30/09/2009

jabuti 2009

saíram ontem os resultados finais do jabuti deste ano.

em tradução, os premiados são:
1. Hölderlin, A Morte de Empédocles, Marise Moassaba Curioni (Iluminuras)
2. Petrônio, Satíricon, Cláudio Aquati (Cosac Naify)
3. Dostoievski, Os irmãos Karamázov, Paulo Bezerra (Editora 34).

em tradução do francês (no ciclo Ano Brasil-França):
1. Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo, André Telles e Rodrigo Lacerda (Jorge Zahar)
2. Rachid Boudjedra, Topografia ideal para uma agressão caracterizada, Flávia Nascimento (Estação Liberdade)
3. Muriel Barbery, A elegância do ouriço, Rosa Freire d'Aguiar (Companhia das Letras)

veja aqui a relação completa das 21 categorias.

imagem: matisse, google images

dia internacional da tradução



alfabeto devanagari, mario amaya, via livros & afins


29/09/2009

google espresso


Mundo Digital Biblioteca expressa Zero Hora - 28/09/2009 - Por Redação
O anúncio do acordo entre o Google e a empresa On Demand Books vem gerando uma série de discussões nas últimas semanas. A primeira razão da polêmica é a abrangência da medida, que permite a impressão de 2 milhões de títulos que já são de domínio público dentro do acervo total de 10 milhões de obras que o gigante da internet tem digitalizadas. O outro ponto que chama a atenção é o próprio funcionamento da impressora expressa, que permite ao usuário escolher a obra desejada e obtê-la impressa com capa dura em poucos minutos. Cada uma dessas máquinas custa cerca de US$ 100 mil. Ainda há poucas unidades instaladas em livrarias e bibliotecas de cidades de Estados Unidos, Canadá, Austrália, Grã-Bretanha e Egito, mas a expectativa é de que o preço desses equipamentos caia à medida que a procura pelo serviço aumentar. (via publishnews)

li na matéria do zero hora que esse livro-espresso sai pronto em 3/4 minutos, a 8 dólares para o leitor.

já no brasil, quando a gente vê o sistema on demand da ediouro oferecendo o livro "ao mesmo preço" das livrarias, como se fosse uma grande vantagem, não consegue evitar a pergunta: para onde vão os 50% do preço final que dizem as editoras que têm de pagar às livrarias?

a ironia das coisas

a cultura do romance

esses dias saiu pela editora cosac & naify o primeiro volume da monumental coletânea de estudos sobre o romance, organizada por franco moretti.
traduzi cerca de 70% deste primeiro volume. ignoro quem fez a parte inicial, e, por alguma razão que me escapa, a editora fez constar apenas meu nome na tradução. solicitei à cosac & naify a devida correção dos créditos.

28/09/2009

traduções fundamentais


TRADUTOR: Editora Fundamento




TRADUTOR: Editora Fundamento








TRADUTOR: Editora Fundamento


sobre a editora fundamento, veja aqui.

o mistério fundamental


o caso da editora fundamento, de curitiba, é engraçado. faz um bom tempo que ouço reclamações de que ela não coloca os créditos de tradução em seus livros.

recentemente, uma pessoa que tinha feito anos atrás uma tradução para a fundamento contou o seguinte: após a publicação da obra, a editora lhe enviou três exemplares, com os devidos créditos. passado algum tempo, a pessoa viu a obra numa livraria e, por curiosidade, foi consultá-la. já não havia crédito nenhum, apenas a frase: "Tradução: Editora Fundamento".

a reiterada explicação da editora é que realmente não dá os créditos de autoria da tradução por normas internas da empresa e afirma ter amparo legal para isso nos contratos de cessão de direitos assinados pelos colaboradores.

bom, para começar, direito ao nome é direito moral, não patrimonial. não pode ser cedido, doado, vendido ou o que for: é inalienável. um contrato de cessão de direitos significa apenas que o autor transfere os direitos de exploração comercial da obra para a editora. ignoro se a fundamento, ao invocar esses contratos como amparo legal para eliminar o nome do tradutor, está agindo por ignorância ou por má-fé. não conheço o teor dos contratos da fundamento, mas, se neles constar alguma cláusula estipulando que o autor da tradução renuncia a seu nome na obra, só posso imaginar, como leiga, que é uma cláusula que não tem validade jurídica alguma.

mas o que eu achei engraçado foi a dupla existência de exemplares com e sem créditos. ou melhor, um lote com os devidos créditos ao autor da tradução e outro lote com indevidos créditos à editora. pois se é "norma interna da empresa" não dar a autoria da tradução, então por que fornecer alguns exemplares com crédito para seus tradutores?

