30/06/2009

e assim se desbota a memória

as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções, notas, introduções de:

adolfo casais monteiro,
antónio ferreira marques,
antônio pinto de carvalho,
araújo nabuco,
artur morão,
bandeira duarte,
bento prado jr.,
blásio demétrio,
boris schnaiderman,
brenno silveira,
bruno da ponte,
cabral do nascimento,
carlos chaves,
carlos porto carreiro,
casimiro fernandes,
e. jacy monteiro,
eça de queiroz,
eudoro de souza,
éverton ralph,
fernando de aguiar,
fernando carlos de almeida cunha medeiros,
floriano de souza fernandes,
francisco inácio peixoto,
galeão coutinho,
godofredo rangel,
guilherme de almeida (reprodução não autorizada),
helga hoock quadrado,
henrique marques ("pandemónio"),
hernâni donato,
isabel sequeira,
ivan emilianovitch schawirin (reprodução nao autorizada),
jacó guinsburg,
jaime bruna,
jamil almansur haddad,
joão lopes alves,
joão ângelo oliva neto,
joão baptista de mello e souza,
joão paulo monteiro,
joaquim dá mesquita paul,
joaquim machado,
jorge camacho,
josé augusto drummond,
josé duarte,
josé tavares bastos,
leila v. b. gouvêa,
leonel vallandro,
leonidas hegenberg,
líbero rangel de andrade,
líbero rangel de tarso,
ligia junqueira,
liliana rombert soeiro,
lívio xavier,
luísa derouet,
luiz costa lima,
manuel odorico mendes,
marcílio marques moreira (reprodução nao autorizada),
marcos santarrita,
margarida garrido esteves,
maria beatriz nizza da silva,
maria francisca ferreira de lima,
maria helena rocha pereira,
maria irene szmrecsányi,
mário quintana,
milton amado,
moacyr werneck de castro,
modesto carone,
monteiro lobato,
natália nunes,
octany silveira da mota,
octavio mendes cajado,
olinda gomes fernandes,
oscar mendes,
paulo m. oliveira,
paulo rónai,
péricles eugênio da silva ramos,
ricardo iglésias,
rodrigo richter,
sarmento de beires,
sérgio milliet,
silvio deutsch,
silvio meira,
sodré viana,
suely bastos,
tamás szmrecsányi,
vera pedroso,
wilson lousada,
ymaly salem chammas.

título inspirado em daniel piza, "cultura desbotada", toque de joana canêdo

imagem: lost memories

27/06/2009

martin claret, novas edições

o jornal a folha de s.paulo, em sua matéria "Ministério Público investiga plágios", de 26/06, informa:

"Designada para responder pela editora, a advogada Maria Luiza de Freitas Valle Egea diz que a Martin Claret está ‘refazendo o seu catálogo, contratando tradutores para as novas publicações, e pagando os titulares dos direitos de todas as obras em que os problemas estão sendo detectados’. Segunda ela, a Martin Claret já reeditou mais de 80 títulos".

fico feliz que as novas publicações passem a ser de fato traduzidas, e não apenas copiadas. e realmente vi algumas reedições da martin claret em traduções agora aparentemente legítimas. cheguei a comentar aqui as alvíssaras, como leviatã, o discurso do método e elogio da loucura - embora, infelizmente, as edições anteriores das mesmas obras continuem à venda em diversas livrarias, e os exemplares já vendidos não tenham sido objeto de um recall, e sequer de errata ou retificação pública.

se de um lado a declaração da dra. maria luiza de freitas valle egea sugere que a editora está em processo de substituir as centenas de livros com problemas autorais, por outro lado, quanto aos "mais de 80 títulos" já reeditados - estou entendendo, naturalmente, que dra. maria luiza queira dizer reeditados de forma legítima, e não como simples reedição ou reimpressão da obra ilícita -, fiquei sinceramente interessada em saber quais seriam. consultei o site da martin claret, consultei a fundação biblioteca nacional, consultei vários sites de livrarias: espremendo todos os dados com o máximo de boa vontade, não consegui passar de 5.

a meu ver, seria de imensa utilidade para nós leitores que a editora martin claret nos fizesse saber quais são os títulos reeditados em novas traduções e nos informasse se os espúrios foram retirados de circulação.

imagem: http://henryfelippe.blogspot.com

26/06/2009

ministério público investiga plágios

deu hoje na folha de s.paulo (link para assinantes fsp ou uol):

plágio vira caso de polícia.
ministério público estadual determina instauração de inquérito criminal contra fraudes de traduções da editora martin claret.

ministério público federal analisa plágios praticados contra traduções de monteiro lobato.

veja a matéria também no blog do galeno e no observatório da imprensa.

lacunas, poe XXI


a maior parte desse material sobre edgar allan poe apresenta os resultados de uma breve pesquisa: "o gato preto no brasil", apenas no formato livro. apresenta sua fortuna histórica editorial, mostra suas relações com as histórias extraordinárias e revela o equívoco que circula há mais de trinta anos entre nós: que histórias extraordinárias seriam a tradução do original tales of the grotesque and arabesque - com a consequente e inesperada descoberta de que as tga enquanto tal são inéditas no brasil.

o fecho da pesquisa traz a tradução do curto, mas importante prefácio de poe à sua coletânea de 1840. os posts subsequentes citam curiosidades, informações específicas e variedades em geral.

diversas pessoas têm pedido autorização para utilizar o material: naturalmente está ao dispor de todos os interessados, bastando mencionar a fonte. restaram lacunas que não cheguei a completar, embora não sejam dados de difícil acesso. registro abaixo o que deixei em aberto: peço que levem em conta essas falhas e, se possível, ajudem a corrigi-las.

1. falta verificar o conteúdo e a autoria da tradução de:
- novelas de edgar allan poe, brasil américa, edição maravilhosa n. 27, 1950;
- contos, editora três, 1974.

2. falta apurar a autoria da tradução de:
- o mistério do gato preto, tecnoprint, 1954;
- histórias extraordinárias, otto pierre, 1979.

3. falta saber quem são os "outros" e quais as respectivas traduções em:
- histórias extraordinárias, tradução de "brenno silveira e outros", menção que começa a surgir em 1972 na edibolso, e desde 1974 até 2003 nas edições licenciadas pela civilização brasileira para o círculo do livro, a abril cultural e a nova cultural.

4. falta verificar o conteúdo de:
- contos de horror, tradução de luiza lobo, bruguera, 1970;
- o gato preto e outras histórias, seleção, tradução e adaptação de clarice lispector, ediouro, c. 1975;
- histórias extraordinárias, seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar mendes e milton amado, globo, 1987.

