31 de mai de 2009

follow up viquiano


no post scienza nuova eu havia saudado a publicação de uma seleta dos princípios de ciência nova, de giambattista vico, pela ícone. chegou o volume que encomendei.

na ficha catalográfica do livro consta "título original: the first new science", e na página de rosto consta "tradução do texto original italiano: principii di scienzia [sic] nuova", "tradutor: professor sebastião josé roque".

além dessa discrepância, há uma outra: o que os viquianos chamam de "primeira ciência nova" é a edição de 1725. a ciência nova que acabou se firmando é de 1744, totalmente diferente da de 1725. o conteúdo da seleta do professor sebastião josé roque pertence não à "primeira" ciência nova e sim à de 1744.

a tradução padece de vários problemas e o resultado geral apenas confirma a alta complexidade e árdua compreensão do texto viquiano. mas o que aqui importa é que se trata de uma tradução de direito próprio.

imagem: frontispício da obra

30 de mai de 2009

pinóquio

ainda na linha dos estudos comparados, existe uma interessante dissertação de mestrado de lucia maria pinho de valhery jolkesky, apresentada ao programa de estudos de tradução da ufsc em 2007. chama-se legibilidade de diálogos: a colocação de pronomes nas traduções brasileiras de pinóquio de 2002, disponível no portal do mec.

a análise, bastante técnica, aborda três traduções de pinóquio, de carlo collodi, a saber: de marina colasanti, de gabriella rinaldi e de pietro nassetti. são analisados 20 excertos, e ao final há um quadro sinóptico por tradutor, além de um breve perfil biográfico de cada um deles.

no "Anexo F – Quadro sinóptico da colocação pronominal na tradução de Nassetti", na coluna da direita, encontram-se diversas observações interessantes sobre várias opções pouco usuais no português do brasil, numerosas ocorrências de mistura de tratamento de segunda e terceira pessoa, contrações de pronomes diretos e indiretos não muito usadas em nossas bandas e outras peculiaridades.

e a dissertação traz também uma raridade, coisa que tanta gente se perguntava: quem é pietro nassetti?

"Anexo J – Biografia de Pietro Nassetti
Pietro Nassetti nasceu em Parma, Itália, no final da 2ª. Guerra Mundial. Aos 23 anos emigrou para o Brasil, morou em São Paulo, onde se formou em odontologia pela Universidade de São Paulo. Abriu um consultório na região do ABC paulista. Foi um pesquisador de terapias holísticas. Na década de 80 entrou em contato com a filosofia univérsica, uma visão de mundo holística criada pelo brasileiro Huberto Rohden. A partir de 1996 começou a realizar trabalhos de tradução para a Editora Martin Claret, principalmente do italiano, inglês e francês. Faleceu após longa enfermidade em janeiro de 2005.
Informações fornecidas por Rosana Citino, Assistente Editorial, via internet, em 26/08/2005."

imagem: enrico mazzanti, pinóquio, 1883

29 de mai de 2009

a luta pelo direito

a luta pelo direito, de rudolf von ihering (1818-92), é daquelas obras que fazem parte da bibliografia obrigatória de todos os cursos de direito. foi uma conferência apresentada pelo jurista alemão em 1872, em viena, e no mesmo ano publicada em livro. foi um tremendo sucesso e, passado pouco tempo, já era tido como um marco na história do pensamento jurídico alemão.

sua primeira tradução para o português foi feita por joão vieira de araújo, da chamada escola de recife, e publicada em 1885. depois saiu outra, feita por josé tavares bastos, a partir do espanhol, com prefácio de clóvis beviláqua (não sei a data certa, mas o prefácio traz o ano de 1909). aqui na frase do dia já tem uma canja do tavares bastos.

também em 1909 saiu em portugal uma tradução feita por joão de vasconcellos. a principal diferença em relação às duas traduções brasileiras é que essa tradução portuguesa tomou como base o original revisto por ihering em 1888, que eliminava os parágrafos iniciais e trazia um prefácio todo sério, mas também muito simpático e espirituoso. (depois, na edição de 1891, ele vai fazer alguns acréscimos finais no próprio prefácio, muito bonitos, uma homenagem póstuma a uma amiga, frau auguste von littrow-bischoff.)

a tradução mais corrente no brasil, seja lá por que razão for, é justamente essa portuguesa de joão de vasconcellos (também grafado como joão de vasconcelos ou joão vasconcelos), em incontáveis reedições pela forense. a tradução indireta de tavares bastos, por interposição do espanhol, também é bastante conhecida, até por conta da apresentação de beviláqua e da inclusão do longo prefácio de leopoldo alas à edição espanhola - hoje em dia está disponível para download. curiosamente, a tradução de joão vieira, nome importante na história do pensamento jurídico brasileiro, aliás citada pessoalmente pelo próprio ihering no prefácio de 1891 e que está em domínio público faz um tempão, não se encontra disponível para download nem no portal do mec.

existem outras ainda, assinadas por: vicente sabino jr.; henrique de carvalho; joão cretella jr. e agnes cretella; roberto de bastos léllis; richard paul neto; mário de méroe; silvio donizete chagas; ricardo rodrigues gama; edson bini; ivo de paula; pietro nassetti; heloísa da graça burati.

como a cultura não se constrói sozinha nem se compra em pacotinhos na esquina, acho legal acompanhar esse desenvolvimento de nossas letras jurídicas. acho legal, por exemplo, que já no começo de 1885 estivesse publicada em recife a tradução de joão vieira. acho legal também que tantos juristas se debruçassem fisicamente sobre as obras, queimassem as pestanas e pusessem isso em língua que as gentes daqui entendiam. hoje em dia sei que não é bem assim, mas acho esses antecedentes interessantes, até, digamos, edificantes. egrégios exemplos da construção de um patrimônio cultural brasileiro e provas vivas da atividade das cabeças pensantes d'antanho.

esse introitozinho é porque na semana que vem vou apresentar umas duas ou três traduções (?) de a luta pelo direito publicadas em data recente.

atualização: ver aqui o cotejo com a edição da rideel, em nome de heloísa da graça buratti, e aqui o cotejo com a edição da pillares, em nome de ivo de paula


imagem: wikimedia commons

por onde anda otelo

o otelo de "jean melville", pela editora martin claret - que, como vimos, parece uma montagem das soluções tradutórias de cunha medeiros/oscar mendes com vários pespontos de barbara heliodora - anda trafegando um pouco pelas escolas e bibliotecas:


28 de mai de 2009

ufa, menos mau

uma das melhores coisas do mundo é desfazer mal-entendidos, penso eu.

duas obras de tradução tinham me deixado meio confusa: memórias de sherlock holmes e aventuras de sherlock holmes, de conan doyle, publicadas pela editora martin claret, sendo que pelo menos uma delas lhe teria sido supostamente licenciada pela editora melhoramentos.

mas não, não é isso não. ontem recebi mensagem da editora melhoramentos, explicando que:

"Houve um equívoco na informação enviada a respeito da cessão de direitos autorais sobre a obra Memórias de Sherlock Holmes.
A Editora Melhoramentos não assinou nenhum contrato de cessão de direitos autorais sobre as obras de Sherlock Holmes com a Editora Martin Claret."

que bom, um mistério a menos. o sr. joaquim machado e o sr. carlos chaves podem continuar em paz, com seus direitos devidamente protegidos pela editora melhoramentos, à qual agradeço a gentileza em atender a uma leitora perplexa.

agora é torcer para que a editora martin claret, por seu lado, desvende para nós leitores os mistérios sherlockianos de john green e jean melville.

imagem: www.ontariocondolaw.com

27 de mai de 2009

the books



indicação: federico carotti

26 de mai de 2009

otelo comparado

mais uma para quem gosta de análise comparada.