27/09/2009

pós-luther blisset



luther blisset, o coletivo italiano pós-situacionista, copileftista, simpático e divertido, que tinha lançado o ótimo Q em 1998, acabou aumentando, hoje em dia se chama wu ming, e promete lançar a continuação de Q.








vai se chamar altai e deve sair em novembro.

completando lacunas, poe XXIII


minha pesquisa "poe no brasil" tem várias lacunas. hoje consegui suprir uma delas.

em sobra e falta, poe x, está: "4. cruzeiro do sul, em que faria e souza agora aparece como responsável pela tradução, 1943. desconheço o conteúdo".

agora conheço, e é: o corvo (traduzido da versão em prosa de baudelaire); método de composição; escaravelho de ouro; o homem das multidões; o poço e o pêndulo; hop-frog; o demônio da perversidade; william wilson; silêncio; sombra; berenice.

imagem: brintmontgomery

25/09/2009

1984



sobre o caso da edição do livro de george orwell, 1984, pela biblioteca do exército, retomo aqui o cotejo para apresentar a tradução de heloísa jahn,* recentemente publicada pela companhia das letras.

quero ilustrar um aspecto que por vezes passa desapercebido ao leitor: não existem duas traduções literárias iguais ou sequer muito parecidas. aliás, é por isso que desde o século XIX reconhece-se o trabalho de tradução como uma criação do espírito, de autoria própria e dotada de originalidade - e é por isso que o autor da tradução possui direitos autorais que devem ser respeitados.

comparem-se o texto de wilson velloso e o texto de heloísa jahn. esse exercício projeta uma luz mais clara sobre o ilícito da edição da bibliex, com sua suposta tradução atribuída a luiz carlos carneiro de paula, porém visivelmente decalcada na de wilson velloso.

1. wilson velloso
Encostou-se ao espaldar. Descera sobre ele uma sensação de completo desespero. Para começar, não sabia com a menor certeza se o ano era mesmo 1984. Devia ser mais ou menos isso, pois estava convencido de que tinha trinta e nove anos, e acreditava ter nascido em 1944 ou 45; hoje em dia, porém, não era nunca possível fixar uma data num ou dois anos.

2. heloísa jahn
Recostou-se na cadeira. Estava possuído por uma sensação de absoluto desamparo. Para começar, não sabia com certeza absoluta se estava mesmo em 1984. Devia ser por aí, visto que estava seguro de ter trinta e nove anos de idade e acreditava ter nascido em 1944 ou 1945; mas nos tempos que corriam era impossível precisar uma data sem uma margem de erro de um ou dois anos.

1. wilson velloso
4 de abril de 1984. Ontem à noite ao cinema. Tudo fitas de guerra. Uma muito boa dum navio cheio de refugiados bombardeado no Mediterrâneo. Público muito divertido com cenas de um homenzarrão gordo tentando fugir nadando dum helicóptero. primeiro se via ele subindo descendo nágua que nem golfinho, depois pelas miras do helicóptero, e daí ficava cheio de buracos o mar perto ficava rosa e de repente afundava como se os furos tivessem deixado entrar água. público dando gargalhadas quando afundou.

2. heloísa jahn
4 de abril de 1984. Ontem à noite cineminha. Só filme de guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. Público achando muita graça nos tiros dados num gordão que tentava nadar para longe perseguido por um helicóptero. primeiro ele aparecia chafurdando na água como um golfinho, depois já estava todo esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos. público urrando de tanto rir quando ele afundou.

1. wilson velloso
então viu-se um escaler cheio de crianças com um helicóptero por cima. havia uma mulher de meia idade talvez judia sentada na proa com um menino duns três anos nos braços. garotinho gritando de medo e escondendo a cabeça nos seios dela como querendo se refugiar e mulher pondo os braços em torno dele e consolando apesar de também estar roxa de medo. todo tempo cobrindo ele o mais possível como se os braços pudessem protegê-lo das balas. então o helicóptero soltou uma bomba de 20 quilos em cima deles clarão espantoso e o bote virou cisco.

2. heloísa jahn
depois aparecia um bote salva-vidas cheio de crianças com um helicóptero pairando logo acima. tinha uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada na proa com um garoto de uns três anos no colo. garoto chorando de medo e escondendo a cabeça entre os seios dela como se tentasse se enterrar nela e a mulher envolvendo o garoto com os braços e tentando acalmá-lo só que ela mesma estava morta de medo, e o tempo todo tapava o garoto o máximo possível como se achasse que seus braços iam conseguir protegê-lo das balas. aí o helicóptero largou uma bomba de vinte quilos bem no meio deles clarão terrível e o bote virou um monte de graveto.

1. wilson velloso
daí uma ótima fotografia dum braço de criança subindo subindo subindo um helicóptero com a câmara no nariz deve ter acompanhado e houve muito aplauso no lugar do partido mas uma mulher da parte dos proles de repente armou barulho e começou gritar que não deviam exibir fita assim pras crianças não é direito na frente de crianças não e daí etal até que a polícia a botou na rua não acho que aconteceu nada para ela ninguém se importa com o que os proles dizem reação prole típica eles nunca...