5. o levantamento das miscelâneas que incluem o gato preto é bastante incompleto. muito provavelmente são em número bem maior do que o apresentado.

em vista do tema restrito, alguns casos curiosos não receberam a atenção que mereceriam. por exemplo:

- histórias extraordinárias com tradução em nome de joão teixeira de paula, na edição da ordibra/inl (1972) sob licença do clube do livro: seria interessante localizar alguma referência sobre essa edição do clube do livro (que não é a de 1945);

- muitíssimo interessante também seria ver melhor o percurso das novelas extraordinárias dos anos 1920 até 1945, nas edições da garnier, o livro de bolso, cruzeiro do sul e clube do livro.
imagem: x, google images

25/06/2009

zumbi trapalhares IV

sobre o caso dos machados, alencares, eças etc. "traduzidos" por pietro nassetti e quejandos, conforme cadastro na fbn/isbn, sou informada de que a procuradoria enviou ofício ao minc pedindo esclarecimentos e recebeu resposta; enviou ofício à presidência da fbn e recebeu resposta; juntado o expediente, enviou requisição de esclarecimentos à editora martin claret. a ver.

em todo caso, minha petição foi contra o indiferentismo da fbn/isbn, não contra os despautérios da martin claret. a reação da agência brasileira do isbn, perante o problema, tinha sido simplesmente tascar uma ressalva nas fichas cadastrais: "todas as informações contidas neste cadastro foram fornecidas pelos editores no momento da solicitação do isbn".

ok, vá lá que os funcionários da agência tenham cadastrado roboticamente as pérolas enviadas pela editora martin claret. mas, constatado o fato, a agência brasileira do isbn, na fundação biblioteca nacional, teria que corrigir os dados. ela está subordinada à agência internacional do isbn, que determina entre as funções e responsabilidades de cada agência:

- registrar e manter dados corretos;
- corrigi-los quando estiverem errados
[cf. manual de uso, item 9.3, "isbn registration agencies"].

então tascar a frase supracitada eximindo-se de qualquer responsabilidade sobre os dados cadastrados e continuar a mantê-los lá, como fez a agência brasileira do isbn, parece estar em flagrante contradição com o que estabelece a agência internacional.

de mais a mais, como leitora e pesquisadora, acho esse ponciopilatismo da fbn/isbn inadmissível, capaz de constranger qualquer cidadão brasileiro.

imagem: lavando as mãos

o gato pálido, poe XX


edio
uro: sobre a bizarra remissão de suas histórias extraordinárias traduzidas e adaptadas por clarice lispector ao original tales of the grotesque and arabesque de poe, a coordenadora editorial sra. cristiane marinho informa que solicitou ao Arquivo Geral da empresa que "disponibilize todo o material utilizado para a produção do livro".

imagem: o gato pálido

cortesia da casa, poe XIX

como os cotejos costumam ser muito tediosos pela parca sinonímia usada pelos maquiadores de plantão e pelo escasso desafio que propõem à inteligência do leitor, ofereço para a família nassetti-corvisieri-burattiana alguns exercícios para treinar suas habilidades.


I. quando se pretende sugerir uma pátina de respeitabilidade, com um ar levemente arrebicado:

Eis-me a ponto de redigir uma narrativa de si fantástica ao extremo e, não obstante, de extremo desadorno, em prol da qual não antecipo e tampouco encareço qualquer crédito. Desarrazoado, deveras, seria da minha parte esperar tal penhor de confiança, numa instância em que o próprio testemunho dos meus sentidos é por eles mesmos rejeitado. E no entanto desarrazoado não sou – e com grande segurança afirmo não se tratar de um sonho. Porém amanhã hei de perecer, e hoje apraz-me descarregar o que minh'alma oprime. Meu imediato propósito é perante o mundo expor sem rebuços, sem delongas e sem comentários uma série de singelos eventos do meu espaço doméstico. Nas suas consequências, tais eventos trouxeram-me terror - tormento - destruição. Ainda assim não me abalançarei a uma explanação deles. A mim, pouco apresentaram além de Horror – a muitos afigurar-se-ão menos terríveis do que barrocos. Adiante encontrar-se-á porventura um intelecto com capacidade de reconduzir minha fantasmagoria ao lugar-comum – um intelecto de maior equanimidade, maior raciocínio lógico e muito menor suscetibilidade do que o meu, o qual saberá discernir, nas circunstâncias que assombrado aqui pormenorizo, nada além de uma ordinária sucessão de causas e efeitos muito naturais.


II. quando se pretende um certo tom neutro e relativamente escorreito, que não desperte grandes objeções quanto ao literalismo:

Quanto à narrativa profundamente estranha, e todavia despojada que estou em vias de escrever, não espero nem peço que me creiam. Louco realmente seria eu se o esperasse, num caso em que meus próprios sentidos rejeitam o que testemunham. No entanto, louco não estou – e certamente não sonho. Mas amanhã morrerei, e hoje gostaria de desabafar minha alma. Meu propósito imediato é colocar ao mundo, direta e sucintamente, sem comentários, uma série de meros eventos familiares. Em suas consequências, estes eventos me aterrorizaram – me torturaram – me destruíram. Mas não tentarei elucidá-los. Para mim, apresentaram pouco mais do que Horror – para muitos, eles parecerão não tanto terríveis quanto barrocos. No futuro talvez se possa encontrar alguma inteligência capaz de reduzir meu fantasma a uma banalidade – alguma inteligência mais serena, mais lógica, e muito menos excitável do que a minha, a qual perceberá, nas circunstâncias que detalho com espanto, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


III. quando se pretende um certo ar mais solto, num tom de aparência mais direta:

Para a narrativa muito estranha e, ao mesmo tempo, muito simples que vou escrever, não peço nem espero crédito. Seria loucura minha esperar, ainda mais que nem mesmo eu acredito nos meus próprios sentidos. Mas não sou louco – e certamente não estou sonhando. Só que amanhã vou morrer, e hoje quero aliviar a alma. Meu objetivo imediato é apresentar ao mundo, de maneira direta, sucinta, sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Em suas consequências, esses acontecimentos me aterrorizaram – torturaram – destruíram. Mas não vou tentar explicá-los. Para mim, são praticamente o puro Horror – para muitos, mais do que terríveis vão parecer barrocos. Quem sabe algum dia possa surgir um intelecto que reduza meu fantasma ao corriqueiro – um intelecto mais calmo, mais lógico, muito menos excitável do que o meu, que veja, nas circunstâncias que detalho com pavor, apenas uma sucessão normal de causas e efeitos muito naturais.

imagens: dragon, orgão e simplicissimo.

cat/chat, poe XVIII

THE BLACK CAT

For the most wild, yet most homely narrative which I am about to pen, I neither expect nor solicit belief. Mad indeed would I be to expect it, in a case where my very senses reject their own evidence. Yet, mad am I not — and very surely do I not dream. But to-morrow I die, and to-day I would unburthen my soul. My immediate purpose is to place before the world, plainly, succinctly, and without comment, a series of mere household events. In their consequences, these events have terrified — have tortured — have destroyed me. Yet I will not attempt to expound them. To me, they have presented little but Horror — to many they will seem less terrible than barroques. Hereafter, perhaps, some intellect may be found which will reduce my phantasm to the common-place — some intellect more calm, more logical, and far less excitable than my own, which will perceive, in the circumstances I detail with awe, nothing more than an ordinary succession of very natural causes and effects.

LE CHAT NOIR

Relativement à la très étrange et pourtant très familière histoire que je vais coucher par écrit, je n’attends ni ne sollicite la créance. Vraiment, je serais fou de m’y attendre, dans un cas où mes sens eux-mêmes rejettent leur propre témoignage. Cependant, je ne suis pas fou, — et très certainement je ne rêve pas. Mais demain je meurs, et aujourd’hui je voudrais décharger mon âme. Mon dessein immédiat est de placer devant le monde, clairement, succinctement et sans commentaires, une série de simples événements domestiques. Dans leurs conséquences, ces événements m’ont terrifié, — m’ont torturé, — m’ont anéanti. Cependant, je n’essaierai pas de les élucider. Pour moi, ils ne m’ont guère présenté que de l’horreur; — à beaucoup de personnes ils paraîtront moins terribles que baroques. Plus tard peut-être il se trouvera une intelligence qui réduira mon fantôme à l’état de lieu commun, — quelque intelligence plus calme, plus logique, et beaucoup moins excitable que la mienne, qui ne trouvera dans les circonstances que je raconte avec terreur qu’une succession ordinaire de causes et d’effets très naturels.


