30 de nov de 2009

memorabilia



segue-se a lista do nãogostodeplágio com os autores que tiveram suas traduções, notas, introduções surripiadas:

adolfo casais monteiro, antónio ferreira marques, antônio pinto de carvalho, araújo nabuco, artur morão, bandeira duarte, bento prado jr., blásio demétrio, boris schnaiderman, brenno silveira, bruno da ponte, cabral do nascimento, carlos chaves, carlos porto carreiro, casimiro fernandes, e. jacy monteiro, eça de queiroz, eudoro de souza, éverton ralph, fernando de aguiar, fernando carlos de almeida cunha medeiros, floriano de souza fernandes, francisco inácio peixoto, galeão coutinho, godofredo rangel, guilherme de almeida, hebe caletti marenco, helga hoock quadrado, henrique marques ("pandemónio"), hernâni donato, isabel sequeira, ivan emilianovitch schawirin, jacó guinsburg, jaime bruna, jamil almansur haddad, joão lopes alves, joão ângelo oliva neto, joão baptista de mello e souza, joão paulo monteiro, joaquim dá mesquita paul, joaquim machado, jorge camacho, josé duarte, josé tavares bastos, josé augusto drummond, josé laurênio de mello, leila v. b. gouvêa, leonel vallandro, leonidas hegenberg, líbero rangel de andrade, líbero rangel de tarso, ligia junqueira, liliana rombert soeiro, lívio xavier, luís de andrade, luísa derouet, luiz costa lima, manuel dias duarte, manuel odorico mendes, marcílio marques moreira, marcos santarrita, margarida garrido esteves, maria beatriz nizza da silva, maria francisca ferreira de lima, maria helena rocha pereira, maria irene szmrecsányi, mário quintana, milton amado, moacyr werneck de castro, modesto carone, monteiro lobato, natália nunes, octany silveira da mota, octavio mendes cajado, olinda gomes fernandes, oscar mendes, paulo m. oliveira, paulo rónai, péricles eugênio da silva ramos, ricardo iglésias, rodrigo richter, sarmento de beires, sérgio milliet, silvio deutsch, silvio meira, sodré viana, suely bastos, tamás szmrecsányi, vera pedroso, vicente pedroso, wilson lousada, wilson velloso, ymaly salem chammas

imagem: via lasarina

flávio josefo, flavius josephus III


escolhi um trecho sobre a septuaginta, que achei muito bonito.

I. antiguidades judaicas, trad. pe. vicente pedroso, op. cit.
II. prefácio, trad. na madras, op. cit.*
III. works, trad. william whiston, op. cit.

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

I.
Três dias depois, Demétrio os levou por uma estrada longa sete estádios, pela ponte que une a ilha à terra firme, a uma casa situada à beira-mar do lado norte, afastada de todo barulho, para que nada os pudesse perturbar em seu trabalho, que exigia muita atenção e cuidado, e rogou-lhes que, tendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem sem mais o grande empreendimento para o qual tinham vindo. Fizeram-no, com toda a dedicação e constância, trabalhando assiduamente para que a tradução fosse exatíssima. Trabalhavam ininterruptamente até nove horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. Nisto eram eles muito bem tratados. Doroteu seguia exatamente as ordens recebidas, apresentando-lhes os alimentos que tinham sido preparados para a mesa real. Eles iam todas as manhãs ao palácio saudar o soberano e punham-se a trabalhar depois de ter lavado as mãos nas águas do mar; empregaram apenas setenta e dois dias para traduzir toda a lei.

II.
Três dias depois, Demétrio levou-os por uma estrada sete estádios de distância pela ponte que une a ilha à terra firme, a uma casa situada à beira-mar do lado do norte, afastada de todo barulho, com a finalidade de que nada os pudesse perturbar em seu trabalho, o qual exigia muita atenção e cuidado; rogou-lhes que, havendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem [] o grande empreendimento para o qual tinham vindo. Fizeram-no com toda a dedicação [], trabalhando assiduamente para que a tradução fosse fiel. Trabalhavam ininterruptamente até 9 horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. Nisso, eles eram muito bem tratados. Doroteu seguia exatamente as ordens dadas, apresentando-lhes os alimentos [] preparados para a mesa real. Todas as manhãs eles iam ao palácio saudar o soberano e, depois de ter lavado as mãos nas águas do mar, punham-se a trabalhar; e assim empregaram apenas 72 dias para traduzir toda a lei.