2. heloísa jahn
depois uma tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo pelo ar um helicóptero com uma câmera no nariz deve ter acompanhado o braço subindo e muita gente aplaudiu nos assentos do partido mas uma mulher sentada no meio dos proletas de repente começou a criar caso e a gritar que eles não tinham nada que mostrar aquilo não na frente das crianças não deviam não era direito não na frente das crianças não era até que a polícia botou ela pra fora acho que não aconteceu nada com ela ninguém dá a mínima para o que os proletas falam típica reação de proleta eles nunca -

1. wilson velloso
Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh, mal-entendido cruel e desnecessário! Oh, teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão.

2. heloísa jahn
Olhou para o rosto descomunal. Quarenta anos haviam sido necessários para que ele descobrisse que tipo de sorriso se escondia debaixo do bigode negro. Ah, que mal-entendido cruel e desnecessário! Ah, que obstinado autoexílio do peito amoroso! Duas lágrimas rescendendo a gim correram-lhe pelas laterais do nariz. Mas estava tudo bem, estava tudo certo, a batalha chegara ao fim. Ele conquistara a vitória sobre si mesmo. Winston amava o Grande Irmão.

* agradeço a enorme gentileza de heloísa jahn em oferecer seu texto para esse cotejo cruzado.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: cena do filme 1984

24/09/2009

imortais e obras-primas


parei um pouco de postar sobre as coleções de clássicos da literatura da editora nova cultural - não porque suas fraudes desapareceram, e sim porque dei por encerrada a pesquisa de seus títulos. conferi todos os títulos, e os casos de plágio comprovado foram apresentados um a um aqui no nãogosto. outras notícias referentes a essas fraudes na nova cultural foram igualmente divulgadas: ações judiciais de editoras lesadas, acordos extrajudiciais com tradutores lesados, matérias na imprensa, errata pública, republicação da obra legítima lesada etc. a quem interessar, o material está no arquivo classificado em nova cultural.

por outro lado, graças ao alerta de um leitor, percebi que ficou um ponto meio confuso que quero esclarecer melhor: a nova cultural tem duas coleções literárias com problemas de contrafação - a saber, "imortais da literatura universal" e "obras-primas".

a coleção "imortais da literatura universal" é composta por 20 volumes, e foi publicada em 1995 e 1996 pela nova cultural/ círculo do livro. a coleção "obras-primas" é composta por 50 volumes, e foi publicada em 2002 e 2003 pela nova cultural/ suzano. ambas as coleções eram de alta tiragem, alguns títulos com várias reedições.

segue abaixo a relação das obras integrantes de cada coleção. quando a tradução é legítima, consta apenas o nome do tradutor sem destaque. quando a tradução é espúria, constam o nome do falso tradutor em destaque vermelho e o nome do tradutor legítimo em destaque verde. para ver o respectivo cotejo publicado aqui no blog, basta clicar na listinha dos cotejos disponíveis.


IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL
1. dostoievski, irmãos karamázovi - enrico corvisieri (natália nunes, adapt. para o português do brasil por oscar mendes)
2. emily brontë, o morro dos ventos uivantes - rachel de queiroz
3. balzac, a mulher de 30 anos - enrico corvisieri (josé maria machado)
4. tolstói, ana karênina - mirtes ugeda (joão gaspar simões)
5. choderlos de laclos, relações perigosas - sérgio milliet
6. tchecov, as três irmãs - maria jacintha
7. machado de assis, brás cubas/ dom casmurro
8. stendhal, o vermelho e o negro - maria cristina f. da silva (luiz costa lima)
9. hemingway, o sol também se levanta - berenice xavier
10. émile zola, germinal - eduardo nunes fonseca (j. martins)
11. scott fitzgerald, suave é a noite - enrico corvisieri (lygia junqueira)
12. charles dickens, conto de duas cidades - sandra luzia couto
13. sartre, a idade da razão - sérgio milliet
14. d. h. lawrence, mulheres apaixonadas - cabral do nascimento
15. alexandre dumas, os três mosqueteiros - mirtes ugeda (octavio mendes cajado)
16. oscar wilde, o retrato de dorian gray - maria cristina f. da silva (oscar mendes)
17. boccaccio, decamerão - torrieri guimarães
18. eça de queiroz, o primo basílio
19. jonathan swift, viagens de gulliver - therezinha monteiro deutsch
20. daniel defoe, moll flanders - antônio alves cury