From my infancy I was noted for the docility and humanity of my disposition. My tenderness of heart was even so conspicuous as to make me the jest of my companions. I was especially fond of animals, and was indulged by my parents with a great variety of pets. With these I spent most of my time, and never was so happy as when feeding and caressing them. This peculiarity of character grew with my growth, and, in my manhood, I derived from it one of my principal sources of pleasure. To those who have cherished an affection for a faithful and sagacious dog, I need hardly be at the trouble of explaining the nature or the intensity of the gratification thus derivable. There is something in the unselfish and self-sacrificing love of a brute, which goes directly to the heart of him who has had frequent occasion to test the paltry friendship and gossamer fidelity of mere Man.

Dès mon enfance, j’étais noté pour la docilité et l’humanité de mon caractère. Ma tendresse de cœur était même si remarquable qu’elle avait fait de moi le jouet de mes camarades. J’étais particulièrement fou des animaux, et mes parents m’avaient permis de posséder une grande variété de favoris. Je passais presque tout mon temps avec eux, et je n’étais jamais si heureux que quand je les nourrissais et les caressais. Cette particularité de mon caractère s’accrut avec ma croissance, et, quand je devins homme, j’en fis une de mes principales sources de plaisirs. Pour ceux qui ont voué une affection à un chien fidèle et sagace, je n’ai pas besoin d’expliquer la nature ou l’intensité des jouissances qu’on peut en tirer. Il y a dans l’amour désintéressé d’une bête, dans ce sacrifice d’elle-même, quelque chose qui va directement au cœur de celui qui a eu fréquemment l’occasion de vérifier la chétive amitié et la fidélité de gaze de l’homme naturel.


I married early, and was happy to find in my wife a disposition not uncongenial with my own. Observing my partiality for domestic pets, she lost no opportunity of procuring those of the most agreeable kind. We had birds, gold-fish, a fine dog, rabbits, a small monkey, and a cat.

Je me mariai de bonne heure, et je fus heureux de trouver dans ma femme une disposition sympathique à la mienne. Observant mon goût pour ces favoris domestiques, elle ne perdit aucune occasion de me procurer ceux de l’espèce la plus agréable. Nous eûmes des oiseaux, un poisson doré, un beau chien, des lapins, un petit singe et un chat.


This latter was a remarkably large and beautiful animal, entirely black, and sagacious to an astonishing degree. In speaking of his intelligence, my wife, who at heart was not a little tinctured with superstition, made frequent allusion to the ancient popular notion, which regarded all black cats as witches in disguise. Not that she was ever serious upon this point — and I mention the matter at all for no better reason than that it happens, just now, to be remembered. Pluto — this was the cat's name — was my favorite pet and playmate. I alone fed him, and he attended me wherever I went about the house. It was even with difficulty that I could prevent him from following me through the streets.

Ce dernier était un animal remarquablement fort et beau, entièrement noir, et d’une sagacité merveilleuse. En parlant de son intelligence, ma femme, qui au fond n’était pas peu pénétrée de superstition, faisait de fréquentes allusions à l’ancienne croyance populaire qui regardait tous les chats noirs comme des sorcières déguisées. Ce n’est pas qu’elle fût toujours sérieuse sur ce point, — et, si je mentionne la chose, c’est simplement parce que cela me revient, en ce moment même, à la mémoire. Pluton, — c’était le nom du chat, — était mon préféré, mon camarade. Moi seul, je le nourrissais, et il me suivait dans la maison partout où j’allais. Ce n’était même pas sans peine que je parvenais à l’empêcher de me suivre dans les rues.*


Our friendship lasted, in this manner, for several years, during which my general temperament and character — through the instrumentality of the Fiend Intemperance — had (I blush to confess it) experienced a radical alteration for the worse. I grew, day by day, more moody, more irritable, more regardless of the feelings of others. I suffered myself to use intemperate language to my wife. At length, I even offered her personal violence. My pets, of course, were made to feel the change in my disposition. I not only neglected, but ill-used them. For Pluto, however, I still retained sufficient regard to restrain me from maltreating him, as I made no scruple of maltreating the rabbits, the monkey, or even the dog, when by accident, or through affection, they came in my way. But my disease grew upon me — for what disease is like Alcohol ! — and at length even Pluto, who was now becoming old, and consequently somewhat peevish — even Pluto began to experience the effects of my ill temper.

Notre amitié subsista ainsi plusieurs années, durant lesquelles l’ensemble de mon caractère et de mon tempérament, — par l’opération du Démon Intempérance, je rougis de le confesser, — subit une altération radicalement mauvaise. Je devins de jour en jour plus morne, plus irritable, plus insoucieux des sentiments des autres. Je me permis d’employer un langage brutal à l’égard de ma femme. À la longue, je lui infligeai même des violences personnelles. Mes pauvres favoris, naturellement, durent ressentir le changement de mon caractère. Non seulement je les négligeais, mais je les maltraitais. Quant à Pluton, toutefois, j’avais encore pour lui une considération suffisante qui m’empêchait de le malmener, tandis que je n’éprouvais aucun scrupule à maltraiter les lapins, le singe et même le chien, quand, par hasard ou par amitié, ils se jetaient dans mon chemin. Mais mon mal m’envahissait de plus en plus, car quel mal est comparable à l’Alcool! — et à la longue Pluton lui-même, qui maintenant se faisait vieux et qui naturellement devenait quelque peu maussade, — Pluton lui-même commença à connaître les effets de mon méchant caractère.

* no texto de baudelaire consultado, a partir de "Pluton" inicia-se um novo parágrafo.

imagens: poe; baudelaire

24/06/2009

variedades, poe XVII

o porão da casa onde poe morou em 1843-44,
referência tão macabramente central em o gato preto.


poe e baudelaire

fascinante toque dado por joana canêdo: o primeiro contato de baudelaire com a obra de poe foi justamente o gato preto.

em janeiro de 1847, uma moça chamada isabelle meunier (uma inglesa casada com um periodista francês, e adepta de fourier) publicou sua tradução de the black cat no jornal fourierista la démocratie pacifique. baudelaire ficou fascinado, e quase quinze anos depois ainda descrevia a seu amigo armand fraisse "la commotion singulière" que se apossou dele. já em 1848 põe-se a traduzir poe, o que vai resultar em 1856 na publicação de suas histoires extraordinaires, que deram azo a tanta confusão de datas, títulos e obras de poe aqui no brasil.

depois da tradução de isabelle meunier, saíram:
- a tradução de william l. hugues, em journal des faits, em 18 de abril de 1851;
- um trecho do conto que baudelaire inseriu no artigo "edgar allan poe, sa vie et ses ouvrages", em la revue de paris, março-abril de 1852;
- a tradução de paul roger em chronique de france, 16 de novembro de 1853;
- sendo que dois dias antes tinha saído a tradução de baudelaire em le paris, em duas partes, em 13 e 14 de novembro de 1853;
- reeditada em le pays em 31 de julho e 01 de agosto de 1854;
- por fim compilada nas nouvelles histoires extraordinaires de edgar allan poe, pela michel lévy, em 1857. em sua tradução, baudelaire usou a versão definitiva do conto, de 1845.

veja toda a sequência da pesquisa poe/brasil clicando na coluna à direita, desde poe I a poe XVI.

aqui a fonte de referências. imagem: clique sobre ela.