“A thing such as thou”: a representação dos personagens negros nas traduções das obras de William Shakespeare para o português do Brasil , dissertação de mestrado de márcia paredes nunes apresentada ao departamento de letras da puc-rio em março de 2007, disponível aqui, é uma cuidadosa análise comparada de diferentes traduções brasileiras de três obras de shakespeare.

uma delas, otelo, é estudada em sete traduções diferentes: onestaldo de pennafort, carlos alberto nunes, cunha medeiros e oscar mendes, péricles eugênio da silva ramos, barbara heliodora, beatriz viégas-faria e jean melville. em prosa são as de cunha medeiros/oscar mendes, beatriz viégas-farias e jean melville.

a autora traça um perfil de cada tradutor analisado, com uma ressalva no caso de jean melville: "Infelizmente não foi possível localizar informações a respeito de Jean Melville, além dos títulos de livros traduzidos que constam no site da editora [martin claret]. Embora contactada, esta não forneceu dados sobre o tradutor".

a partir da p. 155, a dissertação se debruça especificamente sobre a análise de otelo. reproduzo aqui os trechos selecionados pela autora. para simplificar a leitura, eliminei a referência às páginas de cada edição e numerei de 1 a 7 os nomes dos diversos tradutores. salta aos olhos a identidade única e inconfundível de seis das sete traduções analisadas por márcia p. nunes. a exceção é a de jean melville. dei destaque em alaranjado e verde às fontes a meu ver escancaradamente utilizadas na colcha de retalhos publicada pela martin claret.

IAGO
He, in good time, must his Lieutenant be,
And I - God bless the mark!- his Moorship's Ancient. (I. i. 32-3)
As traduções são as seguintes:
1. Onestaldo de Pennafort
Valha-me Deus! Alfeireiro, só, de Sua Senhoria Amoriscada.
2. Carlos Alberto Nunes
vai tornar-se tenente, enquanto que eu – Deus me perdoe! – continuarei sendo do Mouro o alferes.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Ele, em troca, esse fazedor de adições, será tenente quando o momento chegar; e eu continuo alferes (Deus bendiga o título!) de Sua Senhoria Moura.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Ele é que na hora certa, deverá ser o lugar-tenente, e eu, Deus nos valha! o alferes de Sua Senhoria, o Mouro.
5. Barbara Heliodora
Pois ele, agora, é que será tenente, E eu, por Deus, alferes do ilustríssimo.
6. Beatriz Viégas-Faria
E eu… Deus abençoando minha boa mira!..., continuo sendo o alferes de sua majestade, o Mouro.
7. Jean Melville
Ele, em troca, será tenente quando o momento chegar; e eu continuo alferes (Deus bendiga o título!) de Sua Senhoria Moura.

RODERIGO.
What a full fortune does the thick-lips owe,
If he can carry’t thus! (I. ii. 67-8)
O trecho foi traduzido da seguinte forma:
1. Onestaldo de Pennafort
RODRIGO (distraído) Que sorte a dele, então, se com aquelas beiçolas, consegue abocanhá-la!
2. Carlos Alberto Nunes
Que sorte a desse tipo de lábios grossos, se puder, realmente, levar isso até o fim.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Que sorte sem igual terá o homem de lábios grossos, se conseguir levar assim essa vantagem!
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Grande sorte a daquele beiços grossos se puder alcançar vitória em tudo.
5. Barbara Heliodora
Mas que sorte total tem o beiçudo, Se ganha esta!
6. Beatriz Viégas-Faria
Se conseguir sair ileso dessa, o Lábios Grossos vai ficar devendo sua sorte ao destino.
7. Jean Melville
Que sorte sem igual terá o homem de lábios grossos, se ganha esta!

IAGO. ‘Zounds, sir, you’re robb’d! For shame, put on your gown;
Your heart is burst, you have lost half your soul;
Even now, now, very now, an old black ram
Is tupping your white ewe. Arise, arise!
Awake the snorting citizens with the bell,
Or else the devil will make a grandsire of you.
Arise, I say! (I. 87-93)
Apresentamos agora as versões:
1. Onestaldo de Pennafort
Agora, neste instante, agora mesmo, um velho carneiro negro está cobrindo a vossa ovelhinha branca! De pé, de pé! Mandai tocar a rebate! Despertai os burgueses de seu ronco! Rápido! Rápido! Enquanto o diabo, num esfregar de olhos, não vos faz um neto!
2. Carlos Alberto Nunes
Agora mesmo, neste momento, um velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca. Tocai o sino, para que despertem os cidadãos que roncam; do contrário, o diabo vos fará ficar avô.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Agora mesmo, neste instante, neste momento mesmo, um velho bode negro está cobrindo vossa ovelha branca.
De pé! De pé! Despertai ao som de um sino os cidadãos que estão roncando, ou caso contrário, o diabo vai fazer de vós um avô.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Agora, bem agora, agora mesmo, velho e negro carneiro está cobrindo a vossa ovelha branca. Erguei-vos, ei, erguei-vos! Os cidadãos que roncam, despertai-vos com o sino. Senão irá o demônio fazer de vós avô. Oh, digo, levantai-vos!
5. Barbara Heliodora
Neste momento um bode velho e preto cobre a sua ovelhinha; venha logo. Vá despertar com o sino os que dormiam, senão o demo vai fazê-lo avô.
6. Beatriz Viégas-Faria
Neste instante mesmo, agora, agorinha, um bode preto e velho está cobrindo sua ovelhinha. –Levantai-vos, rebelai-vos! – Acorde com o toque de sino os cidadãos que ora roncam, pois do contrário o diabo vai lhe dar netos.
7. Jean Melville
Agora mesmo, neste momento, um bode velho e negro está cobrindo vossa ovelha branca.
Venha logo! Despertai ao som de um sino os cidadãos que dormem, ou caso contrário, o diabo vai fazer de vós um avô.

IAGO. ‘Zounds, sir, you are one of those that will not serve God, if the
devil bid you. Because we come to do you service and you think we are
ruffians, you'll have your daughter covered with a Barbary horse;
you'll have your nephews neigh to you; you'll have coursers for cousins,
and jennets for germans. (I. I. 109-4)
Apresentamos agora as respectivas traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
(...) o resultado é que vereis a vossa filha coberta por um cavalo da Berberia. Quereis que os vossos netos relinchem para vos pedir a benção? Agrada-vos uma parentela de corcéis e ginetes? 2. Carlos Alberto Nunes
(...) quereis que vossa filha seja coberta por um cavalo berbere e que vossos netos relinchem atrás de vós? Quereis ter cordéis como primos e ginetes como parentes?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
(...) deixareis que vossa filha seja coberta por um
cavalo da Barbaria? Estais querendo ter netos que relincharão em vosso rosto! Acabareis tendo corcéis como primos e ginetes como parentes.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
(...) tereis vossa filha coberta por um cavalo da Barbaria, tereis vossos netos rinchando para vós, tereis corcéis por descendência e ginetes por parentes.
5. Barbara Heliodora
(...) terá sua filha coberta por um garanhão da Barbaria; terá netos que relincham, terá corcéis por primos e ginetes por consangüíneos.
6. Beatriz Viégas-Faria
(...) terá um cavalo berbere cobrindo sua filha; terá seus sobrinhos relinchando para o senhor; terá corcéis por primos e ginetes por parentes.
7. Jean Melville
(...) deixareis que vossa filha seja coberta por um
garanhão da Barbaria? Estais querendo ter netos que relincham! Acabareis tendo corcéis como primos e ginetes como parentes.