OBRAS-PRIMAS
1. Miguel de Cervantes, Dom Quixote - Viscondes de Castilho e Azevedo
2. Victor Hugo, Os trabalhadores do mar - Machado de Assis
3. Dante Alighieri, A divina comédia - Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)*
4. Dostoievski, Crime e castigo - não consta tradutor (Natália Nunes)
5. Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac - Fábio M. Alberti (Carlos Porto Carreiro)
6. Stendhal, O vermelho e o negro - Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)*
7. Flaubert, Madame Bovary - Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
8. Jane Austen, Razão e sensibilidade - Therezinha Deutsch
9. Leon Tolstoi, Ana Karênina - Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
10. Homero, Odisséia - Antônio Pinto de Carvalho
11. Tommaso di Lampedusa, O leopardo - Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
12. Charles Dickens, Um conto de duas cidades - Sandra Luzia Couto
13. Bram Stoker, Drácula - Vera M. Renoldi
14. Euclides da Cunha, Os sertões
15. Franz Kafka, A metamorfose - Calvin Carruthers
16. Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer - Luísa Derouet
17. Choderlos de Laclos, Relações perigosas - Sérgio Milliet
18. Sinclair Lewis, Babbitt - Leonel Vallandro
19. Camões, Os lusíadas
20. Goethe, Fausto e Werther - Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
21. Voltaire, Contos - Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
22. Tchecov, As três irmãs - Maria Jacintha
23. Herman Melville, Moby Dick - Péricles Eugênio da Silva Ramos
24. Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes - Silvana Laplace (Oscar Mendes)
25. Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
26. Daniel Defoe, Moll Flanders - Antônio Alves Cury
27. Eça de Queiroz, A cidade e as serras
28. Gogol, Almas mortas - Tatiana Belinky
29. Boccacio, Decamerão - Torrieri Guimarães
30. Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor - Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira respectivamente)
31. Louise May Alcott, Mulherzinhas - Vera Maria Marques Martins
32. Virgílio, Eneida - Tassilo Orpheu Spalding
33. Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias - Therezinha Deutsch
34. Henry Fielding, Tom Jones - Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
35. Émile Zola, Naná - Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
36. Shakespeare, Tragédias - Beatriz Viéga-Farias
37. Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray - Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
38. Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos - Gisele Donat Soares (José Maria Machado)
39. Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias - Brenno Silveira e outros
40. Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias - Therezinha Monteiro Deutsch
41. Jonathan Swift,
As viagens de Gulliver - Therezinha Deutsch
42. Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros - Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
43. Ibsen, A casa de bonecas - Cecil Thiré
44. Joseph Conrad, Lord Jim - Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
45. Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso - Leônidas Gontijo e Brenno Silveira respectivamente
46. Raul Pompéia, O ateneu
47. Guy de Maupassant, Uma vida - Roberto Domenico Proença (Ascendino Leite)
48. Scott Fitzgerald, Suave é a noite - Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
49. D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas - Cabral do Nascimento
50. Walter Scott, Ivanhoé - Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

* nos casos da divina comédia e de o vermelho e o negro, os tradutores lesados foram ressarcidos, mas não houve nenhum recall ou substituição dos exemplares espúrios adquiridos pelos leitores e instituições públicas e privadas. em todo caso, a nova cultural retirou de catálogo os 20 títulos das "Obras-Primas" com plágio comprovado.

imagem: rjartworks

relendo freud

Desafios

da nova tradução brasileira

Luiz Alberto Hanns
[...]
Contudo, esta retomada de Freud não explica o interesse despertado pelas novas traduções que surgem neste momento em que sua obra cai em domínio público. Afinal, desde os anos 70 Freud é o autor de língua alemã cuja tradução é a mais debatida.
O curioso é que, em geral, Freud escrevia de modo acessível visando à divulgação da psicanálise. Por que, então, a celeuma sobre sua tradução?

Uma das respostas é que sua obra não é apenas lida, mas estudada. Não só por psicanalistas, mas também por filósofos, semioticistas, críticos de arte, etc. Alguns textos são destrinchados frase a frase discutindo-se "o que Freud realmente queria dizer", dúvidas estas alimentadas por uma desconfiança das traduções que remonta aos anos 70, época em que o debate em torno da tradução de Freud transbordou para além dos especialistas, chegando ao público leitor de jornais. As discussões de então centravam-se nos termos psicanalíticos adotados pela prestigiosa tradução inglesa de J. Strachey, a Standard Edition of Sigmund Freud Complete Psychanalytical Works, que havia estabelecido um padrão terminológico internacional.

Discutia-se uma revisão dos termos psicanalíticos, cuja tradução passou a ser considerada "medicalizada" e estranha à linguagem freudiana - uma linguagem ligada à experiência cotidiana e afetiva. Afora alguns termos já corriqueiros como ego, superego, id e narcisismo, outros como catexia (carga de energia), estase (acúmulo), epistemofilico (desejo de conhecer), seriam desnecessariamente herméticos. Além disso, nos anos 80, quando se publicaram novos estudos abarcando outras importantes traduções em diversos idiomas, novas distorções e falta de distinções conceituais foram mapeadas, colocando todas sob suspeita e incentivando uma revisão geral das traduções. [...]

Lembremo-nos que o mesmo Freud que foi considerado pela escola de Viena como exemplo de rigorosa ciência positivista ganhou o prêmio literário Goethe. Contudo, esse duplo registro discursivo coloca o tradutor diante de um impasse: se por um lado houve um consenso em "desmedicalizar" a linguagem, os avanços psicanalíticos atuais levaram a novas exigências de formalização teórica e padronização terminológica (em geral semanticamente mais pobre), e se contrapõem a uma tradução mais coloquial que busca restaurar os nexos semânticos e literários.

