonio pinto de carvalho fosse propriamente um lépido e saltitante tradutor trafegando entre pinóquio, frankenstein, werther, quincas borba, as flores do mal etc., pois era um filólogo e docente universitário que preferia trabalhar especificamente com obras de filosofia e literatura clássica. admira-me que tenha sido ignorado ou preterido em favor de uma abominável ficção.

repito a pergunta feita na vulpina alma: não se pesquisam os materiais de trabalho neste país? provavelmente a resposta será a mesma, e acho que os gregos tinham razão - é pelo letes que se chega ao hades.

imagem: www.virtualformaturas.com.br

11 de dez de 2008

claret vai à escola

[eu de beca]
e há quem escreva e defenda uma empenhada tese de doutorado na universidade federal do rio de janeiro achando que a fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos de kant realmente foi traduzida por um tal leopoldo holzbach.

aliás, parece ser um best-seller escolar da claret, tantas são as edições e reimpressões. (digo escolar, pois não consigo imaginar a moçada tendo o mestre do idealismo transcendental como companhia favorita em final de semana.)

este volume traz também o breve artiguinho de kant sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade. não saberia discorrer sobre ele - mas, como leiga, acho um texto lindo, atualíssimo e delicioso de ler [verdadeiro tradutor: floriano de souza fernandes, pela ed. vozes].

a ironia - que neste caso, infelizmente, não poderia deixar de ser barata - é a implícita paráfrase claretiana sobre um suposto direito de plagiar por amor ao bolso e desamor à humanidade.


imagens: recantodaspalavras.wordpress.com e smiley, faint.

10 de dez de 2008

ó vulpina alma sem pejo!


não bastam as trapalhadas claretísticas na fbn/isbn com os machados, alencares, eças, gonzagas e bocages, que compõem um capítulo de bufonerias à parte e ilustram a própria definição do grotesco.

todos sabem que a claret não é amiga dos direitos autorais, e não é muito fã do respeito pelos leitores. isso significa que ela trabalha basicamente com obras cujos originais caíram em domínio público, mas não se importa muito com as traduções (que na grandíssima maioria dos casos não estão em domínio público - daí a mutreta de copiá-las e tascar um nome qualquer, para burlar a legislação, economizar lá seus tostões e cultivar a ignorância do leitor).

bom, mas HÁ casos também de várias traduções em domínio público: por exemplo, as traduções feitas por bocage, por machado de assis, por eça de queiroz, por manuel odorico mendes, pelos viscondes de castilho e azevedo, e por aí afora.

só que nem essas escapam: já comentei o caso da tradução do dom quixote, classicíssima, esplendorosa, dos dois viscondes supracitados, que está em domínio público faz mais de 60 anos, e que mesmo assim a claret teve a impavidez de cadastrar na fbn/isbn em nome de jean melville. só fez novo cadastro agora recentemente, com os devidos créditos aos viscondes.

a tradução que eça de queiroz fez de as minas do rei salomão, que também está em domínio público faz quase 40 anos, continua circulando até hoje, pela martin claret, em nome de jean melville e cadastrada no isbn/fbn em nome de pietro nassetti. igualmente insólito e de tremenda má-fé é o caso da tradução da ilíada, outro grande clássico das traduções em língua portuguesa, da lavra do maranhense manuel odorico mendes (1799-1864), e que circulou pela claret em nome de alex marins até data recente, quando o editor por alguma razão qualquer mandou a equipe dele devolver o crédito ao espoliado odorico.

e tem que a martin claret, através de licitações públicas, abastece escolas com seus despautérios. será que ela acha mesmo que não faz mal plagiar, e que decerto tanto faz para os aluninhos, para o ensino público (e privado), se a tradução é de A ou B? será que ela acha que os professores sabem das falcatruas, e que eles também dão de ombros?

mas me digam, sinceramente: desse jeito como é que alguém vai poder reclamar que nossos alunos têm formação fraca, insuficiente, e chegam à universidade com enormes lacunas? pois se as letras, o trabalho intelectual, a existência de um imenso mundo histórico-cultural parecem estar se tornando conceitos meio abstratos e antiquados?