RODERIGO.
Your daughter, if you have not given her leave,
I say again hath made a gross revolt,
Tying her duty, beauty, wit, and fortunes
In an extravagant and wheeling stranger
Of here and everywhere. (I. i. 134-8 )
As versões brasileiras são:
1. Onestaldo de Pennafort
Mas vossa filha, repito-o, se não lhe destes licença para tanto, cometeu uma grave falta sacrificando honra, beleza, posição e nobreza, a um estrangeiro nômade, sem eira nem beira.
2. Carlos Alberto Nunes
Vossa filha – de novo vos declaro – se não lhe destes permissão, mui grave pecado cometeu, unindo o espírito, a beleza, o dever e seus haveres a um estrangeiro andejo e desgarrado daqui e de toda parte.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Vossa filha, se não a autorizastes, continuo dizendo, tornou-se culpada de grave falta, sacrificando seu dever, sua beleza,
seu engenho e sua fortuna a um estrangeiro vagabundo e nômade, sem pátria e sem lar.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Vossa filha, se não lhe destes vênia, repito-o, perpetrou grossa revolta, ligando seu dever, beleza, espírito e sorte a um estrangeiro errante e instável, daqui e de toda parte.
5. Barbara Heliodora
Sua filha (sem sua permissão, Repito) fugiu-lhe com baixeza, Ligando herança, espírito e beleza A um estranho errante e extravagante, Sem rumo certo.
6. Beatriz Viégas-Faria
Sua filha, se é que não recebeu a sua permissão, digo-lhe mais uma vez, rebelou-se de modo grosseiro, vinculando sua submissão, sua beleza, sua inteligência e seus dotes a um estranho extravagante e errático tanto por aqui como em qualquer lugar.
7. Jean Melville
Vossa filha, se não a autorizastes, continuo dizendo, tornou-se culpada de grave falta, sacrificando seu dever, sua beleza, seu espírito e sua herança a um estrangeiro extravagante e nômade, sem pátria e sem lar.


BRABANTIO. [...] Run from her guardage to the sooty bosom
Of such a thing as thou: to fear, not to delight. (I. ii.62-71)
Comparando as traduções, temos:
1. Onestaldo de Pennafort
BRABANTIO: [dirigindo-se a Otelo]
abandonar o lar paterno e se entregar aos braços ferrujentos de um ser tal como tu, feito para inspirar terror e não prazer!
2. Carlos Alberto Nunes
fugir de seu guardião, para abrigar-se no seio escuro e cheio de fuligem de uma coisa como é, mais feito para susto causar do que qualquer deleite.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
(…) fugido da tutela paterna para ir refugiar-se no seio denegrido de um ser como tu, feito para inspirar medo e não deleite?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
(...) fugido ao seu abrigo para buscar o seio de fuligem de alguém como és – de dar receio, não prazer?
5. Barbara Heliodora
Haveria jamais (pra ser chacota) De fugir da tutela pro negrume De um peito como o teu, que só traz susto?
6. Beatriz Viégas-Faria
(...) quando é que ela teria abandonado seu pai e protetor, correndo o risco de ser motivo de zombaria geral, para aninhar-se no peito negro de uma coisa como tu... figura que dá medo e não prazer?
7. Jean Melville
(...) ter fugido da tutela paterna para ir abrigar-se no seio
escuro
de um ser como tu, feito para inspirar medo e não deleite?

DUKE. Let it be so.
Good night to everyone. And, noble signor,
If virtue no delighted beauty lack,
Your son-in-law is far more fair than black. (I. iii. 285-8)
Comparemos agora as traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
DOGE (A Brabâncio):
Se o emblema da virtude é a alvura, eu asseguro, senhor, que o vosso genro é mais branco que escuro.
2. Carlos Alberto Nunes
Muito nobre senhor, se de beleza a virtude não for destituída, mais belo é vosso genro do que preto.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Nobre signior, se é verdade que a virtude possui todo o brilho da beleza, vosso genro
é muito mais belo do que negro.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
E, nobre signior Se a virtude confere formosura, Vosso genro tem mais beleza que negrura
5. Barbara Heliodora
Seja tudo assim. Boa-noite a todos; meu nobre senhor, Se a virtude bonita é em seu desvelo, Seu genro é menos negro do que belo.
6. Beatriz Viégas-Faria
E, meu nobre signior, se à virtude jamais faltasse encantadora beleza, seu genro seria muito mais belo que negro.
7. Jean Melville
Nobre senhor, se é verdade que a virtude possui todo o brilho da beleza, vosso genro
é menos negro do que belo.

IAGO. (…) And what delight will she have to look on the devil?” (II. i. 216):
As versões brasileiras são:
1. Onestaldo de Pennafort
E que prazer podem os seus olhos encontrar na contemplação desse bruxo?
2. Carlos Alberto Nunes
E que deleite poderá encontrar na contemplação do demônio?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
E que prazer pode encontrar olhando para o
demônio?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
E que deleite tem ela para olhar no demônio?
5. Barbara Heliodora
E que prazer terá ela em olhar para o diabo?
6. Beatriz Viégas-Faria
E que deleite pode lhe advir de encarar o demônio?
7. Jean Melville
E que prazer pode encontrar olhando para o
diabo?

IAGO: Come, lieutenant, I have a stoup of wine, and here without are a
brace of Cyprus gallants, that would fain have a measure to the health
of the black Othello. (II. iii. 25-7)
Vejamos as traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
Vamos, meu tenente, tenho ali um canjirão de vinho e, lá fora, uns amigos aqui de Chipre que, de bom grado, molhariam a garganta conosco para um brinde ao negro Otelo.
2. Carlos Alberto Nunes
Vamos, tenente; tenho um quartal de vinho e aí fora um par de galantes chipriotas que de bom grado beberiam à saúde do negro Otelo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Vamos, tenente, tenho um cântaro de vinho e, lá fora, estão esperando
uns galantes cipriotas que ficariam bem contentes, se pudessem beber à saúde do negro Otelo.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Vamos, lugar-tenente, eu tenho duas quartas de vinho e esperando do lado de fora há um par de bravos cipriotas que beberiam de bom grado à saúde do negro Otelo.
5. Barbara Heliodora
Vamos, tenente, eu tenho um garrafão de vinho, e aqui fora há um par de galantes de Chipre que gostariam de beber um gole à saúde do negro Otelo.
6. Beatriz Viégas-Faria
Venha, tenente, tenho uma garrafa de vinho. E lá fora estão um punhado de galantes cipriotas que de bom grado tomariam uma dose à saúde do negro Otelo.
7. Jean Melville
Vamos, tenente, tenho um cântaro de vinho e, lá fora, estão esperando
amigos de Chipre que gostariam de beber à saúde do negro Otelo.

IAGO: Ay, there’s the point; - as to be bold with you,
Not to affect many proposed matches
Of her own clime, complexion, and degree,
Whereto we see in all things nature tends
Foh! One may smell in such a will most rank
Foul disproportion, thoughts unnatural. (III. 3. 230-33)
Os tradutores apresentaram as seguintes versões para essa fala:
1. Onestaldo de Pennafort
Aí é que pega o ponto! Sejamos francos: recusar propostas de casamento de ótimos partidos, de patrícios da mesma cor e meio, ao contrário do que seria natural
2. Carlos Alberto Nunes
Sim, esse é o ponto. Para falar franco convosco: recusado haver propostas de casamento de sua própria terra, estado e parentesco, em que se achara conforme em tudo a própria natureza
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Sim, eis aí a coisa. Assim (permiti esta ousadia), tendo recusado tantos partidos que apareciam e que possuíam todas as afinidades de pátria, de raça e de estirpe, para os quais vemos que tendem todas as coisas da natureza
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Sim, esse é o ponto; também (para ser ousado convosco) não querer muitas propostas núpcias
de sua terra, cor e posição - para as quais tende a natureza em tudo – fora!
5. Barbara Heliodora
Esse é o problema; pois se ouso dizê-lo, Pois recusar tantos partidos bons, De sua terra, compleição e grau, Para os quais apontava a natureza
6. Beatriz Viégas-Faria
Sim, esse é o ponto. Como! ... sendo eu atrevido por falar assim com o senhor... para não desejar muitas propostas de casamento condizentes com seu próprio clima, cor de pele, e condição social, conforme vemos ser o caso, em todas as coisas, da tendência natural!
7. Jean Melville
Sim, eis
o problema. Assim (ouso dizê-lo), tendo recusado tantos pretendentes e que possuíam todas as afinidades de pátria, de raça e de grau, para os quais apontavam todas as coisas da natureza, hum!

