31 de mar de 2009

como pedir naturalização e cidadania na repartição brasileira dos livros

ao que parece, o autor de a ideologia alemã em nossa digníssima Biblioteca Nacional passou a ser, mais plausivelmente, um alemão nascido em 1818 chamado karl marx.

Prezada Senhora Denise Bottmann

Agradecemos sua mensagem e colaboração, e comunicamos que a correção do nome do autor já foi efetuada em nossa base de dados.

Atenciosamente
Angela Monteiro Bettencourt
Coordenadora de Informação Bibliográfica
Fundação Biblioteca Nacional

imagem: http://aguadouro.blogspot.com

mais chacalices


1. o luso josé augusto pereira da silva traduziu a prosa escolhida de púshkin do russo para o português pela editora russa ráduga (1988). dessa seleta faz parte a filha do capitão.
alguém pode me informar como é que a martin claret se acha no direito de tascar em sua edição: "copyright desta tradução: editora martin claret, 2006"? por acaso terá comprado os direitos da ráduga? ou sequer adquirido licença de publicação?

2. o gaúcho e cosmopolita álvaro moreyra (1888-1964) tinha um nome longuíssimo: Álvaro Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues Moreira da Silva. ficou só com o "moreira", e trocou o "i" por um "y" que seria uma espécie de símbolo dos outros sobrenomes. foi um escritor e literato bastante conhecido, e uma época (1959) até virou imortal da academia brasileira de letras.

ele traduziu a dama de espadas de púshkin, que foi publicada pela brasilia aeterna em 1945.

alguém pode me explicar como é que a martin claret se acha no direito de tascar em sua edição: "copyright desta tradução: editora martin claret, 2006"? com quem terá firmado algum contrato sobre os direitos de publicação?

mas como ela é associada à abdr e ostenta esse sinistro dedão na primeira página de todos seus plágios e contrafações, então deve achar que pode.


imagens: logo da raduga; selo da abdr em www.abeu.org.br

30 de mar de 2009

outros ares

deu numa bela resenha sobre três lançamentos de sófocles (link para assinantes uol ou fsp):

"Os sinais de vitalidade na extensão e na qualidade do que se traduz vêm superando os tradutores vexaminosos
FÁBIO DE SOUZA ANDRADE
COLUNISTA DA FOLHA

QUANDO SE fala em traduções, o leitor brasileiro tem cada vez menos do que se queixar. O mercado do livro ainda comporta preguiça ou vigarice ocasional, como no caso recente da Nova Cultural, editora que alimentou a plágio descarado toda uma coleção, mas nada disso passa mais batido. Se não chegamos a rivalizar com tradutores onívoros, como os franceses ou os americanos, aos poucos deixamos de fazer feio, e os sinais de vitalidade na extensão e na qualidade do que se traduz vêm superando os vexaminosos."

tomara, fábio, tomara!

imagem: o são jerônimo de dürer, em http://cantarapeledalontra.blogspot.com

o mito do preço, o preço do mito

 apresento outro aspecto do mito do preço claretiano, e o preço desse mito no mercado editorial.

baseio-me em dados do setor - importante lembrar que custo de produção é uma coisa e preço de venda é outra.

"A tradução corresponde, em média, a 30% da composição de custos de um livro.
custos:
gráfica e papel: 50%
editoração (capa, paginação e arquivo): 20%
tradução: 30%

No caso de obra em domínio público, não se paga direito autoral, mas, caso o original não esteja em domínio público, deve ser incluído um percentual de 20% sobre o custo total. Na realidade é 10%, mas como o livro é vendido com 50% de desconto para os livreiros, os 10% do preço total correspondem a 20% da metade. Isto quer dizer que quem rouba uma tradução tem um custo 30% menor do que os seus concorrentes.

Daí o livro é vendido a R$10,50 e todo mundo acha que é um grande mérito, mas na verdade a editora já teria lucro se pagasse pela tradução, imagine pirateando."

ditto.

uma ilustração concreta: suponha-se esse período de 10 anos desde que a claret começou sua coleção bandoleira, "a obra-prima de cada autor". suponha-se esse mesmo período de 10 anos numa editora honesta de porte médio, com, digamos, cerca de 400 traduções nesses 10 anos, na base média de 250 laudas de tradução por livro, a um valor médio de R$ 20,00/lauda. isso corresponde a um custo de R$ 2.000.000,00 em traduções.
no caso das editoras que roubam as traduções, essa "economia" financeira remunerada a juros de mercado, num prazo médio de 5 anos, vai dar o quê? uns 3 milhões?

e como já mostrei, essa redução de custos por não se pagar a tradução NÃO é repassada para o consumidor, muito pelo contrário. para EMPATAR com o preço de venda do exemplo da paz e terra (mas não com a qualidade nem com a idoneidade da edição), a martin claret teria que vender seu exemplar fraudado a R$ 5,40 (dedução de 30% do custo de tradução sobre os R$ 8,00 do preço de venda da paz e terra).
ou para EMPATAR com o preço (mas não com a qualidade nem com a idoneidade da edição) do rei lear da lpm, de millôr fernandes, a martin claret teria que vender sua edição fraudada a R$ 7,00.

e ainda dizem que os livros da claret são baratos?

imagem: www.titiwessel.com.br

29 de mar de 2009

marx é brasileiro, sabia?

passei meses ouvindo as desculpas esfarrapadas da Fundação Biblioteca Nacional, dizendo que as fichas cadastrais da agência de isbn podem ser absolutamente malucas, pois os dados registrados não são de responsabilidade dela.

já as fichas catalográficas feitas pelos bibliotecários da Biblioteca Nacional, essas sim, são fidedignas, porque se baseiam no trabalho de catalogação da própria biblioteca.*

então isso quer dizer o quê?

Catálogo de Livros (Pop: 486852)
Autor:
Medeiros, Karl Marx de, 1952-
Título original: [Die deutsche Ideologie.] Português
Título / Barra de autoria:
A ideologia alemã : Feuerbach, a oposição entre as concepções materialistas e idealistas / Marx & Engels ; tradução: Frank Müller. -
Imprenta: São Paulo : M. Claret, 2006.
Descrição física: 147p. ; 19cm. -
Série: (A obra-prima de cada autor ; 192)
Notas:
Tradução de: Die deutsche Ideologie.
ISBN: 8572322892 (broch.)
Assuntos:
Feuerbach, Ludwig, 1804-1872. Materialismo dialético. Socialismo.
Entradas secundárias:
Engels, Friedrich, 1820-1895.
Classificação Dewey:Edição:
335.4 22
Indicação do Catálogo:
VI-411,7,36
Registro Patrimonial:
1.135.385 DL 07/03/2006
Sigla do Acervo:
DRG

não acreditei quando vi - afinal, era uma ficha catalográfica, coisa de respeito! então cliquei no autor "karl marx de medeiros". sim, a sra. biblioteca nacional confirma. foi medeiros quem escreveu a ideologia alemã, imagino que por volta dos anos 1980 (afinal, informa-nos a ficha catalográfica da referida dama, ele é um brasileiro nascido em 1952). puxa vida, fico comovida com os esforços de incultura dos cadastradores do ISBN e dos bibliotecários da BN. e agora, qual será que vai ser a desculpa?

Catálogo de Livros (Pop: 486852) Índice : Autores - Pessoas
1 Medeiros, Karl Marx de,
A ideologia alemã : Feuerbach, a oposição entre as concepções materialistas e idealistas /
2006
M. Claret,
VI-411,7,36

2 Medeiros, Karl Marx de,
O papel oposicionista do movimento democratico brasileiro-MDB : (1976-1977) /
1985
[s.n.],
VI-176,1,21

3 Medeiros, Karl Marx de,
Passos da teoria histórica /
1998
s.n.],
II-5,1,39

4 Medeiros, Karl Marx de,
Metodologia científica : nas pegadas da ciência /
1998
s.n.],
I-128,3,17

no fundo, acho que, no quesito "respeito pelo leitor e pelo cidadão", claret, agência do isbn, bn, fbn, acabam se equivalendo - nassetti traduz machado e o marquinho psicografa com engels.