I fórum cbl


dia 26 de junho, a câmara brasileira do livro (cbl) realiza seu primeiro fórum de debate permanente sobre questões relativas ao mercado editorial brasileiro. o tema é "políticas públicas de livro e leitura", em duas partes:

- programas federais de aquisição de livros
- a questão dos direitos autorais no brasil

em vista das barbaridades que andam acontecendo no setor editorial de nosso país, quanto a fraudes, contrafações e plágios de tradução, espero que a diretoria da cbl e os ilustres participantes do fórum lembrem que a direitos sempre correspondem deveres.

e que alguns dos deveres concomitantes à titularidade e exploração dos direitos patrimoniais sobre um livro são:
- o respeito à autoria da obra, conforme determinam a constituição federal e a lda 9610;
- o respeito ao leitor da obra, conforme determinam a constituição federal e o código de defesa do consumidor.

entendo, ademais, que ao setor editorial brasileiro, reunido em suas diversas associações, caberia defender como ponto de honra inarredável em seu código de ética profissional o cumprimento de tão elementares deveres.

deixo aqui meus votos de que a câmara brasileira do livro, neste seu primeiro fórum, aborde com franqueza os problemas que têm corroído o mundo do livro em anos recentes e, com sua política de transparência, faça por manter e aumentar sua credibilidade junto à sociedade.

imagem: cbl

23/06/2009

haroldo netto





in memoriam haroldo carvalho netto
(1932-2009).

nietzche [sic]


4 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página

ISBN TÍTULO
978-85-377-0744-9
O ELOGIO DA LOUCURA (ALUNO)
978-85-377-0745-6
O ELOGIO DA LOUCURA (PROFESSOR)
978-85-377-0746-3
O PRÍNCIPE (ALUNO)
978-85-377-0747-0
O PRÍNCIPE (PROFESSOR)

o dicionário dos duplos verbetes

o dicionário filosófico de voltaire, em sua fabulosa versão nassetti-claretiana, comparece em programas de cursos universitários:
http://www.fafich.ufmg.br/~labfil/aulas/ciencia-e-verdade/
http://www1.capes.gov.br/estudos/dados/2002/15001016/035/2002_035_15001016011P4_Disc_Ofe.pdf

está presente em bibliotecas escolares:
http://esmac.phlnet.com.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=VOLTAIRE&code=&lang=
http://200.135.4.10/cgi/Demetrios.exe/show_exemplares?id_acervo=47868

em licitações e compras do governo para uso na rede pública de ensino:
http://www.saolourencodosul.rs.gov.br/arquivos/CC_73_2008.pdf
http://intranet.itajai.sc.gov.br/arquivos/compras_de_agosto_de_2008.txt

em dissertações de mestrado e teses de doutorado:
https://www.univem.edu.br/mestrado_dir/detalhe.asp?reg=7&lng=1
http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=173
http://www.uniplac.net/mestrado/dissertacoes/educacao/mailza.pdf
http://teses.ufrj.br/ip_d/fatimarochaluizvianna.pdf
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000445520
http://www.ce.ufpb.br/ppge/Dissertacoes/dissert06/Ramses%20Nunes/DISSERTA%C7%C3O.pdf

em estudos e artigos acadêmicos ou especializados:
http://www.seer.furg.br/ojs/index.php/index/about
http://www.ajuris.org.br/sharerwords/?org=AJURIS&depto=Dep.%20de%20Publica%C3%A7%C3%B5es&setor=Revista%20da%20Ajuris%20Eletr%C3%B4nica%20-%20Artigos%20Internet&public=16190
http://www.fa7.edu.br/recursos/imagens/File/publicidade/midiademocracia/ARTIGO01.pdf
http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/2186
http://www.amprs.org.br/arquivos/comunicao_noticia/sansroekelly.pdf
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/viewPDFInterstitial/13617/13181
http://www.rc-pro.com.br/arquivos/DOUT/20081217_DOUT_004805.html

em artigos e posts de sites e blogs:
http://www.existencialismofilosofico.com.br/index.php?q=book/export/html/3
http://www.planetanews.com/produto/L/69650/problema-do-nexo-causal-na-responsabilidade-civil--o-gisela-sampaio-da-cruz.html
http://www.ejesus.com.br/exibe.asp?id=3173
http://www.praetorium.com.br/v2009/artigos/87
http://www.skoob.com.br/meus_livros/mostrar/20789/7921/9176

imagem: http://animusiquesdumonde.skynetblogs.be

22/06/2009

a mitologia tradutória

a edição centauriana de a pedagogia e as grandes correntes filosóficas, do educador polonês bogdan suchodolski, na mítica tradução de rubens eduardo ferreira frias, foi selecionada para as compras do governo paranaense para a biblioteca do professor:


http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/destaques/biblioteca_do_professor.pdf

ou para a biblioteca da unesp de bauru:
http://www.biblioteca.bauru.unesp.br/aquisicoes/FC_recebimento_2008_4.pdf

é utilizada com toda a boa fé em:
http://www.concepcionistas.com.br/revista_nova/revista18/PedagogiaDaEssenciaPedagogiaDaExistencia.pdf
http://www2.faculdadeatual.edu.br/prof_andre/pedagogia/quadro_das_concepcoess_pedagogicas.pdf
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada8/txt_compl/Leonardo%20Sacramento.doc
http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/conquer/article/view/22/13
http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/conquer/article/viewFile/24/15

e em programas de curso:
http://www.pucpr.br/cursos/programas/ppge/disciplinas.php

imagem: www.elfwood.com

suchodolski, centauro

lamentabilíssimo que a editora centauro pareça ter enveredado pelas sendas tortuosas do plagiato.

trata-se de sua edição d'a pedagogia e as grandes correntes filosóficas, de bogdan suchodolski, 2002 (meu exemplar é da 2a. ed., 2004).

o problema começa na página de créditos, que dá como "título original: la pedagogie [sic] et les grands courants philosophiques" e, logo abaixo, na ficha catalográfica apresenta o "título original: pädagogik am scheideweg". mas o grave mesmo diz respeito ao texto.

a editora centauro afirma a nós leitores que a obra foi traduzida por rubens eduardo frias. na fundação biblioteca nacional consta o nome completo de "rubens eduardo ferreira frias".

acontece, porém, que essa suposta tradução se revela fidelíssima cópia da tradução de liliana rombert soeiro, publicada em portugal pela livros horizonte (1978, 2a. ed.). a contrafação brasileira não se peja: a literalidade vai do prefácio à última linha da obra.

1. liliana rombert soeiro
primeira parte - aspecto histórico do problema essência e existência, conflito fundamental do pensamento pedagógico

tentou-se variadíssimas vezes, como é sabido, efetuar uma classificação do rico patrimônio constituído pelo pensamento pedagógico moderno. utilizaram-se vários princípios de classificação, o que tornou possível agrupar de vários modos autores, pontos de vista, correntes e posições. delinearam-se assim quadros muito diversos da pedagogia moderna. esses quadros têm, sem dúvida, valor didático, pois ao classificá-los de modos distintos evidenciaram-se múltiplos aspectos das diferentes posições pedagógicas; isto pode contribuir para a compreensão de um fato histórico, a saber: que as posições pedagógicas defendidas nunca foram homogêneas; no entanto, quer pela genealogia, quer pelas suas repercussões, revelaram sempre numerosos elementos de contacto. assim, se percorrermos o extenso conjunto de pontos de vista e de posições pedagógicas tomando como referência princípios de classificação diferentes, dá-se uma boa lição de antiesquematismo e de pensamento analítico que mostra em que medida a realidade, aparentemente homogênea, é de fato variada.