III.
Accordingly, when three days were over, Demetrius took them, and went over the causeway seven furlongs long: it was a bank in the sea to an island. And when they had gone over the bridge, he proceeded to the northern parts, and showed them where they should meet, which was in a house that was built near the shore, and was a quiet place, and fit for their discoursing together about their work. When he had brought them thither, he entreated them (now they had all things about them which they wanted for the interpretation of their law) that they would suffer nothing to interrupt them in their work. Accordingly, they made an accurate interpretation, with great zeal and great pains, and this they continued to do till the ninth hour of the day; after which time they relaxed, and took care of their body, while their food was provided for them in great plenty: besides, Dorotheus, at the king's command, brought them a great deal of what was provided for the king himself. But in the morning they came to the court and saluted Ptolemy, and then went away to their former place, where, when they had washed their hands, and purified themselves, they betook themselves to the interpretation of the laws. Now when the law was transcribed, and the labor of interpretation was over, which came to its conclusion in seventy-two days [...]

I.
Terminada a obra, Demétrio reuniu todos os judeus e leu-lhes a tradução na presença dos setenta e dois intérpretes. Eles a aprovaram, louvaram muito a Demétrio, por ter imaginado uma coisa tão vantajosa para eles, e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacrificador, o mais idoso dos intérpretes, e os magistrados constituídos para governo do povo, pediram em seguida que, como aquela obra tinha sido terminada com tão raro êxito, nada mais se viesse a mudar. Essa proposta foi aprovada, mas com a condição de que, antes de o fazer, dando-lhe a força de lei, seria permitido a todos examinar se nada havia a se acrescentar ou a suprimir, a fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais nele se tivesse que tocar.

II.
Terminada a obra, todos os judeus foram reunidos por Demétrio, que lhes leu a tradução na presença dos 72 intérpretes. Eles a aprovaram, louvaram muito a Demétrio por ter pensado em algo tão vantajoso para eles e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacrificador e o mais idoso dos intérpretes, e os magistrados constituídos para governo do povo, pediram [] que, uma vez que tal obra havia sido terminada com tão raro êxito, nada mais viesse a ser alterado. Essa proposta foi aprovada, entretanto, com a condição de que, antes de o fazer, dando-lhe [] força de lei, seria permitido a todos examinar se nada havia a ser acrescentado ou suprimido, com o fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais se necessitasse tocar nele.

III.
[...] Demetrius gathered all the Jews together to the place where the laws were translated, and where the interpreters were, and read them over. The multitude did also approve of those elders that were the interpreters of the law. They withal commended Demetrius for his proposal, as the inventor of what was greatly for their happiness; and they desired that he would give leave to their rulers also to read the law. Moreover, they all, both the priest and the ancientest of the elders, and the principal men of their commonwealth, made it their request, that since the interpretation was happily finished, it might continue in the state it now was, and might not be altered. And when they all commended that determination of theirs, they enjoined, that if any one observed either any thing superfluous, or any thing omitted, that he would take a view of it again, and have it laid before them, and corrected; which was a wise action of theirs, that when the thing was judged to have been well done, it might continue for ever.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: septuaginta

29 de nov de 2009

ivo barroso - itinerários V



A SEGUNDA DETERMINAÇÃO

Sempre li e colecionei Suplementos literários. Tenho até hoje, em volumes encadernados, os números de “Letras & Artes”, dos anos 1946 a 1951. Mais tarde, em 1957, quando comecei a colaborar no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, guardava cuidadosamente os exemplares, que já faziam uma boa pilha quando uma enchente invadiu a garagem do meu prédio na Lagoa e transformou minha literatura em pasta de papel. Mas houve um suplemento, o do Diário de Notícias, que vim a conhecer muito tempo depois de desaparecido, quando pesquisava na Biblioteca Nacional, em busca da coluna de Agenor Soares de Moura, o grande erudito, famoso por suas críticas de traduções.