*"Todas as informações que compõem este cadastro são fornecidas pelos editores mediante preenchimento de planilha e envio de 'boneca' da página de rosto do livro. A Agência Brasileira do ISBN apenas transcreve para o seu cadastro os dados fornecidos pelos editores que são os responsáveis por estas informações.
Os registros catalográficos elaborados pelo corpo de bibliotecários da Biblioteca Nacional a partir da obra impressa estão de acordo com padrões internacionais de catalogação e refletem a função da Biblioteca Nacional como Agência Bibliográfica Nacional" - Ângela Monteiro Bettencourt em e-mail enviado em 16/05/2008


imagem: http://www.gm-volt.com/

28 de mar de 2009

o dia do revisor

embora essas datas sejam meio estranhas - o dia das mães, o dia da criança, o dia do bibliotecário, o dia do tradutor - hoje é O DIA DO REVISOR.


parabéns a esse profissional cujo trabalho tantas vezes fica oculto e, no entanto, é da maior importância. parabéns pela paciência, pela dedicação, pelo conhecimento da língua, pelo amoroso acompanhamento das letras do texto.

imagem: www.laurahughesstudio.com

27 de mar de 2009

raposices e chacalices

entre as chacalices que existem em alguns nichos editoriais, há, além do plágio com fins comerciais, um outro ilícito chamado "contrafação" ou reprodução não-autorizada com finalidade de lucro. aí a editora até dá os créditos corretos, mas não detém os direitos de exploração comercial daquela obra. ela apenas pega o texto, publica e fatura, sem se importar com o que é de quem.

a martin claret, além de publicar uma quantidade espantosa de plágios de tradução, também gosta de umas contrafaçõezinhas, com o requinte adicional de reivindicar para si o copirraite da apropriação. seguem alguns exemplos.

pragmatismo, de william james. a tradução é de jorge caetano da silva, a edição original saiu pela extinta lidador em 1967, e depois em várias edições no volume 40 dos pensadores da abril cultural. a martin claret estampa na página de créditos o nome correto do tradutor e declara: "copyright desta tradução: editora martin claret, 2006". duvido e faço pouco. e só mudarei de idéia se aparecer algum contrato de cessão de direitos assinado por jorge caetano da silva em favor da martin claret. em tempo: essa edição está com "chapa fria" na fbn/isbn, com tradução cadastrada em nome de pietro nassetti. (atualização: o cadastro foi corrigido após determinação do MPF)

lorde jim, de joseph conrad: já comentei esta contrafação da martin claret. até onde sei, a sra. elena quintana, que detém a guarda dos direitos de mário quintana, não vendeu nem cedeu os direitos de tradução de seu tio à martin claret. e, também até onde sei, a editora globo ainda é a detentora dos direitos de exploração comercial dessa obra. portanto, afirmar "copyright desta tradução: editora martin claret, 2007" não procede. afora a "chapa fria": está registrada na agência do isbn como tradução de pietro nassetti. (idem)

a letra escarlate, de nathanael hawthorne, em tradução de sodré viana. não sei o ano da primeira edição pela josé olympio, mas meu exemplar é da 2a. edição, 1948. mesmo caso - duvido e faço pouco que a afirmação "copyright desta tradução: editora martin claret, 2006" seja legítima. e essa edição também tem "chapa fria": foi registrada na agência do isbn como tradução de pietro nassetti. (idem)

robinson crusoe, de daniel defoe, em tradução de flávio poppe de figueiredo e costa neves (jackson, 1947). na claret, o primeiro está como flávio p. de f. até achei que era algum trocadilho infame com pdf. também duvido e faço pouco que seja verdade: "copyright desta tradução: editora martin claret, 2007". não consta tradutor no registro do isbn/fbn.

a morte de ivan ilitch e senhores e servos, de tolstói. mais dois textos que boto a mão no fogo que são contrafações: como é que pode existir o "copyright desta tradução: editora martin claret, 2007", feita por gulnara lobato de morais pereira (sobrinha e nora de monteiro lobato) nos anos 1950? quero ver o contrato de licenciamento dos direitos de uso. também sem tradutor na ficha do isbn.

não basta a contrafação, ainda tem de inventar um copirraite que não engana nem criança? aí já é somar o insulto à injúria, como dizem os americanos.

imagem: myspace.com

mc, ml, mp, lpm

esta semana dei entrada em outra petição junto ao ministério público federal. desta vez foi expondo dois plágios da martin claret, o lobo do mar e o livro da jângal, traduzidos por monteiro lobato.

a editora lpm, que tem demonstrado uma seriedade e integridade a toda prova e apoia a campanha pela moralização editorial do país, publicou como notícia de destaque em seu site minha singela petição ao ministério.

agradeço, dona lpm. quiséramos nós metade das editoras do país mostrassem a mesma honradez.

imagem: memória histórica, gaelx, flickr

26 de mar de 2009

o preço do mito

ainda sobre o mito do preço baixo das edições da claret.

joana canêdo deixou um comentário sob a listinha dos plagiados. destaco um trecho: "essas 'traduções' da Claret ... trazem erros crassos que deturpam o sentido original do texto ... esses livros, por mais baratos que sejam, não valem o que custam, já que trazem textos inexatos, mal escritos, e com erros conceituais".

estou me delongando sobre o tema para chegar ao que, para mim, é o fundamental. temos que, independente do nome do tradutor:
1. está demonstrado que as edições da claret não são as mais baratas.
2. foi bem lembrado que não são edições de conteúdo fidedigno.

o terceiro ponto, não sei bem como colocar. é meio difuso. uma vez falei em "bagagem cultural", mas a metáfora de "bagagem" me faz pensar numa mala que você abre e vai pondo coisas dentro, e que depois carrega consigo. não é isso que quero dizer. para mim, é mais uma espécie de lar no mundo, onde posso ter referências e me sentir mais ou menos à vontade. vou dar um exemplo, pegando justamente o mito do preço III.

acho sensacional que o brasil disponha de uma tradução das regras do método sociológico feita por maria isaura pereira de queiroz. tudo bem, não se precisa saber quem é, em termos intelectuais, maria isaura ou sequer quem foi e continua a ser durkheim para o mundo do pensamento. tem lá o livro, o professor manda ler, a gente vai e lê. que chatice. não se entende nada, ou é árido demais, em todo caso é uma tarefa escolar, bate-se o cartão e pronto.

outro dia, alessandro martins, do livro e afins, pegou muito bem esse ponto. ele não é novinho, mas também não é velhinho. e dizia: tive de estudar a escola de frankfurt na faculdade, sabia que era importante, mas detestava aquilo, só que uma passagem do benjamin me pegou, e vejam só o que achei nesses dias, aquele trecho do benjamin sobre o anjo da história, que coisa linda.

então é meio isso. você é jovem, tem que ler umas coisas, lê por obrigação. dez, quinze anos depois, você topa com aquilo de novo, e tem um clique, faz um sentido que não fazia antes, é legal. você reconhece, e você se reconhece, e você se reconhece no mundo. você reconhece porque conheceu antes, você se reconhece porque você lembra aquilo e se lembra naquilo ou com aquilo, e você se reconhece no mundo porque aquilo continua a existir e de alguma maneira agora faz parte de você também, e você se sente um pouco mais "aconchegado", um pouco mais referenciado, e ao mesmo tempo um pouco mais ligado ao que está fora de você, tudo isso meio junto ao mesmo tempo, e de maneira muito difusa e discreta.

você lê as regras do método. nem vê quem traduziu ou deixou de traduzir. mas no resumo ou na prova ou de alguma outra maneira aquele nome "maria isaura" fica vagamente, indistintamente na tua cabeça. dois semestres depois, você tem uma cadeira tediosíssima sobre, sei lá, relações de tipo patriarcal no brasil, e tem lá uma referência a um livro, mandonismo local, maria isaura. você cumpre os créditos, tira A, B ou C, passa, tudo bem. nesse meio tempo você vai fazendo outras cadeiras, e pode até ser que você acabe gostando por acaso de alguma coisa. você vai, faz alguma dissertação de final de curso ou vai para o mestrado, resolve estudar a disciplinarização social ou coisas que tais. aí você topa com uma socióloga brasileira que apontava a importância do discurso científico para a repressão social, e acha interessante. vai ver, é maria isaura pereira de queiroz.

e você, mesmo que não conheça a obra dela, não se sente totalmente perdido ou meio idiota por nunca ter ouvido falar nela, sente uma espécie de longínqua familiaridade que te ajuda a raciocinar melhor, a ficar mais à vontade no mundo do pensamento, coisas assim. e no final do dia você se sente feliz porque o dia rendeu, amanhã você vai ver aquele outro ponto, ou vai reler o que anotou hoje etc. você se sente grato ao mundo por ele não ser demasiado inóspito. claro que nem vai perceber muito como se sente e menos ainda atribuir teu estado de espírito a ter reconhecido o nome de maria isaura ou o que seja. você apenas vai passar bem o dia, e se sentir satisfeito ao final dele. e talvez trinta anos depois você fique impressionado com o alto nível das pessoas que traduziam as obras que você lia na adolescência, e se dê conta retrospectivamente que afinal foi um bom acaso você ter escolhido aquele volume, e não um outro de um tal pietro nassetti, que te daria, para tua vida, para tua biografia íntima, para teus pensamentos, apenas decepção ou, na melhor das hipóteses, nada.

pois tudo soma. o durkheim da maria isaura que você leu aos 18 anos no primeiro semestre de curso, o mowgli do monteiro lobato, o baudelaire do jamil almansur, a eneida do odorico mendes que vc achou do outro mundo de tão difícil, mas tão encantadoramente exótico, o rimbaud do ivo barroso, o adorno/horkheimer do guido almeida, ou até a hannah arendt da denise bottmann :)) - você não percebe, você só lê. mas o mundo vai revelando uma certa consistência, e você não se sente perdido demais, você tem referências, são soltas, avulsas, milhares, milhões de fiapinhos, e elas se somam, se juntam às músicas que você conhece, às conversas que você tem, às coisas que você faz, vão sendo você, e você se sente bem. é uma espécie de identidade íntima. acho isso legal.

para mim, o preço do mito claretiano é perder ou não permitir criar referências. parece-me um preço altíssimo, e que destrói qualquer amor-próprio.

imagem: chiho aoshima, creatures, http://www.blumandpoe.com/

o mito do preço III

enfim, para encerrar a questão, um caso em que a edição fraudada da claret é efetivamente mais barata do que a edição legítima da outra editora:

émile durkheim, as regras do método sociológico
tradução atribuída a pietro nassetti
R$ 10,50

se a questão é preço, não vejo por que comprá-la se posso comprar a edição da companhia editora nacional, na famosa tradução de maria isaura pereira de queiroz, a partir de R$ 4,90 na estante virtual, ou a edição dos pensadores da abril, na tradução de margarida garrido esteves, que de quebra traz vários outros textos de durkheim, a partir de R$ 13,50, também na estante virtual.