23/09/2009

1984, bibliex



o famoso livro de george orwell, 1984, escrito em 1949, foi publicado no brasil na tradução de wilson velloso, pela companhia editora nacional. não sei o ano da primeira edição, mas é anterior a 1957, quando saiu a segunda edição. até hoje a tradução de wilson velloso é a mais conhecida e justamente consagrada, com cerca de trinta reedições pela nacional.

em data recente, colegas me avisaram que, em 2007, a bibliex (editora biblioteca do exército) publicou uma edição de 1984 com tradução atribuída a luiz carlos carneiro de paula. informaram-me, porém, que esta tradução publicada pela bibliex guardava imensas semelhanças com a clássica tradução de wilson velloso.

FICHA CADASTRAL NO ISBN (2007)



PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN


RESULTADO
Palavra Pesquisada:
1984
ISBN:
978-85-7011-402-0
TÍTULO:
1984
AUTOR:
GEORGE ORWELL
TRADUTOR:
LUIZ CARLOS CARNEIRO DE PAULA
EDIÇÃO:
1
ANO DE EDIÇÃO:
2007
LOCAL DE EDIÇÃO:
RIO DE JANEIRO
TIPO DE SUPORTE:
PAPEL
PÁGINAS:
272
EDITORA:
BIBLIEX
de fato, o cotejo entre as duas traduções permite constatar um grau de similaridade que sugere um intenso abeberamento, para não dizer decalque, de luiz carlos carneiro de paula na obra de tradução de wilson velloso. há algumas pequenas diferenças nos parágrafos iniciais, mas a seguir os dois textos se mostram praticamente idênticos.

a prosa de orwell é deliberadamente direta e objetiva. assim, os trechos apresentados a título de exemplo virão antecedidos pelo original, permitindo uma comparação das duas traduções com o texto em inglês. é de se notar como algumas peculiaridades marcantes da tradução de wilson velloso ("encostou-se ao espaldar"; "subindo descendo nágua que nem golfinho"; "o bote virou cisco"; "e daí e tal"), além de toda a sua estruturação do fraseado em vernáculo, ressurgem idênticas na tradução publicada pela bibliex.

He sat back. A sense of complete helplessness had descended upon him. To begin with, he did not know with any certainty that this was 1984. It must be round about that date, since he was fairly sure that his age was thirty-nine, and he believed that he had been born in 1944 or 1945; but it was never possible nowadays to pin down any date within a year or two.

1. wilson velloso
Encostou-se ao espaldar. Descera sobre ele uma sensação de completo desespero. Para começar, não sabia com a menor certeza se o ano era mesmo 1984. Devia ser mais ou menos isso, pois estava convencido de que tinha trinta e nove anos, e acreditava ter nascido em 1944 ou 45; hoje em dia, porém, não era nunca possível fixar uma data num ou dois anos.

2. luiz carlos carneiro de paula
Encostou-se ao espaldar. Descera sobre ele uma sensação de completo desespero. Para começar, não sabia com a menor certeza se o ano era mesmo 1984. Devia ser mais ou menos isso, pois estava convencido de que tinha 39 anos e acreditava ter nascido em 1944 ou 45; hoje em dia, porém, não era nunca possível fixar uma data em um ou dois anos.

April 4th, 1984. Last night to the flicks. All war films. One very good one of a ship full of refugees being bombed somewhere in the Mediterranean. Audience much amused by shots of a great huge fat man trying to swim away with a helicopter after him, first you saw him wallowing along in the water like a porpoise, then you saw him through the helicopters gunsights, then he was full of holes and the sea round him turned pink and he sank as suddenly as though the holes had let in the water, audience shouting with laughter when he sank.

1. wilson velloso
4 de abril de 1984. Ontem à noite ao cinema. Tudo fitas de guerra. Uma muito boa dum navio cheio de refugiados bombardeado no Mediterrâneo. Público muito divertido com cenas de um homenzarrão gordo tentando fugir nadando dum helicóptero. primeiro se via ele subindo descendo nágua que nem golfinho, depois pelas miras do helicóptero, e daí ficava cheio de buracos o mar perto ficava rosa e de repente afundava como se os furos tivessem deixado entrar água. público dando gargalhadas quando afundou.

2. luiz carlos carneiro de paula
4 de abril de 1984. Ontem à noite fui ao cinema. Só filmes de guerra. Um muito bom sobre um navio cheio de refugiados bombardeado no Mediterrâneo. Público muito divertido com cenas de um homenzarrão gordo tentando fugir nadando de um helicóptero. primeiro se via ele subindo descendo nágua que nem golfinho, depois pelas miras do helicóptero, e daí ficava cheio de buracos o mar perto ficava rosa e de repente afundava como se os furos tivessem deixado entrar água. público dando gargalhadas quando afundou.

then you saw a lifeboat full of children with a helicopter hovering over it. there was a middle-aged woman might have been a jewess sitting up in the bow with a little boy about three years old in her arms. little boy screaming with fright and hiding his head between her breasts as if he was trying to burrow right into her and the woman putting her arms round him and comforting him although she was blue with fright herself, all the time covering him up as much as possible as if she thought her arms could keep the bullets off him. then the helicopter planted a 20 kilo bomb in among them terrific flash and the boat went all to matchwood.