IAGO. But pardon me: I do not in position
Distinctly speak of her; though I may fear
Her will, recoiling to better judgement,
May fall to match you with her country forms,
And happily repent. (III.iii.235-9)
As versões brasileiras são:
1. Onestaldo de Pennafort
(...) recear que ela, caindo em si, comece a comparar-vos com os seus patrícios e depois... quem sabe? Talvez acabe por se arrepender....
2. Carlos Alberto Nunes
chegue a recear que seus desejos possam vir dar de encontro a um juízo mais sadio e com seus compatriotas confrontar-vos, levando-a, porventura, a arrepender-se.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
(...) embora possa temer que
sua alma voltando a inclinações mais normais, chegue a comparar-vos com pessoas de seu país e acabe, talvez, por sentir-se arrependida.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
O que eu receio é que sua vontade, Recuando para um juízo mais maduro, Venha a vos comparar com a aparência Dos conterrâneos dela e então arrepender-se.
5. Barbara Heliodora
(...) embora tema Que o seu desejo, pensando melhor, Recaia sobre alguém de seus costumes, E se arrependa
6. Beatriz Viégas-Faria
Embora eu receie que a sua vontade, uma vontade inversa a um bom discernimento, ainda venha a comparar o senhor com as formas da pátria dela e venha arrepender-se.
7. Jean Melville
(...) embora possa temer que
seu desejo, voltando a inclinações mais normais, recaia sobre pessoas de seu país, talvez, por sentir-se arrependida.

OTHELLO.
Haply for I am black
And have not those soft parts of conversation
That chamberers have; or for I am declined
Into the vale of years- yet that’s not much - (III. iii.260-3)
Comparando as traduções, temos:
1. Onestaldo de Pennafort
Talvez por eu ser negro e não ter o falar adocicado e as maneiras suaves dos galantes da corte... Ou quem sabe porque já vou descendo o vale inclinado dos anos.... Mas por tão pouco
2. Carlos Alberto Nunes
Porque sou negro e de fala melíflua não disponho qual petimetre, ou porque já me encontro no declive da idade – mas não tanto —
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Talvez porque seja negro e não tenha
na conversação as formas flexíveis dos intrigantes, ou então, porque esteja descendo o vale dos anos (embora nem tanto assim)
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Talvez por eu ser negro e sem as qualidades agradáveis de fala e de maneiras a serviço dos homens elegantes ou porque declinei no vale já dos anos, embora ainda não muito,
5. Barbara Heliodora
Quiçá por ser eu preto, E faltar-me as artes da conversa Dos cortesãos, ou por estar descendo Para o vale dos anos – mas nem tanto ...
6. Beatriz Viégas-Faria
Talvez porque sou negro, e não tenho em mim aquelas partes suaves do diálogo que têm os galanteadores, ou talvez porque já me encontro no outono da maturidade... contudo, ainda longe do inverno da velhice...
7. Jean Melville
Talvez porque seja negro e não tenha na linguagem as formas flexíveis dos cortesãos, ou então porque esteja descendo o vale dos anos (embora nem tanto)...


OTHELLO
I’ll have some proof. Her name, that was as fresh
As Dian’s visage, is now begrimed and black
As mine own face. (III. iii.387-9)
Os tradutores apresentaram as seguintes versões para a fala:
1. Onestaldo de Pennafort
Quem me dera uma prova! O nome dela, que antes era límpido como a face de Diana, se enegreceu como o meu próprio rosto.
2. Carlos Alberto Nunes
O nome dela, que era tão singelo como o rosto de Diana, ora se encontra como o meu próprio rosto: negro e sujo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
O nome dela, que era puro como o rosto de Diana, está agora embaciado e negro como meu rosto...
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Meu nome, que era tão viçoso como o rosto De Diana, está agora conspurcado e negro Como o meu próprio rosto.
5. Barbara Heliodora
Quero prova: meu nome era tão claro Como o de Diana casta; e ora é tão negro Quanto o meu rosto:
6. Beatriz Viégas-Faria
O nome dela, antes puro como a face de Diana, vejo-o agora enegrecido, escuro como meu próprio rosto.
7. Jean Melville
O nome dela, que era puro como o rosto de Diana, está agora negro como meu rosto...

OTHELLO
Damn her, lewd minx! O, damn her!
Come, go with me apart; I will withdraw,
To furnish me with some swift means of death
For the fair devil. (III. iii. 476-8)
1. Onestaldo de Pennafort
Antes maldita seja! Maldita! descarada! dissoluta! Vamos lá para dentro. Quero assentar contigo um meio fulminante de dar a morte àquele belo diabo.
2. Carlos Alberto Nunes
Que baixe para o inferno essa lasciva prostituta! Que baixe para o inferno! Fica à parte comigo; retirar-me desejo, para refletir nalguma modalidade suave de extermínio para esse belo diabo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Oh, que ela seja condenada! Vamos,
afastemo-nos daqui! Vou retirar-me para encontrar meios de morte rápidos para o encantador demônio.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Que o inferno a leve, luxuriosa mulher à toa! O inferno a leve! A perdição a leve! Vamos, vinde comigo à parte. Eu me retiro para munir-me de alguns meios rápidos de morte para o belo diabo. 5. Barbara Heliodora
Maldita seja a rameira
: maldita! Vamos, venha comigo e, em segredo Hei de achar meios de matar depressa A bela infame.
6. Beatriz Viégas-Faria
Maldita seja ela, mulherzinha descarada, indecente e lasciva. Oh, maldita seja ela! Vamos, acompanha-me, separemo-nos dos outros. Vou retirar-me para suprir minha imaginação com alguns meios rápidos de morte para aquele lindo demônio (p. 102)
7. Jean Melville
Maldita seja a rameira! Oh, que ela seja condenada! Vamos embora daqui! Vou retirar-me para encontrar meios de morte rápidos para a bela.

OTHELLO
This argues fruitfulness and liberal heart:
Hot, hot, and moist: this hand of yours requires
A sequester from liberty, fasting and prayer,
Much castigation, exercise devout;
For here’s a young and sweating devil here,
That commonly rebels. ‘Tis a good hand,
A frank one. (III. iv. 34-40)
As versões do trecho são agora apresentadas:
1. Onestaldo de Pennafort
Denota exuberância e prodigalidade e coração. Quente, quente e úmida! Esta mão pede clausuras, jejuns e orações, mortificações e práticas devotas, porque está aqui um diabrete que ao mesmo tempo arde e sua por se rebelar a todo momento. Uma bela mão, aliás. E aberta!
2. Carlos Alberto Nunes
Isso revela desperdício e, em tudo coração liberal. Úmida e quente! Esses sinais indicam que é preciso cercear a liberdade e, assim, impor-vos jejuns e rezas, pios exercícios e mortificações, pois um demônio suarento aqui demora, que costuma rebelar-se. A mão tendes muito boa,
muito franca, em verdade.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Isto anuncia liberalidade e coração pródigo. Quente, quente e úmida! Esta mão requer o seqüestro da liberdade, jejuns e orações, muita mortificação e exercícios de devoção, pois nela existe um demônio jovem e suarento que comumente se rebela. É uma boa mão, e também
franca.

4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Isso indica fertilidade e um coração bondoso. Quente, úmida e quente. Vossa mão requer Uma separação da liberdade; Jejum e prece austera, disciplina Devotos exercícios. Pois aqui há um jovem diabo suado que ordinariamente Se rebela. É uma boa mão. E livre.
5. Barbara Heliodora
Então é fértil, tem bom coração
; Úmida e quente, a sua mão requer Muito controle, preces e fastio, Com muita penitência e devoção; Pois um jovem demônio sua aqui, Que tende à rebeldia. É uma mão boa. E franca.
6. Beatriz Viégas-Faria
Isso denuncia frutífera amorosidade e um coração liberal. Quente, quente e úmida. Esta tua mão requer um seqüestro de tua liberdade; requer jejum e orações, muita penitência, práticas piedosas, pois há aqui um demônio jovem que sua e transpira o tempo todo um rebelde.
Esta é uma boa mão, de dedos francos.
7. Jean Melville
Então é fértil e tem bom coração. Quente, quente e úmida! Esta mão requer muito controle, jejuns e preces, muita penitência e devoção, pois nela um demônio jovem transpira e tende à rebeldia. É uma boa mão, e também franca.