2. em nome de "rubens eduardo frias":
primeira parte - aspecto histórico do problema essência e existência, conflito fundamental do pensamento pedagógico

tentou-se variadíssimas vezes, como é sabido, efetuar uma classificação do rico patrimônio constituído pelo pensamento pedagógico moderno. utilizaram-se vários princípios de classificação, o que tornou possível agrupar de vários modos autores, pontos de vista, correntes e posições. delinearam-se assim quadros muito diversos da pedagogia moderna. esses quadros têm, sem dúvida, valor didático, pois ao classificá-los de modos distintos evidenciaram-se múltiplos aspectos das diferentes posições pedagógicas; isto pode contribuir para a compreensão de um fato histórico, a saber: que as posições pedagógicas defendidas nunca foram homogêneas; no entanto, quer pela genealogia, quer pelas suas repercussões, revelaram sempre numerosos elementos de contato. assim, se percorrermos o extenso conjunto de pontos de vista e de posições pedagógicas tomando como referência princípios de classificação diferentes, dá-se uma boa lição de antiesquematismo e de pensamento analítico que mostra em que medida a realidade, aparentemente homogênea, é de fato variada.

1. liliana rombert soeiro:
como é sabido, o próprio platão no seu sistema pedagógico pôs em relevo o papel da educação como factor que conduz o homem à descoberta da pátria verdadeira e ideal. a educação do pensamento, de acordo com platão, pode recorrer à observação sensível das
coisas e ao estudo dialético das opiniões; o que, todavia, não dá o conhecimento verdadeiro; o conhecimento do mundo imutável da Ideia só é possível como reminiscência da vida que o pensamento observou nesse mundo, antes de animar o corpo e de surgir entre os reflexos das coisas. de modo idêntico, a educação moral atinge os desejos, os hábitos, a vontade; mas as decisões definitivas, relativas ao bem e ao mal, provêm do mundo ideal, a que pertence o pensamento. e, tal como na educação do espírito não existe uma via que possa conduzir da observação sensível aos cumes do conhecimento, na educação moral não existe uma via que conduza das experiências da vida quotidiana ao pleno desenvolvimento da personalidade moral.

2. em nome de "rubens eduardo frias":
como é sabido, o próprio platão no seu sistema pedagógico pôs em relevo o papel da educação como fator que conduz o homem à descoberta da pátria verdadeira e ideal. a educação do pensamento, de acordo com platão, pode recorrer à observação sensível das coisas e ao estudo dialético das opiniões; o que, todavia, não dá o conhecimento verdadeiro; o conhecimento do mundo imutável da Idéia só é possível como reminiscência da vida que o pensamento observou nesse mundo, antes de animar o corpo e de surgir entre os reflexos das coisas. de modo idêntico, a educação moral atinge os desejos, os hábitos, a vontade; mas as decisões definitivas, relativas ao bem e ao mal, provêm do mundo ideal, a que pertence o pensamento. e, tal como na educação do espírito não existe uma via que possa conduzir da observação sensível aos cumes do conhecimento, na educação moral não existe uma via que conduza das experiências da vida cotidiana ao pleno desenvolvimento da personalidade moral.

1. liliana rombert soeiro:
vii
educação virada para o futuro e perspectiva de um sistema social à escala humana

esta posição filosófica não se enquadra numa pedagogia que aceite o estado de coisas existente; não será respeitada senão por uma tendência que assinale o caminho do futuro, por uma pedagogia associada a uma atividade social que transforme o estado de coisas que tenda a criar ao homem condições tais que a sua existência se possa tornar fonte e matéria prima da sua essência. a educação virada para o futuro é justamente uma via que permite ultrapassar o horizonte das más opções e dos compromissos da pedagogia burguesa. defende que a realidade presente não é a única realidade e que, por conseguinte, não é o único critério de educação. o verdadeiro critério é a realidade futura. a necessidade histórica e a realização do nosso ideal coincidem na determinação desta realidade futura. esta necessidade permite-nos evitar a utopia, esta atividade protege-nos do fatalismo.
o feiticismo do presente, que não tolera a crítica da realidade existente e que, por esse motivo, reduz a atividade pedagógica ao conformismo, é destruído pela educação virada para o futuro.

2. em nome de "rubens eduardo frias":
vii
educação virada para o futuro e perspectiva de um sistema social à escala humana

esta posição filosófica não se enquadra numa pedagogia que aceite o estado de coisas existente; não será respeitada senão por uma tendência que assinale o caminho do futuro, por uma pedagogia associada a uma atividade social que transforme o estado de coisas que tenda a criar ao homem condições tais que a sua existência se possa tornar fonte e matéria-prima da sua essência. a educação virada para o futuro é justamente uma via que permite ultrapassar o horizonte das más opções e dos compromissos da pedagogia burguesa. defende que a realidade presente não é a única realidade e que, por conseguinte, não é o único critério de educação. o verdadeiro critério é a realidade futura. a necessidade histórica e a realização do nosso ideal coincidem na determinação desta realidade futura. esta necessidade permite-nos evitar a utopia, esta atividade protege-nos do fatalismo.
o feiticismo do presente, que não tolera a crítica da realidade existente e que, por esse motivo, reduz a atividade pedagógica ao conformismo, é destruído pela educação virada para o futuro.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: http://pedagogia.br.taringa.net; capas em google images.
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21/06/2009

a divina comédia, editora nova cultural

em 2002/2003, a editora nova cultural, sob a coordenação editorial de janice florido, lançou a coleção "obras-primas", com o patrocínio da suzano celulose e sua ong ecofuturo. mais de vinte títulos desta coleção eram plágios, contrafações e apropriações indébitas de traduções anteriores, muitas vezes já esgotadas.

o segundo volume das coleção "obras-primas" era a divina comédia de dante. foi utilizada a tradução de hernâni donato, em prosa, levemente copidescada e com os créditos atribuídos a um "fábio m. alberti". circulando em algumas centenas de milhares de exemplares no país, fez um bom estrago na memória cultural dos brasileiros.

foi com imensa satisfação que recebi este convite abaixo.


a editora nova cultural recolheu e tirou de circulação a edição espúria, ressarciu a editora cultrix (detentora original dos direitos de tradução) e, principalmente, ressarciu o autor da tradução, hernâni donato, da melhor maneira que poderia agradar a um intelectual de seu porte: lançando uma edição comemorativa, totalmente restaurada à forma inicial dada pelo tradutor.

o mais importante: a editora nova cultural vem a público, perante os leitores e a sociedade, substituir abertamente, sem máscaras, sem inúteis tentativas de se justificar, a edição fraudada anterior.

mais uma vez se evidencia a diferença de conduta da nova cultural em relação à martin claret. se ambas plagiaram descaradamente dezenas e dezenas de antigas obras traduzidas, no caso da martin claret só sabemos por ouvir dizer que esta fez algum acordo "confidencial", entre quatro paredes, aqui e ali com alguma editora lesada em relação a algumas obras. nada se sabe sobre os exemplares espúrios, que continuam à venda, nada se sabe sobre as providências junto ao leitor, que continua desinformado e enganado sobre a verdadeira edição.

estão de parabéns a presidência e a atual coordenação editorial da nova cultural. tal como tiveram a desfaçatez de vir a público com uma coleção maciçamente fraudada, agora demonstram a lhaneza de vir a público reparar o malfeito. embora seja o mínimo que se espera, bem sabemos o quanto é raro que isso ocorra.

a hernâni donato, meus melhores votos de que sua tradução da divina comédia tenha o reconhecimento que merece e o lugar que lhe cabe na história da recepção literária no país.

aos leitores, minha viva recomendação: continuemos a defender nossa memória cultural. todos só temos a ganhar.