ou ainda se posso baixá-la gratuitamente na internet, a custo zero.

resumindo, não vejo por que hei de justificar as ishpertezas dos outros e dar meu suado dinheirinho por edições ilícitas, que ainda por cima me deixam mais pobre em informação e cultura.

q.e.d.

o mito do preço II

comentei no post anterior que não abordo questões comerciais, mas que fico espantada com um argumento frequente, a saber, que as edições claretianas teriam tanto sucesso por serem as mais baratas na praça. considero essa questão do suposto preço baixo da claret um argumento falacioso, que faz parte de sua máquina de propaganda e não corresponde à realidade.


martin claret
tradução: pietro nassetti
R$ 10,50

maquiavel, o príncipe
paz e terra
tradução: maria lúcia cumo
R$ 8,00

maquiavel, o príncipe
tradução: roberto grassi
bertrand brasil na estante virtual
R$ 5,00

maquiavel, o príncipe
download gratuito no portal domínio público
R$ 0,00

o mito do preço I

ontem um gentil visitante comentou que o baixo preço dos livros da martin claret era um fator que devia ser levado em conta. deixei minha resposta sob seu comentário.

não costumo abordar esse lado comercial, mas é um argumento que se repete com tanta frequência que merece ser esclarecido. creio que é falacioso, e faz parte da máquina de propaganda claretiana. acho mais fácil mostrar do que discorrer:


REI LEAR, OKING LEAR
William Shakespeare
Tradução de Millôr Fernandes
R$ 10,00



REI LEAR - William Shakespeare
R$ 10,50
[não consta o tradutor no site, mas em meu exemplar consta "pietro nassetti"]


Rei Lear - William Shakespeare
R$ 4,00 Círculo do Livro, 1987 - estante virtual
O Rei Lear - William Shakespeare
R$ 4,00 LPM, 1997 - estante virtual
download gratuito no portal domínio público do mec
tradução de carlos alberto nunes
R$ 0,00
então, até onde entendo, a edição da martin claret, além de ser a pior, por cultivar a ignorância do leitor, por detonar com nosso patrimônio cultural, não é de forma alguma a opção mais barata.

imagens: www.lpm.com.br; www.martinclaret.com.br

25 de mar de 2009

as voltas que o mundo dá

costumo contatar diretamente todas as editoras, entidades, instituições que cito aqui no nãogosto. além disso, elas estão em sua maioria incluídas na mala direta que envio a cada 7-10 dias, com resumo das notícias, para umas mil pessoas. se a mensagem cai como spam, se as pessoas deletam, se leem ou não leem, aí já não é comigo. considero que minha parte - informar - estou fazendo.

ao longo desse ano e meio de briga contra o plágio, tive alguns contatos esporádicos com a nova cultural, cobrando, tentando me informar das providências etc. a editora sempre manteve uma atitude bastante altaneira e autossuficiente, e em dado momento até um pouco hostil. hoje fiquei surpreendida com um e-mail muito afável que recebi de cristiane mutus, a negociadora da nova cultural, perguntando se eu tinha interesse em receber exemplares dos pensadores para os cotejos, se havia algo mais em que a empresa pudesse colaborar, avisando que havia despachado para mim várias edições da república de platão, e até me agradecendo ao final do e-mail.

bom, não tenho nem quero ter rabo preso com ninguém. só não gosto de plágio, e ponto. mas que achei engraçado, isso lá achei.

aufklärung digital II

ontem veio a posição do sr. jacó guinsburg liberando gentilmente a tradução de o discurso do método de descartes, para ser digitalizada e disponibilizada online. a gentil autorização da família de bento prado jr. está em aufklärung digital I, onde se encontram também todos os links para esse caso. para quem não acompanhou, trata-se resumidamente de substituir a infame fraude de o discurso do método na coleção "os pensadores" da nova cultural, em nome de "enrico corvisieri", disponível para download em todas as bibliotecas virtuais do país.


possa o bom exemplo vingar.

imagem: matisse, guache recortado, jazz, n. 18, flickr

zumbi trapalhares II

sou informada de que minha encarecida solicitação ao ministério público para que bote um pouco de bom senso na cabeça da pilatística british lady (fundação biblioteca nacional em sua agência do isbn), aquela que cadastra as ridículas fichas da martin claret, com pietro nassetti como tradutor de machado de assis e quetais, foi encaminhada à procuradoria do rio de janeiro.

a ver.

imagem: fotosdahora.com.br

24 de mar de 2009

pós-babel


cadê o revisor deu uma linda notinha.
obrigada, pablo! e não é verdade?


imagem: um fragmento da septuaginta, kennislink.nl

listinha dos plagiados

atualizo a listinha dos tombados à sanha bandoleira conforme vou publicando os cotejos que faço ou os informes que recebo. ela fica em duas partes: uma no cabeçalho do blog e outra num post chamado "outras vítimas", com link em "clique para ver", na coluna da direita.

mas acho que não custa apresentá-la com sua última atualização. muito, muito infelizmente até hoje não consegui tirar nenhum nome. os candidatos mais fortes seriam:

1. joão paulo monteiro, com o leviatã de hobbes garfado pela martin claret sob o nome de "jean melville", para o qual até soltei um foguetinho. segundo o que dra. maria luiza egéa, advogada da martin claret, me disse em setembro do ano passado e me autorizou a usar como fiel informação, sua cliente estaria fechando um acordo com a editora lesada, a martins fontes, e indenizaria o tradutor. de fato a martin claret até publicou outra tradução, mas fez o favor de NÃO retirar o plágio de circulação. tampouco publicou qualquer retificação dos créditos em errata pública, com vistas a esclarecer os leitores que haviam comprado muitas dezenas e dezenas de milhares da fraude. a sociedade, portanto, continua ludibriada em sua boa-fé e atropelada pela incontrolável vigarice da martin claret.

2. luiz costa lima, com o vermelho e o negro de stendhal, garfado pela nova cultural sob o nome de "maria cristina figueiredo da silva" desde 1995, na coleção "os imortais da literatura", até recentemente, nas sucessivas reedições pela coleção "obras-primas", em parceria com o instituto ecofuturo. seu advogado, dr. marco túlio de barros castro, chegou a um acordo com a editora, a qual ressarciu o tradutor e até publicou uma pífia errata na imprensa. o nome de luiz costa lima continua na listinha porque acho que nenhum leitor deve ter visto a retificação e nenhuma biblioteca deve ter se dado conta. calculo por baixo, por baixo, uns 150 mil exemplares assim. como o principal lesado é o leitor, é a sociedade, falta ainda uma verdadeira reparação, substituindo os exemplares fraudados por obras legítimas, e uma errata decente que possa preencher - ah, conselheiro acácio - sua finalidade de errata.

então segue a listinha atualizada até o cotejo de ontem.


adolfo casais monteiro
antônio pinto de carvalho
araújo nabuco
artur morão
bento prado jr.
blásio demétrio
boris schnaiderman
brenno silveira
carlos chaves
carlos porto carreiro
casimiro fernandes
cunha medeiros
de souza fernandes
eça de queiroz
éverton ralph
fernando de aguiar
galeão coutinho
godofredo rangel
hernâni donato
isabel sequeira
jacó guinsburg
jaime bruna
jamil almansur haddad
joão ângelo oliva neto
joão baptista de mello e souza
joão paulo monteiro
joaquim machado
josé augusto drummond
josé duarte
leila v. b. gouvêa
leonel vallandro
leonidas hegenberg
líbero rangel de andrade
ligia junqueira
lívio xavier
luísa derouet
luiz costa lima
manuel odorico mendes
margarida garrido esteves
maria beatriz nizza da silva
maria francisca ferreira de lima
maria helena rocha pereira
maria irene szmrecsányi
mário quintana
moacyr werneck de castro
modesto carone
monteiro lobato
natália nunes
neide smolka
octany silveira da mota
octavio mendes cajado
olinda gomes fernandes
oscar mendes
paulo m. oliveira
péricles eugênio da silva ramos
ricardo iglésias
rodrigo richter
sarmento de beires
sérgio milliet
silvio deutsch
silvio meira
sodré viana
suely bastos
tamás szmrecsányi
vera pedroso
wilson lousada
ymaly salem chammas

alguns desses casos sofreram mais de um saque. por exemplo: monteiro lobato, octavio mendes cajado, paulo m. oliveira, oscar mendes, mário quintana, j.b. mello e souza.

imagem: saphan, pierre reymond, 1578

23 de mar de 2009

bicho-carpinteiro

o jardim dos livros é um selo editorial do grupo geração, nascido em março de 2008, congregando a geração editorial, a editora leitura e a ex-editora jardim dos livros.

sobre as diversas atribuições internas: ao sr. luiz fernando emediato (da geração) cabe a batuta editorial, o sr. yehezkel (da leitura) comanda o lado comercial e logístico, e os irmãos ado e cláudio varela (da jardim dos livros) atendem à parte comercial em são paulo e à editoria de livros de negócios.