OTHELLO:
O devil, devil!
If that the earth could teem with woman’s tears,
Each drop she falls would prove a crocodile. (IV. i. 234-6)
Apresentamos as versões brasileiras a seguir:
1. Onestaldo de Pennafort
Demônios! demônios! Se a terra pudesse ser fecundada por lágrimas de mulher, de cada gota vertida brotaria um crocodilo.
2. Carlos Alberto Nunes
Oh, demônio! Demônio! Se, com lágrimas de mulher fosse a terra fecundada, cada gota geraria um crocodilo.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Ó demônio, demônio! Se as lágrimas de uma mulher pudessem fecundar a terra, cada lágrima que ela deixasse cair viraria um crocodilo.

4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Oh, que demônio! Demônio! Se com pranto de mulher Pudesse a terra se fertilizar Cada gota por ela derramada Mostrar-se-ia um crocodilo.
5. Barbara Heliodora
Oh, demônio! Se co’esse pranto ela emprenhasse a terra, Gerava um crocodilo cada lágrima.
6. Beatriz Viégas-Faria
Oh, demônio, demônio. Pudesse a terra ser fecundada por lágrimas femininas, de cada gota por ela derramada nasceria um crocodilo.
7. Jean Melville
Ó demônio! Se as lágrimas de uma mulher pudessem fecundar a terra, cada lágrima que ela deixasse cair geraria um crocodilo.

OTHELLO
Was this fair paper, this most goodly book,
Made to write “whore” upon? What committed! (IV. ii. 70-1)
Transcrevemos agora as versões:
1. Onestaldo de Pennafort
Pois esse pergaminho alvíssimo, esse livro tão precioso terá sido feito para escrever-se nele “prostituta”?
2. Carlos Alberto Nunes
Teria sido feito um tão formoso papel, tão belo livro, para nele ficar escrito o nome “Prostituta”?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Esta página tão branca, este livro tão belo, foram feitos para que nele se escrevesse a palavra “prostituta"?
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Este belo papel, este vistoso livro, Foram feitos para escrever “rameira” neles?
5. Barbara Heliodora
Mas foi feita essa página, ou esse livro, Para se escrever “puta”?
6. Beatriz Viégas-Faria
O papel mais alvo, o livro mais formoso foram feitos para que neles se escrevesse a palavra "prostituta"?
7. Jean Melville
Esta página tão branca, este livro tão belo, foram feitos para que nele se escrevesse a palavra “prostituta”?

O original inglês é:
EMILIA
O, the more angel she,
And you the blacker devil! (V. ii. 132-3)
As traduções são:
1. Onestaldo de Pennafort
Ela era um anjo tão certo com sois um diabo negro!
2. Carlos Alberto Nunes
Tanto mais anjo ela é por isso; e vós demônio negro.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Oh, Por isto, mais anjo ela é e vós, mais negro demônio!
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Tanto mais anjo ela, E o mais negro demônio vós!
5. Barbara Heliodora
Mais anjo então é ela, E o senhor mais negro demo!
6. Beatriz Viégas-Faria
Oh! Isso a faz o mais anjo ainda, e faz do senhor o mais negro dos demônios!
7. Jean Melville
Oh! Por isto mais anjo ela é, e vós, mais negro demônio!

EMILIA
Thou dost belie her, and thou art a devil. (V. ii. 133)
O trecho foi reproduzido da seguinte forma:
1. Onestaldo de Pennafort
Isso é uma calúnia! E tu és um demônio!
2. Carlos Alberto Nunes
Não passas de um demônio a caluniá-la!
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Vós a estais caluniando! Sois um demônio!
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Tu a calunias, e tu és um demônio.
5. Barbara Heliodora
Isso é calúnia e o senhor um demônio!
6. Beatriz Viégas-Faria
Isso é calúnia, e tu és o demônio!
7. Jean Melville
Vós a estais caluniando! Sois um demônio!

OTHELLO: I look down towards his feet; but that’s a fable.
that thou be’st a devil, I cannot kill thee. (V. ii. 283-4)
A fala de Otelo ficou da seguinte forma nas traduções:
1. Onestaldo de Pennafort
Não tem os pés de cabra, como se diz na fábula; porém, se eu não puder matá-lo é que é mesmo o demônio!
2. Carlos Alberto Nunes
Procuro ver-lhe os pés. Mas não... É pura fábula. Se fores o diabo, não conseguirei matar-te.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Olho para os pés dele ... Mas isto é uma
fábula. Se és demônio, não posso matar-te.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Olho para seus pés; mas isso é fábula Se és um diabo, eu não posso te matar
5. Barbara Heliodora
Eu olhei os seus pés, mas isso é lenda; Se és o diabo, não posso matar-te.
6. Beatriz Viégas-Faria
Olho para baixo, buscando ver-lhe os pés. Mas isso não passa de fábula. Se tu fosses o diabo, não teria como matá-lo.
7. Jean Melville
Olho para os pés dele... Mas isto é uma
lenda. Se és diabo, não posso matar-te.

OTHELLO: Will you, I pray, demand that demi-devil
Why he hath thus ensnared
My soul and body? (V. ii. 298-9)
As versões do trecho são:
1. Onestaldo de Pennafort
Poderíeis saber desse monstro a razão por que me quis colher alma e corpo, em seu laço?
2. Carlos Alberto Nunes
Perguntai, por favor, a este demônio por que a alma e o corpo me enleou a tal ponto.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Quereis, por favor, perguntar a esse meio demônio por que enfeitiçou assim minha alma e meu corpo?

4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Quereis, eu rogo-vos Interrogar a esse semi-diabo Por que ele assim enleou minha alma e corpo? 5. Barbara Heliodora
Quer, por favor, indagar do demônio Por que foi que enredou meu corpo e alma?
6. Beatriz Viégas-Faria
Rogo-lhes: poderiam vocês perguntar a esse meio-demônio por que razão armou ele um tal engodo para minha alma e meu corpo?
7. Jean Melville
Quereis, por favor, perguntar a esse demônio por que enfeitiçou assim minha alma e meu corpo?


Outra alusão, mas dessa vez a Otelo ser (ou ter sido) pagão, encontra-se na
descrição que Iago faz do General como “an erring barbarian” (I. iii. 343):
1. Onestaldo de Pennafort: barbaresco nômade
2. Carlos Alberto Nunes: bárbaro errático
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes: aventureiro bárbaro
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos: bárbaro errante
5. Barbara Heliodora: bárbaro errante
6. Beatriz Viégas-Faria: bárbaro pecador
7. Jean Melville: aventureiro bárbaro

DESDEMONA:
Well prais’d! How if she be black and witty? (II. i.130)

1. Onestaldo de Pennafort
Belo elogio! E qual o que farias De uma mulher morena e inteligente?
2. Carlos Alberto Nunes
Ótimo! E se for preta e espirituosa?
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Belo elogio! E se for uma dama morena e espirituosa?

4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Bem louvado. Mas se ela for morena e esperta?
5. Barbara Heliodora
Muito bem! E se for escura e viva?
6. Beatriz Viégas-Faria
Elogio muito bem feito! E se for negra e esperta?
7. Jean Melville
Belo elogio! E se for uma dama morena e espirituosa?