1. wilson velloso
então viu-se um escaler cheio de crianças com um helicóptero por cima. havia uma mulher de meia idade talvez judia sentada na proa com um menino duns três anos nos braços. garotinho gritando de medo e escondendo a cabeça nos seios dela como querendo se refugiar e mulher pondo os braços em torno dele e consolando apesar de também estar roxa de medo. todo tempo cobrindo ele o mais possível como se os braços pudessem protegê-lo das balas. então o helicóptero soltou uma bomba de 20 quilos em cima deles clarão espantoso e o bote virou cisco.

2. luiz carlos carneiro de paula
então viu-se um escaler cheio de crianças com um helicóptero por cima. havia uma mulher de meia idade talvez judia sentada na proa com um menino de uns três anos nos braços. garotinho gritando de medo e escondendo a cabeça nos seios dela como querendo se refugiar e mulher pondo os braços em torno dele e consolando apesar de também estar roxa de medo. todo tempo cobrindo ele o mais possível como se os braços pudessem protegê-lo das balas. então o helicóptero soltou uma bomba de 20 quilos em cima deles clarão espantoso e o bote virou cisco.

then there was a wonderful shot of a child's arm going up up up right up into the air a helicopter with a camera in its nose must have followed it up and there was a lot of applause from the party seats but a woman down in the prole part of the house suddenly started kicking up a fuss and shouting they didnt oughter of showed it not in front of kids they didnt it aint right not in front of kids it aint until the police turned her turned her out i dont suppose anything happened to her nobody cares what the proles say typical prole reaction they never —

1. wilson velloso
daí uma ótima fotografia dum braço de criança subindo subindo subindo um helicóptero com a câmara no nariz deve ter acompanhado e houve muito aplauso no lugar do partido mas uma mulher da parte dos proles de repente armou barulho e começou gritar que não deviam exibir fita assim pras crianças não é direito na frente de crianças não e daí etal até que a polícia a botou na rua não acho que aconteceu nada para ela ninguém se importa com o que os proles dizem reação prole típica eles nunca...

2. luiz carlos carneiro de paula
daí uma ótima fotografia de um braço de criança subindo subindo subindo um helicóptero com a câmera no nariz deve ter acompanhado e houve muito aplauso no lugar do partido mas uma mulher da parte dos proles de repente armou barulho e começou a gritar que não deviam exibir fita assim para as crianças não é direito na frente de crianças não e daí e tal até que a polícia a botou na rua não acho que aconteceu nada para ela ninguém se importa com o que os proles dizem reação prole típica eles nunca...

por fim, o último parágrafo:

He gazed up at the enormous face. Forty years it had taken him to learn what kind of smile was hidden beneath the dark moustache. O cruel, needless misunderstanding! O stubborn, self-willed exile from the loving breast! Two gin-scented tears trickled down the sides of his nose. But it was all right, everything was all right, the struggle was finished. He had won the victory over himself. He loved Big Brother.

1. wilson velloso
Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh, mal-entendido cruel e desnecessário! Oh, teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão.

2. luiz carlos carneiro de paula
Levantou a vista para o rosto enorme. Levara quarenta anos para aprender que espécie de sorriso se ocultava sob o bigode negro. Oh, mal-entendido cruel e desnecessário! Oh, teimoso e voluntário exílio do peito amantíssimo! Duas lágrimas cheirando a gim escorreram de cada lado do nariz. Mas agora estava tudo em paz, tudo ótimo, acabada a luta. Finalmente lograra a vitória sobre si mesmo. Amava o Grande Irmão.

FICHA CATALOGRÁFICA NA BIBLIOTECA NACIONAL (2008)

Autor:Orwell, George,Clique aqui para ver o registro completo deste Autor no Catálogo de Autoridades 1903-1950.Título original:Nineteen eighty-four.PortuguêsTítulo / Barra de autoria:1984 / George Orwell ; tradução Luiz Carlos Carneiro de Paula. -Imprenta:Rio de Janeiro : Biblioteca do Exército Ed., 2008.
Descrição física:269p. ; 23cm. -Série:(Biblioteca do Exército ;796.Coleção General Benício ;v.435)Notas:Tradução de: Nineteen eighty-four.
BNB 02/09
ISBN:9788570114020 (broch.)
Assuntos:Ficção inglesa.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos
Autorias secundárias:Paula, Luiz Carlos Carneiro de.Clique aqui para ver o registro completo deste Autor no Catálogo de Autoridades
Títulos variantes:Mil novecentos e oitenta e quatro.
Títulos de série:Biblioteca do Exército ; 796. Coleção General Benício ; v.435
Classificação
Edição Dewey:
823
22
Indicação do Catálogo:I-141,7,35
Registro Patrimonial:1.251.594 DL 17/03/2009 Sigla do Acervo:DRG