20/06/2009

as "deliciosas sandes de merda" de voltaire

a história engraçada que mencionei a propósito da tradução portuguesa do dicionário filosófico é a seguinte: por alguma dessas razões editoriais obscuras, bruno da ponte, encarregado de fazer a tradução, resolveu repassar uma parte do serviço para luiz pacheco, fosse para ajudá-lo financeiramente, fosse por qualquer outro motivo.

luiz pacheco, falecido no ano passado, era uma figura um tanto folclórica nos meios intelectuais e editoriais portugueses. pois bem, então ele pegou um dos volumes da tradução que cabia a bruno da ponte. recebeu o pagamento adiantado e, chegada a data de entrega do material, não tinha feito o serviço. depois de muita cobrança de bruno, luiz pacheco pegou o livro e foi datilografando conforme ia lendo. mas estava sem dicionário ao lado e as palavras que não sabia foi datilografando com uns palavrões em vermelho. pôs o texto no correio para o bruno, mas esqueceu de tirar as marcações. bruno entregou o material ao editor e, como o livro estava atrasadíssimo, foi direto da editora para a gráfica, sem passar pela revisão.
naturalmente a gráfica iria imprimir igualzinho, pondo em itálico tudo o que estava em vermelho. nesse meio tempo, o pacheco lembrou e foi correndo para lisboa avisar a editora e conseguiu suspender a impressão para fazer a revisão. mesmo assim passou uma nota de tradutor, e aqui transcrevo as palavras de luiz pacheco.

"Estava então a escrever como negro e a traduzir o Dicionário Filosófico (de Voltaire) para a Presença, mas quem assinava a tradução era o Bruno da Ponte. Eu tinha de o fazer porque era a única fonte de dinheiro, e numa parte ele refere-se a um daqueles malucos profetas da Bíblia que faziam uma espécie de pão com excremento de vaca. Eu estava chateado e o que é que fiz? Escrevi: 'Nota do tradutor: é o que chamaríamos hoje deliciosas sandes de merda.' (risos) Esqueci-me, e aquilo lá saiu em nota do tradutor, que era o Bruno da Ponte. Ele ficou um bocado magoado."

eis a anedota no youtube, contada por vitor tavares.




naturalmente muita gente deplora que o bruno da ponte nunca tenha dado os devidos créditos a luiz pacheco. por outro lado, essa edição não é tida em alta conta entre os interessados e leitores de voltaire. veio cá parar entre nós, com vários verbetes reproduzidos pela martin claret sob nome de pietro nassetti.

é engraçado ver algumas adaptações lusitanas, provavelmente pachequianas:

voltaire:
Médroso. — Quel est ce Tullius Cicero? Jamais je n’ai entendu prononcer ce nom-là la sainte Hermandad
Boldmind. — C’était un bachelier de l’université de Rome, qui écrivait ce qu’il pensait, ainsi que Julius Cesar, Marcus Aurelius, Titus Lucretius Carus, Plinius, Seneca, et autres docteurs
Médroso. — Je ne les connais point; mais on m’a dit que la religion catholique, basque et romaine, est perdue, si on se met à penser.

bruno da ponte:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

pietro nassetti:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

claro que voltaire não falou em santo antônio de pádua, o principal santo português, e que o tradutor português quis ampliar o leque da crítica de voltaire eliminando a referência basca. o cômico é que a claret mantenha tais alterações. daqui a pouco algum acadêmico brasileiro vai dizer com ar muito douto: ah, aquela passagem em que voltaire menciona santo antônio...

[a propósito, essa história me lembrou a fama do monoglota nelson rodrigues como tradutor de harold robbins, enquanto era alfredo barcellos pinheiro de lemos, também falecido no ano passado, que fazia as traduções. mas se o acordo satisfazia a "todos"... e nós leitores dizemos: puxa vida, foi nelson rodrigues que traduziu!]

19/06/2009

dicionário filosófico, cotejo II

como disse, a martin claret, na curiosa montagem de seu dicionário filosófico de voltaire, copiou literalmente os 73 verbetes da tradução de líbero rangel de tarso, pela atena. conseguiu criar artificialmente uns dez verbetes inexistentes no original, e os demais catou de outra tradução.

nessa montagem, as outras vítimas são bruno da ponte e joão lopes alves, cuja tradução saiu pela editorial presença de portugal (1966)* e sob licença na coleção "os pensadores", da abril cultural (o que provavelmente explica as tentativas de maquiar a apropriação).

*aliás, há uma história engraçada sobre essa edição em portugal, que contarei em outra ocasião.

vejamos, por exemplo, o verbete "liberdade de pensamento".

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Éreis cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

2. pietro nassetti:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Cem vezes mais felizes éreis sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, conquanto vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Escrever, nem falar, e nem mesmo pensar, nada disso nos é permitido. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Em suma, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. O governo foi persuadido a pensar que, se possuíssemos o senso comum, todo o Estado ficaria em combustão, e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que nós, os ingleses, somos assim desgraçados, porque cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Por acaso Cícero diminuiu o poder do império romano por haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Boldmind: Não cabe a vós acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens continuassem a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não vos entendo.
Boldmind: Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está fundado? Quando vos propõem algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios; examinai, portanto, esses dogmas.

2. pietro nassetti:

Boldmind: A vós não cabe acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Sendo assim, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não mesmo, todavia pode ser bastante reduzida. Foi exatamente por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Contam mesmo que se os homens continuam a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, para que servirá o Santo Ofício?
Boldmind: Caso os cristãos primitivos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não consigo vos entender.
Boldmind: Acredito. Dir-vos-ei em outras palavras: se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Por conseguinte, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está alicerçado? Sempre que alguém vos propõem [sic] algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Será que no mundo poderá haver maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Sobre a Terra existem cem religiões, e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios. Então examinai esses dogmas.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Medroso: Como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso basta.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espírito; sois uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria prodigiosa.
Boldmind: Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu em Londres. São estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião.

2. pietro nassetti:

Medroso: Mas como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso é o bastante.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: Somente a vós compete aprender a pensar. Porque nascestes com espírito. Vede que sois uma ave na gaiola da Inquisição. O Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la. Qualquer homem pode instruir-se. Vergonhoso é que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Deveis ter ousadia de pensar por vós mesmo.
Medroso: Dizem que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria danosa [sic].
Boldmind: Pelo contrário. No momento em que assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião, e a paz não é perturbada; porém, se algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de bom senso [sic] a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu uma vez em Londres. Grande parte das desgraças do mundo foram causadas por esses tiranos []. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião. [...]