a jardim dos livros, antes de aterrissar no grupo geração, teve existência independente por uns 2 anos, e antes disso chamava-se editora sapienza, igualmente efêmera. cheguei a esta tal sapienza porque, seguindo o fio da nova cultural e seus fantasmas, vi que enrico corvisieri, o nassettinho do sr. richard civita, também estava na editora sapienza com a república de platão, ao lado de mirtes ugeda, outra trêfega figura da nova cultural vezada em copidescar traduções de terceiros e tascar seu nome nelas. achei estranha a convivência novacultural/sapienza, e dediquei alguns posts ao tema. depois a sapienza fechou as portas, e foi passear em seu novo jardim dos livros, esse que depois foi incorporado pelo grupo geração.

infelizmente esse novo grupo editorial tem mostrado algumas graves deficiências no quesito integridade: não só a embusteira arte da guerra de sun tzu, na edição de bolso e em brochura, teve calorosa acolhida no catálogo do grupo, como este foi enriquecido há menos de um ano com mais duas pérolas do plagiato nacional, o essencial do alcorão e o essencial de jesus. veja aqui.

embora o sr. luiz fernando emediato tenha declarado que tomou a decisão de tirar o lixo de circulação, parece que a coisa ficou só na intenção e na conversa mole, pois tudo continua como dantes na terra de abrantes. ou seja, o grupo geração abriga, publica, distribui e mantém em circulação obras fraudadas, com plena consciência dos fatos - sem contar uma notificaçãozinha para mim, dizendo que eu estava mentindo. na época não gostei e continuo a não gostar. é bom deixar claro: plágio é feio, plágio é crime, plágio não se faz, e o sr. luiz fernando emediato, antes de tratar seus leitores como ralé, deveria exercer sua responsabilidade editorial e ir arrancar suas ervas daninhas.

quero apresentar aqui mais uma fraude descabelada da jardim dos livros, em edição anterior à fusão com o grupo geração, mas mantida intocada no atual catálogo do referido grupo. aplicam-se a ela os termos de jorio dauster perante a trapaça bélica do jardim dos livros: "Não resta dúvida de que, ao adquirir a Jardim dos Livros e continuar a publicar as obras que passaram a seu controle no bojo dessa operação, a Editora Geração passou a ser responsável pela distribuição do plágio".

trata-se de a vida secreta de laszlo, conde drácula, de roderic anscombe. foi publicado em 2007 pela jardim dos livros e atualmente é propagandeado na geraçãobooks, o catálogo online do grupo geração. é "chapa fria", isto é, traz um número de isbn sem qualquer registro: 978-85-60018-10-9. a tradução é atribuída ao mesmo fantasmagórico "pedro h. berwick" que assina as solenes cópias de o essencial do alcorão e o essencial de jesus.



afora umas ralas e superficiais alterações, é um plágio de a vida secreta de laszlo, conde drácula, traduzido por silvio deutsch para a editora bestseller em 1994. conforme já comentei, a grande novidade introduzida pelos plágios do jardim dos livros (grupo geração) parece ser o recurso a obras recentes. até me pergunto como e por que os irmãos varela se sentem tão à vontade em se apropriar de obras do catálogo da antiga bestseller, justamente uma das editoras que, junto com a nova cultural, compõem "a larga experiência editorial" que ostentam em seus currículos.

1. silvio deutsch
deveria haver um prefácio, eu sei. uma preparação do cenário ou uma exposição de motivos. mas não posso esperar. paris é tudo o que sempre sonhei, ainda maior e mais cheia de inspiração do que em meus sonhos de criança - e um dia, ainda esta semana, vou descrever minhas impressões.
como fui instruído, na carta em que comunicavam que tinha sido aceito, apresentei-me ontem no hospital salpêtrière e esperei o dia todo que o médico-chefe me indicasse algum caso. mas não recebi nenhum. na verdade, o dr. ducasse parecia não perceber minha presença, e disse-me de forma ríspida que esperasse, quando cheguei perto dele. sexta-feira, claro, é o dia do mestre, e nessa manhã fui mais cedo para o anfiteatro, a fim de ver pela primeira vez o professor charcot. poucos médicos já tinham chegado para a demonstração, e consegui um lugar excelente na segunda fila.
atrás e acima de mim, outras pessoas logo ocuparam seus lugares nas fileiras de assentos, e um burburinho de conversas encheu a sala. virei-me para olhar - não que esperasse ver alguém conhecido naquele meio elegante. ainda assim, examinei a platéia à procura de um rosto familiar, com quem pudesse entabular uma conversa, porque, para dizer a verdade, tenho estado um tanto solitário desde que cheguei a esta cidade, especialmente porque não recebi nenhuma resposta de tia sophie. o homem ao meu lado estava imerso numa monografia sobre histeria, e hesitei em perturbá-lo. ao redor, homens colocavam-se em poses visivelmente estudadas e falavam da forma mais afetada possível ou chamavam alguém do outro lado da sala, mas, apesar da aparente disposição gregária, achei que os gestos pareciam calculados para provocar um efeito, como se cada um desejasse ser notado pelos outros. senti falta da turbulência com que nós, estudantes, aguardávamos uma palestra em budapeste. em paris, suponho que tal falta de reserva viesse a ser considerada inapelavelmente provinciana.

2. pedro h. berwick
deveria haver um prefácio, eu sei. uma preparação do cenário ou uma exposição de motivos. mas não posso esperar. paris é tudo o que sempre sonhei, ainda maior e mais cheia de inspiração do que em meus sonhos de criança - e um dia, ainda esta semana, descreverei minhas impressões.
como fui instruído, na carta na qual comunicavam que tinha sido aceito, apresentei-me ontem no hospital salpêtrière e esperei durante todo o dia que o médico-chefe me indicasse algum caso. mas não recebi nenhum. na verdade, o dr. ducasse parecia não perceber minha presença e disse-me, de forma ríspida, que esperasse, quando cheguei perto dele. sexta-feira, claro, é o dia do mestre, e nessa manhã fui mais cedo para o anfiteatro, a fim de ver pela primeira vez o professor charcot. poucos médicos já tinham chegado para a demonstração, e consegui um lugar excelente na segunda fila.
atrás e acima de mim, outras pessoas rapidamente ocuparam seus lugares nas fileiras de assentos, e um burburinho de conversas encheu a sala. virei-me para olhar - não que esperasse ver alguém conhecido naquele meio elegante. ainda assim, examinei a platéia à procura de um rosto familiar, com quem pudesse entabular uma conversa, porque, para dizer a verdade, tenho estado um tanto solitário desde que cheguei a essa cidade, especialmente porque não recebi nenhuma resposta de tia sophie. o homem ao meu lado estava imerso em uma monografia sobre histeria, e hesitei em perturbá-lo. ao redor, homens colocavam-se em poses visivelmente estudadas e falavam da forma mais afetada possível ou chamavam alguém do outro lado da sala, mas, apesar da aparente disposição gregária, achei que os gestos pareciam calculados para provocar um efeito, como se cada um desejasse ser notado pelos outros. senti falta da turbulência com que nós, estudantes, aguardávamos uma palestra em budapeste. em paris, suponho que tal falta de reserva viesse a ser considerada inapelavelmente provinciana.

1. silvio deutsch
se este diário terminar aqui, quer dizer que caminhei para uma armadilha, como desconfio. significa que sou o elo fraco que deve ser eliminado. essa conspiração pode nunca ter existido. aceito minha morte, mas não posso aceitar que jamais tenha vivido, por isso deixo este diário num lugar em que ficará empoeirado, junto com os tratados de teologia de meu avô: não foram perturbados durante duas gerações, e, como eles, este diário ficará fechado durante cinquenta anos. um dia, quando eu já não puder me importar, será encontrado, e voltarei à vida na imaginação do leitor.
aí, nas semanas e meses seguintes, o motivo da minha morte será revelado e minha reputação como patriota e mártir pela liberdade da hungria irá juntar-se à memória de meu pai e de meu irmão. sou o último da nossa linhagem. o nome morre comigo. outros nomes mais ilustres - aponyi, kossuth, karolyi, tisza, andrassy - são conhecidos além das nossas fronteiras. esses nomes são imortais. no entanto, tenho esperança de que, nos corações e mentes do povo deste pequeno canto da hungria, a solene dignidade de drácula irá subsistir carinhosamente até que desapareça mansamente da memória das pessoas ainda vivas.

2. pedro h. berwick
se este diário terminar aqui, quer dizer que caminhei para uma armadilha, como desconfio. significa que sou o elo fraco que deve ser eliminado. essa conspiração pode nunca ter existido. aceito minha morte, mas não posso aceitar que jamais tenha vivido, por isso deixo este diário em um lugar em que ficará empoeirado, junto com os tratados de teologia de meu avô: não foram perturbados durante duas gerações, e, como eles, este diário ficará fechado durante 50 anos. um dia, quando eu já não puder me importar, será encontrado, e voltarei à vida na imaginação do leitor.
aí, nas semanas e meses seguintes, o motivo da minha morte será revelado e minha reputação como patriota e mártir pela liberdade da hungria irá juntar-se à memória de meu pai e de meu irmão. sou o último da nossa linhagem. o nome morre comigo. outros nomes mais ilustres - aponyi, kossuth, karolyi, tisza, andrassy - são conhecidos além das nossas fronteiras. esses nomes são imortais. no entanto, tenho esperança de que, nos corações e mentes do povo deste pequeno canto da hungria, a solene dignidade de drácula subsistirá carinhosamente até que desapareça mansamente da memória das pessoas ainda vivas.

ah, em tempo, os coutos oferecidos pelos solidários responsáveis: relativa, cultura, saraiva, siciliano, leonardo da vinci, livrarias curitiba etc.
imagens: me vs gutenberg versus; forum.outerspace.com.br



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


22 de mar de 2009

o avesso do avesso

um caso que achei engraçado.

há uma famosa tradução de lord jim, de joseph conrad, feita por mário quintana. ela tinha sido garfada pela editora nova cultural (na coleção "obras-primas", em parceria com a suzano celulose). houve troca de meia-dúzia de palavras e criou-se uma fantasminha pluft para pôr no lugar, com o nome de "carmen lia lomonaco".

lorde jim pela martin claret, claretmente, aparecia com "pietro nassetti" como tradutor. aí, em 2007, a claressetti publica uma nova edição, trazendo como tradutor - ora, quem? mário quintana. aliás, a claret é tão dada aos espíritos e fantasmas que conseguiu diretamente no além um "copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2007". tudo bem, trocou o plágio pela contrafação, pois, ao que eu saiba, a detentora dos direitos de mário quintana, sua sobrinha elena quintana, não vendeu os direitos de tradução para a claret. (e, em caso de autorização de uso, seria uma licença, não um copirraite.) aliás, só posso tributar esse ingente esforço de simular algum crédito correto ao fato de que, naquela época, a objetiva estava negociando a compra da claret, e talvez ela estivesse tentando mostrando serviço. que seja.

o divertido é que os ishpertos claretianos esqueceram de retirar aquelas troquinhas de palavras em começo de capítulo que usam em seus plágios, e transformaram a própria tradução de mário quintana numa suposta tradução.