e é assim que encontramos esforçada tese de pós-graduação sobre teoria e tradução da ilíada, num departamento de línguas clássicas e vernáculas de uma universidade federal brasileira, que traz pacientes cotejos entre o original em grego, as propostas de tradução do próprio autor, de um classicista britânico (a. t. murray), de haroldo de campos, de carlos alberto nunes e de alex marins!

mas como é isso? simplesmente ignora-se a existência de alguém chamado manuel odorico mendes? e nem para se dar conta de que alex marins não existe?! e que a edição da claret é um plágio da obra de tradução de odorico?! não se pesquisam os materiais de trabalho neste país?

bom, mas por que haveriam de pesquisar? pois se o que os alunos de primeiro e segundo grau lêem na escola, tanto faz se foi traduzido por eça de queiroz ou pietro nassetti, por monteiro lobato ou jean melville, por boris schnaiderman ou alex marins... e quando essa meninada cresce e vai à faculdade, como é que vai saber que existe uma bagagem, uma tradição, uma história das letras nacionais que passa pelas traduções, se não aprendeu isso na escola? e, nesse meio tempo, quantos anos esses jovens passaram lendo os "livros-clipping" da claret, entre a puberdade e a idade adulta, no segundo grau e na faculdade?

sr. claret, não tenho palavras para expressar meus sentimentos em relação à sua imensa e contínua contribuição para a desmemória e incultura nacional. cabem-lhe à luva as palavras homéricas [na tradução de odorico!] que dão título a este post.

tenho certeza de que muita gente se entristece - de minha parte quase choro.

imagem: www.afleurdepeau.com

9 de dez de 2008

fiz que fui, mas acabei não fondo


essa história de a imprensa "descontinuar" notícias é uma coisa... a gente fica meio no ar, pensa que a última notícia é a que está valendo, e depois nem sabe mais o que aconteceu ou deixou de acontecer.

pois em 24 de setembro do ano passado a grande imprensa divulgou a nota conjunta da objetiva (santillana-prisa) e da martin claret, anunciando a intenção da objetiva em adquirir 75% da claret.

só que aí veio aquele perequetê dos plágios da claret em cima do boris schnaiderman, do modesto carone, da maria helena rocha pereira, do jamil almansur haddad, das notas do ovídio da ed. hedra.

em janeiro e final de fevereiro deste ano, a imprensa ainda divulgou que as negociações estavam em andamento.

aí nunca mais ouvi falar nada. tive uma notícia aqui, outra ali, sobre acordos da claret com editora lesada, de retirada de títulos fraudados etc. (que na época divulguei no antigo blog assinado-tradutores).

agora fui informada nestes últimos dias que a negociação se interrompeu e que a objetiva desistiu da compra. talvez a razão tenha sido o desgaste da imagem da claret. eu, de minha parte, como humilde cidadã preocupada com o tremendo lesa-patrimônio intelectual e torcendo pela integridade editorial neste país, acho que a razão mais forte deveria ser, não o desgaste da imagem - que, aliás, não é gratuito nem se deu por acaso ,- e sim o catálogo tão profundamente bichado da martin claret. já pensaram que encrenca seria a objetiva arrumar tudo aquilo?!

então, para concluir, parece que a imprensa "descontinuou" a notícia simplesmente porque a negociação não se consumou.

nunes que me empreste sua frase e me permita a adaptação ;-)

8 de dez de 2008

ah, mas assim não vale II

e que ninguém me diga que a claret mantém nas livrarias o discurso do método com seu indescritível nassetti só porque tem junto as regras para a direção do espírito, e que o discurso do método que ela lançou agora vem com as meditações, mas não com as regras, e que é por isso que ela mantém o inconcebível nassetti! e isso é lá razão? só se for para faturar dobrado.


fnac:

DISCURSO DO METODO REGRAS PARA A DIRECAO DO ESPIRITO -
OBRA - PRIMA DE CADA AUTOR
RENE DESCARTES
MARTIN CLARET
ISBN: 8572324089

cultura:
DISCURSO DO METODO MEDITAÇOES
Coleção: A OBRA PRIMA DE CADA AUTOR
Autor: DESCARTES, RENE
Editora: MARTIN CLARET

cultura:
DISCURSO DO METODO/REGRAS PARA DIREÇAO DO ESPIRITO
Coleção: OBRA-PRIMA DE CADA AUTOR
Autor: DESCARTES, RENE
Editora: MARTIN CLARET

travessa:


TÍTULO: DISCURSO DO METODO / REGRAS PARA A DIREÇAO DO ESPIRITO
ISBN: 8572324089
COLEÇÃO: A OBRA-PRIMA DE CADA AUTOR
ANO EDIÇÃO: 2000
AUTOR: Rene Descartes


complicado. vai ser difícil acreditar. afinal, se é de pequenino que se torce o pepino, que tolice supor que agora é que ela iria mudar...

ah, mas assim não vale!


começa que, no meu mundo, até prova em contrário as pessoas falam a verdade e existe algo chamado boa-fé.

então vi que a mc (chamada entre alguns círculos de "mata-cultura") estava começando a relançar títulos que ela havia fraudado em sua coleção com os nassettis e marins da vida durante quase 10 anos, e agora vinham em novas traduções.

como meu interesse é, digamos, "cívico" (sou do tempo em que a gente tinha aula de "educação moral e cívica" na escola), não hesitei em divulgar a notícia. apontando as insuficiências, dando sugestões etc., mas também saudando os novos ventos na mc.

pois é, começa por aí. então continua que não vi a nova edição, não conheço o sr. paulo sérgio brandão, não encontrei nenhuma referência no google a traduções suas, a não ser o próprio elogio da loucura da mc, mas confiei e continuo a confiar que se trata de uma tradução legítima. quanto à qualidade e méritos do referido trabalho de tradução, não compete a mim avaliá-los, e sim aos conhecedores e estudiosos da obra de erasmo. mas todos sempre torcemos pelo melhor, claro, e ninguém gosta de ver circo pegar fogo.

mas aí, como sou meio meticulosa e gosto de saber onde estou pisando, fui passear por algumas livrarias virtuais. comecei pela fnac, e tomei um susto:
ELOGIO DA LOUCURA
ERASMO DE ROTTERDAM
MARTIN CLARET
ISBN: 8572324046 [pois este isbn é o do plágio; a nova ed. é a 754-1]
então fui para a livraria da travessa, e pimba:

DADOS DO PRODUTO
TÍTULO: ELOGIO DA LOUCURA
ISBN: 8572324046
IDIOMA: Português.
ENCADERNAÇÃO: Brochura Formato: 11,5 x 18 126 págs.
COLEÇÃO: A OBRA-PRIMA DE CADA AUTOR
ANO EDIÇÃO: 2000

não acreditei, e fui para as livrarias curitiba, e pimba de novo:

Elogio da Loucura - 37 - Martin Claret
Edição: 1
Editora: Martin Claret
Ano: 2000
Páginas: 126

bom, aí fica fácil, e é meio uma comédia ou, melhor, uma farsa.

acho que não ensinaram ao sr. claret que não dá para ter tudo na vida, e não dá para servir a dois senhores ao mesmo tempo, nem dá para querer o melhor dos dois mundos.

ou bem a editora faz uma nova edição de verdade, honesta, íntegra, válida e legítima, e tira de circulação sua tranqueiragem anterior que tanto tem contribuído para a franca deterioração de qualquer mínimo patamar de decência cultural neste país, ou bem continua com seu império da fraude próspero e vicejante.

agora, querer faturar dos dois lados, aí complica e sinceramente entendo isso como dupla fraude.

sinto-me desobrigada de parabenizar a editora pelos supostos ventos renovadores. na verdade, anda parecendo que é mais um capítulo da esperteza nacional, para enganar os tolos como eu. se quiserem, eles é que provem o contrário, e sem cinismo.

imagens: wolfinghour.blogspot.com; smiley, sadclown

acaba até ficando bonito para o sr.

sei lá, dizem: o ótimo é inimigo do bom. e a moral implícita é que não adianta berrar demais.

por outro lado, meu coração fica miudinho, apertadinho, quando vejo, numa olhada super-rápida no google, teses, artigos, ementas de cursos, acervos de bibliotecas, concursos, licitações para o elogio da loucura daquele nassetti.