Estão disponíveis para leitura dos Associados os seguintes exemplares da Biblioteca do Exército Editora: Geopolítica e o Futuro do Brasil (Amazônia Ocidental e Pantanal Comunidade Sul-Americana) de Carlos Patrício Freitas Pereira; Ganhando a Guerra de John B. Alexander e 1984 de George Orwell.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



22/09/2009

rideel, livros tirados de catálogo

cerca de um mês e meio atrás, o diretor comercial da editora rideel me informou que, em vista das irregularidades de seu catálogo apresentadas no nãogostodeplágio, a empresa tinha decidido retirar de catálogo e circulação não só os livros aqui denunciados, mas também todos os demais que integravam a coleção biblioteca clássica e a coleção sherlock holmes, além de três títulos da coleção o melhor de shakespeare. comentei a notícia em bons ventos.

constam neste blog sete cotejos de traduções publicadas pela rideel, em nome de heloísa da graça burat(t)i, que são visíveis apropriações da obra de outros tradutores:

- von ihering, a luta pelo direito
- nietzsche, ecce homo
- nietzsche, acerca da verdade e da mentira
- nietzsche, o anticristo
- savigny, metodologia jurídica
- campanella, a cidade do sol
- th. more, utopia

além dos sete títulos cotejados, a editora rideel, segundo comunicado oral do sr. mario amadio, teve por bem retirar de catálogo e circulação as obras que integram:

BIBLIOTECA CLÁSSICA (28 títulos)

BIBLIOTECA SHERLOCK HOLMES (12 títulos)


BIBLIOTECA O MELHOR DE SHAKESPEARE (3 títulos)

tais publicações se estendem de 2003 a 2009, com número variável de reedições. perante a iniciativa da editora rideel em excluir tais obras de seu catálogo, sinto-me autorizada a relacioná-las no rol dos livros a ser evitados, como medida de simples precaução em defesa do leitor.

este post foi atualizado em 25 de abril de 2009, retirando os títulos individuais de cada coleção. ver rideel, retratação. as imagens de capa das 48 obras retiradas de catálogo se encontram aqui.

imagem: http://www.desciclo.pedia.ws/

15/12/2012: veja aqui uma atualização.

21/09/2009

manifestação dos organizadores da obra

Caxias do Sul, 20 de setembro de 2009.

Prezados Alunos, Colegas, Professores e Pesquisadores:

Considerando a publicização de apropriação indébita, pela co-autora Adiane Fogali Marinello, de conteúdo do livro de autoria do Prof. Dr. Sérgio de Castro Pinto (UFPB), intitulado “Longe daqui, aqui mesmo – a poética de Mario Quintana” (Unisinos, 2000), vimos, por meio desta, expor o que segue:

1. REAFIRMAMOS A SERIEDADE com que nós, organizadores da obra “Na esquina do Tempo: 100 anos com Mario Quintana” (Caxias do Sul: Educs, 2006), sempre fundamentamos nosso trabalho e, em razão disso, REPUGNAMOS profundamente condutas desta natureza – que, sem sombra de dúvidas, maculam a atividade intelectual e acadêmica de quem sempre batalhou por ética, transparência e qualidade de ensino e pesquisa.

2. Em contrapartida, PROPUGNAMOS pela salvaguarda da qualidade da nossa publicação e, em especial, do nome dos demais pesquisadores que, pela confiança e reconhecimento neles depositados, indiscutivelmente aquilatam o volume por nós organizado.

3. Ao respeitado Prof. Dr. Sérgio de Castro Pinto, estendemos publicamente nosso mais sincero PEDIDO DE ESCUSAS pelo prejuízo que esta situação possa impor ao seu patrimônio intelectual.

Atenciosamente,
Prof. Dr. João Claudio Arendt e Profa. Dra. Cinara Ferreira Pavani, organizadores do livro “Na esquina do tempo: 100 anos com Mario Quintana” (Educs, 2006); docentes do Programa de Mestrado em Letras, Cultura e Regionalidade da Universidade de Caxias do Sul.

estudos sobre mario quintana


UMA CÓPIA GROSSEIRA

Sérgio de Castro Pinto*

Na esteira do amigo José Nêumanne Pinto, vou direto ao assunto: a Professora Adiane Fogali Marinello, da Universidade de Caxias do Sul (RGS), em um ensaio de treze páginas – “O Lugar da infância na poesia de Mario Quintana” –, publicado no livro “Na Esquina do Tempo - 100 anos com Mario Quintana” (Editora da Universidade de Caxias do Sul, RGS, 2006), copiou trechos inteiros do meu livro “Longe daqui, aqui mesmo – a poética de Mario Quintana” (Editora Unisinos, São Leopoldo, Rio Grande do Sul, 2000), originariamente tese de doutorado defendida no Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba.

O citado volume foi organizado pelos Professores João Cláudio Arendt e Cinara Ferreira Pavani, ambos integrantes do corpo docente daquela instituição gaúcha.