IAGO:
If she be black, and thereto have a wit,
She’ll find a white that shall her blackness fit (II. 1. 131-2)
1. Onestaldo de Pennafort
Se é morena, mas se de espírito não manca, Há de saber fazer com que a achem muito branca.
2. Carlos Alberto Nunes
Preta e espirituosa... Que mistura! Mas um branco há de achar para a feiúra.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Se ela morena for e espírito tiver, Um branco encontrará que quadre à sua cor.
[nota do tradutor: Há aqui trocadilhos com os vários significados de fair (loura e bela) e black (negra e morena)]
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Se for morena, mas tiver viveza a par, Encontrará um branco com quem se ajustar.
5. Barbara Heliodora
Se viva, mesmo sendo imitação, Um branco há de escolher-lhe a escuridão.
6. Beatriz Viégas-Faria
Se for negra e esperta a mulher, Esperteza ela sabe usar Para um homem branco arranjar Que lhe esfregue a tal negra tez.
7. Jean Melville
Se ela morena for e espírito tiver, Um branco encontrará que quadre à sua cor.
[nota do tradutor: Trocadilhos com os diferentes significados de fair (loura e bela) e black (negra e morena)]


IAGO:
She never yet was foolish, that was fair,
For even her folly help’d her to an heir. (II. i. 134-5)
1. Onestaldo de Pennafort Bela e tola, não há. Se é bela, acha um parceiro Que logo a ajudará a arranjar um herdeiro.
2. Carlos Alberto Nunes
Mulher tonta não há, sendo bonita, Pois sabe arranjar filho e ser catita.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Mulher tola não há, se beleza ela tem, Pois mesmo tola sendo, sabe filho arranjar.
[nota do tradutor: Trocadilho quanto ao sentido de folly (estupidez e devassidão)]
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Nenhuma, se for bela, tola se mostrou, porque sua tolice herdeiro lhe granjeou.
5. Barbara Heliodora
Ser tola a moça linda eu nunca vi: A bela faz tolinhos para si.
6. Beatriz Viégas-Faria
Não existe mulher bela De tamanha estupidez Que não possa se gabar De um herdeiro que ela fez.
7. Jean Melville
Se beleza ela tem, mulher tola não há Pois mesmo tola sendo, sabe filho arranjar.
[nota do tradutor: Trocadilho quanto ao sentido de folly (estupidez e devassidão)]

IAGO
There’s none so foul, and foolish thereunto,
But does foul pranks, which fair and wise ones do. (II. i. 139-40)
1. Onestaldo de Pennafort
Feia e tola que seja, inda assim é capaz De fazer o que a mais bonita e esperta faz.
2. Carlos Alberto Nunes
Não há feia tão tola que não possa Nas belas e sabidas fazer mossa.
3. Cunha Medeiros/Oscar Mendes
Feia ou tola não há mulher que não pratique as loucuras que a bela e sábia fazer sabe.
4. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Não há ninguém tão tola e feia além do mais que não faça o que a bela, o que a de siso faz.
5. Barbara Heliodora
Nunca houve ninguém tão tola e feia que, como a bela, não armasse teia.
6. Beatriz Viégas-Faria
Não há mulher feia o suficiente e burra na medida certa que não consiga ser tão quente como a dama mais bela e esperta.
7. Jean Melville
Não há mulher feia ou tola que não pratique as loucuras que a bela e sábia sabe fazer.

(Márcia Paredes Nunes, pp. 170-243, passim)

24 de mai de 2009

was ist aufklärung

em as luzes e as sombras apresentei o cotejo de que significa orientar-se no pensamento, de kant, na edição bilíngue da vozes e na edição da martin claret. em as sombras e as luzes especulei um pouco sobre o grau de difusão desse texto de kant pela martin claret.

há um outro texto de kant, que é a celebérrima beantwortung der frage: was ist aufklärung? [resposta à pergunta: que é "esclarecimento"?], de 1783. não tenho palavras para descrever a importância desse pequeno artigo de kant na história do pensamento ocidental moderno. se a martin claret o apresenta em sua edição como um opúsculo pouco conhecido (p. 97), só posso incluir essa afirmação em seu vasto rol de desserviços prestados ao leitor.

abaixo, a tradução de floriano de souza fernandes (vozes) e a tradução atribuída a "leopoldo holzbach" (martin claret). os itálicos na tradução de souza fernandes seguem os itálicos originais de kant.

1. floriano de souza fernandes
esclarecimento ["aufklärung"] é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. a menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. o homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. sapere aude! tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento ["aufklärung"]. (p. 100)

2. leopoldo holzbach
"esclarecimento" [aufklärung] significa a saída do homem de sua menoridade, da qual o culpado é ele próprio. a menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. o homem é o próprio culpado dessa menoridade se a sua causa não estiver na ausência de entendimento, mas na ausência de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. sapere aude! tem a ousadia de fazer uso de teu próprio entendimento - tal é o lema do esclarecimento [aufklärung]. (p. 115)

1. floriano de souza fernandes
a preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem no entanto de bom grado menores durante toda a vida. são também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em mentores deles. é tão cômodo ser menor. se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que por mim decide a respeito de minha dieta, etc., então não preciso de esforçar-me eu mesmo. (pp. 100-2)

2. leopoldo holzbach
a preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. são também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam seus tutores. é tão cômodo ser menor! se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que decide por mim a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo. (p. 115)

1. floriano de souza fernandes
para este esclarecimento ["aufklärung"] porém nada mais se exige senão LIBERDADE. e a mais inofensiva entre tudo aquilo que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todas as questões. ouço, agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocineis! o oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos! o financista exclama: não raciocineis, mas pagai! o sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! (um único senhor no mundo diz: raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). eis aqui por toda a parte a limitação da liberdade. que limitação, porém, impede o esclarecimento ["aufklärung"]? qual não o impede, e até mesmo o favorece? respondo: o uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento ["aufklärung"] entre os homens. (p. 104)

2. leopoldo holzbach
para este esclarecimento [aufklärung], porém, nada mais se exige senão liberdade. e a mais inofensiva dentre tudo o que se possa chamar liberdade, a saber: a de fazer um uso público de sua razão em todos os assuntos. ouço agora, porém, exclamações de todos os lados: "não raciocineis!" o oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos. o financista exclama: "não raciocineis, mas pagai!" o sacerdote proclama: "não raciocineis, mas acredita!" (um único senhor no mundo diz: "raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!"). eis aqui por toda a parte a limitação da liberdade. mas que limitação impede o esclarecimento [aufklärung]? qual não o impede, e mesmo o favorece? respondo: o uso público de sua razão deve ser sempre livre e só ele pode realizar o esclarecimento [aufklärung] entre os homens. (p. 117)


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.




imagem: www.improbabilidade.com.br

23 de mai de 2009

o nietzsche burati-rideeliano

no caso dos clássicos meio detonadões devido aos sequestros tradutórios sofridos cá em nossa terrinha, costumo apresentar uma amostra dos estragos em teses, artigos, ementas de curso, acervos de bibliotecas públicas, licitações, concursos etc. dê uma olhada no arquivo à direita, "nas escolas".

para nietzsche não se sentir triste ou injustiçado por não ganhar uma listinha toda sua, eis por onde andam acerca da verdade e da mentira e o anticristo em plágio (ou será contrafação?)* atribuído pela editora rideel ao nome de "heloísa da graça burati".

"Plágio: Violação da propriedade intelectual que se caracteriza pela imitação total ou parcial de obra literária alheia, inculcando-se a qualidade de autor da mesma. [...] Torna-se contrafação quando há reprodução fraudulenta de obra alheia com o objetivo de lucro", Guimarães, Torrieri (org.), Dicionário Técnico Jurídico, SP, Rideel, 3a. ed., 2001, p. 427.



www.prto.mpf.gov.br/info/info_detalhes_a.php?iid=689&ctg=&sctg
www.administradores.com.br/artigos/como_nos_tornamos_aquilo_que_somos/544/
http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982007000200007&lng=es&nrm=iso
www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/dimap/PREGAO_40_2008_LIVROS%20MAIOR%20DESC_POR%20AREA.doc
www.comunidadeespirita.com.br/artigos/artigos2006/shakespeare%20dante%20nietzsch...
www.scielo.br/pdf/agora/v10n2/a07v10n2.pdf
http://tede.pucrs.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=618
www.consciencia.org/niilismo-como-caminho-para-o-super-homem-em-friedrich-nietzsche
http://dspace.lcc.ufmg.br/dspace/bitstream/1843/ECAP-6ZRFJ3/1/flavio_barbeitas.pdf

muitíssimo felicissimamente, a listinha é curta, até onde consegui apurar. claro que tem também os milhares de leitores que adquiriram e continuam a adquirir os exemplares contrafeitos (contrafatos? contrafazidos?) - mais uma forte razão para que o pobre do nietzsche rideeliano saia de circulação, não é mesmo, dona rideel?

imagem: http://entendanietzsche.blogspot.com

22 de mai de 2009

o quilo de 150 gramas

alguém sabe me explicar como um texto integral de mais ou menos umas 170-200 páginas, dependendo da edição, pode caber em 33 páginas, com letra de tamanho normal e formato pocket, e continuar se apresentando como "texto integral"?*

* por exemplo, maquiavel, a arte da guerra:
- editora escala, 174 pp.
- editora l&pm, 208 pp.
- editora martin claret, 33 pp.

imagem: http://complexus.blogs.sapo.pt

concurso


este foi um dos ganhadores do plagiarius 2008.
se alguma editora quiser concorrer,
pode baixar aqui o formulário de inscrição.