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: http://tomarpartido.weblog.com.pt

martin claret e a boa fé do leitor

no exótico expediente de tentar preencher a cota dos "cento e trinta e qualquer coisa" verbetes duplicando o mesmo artigo em duas traduções diferentes, a martin claret conseguiu demonstrar cabalmente um ponto fundamental: cada tradução é única e irrepetível.

a tal ponto que leitores incapazes de colocar em dúvida a incorruptibilidade da natureza humana acreditam que voltaire realmente quis frisar tanto seus argumentos sobre les bêtes que escreveu dois verbetes diferentes sobre o mesmo tema: "essa questão de crueldade contra os animais ... foi tão veementemente combatida por VOLTAIRE que nesse Dicionário Filosófico lhe são dedicados dois verbetes: o primeiro 'animais' e, o segundo, 'irracionais'".

e naturalmente, ao transcrever a íntegra dos dois verbetes, o honesto leitor dá a devida referência:
"ANIMAIS - Voltaire (1596-1650) (in Dicionário Filosófico, São Paulo : Martin Claret, 2004. capítulo 8, P . 30-32)" e "IRRACIONAIS - Voltaire (1596-1650) (in Dicionário Filosófico, São Paulo : Martin Claret, 2004. capítulo 78, P. 319-321)".

a dona claret devia se envergonhar de se aproveitar tão descaradamente da confiança e boa fé das pessoas.

imagem: shunkosai, wikipedia

dicionário filosófico, cotejo I

quanto à bizarra montagem da martin claret em sua edição do dicionário filosófico de voltaire, duplicando verbetes iguais com traduções diferentes, picotando e criando artificialmente novos verbetes, copiando despudoradamente traduções anteriores, vejamos agora alguns exemplos.

trata-se do artigo sobre o caráter, com um fraseio bem peculiar em português, da lavra de líbero rangel de tarso:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. podemos lá criar alguma cousa? não recebemos tudo. experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (atena, pp. 64-65)

pietro nassetti:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel-prazer, seria senhor da natureza. podemos lá criar alguma coisa? não recebemos tudo. experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderes [sic] dar vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes, colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (martin claret, p. 69)

ou um trecho do verbete "china (da)":

- líbero rangel de tarso:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de tecidos carecêssemos. certa erva para infundir nágua, como se nossos climas não produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (atena, p. 106)

- pietro nassetti:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de tecidos carecêssemos. certa erva para infundir na água, como se nossos climas não produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (martin claret, p. 98)


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: plagiarius

18/06/2009

dicionário filosófico, voltaire

o dicionário filosófico de voltaire teve uma vida atribuladíssima, com direito até ao índex e à fogueira. em termos extremamente resumidos, podemos dizer que ele começou em 1764 com 73 artigos e a edição mais conhecida é a de 1767, a chamada "sexta edição", com 134 artigos. para quem se interessar, há o ótimo prefácio do editor beuchot, de 1829.

no brasil, a atena editora lançou em 1937 o dicionário filosófico de 73 artigos, em tradução de líbero rangel de tarso. teve várias edições e, depois do fechamento da atena, passou para o catálogo da ediouro, também em sucessivas edições.

em seu estilo inconfundível, a martin claret se saiu com um dicionário filosófico de voltaire realmente engraçado.


não sei bem como ela chegou a tal resultado, e só posso especular: deve ter visto dois exemplares diferentes e resolveu juntá-los. como sua familiaridade com qualquer tipo de original das obras não é propriamente muito grande, ela se saiu com 136 verbetes ou "capítulos".



esse dicionário filosófico claretiano traz os 73 artigos em cópia literal da tradução de líbero rangel de tarso. já os outros 63, a martin claret conseguiu acrescentar de várias maneiras.

uma delas é a multiplicação dos pães:

- pega-se um verbete só, por exemplo "economia", e desdobra-se em três: "economia" (43), "economia doméstica" (44) e "economia pública" (45).
- o mesmo ocorre com o verbete "preconceitos", mais prolífico, que rendeu cinco "capítulos": "preconceitos", "preconceitos sentidos" [sic], "preconceitos físicos", "preconceitos históricos" e "preconceitos religiosos" (114 a 118).
- ou ainda convertendo a seção "exame" do artigo sobre os ídolos (69) num "capítulo" independente (70), mesmo que fora da ordem alfabética.


outra maneira muito cômica de procurar preencher a cota dos "cento e trinta e qualquer coisa" é repetir o mesmo verbete em duas traduções diferentes.

- pegue-se, por exemplo, "bêtes" do original e duplique-se-o em "animais" (8) e "irracionais" (78).

- ou ainda "bornes de l'esprit humain", e ofereça-se-o ao leitor em dois verbetes diferentes: "fronteiras do espírito humano" (61) e "limites do espírito humano" (89).

segue abaixo o índice do dicionário filosófico da atena, na tradução de líbero rangel de tarso.

ÍNDICE
Apresentação
Biografia do autor
1. Abraão
2. Alma
3. Amizade
4. Amor
5. Amor Próprio
6. Amor Socrático
7. Anjo
8. Antropófagos
9. Apis
10. Apocalipse
11. Ateu, Ateísmo
12. Batismo
13. Belo, Beleza
14. Bem (Supremo)
15. Bem (Tudo Está)
16. Cadeia dos Acontecimentos
17. Caráter
18. Catecismo Chinês
19. Catecismo do Japonês
20. Catecismo do Pároco
21. Certo, Certeza
22. Céu dos Antigos (O)
23. China (Da)
24. Circuncisão
25. Convulsões
26. Corpo
27. Cristianismo
28. Crítica
29. Destino
30. Deus
31. Escala dos Seres
32. Estados, Governos
33. Ezequiel (De)
34. Fábulas
35. Falsidade das Virtudes Humanas
36. Fanatismo
37. Fim, Causas Finais
38. Fraude
39. Fronteiras do Espírito Humano
40. Glória
41. Graça
42. Guerra
43. História dos Reis Judeus e Paralipômenos
44. Ídolo, Idólatra, Idolatria
45. Igualdade
46. Inferno
47. Inundação
48. Irracionais
49. Jefté
50. José
51. Leis (Das)
52. Leis Civis e Eclesiásticas
53. Liberdade (Da)
54. Loucura
55. Luxo
56. Matéria
57. Mau
58. Messias
59. Metamorfose, Metempsicose
60. Milagres
61. Moisés
62. Pátria
63. Pedro
64. Preconceitos
65. Religião
66. Ressurreição
67. Salomão
68. Sensação
69. Sonhos
70. Superstição
71. Tirania
72. Tolerância
73. Virtude
Notas

as notas e a biografia do autor também foram integralmente copiadas na edição da martin claret, em nome de pietro nassetti.

agradeço a joana canêdo o material e grande parte da pesquisa.

imagens: http://espectorama.zipnet/; dicionário filosófico, índice ed. martin claret; capa, sebo messias.

abnt, consulta nacional II

a nbr 10526, cujo cancelamento está em processo de consulta nacional, trata da editoração de traduções. é uma norma pequena, e em direta dependência da nbr 6023 (referências bibliográficas) e da nbr 10524 (preparação de página de rosto de um livro).

basicamente ela:
- define o que é tradução integral, parcial e intermediária;
- estabelece os elementos de identificação de uma tradução (o nome do tradutor, se a tradução é integral ou parcial; a quem pertencem os direitos de tradução e os direitos de tradutor; e a referência bibliográfica do original, de acordo com a nbr 6023);
- define também onde devem ficar localizados os elementos de identificação, de acordo com a nbr 10524 (página de rosto, verso, retro);
- estabelece também meia-dúzia de coisas do tipo: datas não gregorianas no original devem vir acompanhadas pela data gregoriana respectiva entre parênteses; fazer conversão métrica quando necessário, e assim por diante.