1. mário quintana, globo:
cap. 1: tinha um metro e oitenta de altura, talvez dois ou quatro centímetros a menos, forte, espadaúdo, avançava direto para a gente, um pouco curvado, olhar fixo [...]

2. mário quintana, martin claret:
cap. 1: tinha ele quase um metro e oitenta de altura: uns dois centímetros, talvez cinco, a menos; forte, espadaúdo, avançava direto para a gente, um pouco curvado, olhar fixo [...]

1. mário quintana, globo:
cap. 2: após dois anos de escola, ele fez-se ao mar, e achou singularmente vazias de aventuras aquelas regiões tão familiares a sua imaginação.

2. mário quintana, martin claret:
cap. 2: após dois anos de escola, ele foi para o mar, e achou singularmente vazias de aventuras aquelas regiões tão familiares à sua imaginação.

1. mário quintana, globo:
cap. 5: mas sim - dizia marlow -, eu assistia ao inquérito.

2. mário quintana, martin claret:
cap. 5: - mas sim, dizia ele -, eu assistia ao inquérito.

1. mário quintana, globo:
cap. 7: chegara de tarde um navio postal, com destino ao extremo oriente, e a sala de jantar estava três quartos cheia de gente com centenas de libras de passagens de circunavegação no bolso.

2. mário quintana, martin claret:
cap. 7: chegara de tarde um paquete postal, com destino ao extremo oriente, e três quartos da sala de jantar estavam cheios de gente com centenas de libras de passagens de circunavegação no bolso.

1. mário quintana, globo:
último parágrafo: quem sabe? ele partiu, de coração impenetrável, e a pobre mulher que deixou para trás leva, na casa de stein, uma existência inerte e muda. [...]

2. mário quintana, martin claret:
último parágrafo: quem sabe? ele partiu, de coração impenetrável, e a pobre rapariga que deixou após si leva, na casa de stein, uma existência inerte e muda. [...]

imagens: nextnature.net; orson welles, f for fake

21 de mar de 2009

abrir o livro

um estudo interessante da fgv: modelos legislativos em direitos autorais, comparando principalmente o capítulo das limitações aos direitos autorais na legislação de cinco países, a saber, canadá, austrália, chile, filipinas e noruega.

certamente a reformulação dos infames dispositivos da lei 9610/98 que proíbem qualquer cópia para uso pessoal ou educacional sem fins lucrativos sanaria boa parte da pirataria editorial, com seus plágios, contrafações e falsificações, que tem assolado o mundo do livro.

quem manda? os figurões foram gulosos demais em 1998, conseguiram proibir o xerox nas escolas, aí foi o boom da cópia digital. agora ficam propondo por aí soluções capengas para tentar manter o monopólio do livro como bem exclusivamente comercial, e continuam esquecendo que livro também é cultura, ou seja, precisa ter um mínimo de circulação social...

imagem: www.95bellstreet.com

20 de mar de 2009

19 de mar de 2009

new age

a editora martin claret, dizem, anda em nova fase. estou curiosíssima para ver o cyrano de bergerac, de edmond rostand, que ela deve estar lançando, se é que ainda não lançou, em tradução de regina célia de oliveira.

é uma proeza e tanto! tomara que a tradutora tenha se saído bem. quem quiser se deliciar com o original e ter uma leve idéia dos tremendos nós para verter a obra para o português, aqui tem o link para o download em francês.

imagem: oaleph2008.files.wordpress.com

liz bennet kidnapped

jane austen, a encantadora dama das letras inglesas, parece encantar também em português. além do sequestro sofrido às mãos da landmark, em persuasão, ela foi alvo de outro atentado em orgulho e preconceito, às mãos da nefária claret.

a apropriação foi feita em cima da tradução de maria francisca ferreira de lima, na edição da europa-américa. sofreu leves alterações, sobretudo nos primeiros parágrafos, e saiu atribuída a "jean melville".

capítulo I
a. maria francisca ferreira de lima

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa.
Por muito pouco que se conheçam os sentimentos ou modo de pensar de tal homem ao entrar pela primeira vez numa vizinhança, essa verdade encontra-se de tal modo enraizada nos espíritos das famílias circundantes que ele é considerado como propriedade legítima desta ou daquela de suas filhas.
- Meu caro Sr. Bennet - disse-lhe sua mulher um dia -, sabe que Netherfield Park foi finalmente alugado?
O Sr. Bennet respondeu-lhe que não sabia.
- É como lhe digo - tornou ela -; pois a Sra. Long ainda há pouco aqui esteve e contou-me tudo.
O Sr. Bennet não deu qualquer resposta.
- Não lhe interessa saber quem o alugou? - exclamou a mulher, impaciente.
- A senhora pretende participar-mo, e eu não me oponho a ouvi-la.
Como convite era mais que suficiente.
- Pois saiba, meu caro, que, pelo que a Sra. Long me disse, Netherfield foi alugado por um jovem de grande fortuna do norte de Inglaterra. Chegou na segunda-feira, numa carruagem puxada por quatro cavalos, para visitar o local, e ficou tão encantado que desde logo aceitou as condições do Sr. Morris. Vem ocupar a casa ainda antes do dia de S. Miguel e alguns de seus criados deverão chegar já no fim da próxima semana. (p. 5)

capítulo I
b. "jean melville"

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar necessitando de uma esposa.
Por muito pouco que sejam conhecidos os sentimentos ou o modo de pensar de tal homem ao entrar pela primeira vez em uma localidade, essa verdade encontra-se de tal modo enraizada no espírito das famílias vizinhas que ele é considerado como propriedade legítima de uma de suas filhas.
- Meu caro Mr. Bennet - disse-lhe sua mulher certo dia -, sabe que Netherfield Park foi finalmente alugado?
Mr. Bennet respondeu-lhe que não sabia.
- Pois foi - tornou ela -; Mrs. Long ainda há pouco esteve aqui e contou-me tudo.
Mr. Bennet nada respondeu.
- Não quer saber quem o alugou? - exclamou a mulher, impaciente.
- A senhora deseja contar, e eu não me oponho a ouvi-la.
Esse convite foi mais que suficiente.
- Pois saiba, meu caro, que, pelo que Mrs. Long me disse, Netherfield foi alugado por um jovem de grande fortuna, proveniente do norte de Inglaterra. Chegou na segunda-feira, em uma carruagem puxada por quatro cavalos, para visitar o local, e ficou tão encantado que logo aceitou as condições de Mr. Morris. Ocupará a casa antes do dia de São Miguel e alguns de seus criados deverão chegar já no fim da próxima semana. (p. 13)

Capítulo XXIV
a. maria francisca ferreira de lima

- E são os homens que se encarregam de as convencer.
- Se é propositadamente que o fazem, não têm desculpa; mas não creio que no mundo haja tanta duplicidade, comoa maioria das pessoas pretendem fazer acreditar.
- Estou longe de atribuir à duplicidade alguma faceta do comportamento do Sr. Bingley - disse Elisabeth -; mas o que é certo é que, mesmo sem se planear fazer o mal ou tornar outros infelizes, podem-se criar situações de equívoco e de miséria. Refiro-me à inconsciência, à falta de atenção para com os sentimentos dos outros e à falta de poder de resolução.
- E qual lhe atribuis?
- O último. Mas não vou continuar, pois corro o risco de te desagradar ao dizer o que penso de pessoas que tu estimas.
- Persistes, então, em supor que as suas irmãs o influenciam?
- Sim, de combinação com o amigo dele.
- Não acredito. Porque tentariam elas influenciá-lo? Apenas lhe podem desejar a sua felicidade, e, se ele sente atracção por mim, nenhuma outra mulher lha pode garantir.
- A tua primeira afirmação é falsa. Elas podem desejar-lhe várias outras coisas além da felicidade; podem desejá-lo mais rico e mais influente: podem desejar casá-lo com uma rapariga investida de toda a importância que o dinheiro, a nobreza e o orgulho conferem.
- Sem dúvida que elas desejam vê-lo escolher a Menina Darcy - replicou Jane -, mas os sentimentos que as norteiam podem ser melhores do que aqueles que supões. Conhecendo-a há mais tempo do que me conhecem a mim, não me admira que a apreciem mais. Porém, quaisquer que sejam os seus desejos, não é provavel que se oponham aos do irmão; Que irmã se atreveria a tanto, a não ser em uma situação deveras censurável? (pp. 102-3)