21 de mai de 2009

frase do dia


RUDOLF VON IHERING, A LUTA PELO DIREITO

A irritabilidade e a ação, isto é, a faculdade de sentir a dor causada por uma lesão em nosso direito e a coragem aliada à resolução de repelir o ataque, são o duplo critério mediante o qual se pode reconhecer se o sentimento do direito é são - TAVARES BASTOS

A suscetibilidade, isto é, a capacidade de sentir a dor diante duma ofensa ao direito, e a energia, isto é, a coragem e determinação de repelir a agressão, constituem os critérios pelos quais se afere a presença dum sadio sentimento de justiça - ROBERTO DE BASTOS LELLIS

A suscetibilidade, isto é, a capacidade de sentir a dor diante de alguma ofensa ao direito, e a energia, isto é, a coragem e a determinação de repelir a agressão, ambas constituem os critérios pelos quais se confere a presença do sentimento sadio de justiça - PIETRO NASSETTI

20 de mai de 2009

machado tradutor

machado de assis traduziu umas cinquenta obras, de victor hugo,* molière, la fontaine, shakespeare, poe (quem não conhece sua tradução de o corvo?), schiller, heine, dante. a editora crisálida, de belo horizonte, publicou no ano passado machado de assis tradutor, de jean-michel massa, um dos grandes especialistas em machado, sobretudo de sua atividade tradutória tão pouco lembrada por seus conterrâneos (blush, blush, shame on us!).


que legal, agora a crisálida está lançando três traduções inéditas de machado, em volume organizado por massa e traduzido (a introdução e as notas de massa, claro, não as traduções de machado!) por oséias silas ferraz. quem estiver em são paulo tem esse programa imperdível para o dia 5 de junho, na livraria cultura.

* a editora martin claret, diga-se de passagem, até cadastrou na fundação biblioteca nacional os trabalhadores do mar de victor hugo em suposta tradução de pietro nassetti. mas deve ter reconsiderado a questão, pois o volume acabou sendo publicado com os devidos créditos de tradução a nosso querido machado.

19 de mai de 2009

notificação da martin claret

quanto à notificação que recebi da martin claret (extrajudicial, e não judicial como foi divulgado na publishnews e no blog do galeno), agradeço a todos que enviaram mensagens de apoio e solidariedade.


constituí advogado e estamos estudando as medidas judiciais e extrajudiciais que serão tomadas, tanto no terreno cível como no criminal.

imagem: banner criado por raquel sallaberry

16 de mai de 2009

ajustando o foco


um leitor identificado apenas como "alberto" deixou ontem um comentário em lá e cá, que aqui reproduzo e aproveito para tecer algumas considerações.

estimada denise, seu trabalho protojornalístico é interessante, mas falta rigor no seu método. você faz afirmações bombásticas sem apurar completamente os fatos. com isso, expõe-se a processos. afirmações como "fulano de tal é diretor da cbl; portanto, a cbl endossa tais práticas" é leviana e perigosa. cuidado.

o que provavelmente acontece, nesses casos, é que uma editora cede os direitos de tradução para outra. mas aí vem a dúvida: o contrato do tradutor, apesar de ser de cessão definitiva de direitos, não prevê isso. "ah, troque o nome que ninguém vai perceber..." aí, inventaram a internet e... surgiu a denise. fique bem.

estimado alberto, agradeço suas observações, que acredito bem intencionadas.

embora eu não tenha a menor pretensão jornalística, espero sempre estar calçada nas informações que divulgo. assim, jamais fiz a afirmação mencionada em seu comentário: seria de fato algo ridículo e infundado, em vista das dezenas e dezenas de editoras íntegras que compõem a cbl, imagino que em esmagadoríssima maioria! creio que vc entendeu equivocadamente minhas palavras: muito pelo contrário, eu torceria por uma manifestação positiva, construtiva da entidade.

por outro lado, creio que expor opiniões e preocupações fundadas em fatos, apresentar dúvidas, fazer perguntas, é algo inteiramente legítimo. pois veja só: semanas atrás liguei para a cbl justamente para me informar sobre o funcionamento da entidade em relação a eventuais associadas que utilizam práticas editoriais de legalidade duvidosa. a resposta foi que o regimento da cbl não dispõe de um código de ética para os associados, que a câmara não entra no mérito das práticas empresariais adotadas por seus membros, e respeita igualmente a presença de todos os seus associados. tal foi a informação que gentilmente forneceu a presidente da cbl, sra. rosely boschini.

assim,
- se a legislação dos direitos autorais não contempla os interesses dos cidadãos leitores,
- se a principal entidade do livro no país não prevê em seus estatutos mecanismos de defesa institucional da idoneidade no setor,
- se a fundação biblioteca nacional declara que apenas cadastra os dados enviados pelos editores ou constantes nos exemplares impressos,
- se a imensa maioria das livrarias se julga acima da lei e não se incomoda em vender produtos admitidamente falsificados,
- se todas as orientações jurídicas são unânimes em afirmar que tais casos pertencem à alçada pública, sob a tutela coletiva de interesses difusos,
- se o instituto de defesa do consumidor diz que tais questões escapam à sua competência,
- se o ministério da cultura declara que não dispõe de nenhuma instância para tal e remete a competência para o ministério público federal,
- se o ministério público federal considera que tais casos não envolvem nomes com envergadura suficiente, à exceção do de monteiro lobato, que justifiquem providências suas,

então eu pergunto: como podem os leitores ter garantia do produto que adquirem? quem ou o que protege a qualidade e idoneidade editorial? quem ou o que assegura que as leis do país referentes ao bem cultural livro sejam respeitadas? quem ou o que se apresenta perante a sociedade como instituição portando a bandeira em defesa do livro honesto?

quanto à sua sugestão sobre "o que provavelmente acontece nesses casos", achei surpreendente: terei entendido mal, ou você afirma que "provavelmente" é a própria editora detentora inicial dos direitos de tradução que aconselha ou sugere à editora interessada em reeditar aquela tradução que "troque o nome" do tradutor? isso sim seria bombástico. fico estarrecida à simples ideia e prefiro descartá-la por demasiado alarmante e, até onde sei, felizmente infundada.

agradeço também seu aviso para que eu tome cuidado. de fato, se há um vazio jurídico e institucional na relação livro/cidadania, como exemplifiquei acima, se o leitor não encontra amparo legal para algo que - imagino eu - é um legítimo direito seu, a saber, poder confiar na integridade do livro que está lendo, a posição de quem protesta contra tal situação se torna muito vulnerável a intimidações. posso lhe dizer, no que tange a mim, que é algo contristador e, sob certos aspectos, até revoltante. pois até algum tempo atrás esperava eu, em minha singeleza, que as editoras probas e as entidades do livro cerrassem fileiras em torno da lisura e da transparência, e não que se calassem ou se abespinhassem por questões corporativas.