[aliás, sabemos que editoras como a martin claret adoram estampar na capa os dizeres "texto integral", por mais anos-luz que se interponham entre essa afirmação e a realidade. o mesmo se pode dizer de editoras como a fundamento de curitiba que, ao arrepio da lei, adoram manter o anonimato da tradução em seus livros. essa delinquência existe, quaisquer que sejam as normas, e tem de ser combatida em outra esfera.]

nessa proposta de cancelamento que está em consulta nacional, a nbr 10526 não será substituída por outra. entendo que seus elementos já são ou serão contemplados em outras normas mais abrangentes.

por outro lado, a abnt já deu início aos estudos para a revisão da nbr 6023.
pessoalmente acho que essa consulta nacional sobre a nbr 10526 é uma boa ocasião para todos os interessados votarem e encaminharem suas sugestões, mesmo em caráter informal, como subsídios para a reforma da nbr 6023.

o ponto principal que me parece necessário é a adequação da nbr 6023 à lei 9610/98, sobre a responsabilidade da tradução: na normalização das referências bibliográficas, ela deve ser reconhecida como dado essencial e obrigatório, e não complementar e opcional como é hoje.

agradeço as informações de joana canêdo, eugenio hansen e carla castilho, da gerência do processo de normalização da abnt.

imagem: logo abnt

17/06/2009

abnt, consulta nacional I

eugenio hansen, ofs, avisa que a abnt colocou em consulta nacional a proposta de cancelamento da norma 10526/88, referente à editoração de traduções.

"EDITAL Nº. 06:2009
Período de 21 de maio de 2009 a 20 de junho de 2009

PROPOSTAS DE CANCELAMENTO DE NORMAS BRASILEIRAS

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) torna público que as Propostas de Cancelamento das Normas Brasileiras a seguir relacionadas encontram-se disponíveis em Consulta Nacional no endereço www.abntnet.com.br/consultanacional.

A Consulta Nacional é realizada inteiramente on line, sem qualquer ônus, conforme instruções apresentadas no próprio site.

Ressaltamos que devem ser observados os respectivos prazos-limites indicados no site.
Esta relação também é publicada no Diário Oficial da União (D.O.U.).
[...]

ABNT/CB-14 – COMITÊ BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO E DOCUMENTAÇÃO

ABNT NBR 10526:1988 Editoração de traduções Prazo-limite 14.07.2009
Justificativa: Esta norma não é mais utilizada pelo setor."

para participar da consulta, clicar em:
http://www.abntnet.com.br/consultanacional/projetos.aspx?ID=163&Projeto=ABNT/CB-14%20INFORMAÇÃO%20E%20DOCUMENTAÇÃO
selecionar "cancelamentos" e pedir visualização.

além de votar, você pode colocar seus comentários e/ou anexar sugestões no campo da votação. pronto, é só enviar. meio minuto depois você recebe em seu e-mail a cópia e número de autenticação de seu voto.

o meu, por exemplo, foi:
"Seu voto: Aprovado com observações de forma
Comentário: seria absolutamente necessário reformar a nbr 6023, nos modelos de referência, item 7. entre os elementos essenciais está nomeado o autor. desde a lei 9610/98, o tradutor é definido como autor de obra derivada. no entanto, a nbr 6023 indica a responsabilidade de tradução como dado complementar e não essencial. por exemplo: 8.1.1.4. seria preciso especificar entre os dados essenciais 'autor da obra originária' e 'autor da obra derivada', conforme estabelece a referida lei 9610/98. Com -1 arquivo(s) anexados".

amanhã volto ao tema.

prefácio, poe XVI


minha traduçãozinha do prefácio a tales of the grotesque and arabesque, de edgar allan poe, está disponível para download no scribd e no 4shared.

16/06/2009

brasilices, poe XV

desses dez dias de poe sobraram umas rabeiras de rascunho, que coloco aqui.

os erros de baudelaire

essa questão de atribuição pode parecer um detalhe, mas é uma coisa manhosa, a ponto, por exemplo, de induzir um intelectual brasileiro de certo renome a afirmar que, "ao traduzir tales of grotesque and arabesque para histoires extraordinaires, charles baudelaire errou duas vezes. a primeira, ao trair a vontade expressa do autor, de que o título de um livro deve mostrar tudo o que contém; e a segunda, por não perceber a enorme riqueza semântica do original".

o altaneiro veredito apenas mostra que quem o enunciou pouca ou nenhuma familiaridade tem, seja com tales of the grotesque and arabesque, seja com histoires extraordinaires. e é a nossas editoras, com suas atribuições displicentes e equivocadas, que devemos atribuir a produção de tais pérolas do saber acadêmico. aliás, diga-se de passagem que baudelaire é o primeiro a reconhecer em seu prefácio a expressividade de "le titre Tales of the Grotesque and the Arabesque — titre remarquable et intentionnel".

toque de caixa

imagino uma cena assim, na hora do fechamento do livro:
- ih meu, tá faltando o nome do original! e como se chama essa coisa?
- procura aí na outra edição.
- pô, não tem. mas aqui na página da frente o pessoal tá falando de umas histórias extraordinárias em francês.
- francês????? mas o livro é do inglês!
- não, é que parece que um tal baú–de–láire, sei lá como se diz isso, pegou o pôu e traduziu em francês. que nome mais esquisito.
- que nome é, então? o inglês, o inglês, não o francês.
- peraí, peraí, tô lendo.
- vai logo, tem que botar o nome de algum original aí.
- ah, achei! téles ovi de grotéski endi arabéski, acho que é isso.
- tá, tá bom, se não é, fica sendo. mas bota por escrito aqui na prova.

outra sala:
- pronto, chefe. tá qui, tudo em cima.
- acharam o nome do tal livro?
- ah, foi moleza. eu até já conhecia.
- então tá bom. deixa aí na mesa que depois dou uma olhada. tá pronto pra rodar?
- ôôô, pode mandar bala.

e o resto virou história.

e a moda pega

dona ediouro, se faz mais de trinta anos que a sra. diz que foi a clarice lispector que escolheu os contos do poe que vocês publicam, como é que a antologia dela acabou virando tradução do original tales of the grotesque and arabesque?

agora, falando sério

este ano comemoram-se os duzentos anos de nascimento de edgar allan poe (1809-1849). a universidade federal de minas gerais está organizando um grande congresso internacional, para sempre poe, entre os dias 20 e 23 de setembro. vale a pena conferir. tomara que a gente consiga sair dessa brincadeira de roda e comece a se entender com as coisas.

nessa pesquisa foram muito úteis os artigos de carlos daghlian, a recepção de poe na literatura brasileira e obras de e sobre poe em português ou publicadas no brasil. agradeço de novo a saulo von randow jr. e a joana canêdo, que colaboraram com coisas magníficas.

imagens: o gato assustado; o gato apavorado; o gato pálido de susto

lendo, poe XIV



estas são algumas capas de vários livros de, com e sobre poe publicados no brasil.