Capítulo XXIV
b. "jean melville"

- E são os homens que se encarregam de as convencer.
- Se é propositadamente que o fazem, não têm desculpa; mas não creio que no mundo haja tanta duplicidade, como a maioria das pessoas pretendem fazer acreditar.
- Estou longe de atribuir à duplicidade alguma faceta do comportamento de Mr. Bingley - disse Elisabeth -; mas o que é certo é que, mesmo sem se planejar fazer o mal ou tornar outros infelizes, podem-se criar situações de equívoco e de sofrimento. Refiro-me à inconsciência, à falta de atenção para com os sentimentos dos outros e à falta de poder de resolução.
- E qual atribuis?
- O último. Mas não vou continuar, pois corro o risco de te desagradar ao dizer o que penso de pessoas que tu estimas.
- Persistes, então, em supor que as irmãs dele o influenciam?
- Sim, em combinação com o amigo dele.
- Não acredito. Porque tentariam influenciá-lo? Apenas podem desejar a felicidade dele e, se ele sente atração por mim, nenhuma outra mulher pode lhe trazer essa felicidade.
- A tua primeira afirmação é falsa. Elas podem desejar-lhe várias outras coisas além de felicidade; podem desejá-lo mais rico e mais influente: podem desejar casá-lo com uma moça investida de toda a importância que o dinheiro, a nobreza e o orgulho conferem.
- Sem dúvida que elas desejam vê-lo escolher Miss Darcy - replicou Jane -, mas os sentimentos que as norteiam podem ser melhores do que aqueles que supões. Eles a conhecem há mais tempo do que a mim, não me admira que a apreciem mais. Porém, quaisquer que sejam os seus desejos, não é provável que se oponham aos do irmão. Que irmã se atreveria a tanto, a não ser em uma situação realmente censurável? (p. 121)

Capítulo XLVIII
a. maria francisca ferreira de lima

Elisabeth imediatamente compreendeu de onde provinha aquela deferência pela sua autoridade no assunto, mas, infelizmente, não possuía informações que a justificassem.
Nunca ouvira dizer que ele tivesse quaisquer parentes, além do pai e da mãe, e ambos já haviam falecido há muitos anos. Era possível, no entanto, que alguns dos seus companheiros do regimento pudessem dar informações mais substanciais; e, embora não alimentasse grandes esperanças a esse respeito, tal medida não era de desdenhar.
Cada dia em Longbourn era agora um dia de ansiedade; mas o momento mais angustioso era o da chegada do correio. Eram esperadas cartas todas as manhãs, com a maior impaciência; e cada dia que passava aguardavam notícias importantes.
Porém, antes de tornarem a receber notícias do Sr. Gardiner, chegou uma carta para o Sr. Bennet da parte do Sr. Collins; e, como Jane recebera instruções para abrir toda a correspondência dirigida a seu pai na sua ausência, ela leu a carta. Elisabeth, que sabia como as cartas do Sr. Collins eram curiosas e singulares, debruçou-se sobre a irmã e leu também. (p. 212)

Capítulo XLVIII
b. "jean melville"

Elisabeth imediatamente compreendeu de onde provinha aquela deferência por sua autoridade no assunto, mas, infelizmente, não possuía informações que a justificassem.
Nunca ouvira dizer que ele tivesse alguns parentes, além do pai e da mãe, e ambos já haviam falecido há muitos anos. Era possível, no entanto, que alguns de seus companheiros do regimento pudessem dar informações mais substanciais; e, embora não alimentasse grandes esperanças a esse respeito, tal medida não era de desprezar.
Cada dia em Longbourn era agora um dia de ansiedade; mas o momento mais angustiante era o da chegada do correio. Eram esperadas cartas todas as manhãs, com grande impaciência; e todo dia [] aguardavam notícias importantes.
Porém, antes de tornarem a receber notícias de Mr. Gardiner, chegou uma carta para Mr. Bennet da parte de Mr. Collins; e, como Jane recebera instruções para abrir toda correspondência dirigida a seu pai em sua ausência, ela leu a carta. Elisabeth, que sabia como as cartas de Mr. Collins eram curiosas e singulares, debruçou-se sobre a irmã e leu também. (p. 241)

[agradeço a colaboração de thiago augusto]

sobre essa ishperteza, veja também "quanta enganação!". ela encontra solidária acolhida entre a fiel turminha: livraria da travessa, livraria da vila, livraria cultura, livraria loyola, livrarias siciliano etc.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: http://janeausten.com.br; www.players.com.br

rapinare insopitabilis est

Edgar Allan Poe, Histórias Extraordinárias, "A Queda da Casa de Usher".
Civilização Brasileira - Tradução Brenno Silveira e outros
Martin Claret - "Tradução" Pietro Nassetti

I. Civilização:

No mais verde de nossos vales,
habitado por anjos bons,
antigamente um belo e imponente palácio
- um palácio radiante - se erguia.
Nos domínios do rei Pensamento,
lá se achava ele !
Jamais um serafim espalmou a asa
sobre um edifício só metade tão belo.

I. Claret:

No mais verde de nossos vales,
povoado por anjos bons,
antigamente um belo e majestoso palácio
- um palácio luminoso - se erguia.
Nos domínios do rei Pensamento,
lá se encontrava ele !
Jamais um serafim estendeu a asa
sobre um edifício apenas metade tão belo.

II. Civilização:

Estandartes amarelos, gloriosos, dourados,
sobre o seu telhado ondulavam, flutuavam.
(Isso, tudo isso, aconteceu há muito,
muitíssimo tempo.)
E em cada brisa suave que soprava,
naqueles doces dias,
ao longo dos muros pálidos e empenachados,
se elevava um aroma alado.

II. Claret:

Estandartes amarelos, gloriosos, dourados,
sobre o seu telhado ondulavam, flutuavam.
([] Tudo isso aconteceu há muito,
muitíssimo tempo.)
E em cada brisa suave que soprava,
naqueles doces dias,
ao longo dos muros pálidos e enfeitados de penas,
se elevava uma fragrância alada.

III. Civilização:

Caminhantes que passavam por esse vale feliz
viam, através de duas janelas iluminadas,
espíritos que se moviam musicalmente
ao som de um alaúde bem afinado,
em torno de um trono onde, sentado,
(Porfirogênito !)
com majestade digna de sua glória,
aparecia o senhor do reino.

III. Claret:

Caminhantes que passavam por esse vale feliz
viam, através de duas janelas iluminadas,
espíritos que se moviam musicalmente
ao som de um alaúde bem afinado,
ao redor de um trono onde, sentado,
(Porfirogênito !)
com majestade digna de sua glória,
surgia o senhor do reino.

IV. Civilização:

E toda refulgente de pérolas e rubis
era a linda porta do palácio,
através da qual passava, passava e passava,
a refulgir sem cessar,
um turba de ecos cuja grata missão
era apenas cantar,
com vozes de inexcedível beleza,
o talento e o saber de seu rei.

IV. Claret:

E toda resplandecente de pérolas e rubis
era a linda porta do palácio,
através da qual passava, passava e passava,
a resplandecer sem cessar,
um coro de ecos cuja missão agradável
era apenas cantar,
com vozes de incomparável beleza,
o talento e o saber de seu rei.

V. Civilização:

Mas seres maus, trajados de luto,
assaltaram o alto trono do monarca;
(Ah, lamentemo-nos, visto que nunca mais a alvorada
despontará sobre ele, o desolado !)
e, em torno de sua mansão, a glória
que, rubra, florescia,
não passa, agora, de uma história quase esquecida
dos velhos tempos já sepultados.

V. Claret:

Mas seres maus, trajados de luto,
assaltaram o alto trono do monarca;
(Ah, lamentemo-nos, visto que nunca mais a alvorada
despontará sobre ele, o desolado!)
e, em torno de sua mansão, a glória
que, rubra, florescia,
não passa, agora, de uma história quase esquecida
dos velhos tempos já sepultados.

VI. Civilização:

E agora os caminhantes, nesse vale,
através das janelas de luz avermelhada, vêem
grandes vultos que se movem fantasticamente
ao som de desafinada melodia;
enquanto isso, qual rio rápido e medonho,
através da porta descorada,
odiosa turba se precipita sem cessar,
rindo - mas sem sorrir nunca mais.

VI. Claret:

E agora os caminhantes, nesse vale,
através das janelas de luz avermelhada, divisam
grandes vultos que se movem fantasticamente
ao som de desafinada melodia;
enquanto isso, qual rio veloz e medonho,
através da porta descorada,
odiosa turba se precipita sem cessar,
rindo - mas sem sorrir nunca mais.