quanto à boutade final, "surgiu a denise", pode ser divertida, mas não corresponde aos fatos. pois de forma alguma fui eu a levantar essas lebres. boa parte dessas informações partiu do jornal opção, da folha de s.paulo, da revista agulha, da revista piauí, de o globo, com várias pessoas em diversas ocasiões denunciando na imprensa a onda de irregularidades. o problema da nova cultural foi levantado em diferentes oportunidades, entre outros, por ivo barroso, saulo von randow jr., manuel da costa pinto; o da martin claret, por gonçalo armijo, euler frança, ivo barroso, modesto carone, luis fernando vianna, editora 34 e tantos mais; o da jardim dos livros, por adam sun; o da landmark, por alessandra perlatti. os casos da hemus e rideel afloraram em simples decorrência das pesquisas em torno da martin claret. ações e notificações contra tais práticas foram e têm sido empreendidas por, entre outros, luiz costa lima, companhia editora nacional, companhia das letras, l&pm, editora globo, além de acordos com cláusulas de confidencialidade celebrados com outras editoras lesadas.

ou seja, e este aspecto é essencial, não sou de forma alguma, em absoluto, a única pessoa a se indignar profundamente contra os descalabros editoriais. tal como as coisas têm se colocado ultimamente, porém, parece até que se estaria criando um ente "denise", que serviria de bode expiatório e forma de jogar areia nos olhos em relação a problemas muito sérios, muito abrangentes e muito objetivos, que não de hoje vêm atingindo a credibilidade do mundo do livro no país.

como cidadã e leitora, quero poder confiar na lisura dos livros que leio, e não vejo o que há de errado nisso. continuo e continuarei insistindo e torcendo para que a cbl e outras entidades expressem uma posição clara e positiva frente à enxurrada de milhões de exemplares espúrios que têm inundado o país nos últimos 12-15 anos, e que estão presentes em milhões de lares, em milhares de bibliotecas públicas, em centenas de programas de curso e ementas de disciplinas em escolas de segundo e terceiro grau. afinal, é apenas disso que se trata: do livro honesto a que todos nós temos direito.

imagem: armazém da biblioteca nacional

14 de mai de 2009

lá e cá

avisei a editora portuguesa relógio d'água que sua edição de acerca da verdade e da mentira, de nietzsche, na tradução feita pelo seminário de estudos filosóficos sob a coordenação da dra. helga hoock quadrado, da universidade de lisboa, tinha sido reproduzida no brasil pela editora rideel, mas curiosamente atribuindo a autoria da referida tradução a uma certa "heloísa da graça burati" e tomando para si o copirraite. veja a cópia da rideel aqui.

"prezados senhores:
lamento informar que sua edição 'acerca da verdade e da mentira', de nietzsche, em tradução de helga hoock quadrado, foi reproduzida literalmente no brasil, pela editora rideel, no entanto tomando para si o copyright e os direitos exclusivos sobre a referida tradução, atribuída a 'heloísa da graça burati'."

recebi a resposta:

"Estimada Denise Bottmann,
Agradecemos a informação que nos deu sobre o plágio cometido pela editora Rideel em relação a «Acerca da verdade e da mentira».Vamos de imediato averiguar a extensão desse abuso e exigir a necessária reparação em relação aos tradutores.
Os melhores cumprimentos,
Francisco Vasconcelos"

tomara que as editoras lesadas de lá tenham mais brios e demonstrem mais respeito por seus tradutores e leitores do que as editoras lesadas daqui, que, tirando o digno exemplo da l&pm, preferem, sabe-se lá por quê, enfiar a viola no saco e ficar caladinhas. outro fato curioso é que o proprietário da editora rideel faz parte da diretoria da câmara brasileira do livro, a principal entidade do livro no país... significará isso que a cbl compactua com tais práticas editoriais de associados e diretores seus? com a palavra a dona rideel e a dona cbl.

imagem: http://madteaparty.wordpress.com

13 de mai de 2009

o papel pedagógico dos blogs

acalorado debate sobre os méritos e deméritos das más traduções e dos plágios em novesfora:
http://9sfora.wordpress.com/2009/05/08/jane-austen-em-maos-erradas

muito interessante. o responsável pelo blog, aliás, está de parabéns por sua quase infinita paciência com os mais exaltados. uma bonita lição de civismo.

imagem: http://sandrapontes.com

cá e lá

notícia na folha online:
nos eua começa a exigência de equipamentos tecnológicos obrigatórios em sala de aula, como material indispensável e pré-requisito mínimo aos estudantes para download de material. a ideia é que os alunos possam baixar materiais letivos que são gratuitos.

já nós aqui em terras tapuias temos de nos defender contra os nassettis, as buratis, os berwicks e os corvisieris da vida que algumas editoras tentam nos empurrar goela abaixo... e ainda engolir a pataquada da "pastinha do professor", toda feita de fragmentos picotados, que é a proposta da abdr, e pela qual os alunos têm de pagar para fazer download!

imagem: http://www.teclasap.com.br/

12 de mai de 2009

scienza nuova

a ciência nova de giambattista vico é a obra mais interessante do barroco italiano e, acho, uma das mais interessantes de toda a filosofia moderna. há muito o que se dizer sobre ela, desde os bizarros deslumbramentos latinizantes de sua linguagem aos rompantes de categóricas afirmações desmesuradas sobre os primórdios dos tempos - por exemplo, sua "dignidade" ou axioma sobre as abóboras -, seu eruditismo jurídico-filológico e explorações meticulosas do sentido oculto da lei das doze tábuas, seu atrevimento esplendoroso de aplicar o more geometrico ao mundo humano, seu doce e profundo apreço por hobbes e o leviatã social construído por definições, seu visceral ódio por descartes, quase como se fosse o bode expiatório das dores e humilhações de seu aleijão...




vico, para mim, é a mais sublime encarnação de nápoles, a desmedida, na sórdida e patética prepotência de um fim de mundo imperial indizível, onde um servil professorzinho provinciano, enlouquecido ao final da vida em meio à gritaria das crianças famélicas e semiesfarrapadas correndo pelas vielas imundas de seu bairro, relembra insciente suas estrênues e reiteradas tentativas, retrospectivo profeta profano armado de santidade, de deflorar os mistérios do mundo. do lodo brota o lótus.

nos idos de 80 passei uns bons anos estudando sua obra, em especial a ciência nova de 1744. naquela época marco lucchesi ainda não se abalançara à inigualável proeza de verter essa enormidade do intraduzível para o português. havia alguns excertos perpetrados pela boa vontade do professor antônio lázaro de almeida prado, talvez não exitosamente como teria desejado, e só. fiz alguns cometimentos privados, algumas quatrocentas páginas minuciosamente anotadas com a recuperação filológico-filosófica do latim florentinizado que, para vico, seria o frasco histórico que encerrava a essência da expressão humana de todos os tempos. nunca cheguei a concluir esse estudo. foi divertido, intenso, e aprendi um pouco de italiano.

assim, fiquei curiosa em ver a ciência nova publicada em 2008 pela editora ícone (devem ser uns poucos excertos, pois é um livro fino e a scienza nuova é um vasto volume). será instrutivo conhecer o recorte escolhido para a seleta e as soluções adotadas para um texto notoriamente vasado numa das linguagens mais intrincadas e obscuras de que se tem notícia em toda a história da filosofia - uma das razões pelas quais, aliás, além do isolamento de seu autor, a ciência nova nunca chegou a ter grande difusão.

imagens: vico; frontispício da ciência nova, ed. 1744

11 de mai de 2009

hoje na taverna


veja aqui por que o taverneiro foge de traduções.
muito simpático, vale a pena!


imagem: van gogh, livros amarelos na editoratrix

9 de mai de 2009

tristeza

nossos sentimentos pela morte de claudia martinelli gama, e nossa profunda solidariedade a mauro gama.

8 de mai de 2009

os irmãos do bem

fiquei felicíssima com a notícia: o prêmio de tradução da abl deste ano foi para paulo bezerra, com seu esplêndido labor em os irmãos karamázov, publicado pela editora 34.

além do imenso mérito da tradução, fiquei feliz também porque paulo bezerra é um dos que detestam figadalmente o plágio.

só para lembrar: os irmãos karamázov protagonizou um dos mais traumáticos casos de plágio no país, envolvendo a antiga tradução de boris schnaiderman publicada pela vecchi. veja aqui.

imagem: capa