Vamos, porém, ao que interessa: demonstrar que trechos do meu livro e do ensaio da Professora Adiane Fogali Marinello, são, sem tirar nem pôr, rigorosamente os mesmos.

Eis o que eu escrevo na página 13: “(...) um poeta cujo ecletismo funde e inter-relaciona a tradição com a renovação”. Vejamos, agora, o que a referida professora escreve na página 101, do livro “Na Esquina do Tempo – Cem anos com Mario Quintana”: “(...) trata-se de um poeta cujo ecletismo funde e inter-relaciona a tradição com a renovação”. E o que eu escrevo na página 18 : “(...) cujas inovações não encobriam de todo os traços neo-simbolistas que impregnavam a maioria deles”, com o que ela escreve na mesma página 101: “(...) mas as inovações nela apresentadas não encobrem de todo os traços neo-simbolistas que as impregnam”.

E tem mais, muito mais. Senão, observemos um trecho do meu ensaio: “Uma vez que estreou em 1940, cronologicamente poderia ser considerado um integrante da chamada Geração de 45. Mas não o foi no essencial, ou seja: na linguagem” (página 19). E o que ela escreve como sendo de sua autoria, na página 102: “Por outro lado, uma vez que estreou em 1940, cronologicamente poderia ser considerado um integrante da chamada Geração de 45. Contudo, não o foi no essencial: na linguagem de matiz coloquial a par de uma temática regida pelo cotidiano, que se aproxima muito mais do Movimento de 22”.

O arremate desse período, ela o copiou, de forma literal, de um trecho da página 22 do meu livro: “(...) o poeta incorporou do modernismo uma linguagem de matiz coloquial a par de uma temática regida pelo cotidiano”. Tem mais. Página 19, do meu livro: “(...) o quanto se torna difícil situar e avaliar a obra de Quintana no contexto da lírica nacional”. Página 102, do livro “Na Esquina do Tempo – 100 anos com Mario Quintana”: “Apesar de ser difícil situar e avaliar a obra do poeta no contexto da lírica nacional...”

Já na página 76, eu escrevo: “Quer dizer: se o ‘hábitat’ natural dos sapatos é o chão, quem os colocou ‘próximos’ ao Céu não o fez movido por nenhuma predisposição nefelibata, mas pelo desejo de minorar, nem que fosse ilusoriamente, as agruras da vida terrena. Daí os sapatos do Soneto XV cumprirem uma função metonímica e possuírem atributos humanos, além de emprestarem uma contextura concreta ao mundo subjetivo do sujeito emissor”. Trecho copiado pela professora, com ligeiras modificações, na página 103: “Como o local em que, normalmente, os sapatos ficam é o chão, supõe-se que eles tenham sido colocados próximos ao céu com o objetivo de minorar as amarguras e dissabores da vida terrena. Ao adquirirem atributos humanos, esses objetos emprestam uma contextura concreta ao mundo subjetivo do emissor, cumprindo uma função metonímica”.

Por último, página 76, do livro “Longe daqui, aqui mesmo – a poética de Mario Quintana”, de minha autoria: “Tanto que costumam distinguir e enfatizar na sua obra os recursos parnaso-simbolistas em detrimento de alguns preceitos da poesia moderna que a permeiam, dentre eles a materialização dos sentimentos a partir dos atos e das coisas banais do cotidiano”. Página 105, do livro “Na Esquina do Tempo – Cem Anos com Mario Quintana”: “Pode-se afirmar, consequentemente, que a materialização dos sentimentos a partir dos atos e das coisas banais do cotidiano aproxima Quintana da vida moderna”.

A minha reação, num primeiro instante, foi relevar a atitude da Professora Adiani Fogali Marinello. Posteriormente – e já mesmo por conta do clima de impunidade que grassa em todo o país –, resolvi tomar algumas providências. Uma delas, a de denunciá-la através deste artigo que, enviado para editoras, universidades, professores, etc., talvez a iniba de, novamente, usurpar o patrimônio intelectual alheio.

* Sérgio de Castro Pinto é poeta, ensaísta, jornalista profissional e professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba. Com Zoo imaginário (Escrituras Editora, São Paulo, 2005), conquistou o Prêmio de Poesia Guilherme de Almeida, do ano de 2005, instituído pela União Brasileira de Escritores, Seção do Rio de Janeiro. Este livro ainda é adotado em São Paulo, através do Programa Lendo e Aprendendo, da Secretaria da Educação, nas escolas de 1º e 2º graus, além de também ser adotado pelo Ministério da Educação, que providenciou uma tiragem de 25 mil exemplares desse volume, para ser distribuído em todas as bibliotecas do país. É ainda autor de Gestos Lúcidos, A Ilha na ostra, Domicílio em trânsito, O Cerco da Memória, A Quatro mãos e O Cristal dos verões, todos de poesia. Participa de várias antologias, as mais recente delas Os Cem melhores Poetas Brasileiros do Século (Geração Editorial), Antologia de Contistas Bissextos (L& PM) e O Cangaço na Poesia Brasileira (Escrituras Editora).

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