[agradeço a saulo von randow jr. por este cotejo]

solidários responsáveis por mais essa pichelingada que se arrasta desde 1999: leitura, saraiva, livraria da vila, loyola etc.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: www.leyline.com.br

18 de mar de 2009

mais um lobato clareteado

foi monteiro lobato quem introduziu jack london no brasil. fez as traduções de caninos brancos (1933), o lobo do mar (1934), a filha da neve (1934) e o grito da selva (1935).


o lobo do mar foi publicado pela companhia editora nacional em 1934, e nela se mantém até hoje, na enésima edição. em 1998 a martin claret abocanhou a obra, e desde então vem trapaceando o público em sucessivas edições com a tradução roubada a monteiro lobato e atribuída a "pietro nassetti".

monteiro lobato
CAPÍTULO 1
Não sei por onde começar, embora por brincadeira eu costume atribuir a causa de tudo a Charley Furuseth. Este amigo possuía uma casa de campo em Mill Valley, onde repousava durante os meses de inverno lendo Nietzsche e Schopenhauer; já os verões passava imerso no trabalho, a suar no tumulto da cidade. Não fosse meu costume de aparecer por lá aos sábados, ficando até a semana seguinte, e aquela manhã de janeiro não me teria pilhado a vogar na baía São Francisco. Meu barco, o "Martinez", oferecia toda a segurança; tratava-se dum barco recém-construído e ainda na sua quarta ou quinta viagem de carreira entre Sausalito e São Francisco. O que não oferecia segurança era o nevoeiro reinante, apesar de que, na minha ignorância das coisas do mar, não me passasse pela cabeça a menor idéia de perigo. Soprava uma brisa fresca e eu me sentia sozinho dentro da névoa úmida, embora com a consciência de que, lá em cima, na casa de vidro, estavam o piloto e o homem que devia ser o capitão.
Lembro-me que me pus a refletir sobre a divisão do trabalho. Graças a ela me via dispensado do estudo e conhecimento dos nevoeiros, marés e o mais relativo à navegação sempre que ia de visita a Charley Furuseth, lá do outro lado de baía. Ótimo que os homens se especializem no trabalho, ponderava eu. Os conhecimentos marítimos do capitão e do piloto, por exemplo, permitem que milhares de pessoas não pensem nisso, e uma, como eu, se dedique a estudos como aquele sobre o lugar de Poe na literatura norte-americana, que eu publiquei na Atlantic. Ao subir para bordo tinha visto, numa cabina entreaberta, um homem alentado a ler com atenção essa revista — a ler o meu ensaio. Era outra demonstração do valor da divisão do trabalho. O "conhecimento especial" do piloto e do capitão permitiam que aquele passageiro se inteirasse do meu "conhecimento especial" sobre Poe, enquanto era "navegado" com toda a segurança de São Francisco a Sausalito.
Minhas reflexões foram interrompidas pelo aparecimento no convés dum homem de cara vermelha, que ao deixar a sua cabina bateu a porta com violência e aproximou-se de mim manquitolando e martelando o chão com uma perna de pau. Isso, aliás, não impediu que eu tomasse rápida nota mental daqueles pensamentos, para pô-los num artigo que tinha em vista escrever sobre a necessidade da liberdade estética. O sujeito lançou uma olhadela para a casa do piloto e em seguida pôs-se a contemplar o nevoeiro, de pernas abertas, com visível ar de satisfação. Percebi ser homem afeito às coisas do mar.
— Tempo destes é que os põem de cabelos brancos tão cedo, murmurou, indicando com um movimento de cabeça a casa de vidro onde estavam o piloto e o capitão.
— Qual o quê! respondi na minha santa ignorância. Há a bússola para orientá-los. E há o leme que dirige o navio. E há os mapas. O negócio é simples como o abc. Tudo matemático.
— Qual o que, heim? rosnou o homem. Simples abc, heim? Certeza matemática, heim?
E cresceu para mim ao dizer isto.
— Que acha desta maré que incha todo o Golden Gate, senhor? perguntou-me quase num rugido. Com que rapidez vaza ela? Em que rumo? Vamos lá, senhor! Está ouvindo aquele som? Bóia de campainha — e mal a ouvimos já estamos sobre ela. Veja como mudam de lugar... Realmente, de dentro do nevoeiro brotava um som de campainha — o que fez o piloto dar à roda do leme com violência, até que o som, que vinha pela nossa frente, passasse a vir de lado. Enquanto isso a sereia de bordo pusera-se a apitar com a sua voz rouca, em resposta a outros apitos brotados de dentro da cerração.
— É algum "ferry-boat", explicou o homem da perna de pau, referindo-se a um apito que vinha da direita. E aquele lá, está ouvindo? Buzina! Buzina de assoprar com a boca. É o que usam nas escunas. Cuidado, mestre escuneiro! O inferno está hoje com vontade de comer gente...
O invisível "ferry-boat" apitava com furor e a buzina da escuna respondia com desespero.
— Estão agora a trocar cumprimentos e explicações, disse o homem logo que a fúria dos avisos cessou.
Seus olhos enchiam-se do brilho da excitação à medida que me ia traduzindo em língua de gente a fala daqueles instrumentos de fazer barulho no mar.
— Ouça! Aquilo é sinal para evolução à esquerda... E esse acolá, com voz de sapo, é grito de escuna a vapor que forceja contra a maré.
Um silvo fino e esganiçado rompeu à frente. Os gongos do "Martinez" soaram fazendo as rodas propulsoras afrouxarem o andamento, que só foi retomado quando aquele trilhar de grilo entre feras rugidoras se sumiu ao longe. Olhei para o meu homem, à espera de interpretação.
— Lancha, disse ele. Dessas endemoninhadas lanchas que só mesmo a gente metendo a pique. Umas pestes que vivem a causar trapalhadas. Qualquer imbecil julga-se no direito de meter-se nelas e sulcar as águas apitando com impertinência para que o mundo inteiro saiba que tais pulgas existem. E é preciso levá-las em conta. Estão no uso dum direito — direito de caminho pela superfície das águas. Direito, ah, ah!
Diverti-me com a cólera do homem, e enquanto ele andava de cá para lá, manquitolando na sua perna de pau, pus-me a refletir no romantismo da bruma.
Romantismo, sim. É romântico o nevoeiro que tudo envolve com o seu manto cinzento, de passo que os homens — meros átomos — blasfemam nos corcéis de aço flutuantes através do Mistério, às cegas dentro do Invisível, com palavras de confiança na boca e a incerteza e o medo nos corações.
A voz do meu companheiro fez-me voltar à realidade e sorrir. Eu também havia devaneado às tontas e às cegas dentro do mistério, julgando seguir caminho seguro.
— Olá! dizia ele. Vem algo ao nosso encontro, está ouvindo? Vem rápido e em linha reta. Juro que não nos percebeu ainda. Não ouve a nossa sereia. O vento está a nosso favor.
A brisa fresca soprava de frente, e pude ouvir bem nítido o silvo a que o meu homem se referia.
— "Ferry-boat"? perguntei.
O homem fez com a cabeça sinal que sim e acrescentou:
— Do contrário não viria nessa marcha. E com uma risada nervosa: — Estão assustados, lá em cima...
Olhei para a casa do piloto. O capitão, com a cabeça e ombros de fora, cravava fixamente os olhos no nevoeiro, como tentando devassá-lo à força. Suas feições mostravam ansiedade — a mesma que vi no rosto do meu companheiro, agora de bruços na amurada e também com os olhos presos no perigo invisível que se alapava dentro da névoa.
E o que tinha de dar-se, deu-se com incrível rapidez. Rompido por uma cunha, o nevoeiro mostrou a proa dum vapor a emergir franjado de espuma na linha d'água, com bigodes dum Leviatã. Pude ver a casa do piloto, com um homem de barbas brancas assomado a uma das janelas. Trajava uniforme azul, e lembro-me da impressão de calma que me deu.
Era terrível tal calma em tais circunstâncias. O homem aceitava o seu destino, avançava com ele de mãos dadas, a medir friamente o choque. Seu olhar inquisitivo fixava-se no "Martinez" como para determinar o ponto exato da colisão — e em nada se alterou quando o nosso piloto, branco de raiva, berrou-lhe: — Foi você o culpado!
A observação era por demais óbvia para tomar necessária qualquer resposta.
— Agarre-se no que puder e agüente-se! gritou-me o homem da perna de pau. Notei que a sua arrogância se dissipara e que parecia contagiado pela calma anormal do homem de barbas brancas. — E veja como as mulheres gritam, prosseguiu ele sombriamente, quase com amargura, fazendo-me crer que já havia passado por transes iguais àquele.
Os dois navios chocaram-se antes que eu pudesse seguir o seu conselho. O impacto devia ter sido no meio do "Martinez", que adernou violentamente por entre estrondos do madeirame. Vi-me lançado de borco sobre o convés alagado, e antes que pudesse erguer-me vi-me tonto pela grita das mulheres. Foi isso — esse indescritível e arrepiante uivo de pânico o que mais me apavorou. Lembrei-me do salva-vidas do meu camarote. Corri para lá. Ao alcançar a porta fui varrido por uma onda selvagem de criaturas em disparada. Não me recordo do que sucedeu logo depois, a não ser o avanço no estoque de salva-vidas, com o homem de perna de pau a atar os que podia à cintura dum bando histérico de mulheres. A memória dessa cena é mais nítida do que a de qualquer outra que me haja passado sob os olhos. Inda hoje vejo o quadro: o rombo numa cabina, através do qual a névoa revoluteava em turbilhão; divãs e poltronas esvaziados de súbito e com todos os sinais do estouro — pacotes, bolsas, guardachuvas, capas; o alentado sujeito da Atlantic, engastado num salva-vidas e ainda com a revista na mão, a perguntar-me com insistência se havia perigo; o meu companheiro da perna de pau a manquitolar por toda a parte muito seguro de si na tarefa de distribuir salva-vidas a quantos apareciam, e, finalmente, a inferneira louca do mulherio apavorado.