será que o sr. claret não podia aproveitar os novos ventos que sopram em sua editora e começar a repor os exemplares fraudados por exemplares corretos? não podia aproveitar e se desculpar com os estudantes de graduação e pós-graduação que usaram essa edição da claret em suas teses e monografias? não podia fazer um recall geral e errata pública durante três dias em jornais de grande circulação nacional?

vá fazendo um por um, sr. claret. comece com o elogio da loucura que o sr. já relançou em 2008 com tradução que parece de verdade - o sr. deve saber quantos exemplares vendeu das edições anteriores, e nem todo mundo vai se dar ao trabalho de atender a seu recall. que uns 50% das pessoas façam a troca, e olhe lá - ainda assim o sr. ficou no lucro, mas pelo menos desfaz o mal que fez, antes tarde do que nunca. e divulgue errata pública, porque aí as pessoas podem corrigir em seus exemplares, os professores em suas ementas, os bibliotecários em suas fichas etc. acaba até ficando bonito para o sr.

http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6500&p=2
http://www.lahes.ufjf.br/publicacoes/Coloquio2%20PDF/Daniel%20Eveling%20da%20Silva.pdf
www.fundamentalpsychopathology.org/8_cong_anais/MR_364c.pdf -
www.revistaea.org/artigo.php?idartigo=284&class=13 –
www.unioeste.br/prppg/download/pos_nao_iniciados/Esp_cvel_FundEducacao.pdf -
http://www.colegionotredame.com.br/Listas/EM/Lista%20de%20material%203ª%20série%252...
www.lle.cce.ufsc.br/congresso/trabalhos_literatura_espanhola/Veronica%20Rangel%20Barreto.doc
www.portalmedico.org.br/revista/bio11v1/artigo4.2.htm
www.alb.com.br/anais16/sem07pdf/sm07ss10_10.pdf
200.17.209.5:8000/cgi-bin/gw_42_13/chameleon.42.13a?host...ufpr&conf...
www.metodistademinas.edu.br/proreitoriaacademica/pesquisa/P8.doc
www.fiscosoft.com.br/main_index.php?home=home_artigos&m=_&nx_=&viewid=200837
www.unama.br/concurso_publico/provas_gabaritos/provas_tucurui/professor_lingua_portuguesa.pdf
www.rsirius.uerj.br/boletim2005/Boletim_9.htm
www.outrostempos.uema.br/curso/adriana.doc
www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2007/resumos/R0452-1.pdf
www.portalmedico.org.br/revista/bio11v1/artigo4.pdf
www.alumac.com.br/biblioteca.htm
www.ambito-juridico.com.br/pdf/index.php?id=813&titulo...1
www.biblioteca.ucg.br/acervo/Pesquisa.aspx?ASSUNTO=MEDIEVAL
www.unimeo.com.br/biblioteca/pdf/ref_letras.pdf
publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/alceu_n16_Campos.pdf
renascimento.clio.pro.br/biblioteca.
www.nemed.he.com.br/acervo_doc.htm - ufpr
www.orion.med.br/yogace/ytsbibli.htm
http://www.unicap.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=118
bdtd.bczm.ufrn.br/tedesimplificado//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=76
www.cefetmg.br/info/downloads/PrEletronico005.2005LIVROS.pdf
www.projetoradix.com.br/arq_artigo/teses/tesemarcolino.pdf
libdigi.unicamp.br/document/?view=vtls000325452
teses.ufrj.br/ip_d/fatimarochaluizvianna.pdf
bibtede.ufla.br/tede//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=9
http://ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=285
ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=1019
coralx.ufsm.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=516
coralx.ufsm.br/tede/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=515
www.ciencialit.letras.ufrj.br/trabalhos/2007/celiamattos_domquixoteaprocura.pdf

37 livros encontrados para: Editora: martin claret; Titulo: +elogio +da +loucura; Autor ou titulo: +elogio +da +loucura; 0,0243 segundo, na estantevirtual

o sr. vê: 37 exemplares, é tão pouquinho... mas estão lá. ofereça a troca, ué, por que não?

e assim vai, de um em um, sistematicamente. pedindo desculpas, repondo o produto, e assim por diante. aí fica bom, não concorda?


imagem: www.recantodossonhos.com.br