pietro nassetti
CAPÍTULO 1
Não sei por onde começar, embora por brincadeira eu costume atribuir a causa de tudo a Charley Furuseth. Este amigo possuía uma casa de campo em Mill Valley, onde descansava durante os meses de inverno lendo Nietzsche e Schopenhauer; já os verões passava imerso no trabalho, a suar no tumulto da cidade. Não fosse o meu costume de aparecer por lá aos sábados, ficando até a semana seguinte, e aquela manhã de janeiro não me teria encontrado a navegar na baía S. Francisco.
Meu barco, o "Martinez", oferecia toda a segurança; tratava-se dum barco recém-construído e ainda na sua quarta ou quinta viagem de carreira entre Sausalito e S. Francisco. O que não oferecia segurança era o nevoeiro circundante, apesar de que, na minha ignorância das coisas do mar, não me passasse pela cabeça a menor idéia de perigo. Soprava uma brisa fresca e eu me sentia sozinho dentro da névoa úmida, embora com a consciência de que, lá em cima, na casa de vidro, estavam o piloto e o homem que devia ser o capitão.
Lembro-me que me pus a pensar na divisão do trabalho. Graças a ela me via dispensado do estudo e conhecimento dos nevoeiros, marés e o mais relativo à navegação sempre que ia de visita a Charley Furuseth, lá do outro lado de baía. Ótimo que os homens se especializem no trabalho, ponderava eu. Os conhecimentos marítimos do capitão e do piloto, por exemplo, permitem que milhares de pessoas não pensem nisso, e permitem que uma, como eu, se dedique a estudos como aquele sobre o lugar de Poe na literatura norte-americana, que eu publicara na Atlantic. Ao subir a bordo eu tinha visto, numa cabina entreaberta, um homem [] a ler com atenção essa revista — a ler o meu ensaio. Era outra demonstração do valor da divisão do trabalho. O "conhecimento especial" do piloto e do capitão permitiam que aquele passageiro se inteirasse do meu "conhecimento especial" sobre Poe, enquanto era "navegado" com toda a segurança de S. Francisco a Sausalito.
Minhas reflexões foram interrompidas pelo aparecimento no convés dum homem de cara vermelha, que ao deixar a sua cabina bateu com violência a porta e aproximou-se de mim mancando e martelando o chão com uma perna-de-pau. Isso, aliás, não impediu que eu tomasse rápida nota mental daqueles pensamentos, para pô-los num artigo que tinha em vista escrever sobre a [] liberdade estética. O sujeito lançou uma olhadela para a casa do piloto e em seguida pôs-se a contemplar o nevoeiro, de pernas abertas, com visível ar de satisfação. Percebi ser homem afeito às coisas do mar.
— Tempo destes é que os põem de cabelos brancos tão cedo, murmurou, indicando com um movimento de cabeça a casa de vidro onde estavam o piloto e o capitão.
— Qual o quê! respondi na minha santa ignorância. Há a bússola para orientá-los. E há o leme que dirige o navio. E há os mapas. O negócio é simples como o abc. Tudo matemático.
— Qual o que, hein? rosnou o homem. Simples abc, hein? Certeza matemática, hein?
E veio em minha direção ao dizer isto.
— Que acha desta maré que incha todo o Golden Gate, senhor? perguntou-me quase num rugido. Com que rapidez vasa ela? Em que rumo? Vamos lá, senhor! Está ouvindo aquele som? Bóia de campainha — e mal a ouvimos já estamos sobre ela. Veja como mudam de lugar...
Realmente, de dentro do nevoeiro brotava um som de campainha — o que fez o piloto dar a roda do leme com violência, até que o som, que vinha pela nossa frente, passasse a vir de lado. Enquanto isso a sereia de bordo apitava com a sua voz rouca, em resposta a outros apitos brotados de dentro da cerração.
— É algum ferry-boat, explicou o homem da perna-de-pau, referindo-se a um apito que vinha da direita. E aquele lá, está ouvindo? Buzina! Buzina de assoprar com a boca. É o que usam nas escunas. Cuidado, mestre escuneiro! O inferno está com vontade de comer gente hoje...
O invisível ferry-boat apitava com furor e a buzina da escuna respondia com desespero.
— Estão agora trocando cumprimentos e explicações, disse o homem logo que a fúria dos avisos cessou.
Seus olhos enchiam-se do brilho da excitação à medida que me ia traduzindo em língua de gente a fala daqueles instrumentos de fazer barulho no mar.
— Ouça! Aquilo é sinal para evolução à esquerda... E este acolá, com voz de sapo, é grito de escuna a vapor que forceja contra a maré.
Um assovio fino e esganiçado rompeu à frente. Os gongos do "Martinez" soaram, fazendo as rodas propulsoras afrouxarem o andamento, que só foi retomado quando aquele trilar de grilo entre feras rugidoras se sumiu ao longe. Olhei para o meu homem, à espera de interpretação.
— Lancha, disse ele. Dessas endemoninhadas lanchas que só mesmo a gente metendo-as a pique. Umas pestes que vivem a causar trapalhadas. Qualquer imbecil julga-se no direito de meter-se nelas e sulcar as águas apitando com impertinência para que o mundo inteiro saiba que tais pulgas existem. E é preciso levá-las em conta. Estão no uso dum direito — direito de caminho pela superfície das águas. Direito, ah, ah!
Diverti-me com a cólera do homem e, enquanto ele andava de cá para lá, manquitolando na sua perna-de-pau, pus-me a refletir no romantismo da bruma.
Romantismo, sim. É romântico o nevoeiro que tudo envolve com o seu manto cinzento, de passo que os homens — meros átomos — blasfemam nos corcéis de aço flutuantes através do Mistério, às cegas dentro do Invisível, com palavras de confiança na boca e a incerteza e o medo nos corações.
A voz do meu companheiro fez-me voltar à realidade e sorrir. Eu também havia devaneado às tontas e às cegas dentro do mistério, julgando seguir caminho seguro.
— Olá! dizia ele. Vem algo ao nosso encontro, está ouvindo? Vem, rápido e em linha reta. Juro que não nos percebeu ainda. Não ouve a nossa sereia. O vento está a nosso favor.
A brisa fresca soprava de frente, e pude ouvir bem nítido o silvo a que o meu homem se referia.
Ferry-boat? perguntei.
O homem fez sinal que sim com a cabeça; e acrescentou: "Do contrário não viria nessa marcha". E com uma risada nervosa: "Estão assustados, lá em cima..."
Olhei para a casa do piloto. O capitão, com a cabeça e ombros de fora, cravava fixamente os olhos no nevoeiro, como tentando devassá-lo à força. Suas feições mostravam ansiedade — a mesma que vi no rosto do meu companheiro, agora de bruços na amurada e também com os olhos presos no perigo invisível que se ocultava dentro da névoa.
E o que tinha de dar-se, deu-se com incrível rapidez. Rompido por uma cunha, o nevoeiro mostrou a proa dum vapor a emergir franjado de espuma na linha d'água, com os bigodes dum Leviatã. Pude ver a casa do piloto, com um homem de barbas brancas assomado a uma das janelas; trajava uniforme azul, e lembro-me da impressão de calma que me deu.
Era terrível aquela calma em tais circunstâncias. O homem aceitava o seu destino, avançava de mãos dadas com ele, a medir friamente o choque. Seu olhar inquisitivo fixava-se no "Martinez" como para determinar o ponto exato da colisão — e em nada se alterou quando o nosso piloto, branco de raiva, berrou-lhe: "Foi você o culpado!".
A observação era por demais óbvia para tomar necessária qualquer resposta.
— Agarre-se no que puder e agüente-se! gritou-me o homem da perna-de-pau. Notei que a sua arrogância se dissipara e que parecia contagiado pela calma anormal do homem de barbas brancas. "E veja como as mulheres gritam", prosseguiu ele sombriamente, quase com amargura, fazendo-me crer que já havia passado por situações iguais àquela.
Os dois navios chocaram-se antes que eu pudesse seguir o seu conselho. O impacto devia ter sido no meio do "Martinez", que tombou violentamente por entre estrondos do madeirame. Fui lançado de bruços sobre o convés alagado, e antes que pudesse erguer-me vi-me tonto pela gritaria das mulheres. Foi isso — esse indescritível e arrepiante uivo de pânico o que mais me apavorou. Lembrei-me do salva-vidas do meu camarote. Corri para lá. Ao alcançar a porta fui varrido por uma onda selvagem de criaturas em disparada. Não me recordo do que sucedeu logo depois, a não ser o avanço no sortimento de salva-vidas, com o homem de perna-de-pau a atar os que podia à cintura dum bando histérico de mulheres. A memória dessa cena é mais nítida do que a de qualquer outra que me haja passado sob os olhos. Ainda hoje vejo o quadro: o rombo numa cabina, através do qual a névoa revoluteava em turbilhão; divãs e poltronas esvaziados de súbito e com todos os sinais do "estouro" — pacotes, bolsas, guardachuvas, capas largados ali; o alentado sujeito da Atlantic, engastado num salva-vidas e ainda com a revista na mão, a perguntar-me com insistência se havia perigo; o meu companheiro da perna-de-pau a mancar por toda parte, muito seguro de si na tarefa de distribuir salva-vidas a quantos apareciam, e, finalmente, a inferneira louca do mulherio apavorado.

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atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagens: london.sonoma.edu; adrianapeliano.blogspot.com; missoavancine.blogspot.com; portugues.istockphoto.com