Agenor – soube-o mais tarde – era um professor de português radicado na província (Barbacena, MG), que, sem nunca ter saído de sua cidadezinha, dominava perfeitamente uns cinco idiomas e escrevia num português de dar inveja aos literatos de então. Implicava com a má qualidade das traduções que via e resolveu escrever uma carta ao jornal criticando algumas delas, assinadas por escritores de renome. O jornal, ciente da qualidade do trabalho, em vez de simplesmente publicar a carta, propôs ao missivista um rodapé semanal em que pudesse exercer a sua tão útil fiscalização. E nasceu a coluna “À Margem das Traduções”, que persistiu milagrosamente por dois anos (1944/46). Digo milagrosamente porque os editores deixaram de mandar ao jornal os livros traduzidos, certamente com receio das críticas de Agenor, e porque, no fim, já lhe faltassem originais para o cotejo, mesmo tendo ele, em muitas ocasiões, adquirido de seu próprio bolso os livros que se dispunha a analisar. Diga-se que eram críticas construtivas, ou, mais que isto, reconstrutivas, pois ele, além de apontar as impropriedades, sugeria a maneira ou as maneiras corretas ou possíveis de resolver as deficiências apontadas. Para mim, tradutor iniciante, eram verdadeiras lições de como não fazer, de como evitar certas armadilhas e escorregões em que muitos profissionais do gênero incidiam.

Achei imperioso editar em livro aquelas crônicas para fazer justiça a um pioneiro das boas traduções no Brasil. Seria minha segunda determinação. Eu me correspondia com seu sobrinho e xará, Agenor Soares dos Santos, grande lexicógrafo e conhecedor da língua inglesa, autor do imprescindível Guia Prático da Tradução Inglesa (Campus-Elsevier). Por seu intermédio, soube que a viúva de Agenor, Da. Carmen Duarte Siqueira Soares, já bastante idosa, ainda morava em Barbacena; em Juiz de Fora residia o filho, Afonso de Siqueira Soares, que possivelmente teria a coleção dos artigos do pai. Afonso, de fato, guardava com carinho, colados num livrão, os recortes de jornal em que os artigos foram publicados. Ambos louvaram minha disposição de arranjar um editor para o livro, mas a princípio sem grandes esperanças, pois no passado já o prof. Paulo Rónai fizera uma tentativa infrutífera, mencionada por ele num artigo laudatório quando Agenor faleceu em março de 1957.

Mas, antes de arranjar um editor, era preciso organizar os originais. O sobrinho-neto, Andytias Soares de Moura, brilhante tradutor de Rosalía de Castro e de Juan Gelman, incumbiu-se de mandar digitar os originais. Era meio caminho, mas faltava ainda outro meio a percorrer. Muitos dos recortes haviam absorvido marcas de cola e estavam quase ilegíveis. Havia uma quantidade enorme de gralhas devidas ao fato de que as cartas manuscritas (e depois datilografadas) de Agenor eram treslidas pelos tipógrafos. As citações em língua estrangeira apareciam quase sempre deturpadas. As revisões se impunham, numerosas, e nelas tive a ajuda imprescindível do Agenor-sobrinho.

A sorte favoreceu em parte. Eu acabara de fazer para a editora Siciliano a tradução do teatro completo de Eliot dentro do exíguo tempo programado, o que me proporcionou certa possibilidade de diálogo com os editores. Sugeri a publicação dos artigos de Agenor, argumentando ser o conjunto uma obra de grande utilidade não só para os tradutores como para os leitores em geral. E a obra foi logo programada. Com isto as esperanças da família renasceram. Da. Carmen, que estava com problemas de saúde, recuperou-se com a notícia que vinha esperando havia tantos anos. Mas o inesperado aconteceu. Houve um remanejo editorial na Siciliano e as pessoas com as quais eu lidava foram substituídas. A nova editora-chefe me comunicou que o livro saíra de pauta. Não tive coragem de revelar esse novo fracasso à família. Para a Siciliano, escrevi, telefonei, e-mailei, faxei uma dezena de argumentos editoriais, mas para mim, intimamente, o maior deles era que não podíamos decepcionar Da. Carmen, ela que fora a fiel esposa-secretária do marido-professor, que datilografava seus artigos, que os lia com admiração e os colecionava com orgulho. Da. Carmen, com quem eu já mantinha contatos telefônicos, vez por outra perguntava pela data de saída e percebi que ela estava vivendo em função do livro. Não podia jamais saber do impasse. Finalmente, para o bem dos leitores e principalmente dos tradutores brasileiros, o livro saiu em 2003 (pela Arx) e – atenção para os nossos comerciais! - continua à venda em todo o território nacional.

Quando recebeu o primeiro exemplar que pedi à Editora enviasse diretamente a ela, Da. Carmen me telefonou dizendo: “Realizei meu sonho!” (E eu bem que poderia dizer: o “nosso”, Da. Carmen.)

Ivo Barroso

imagem: lasarina

28 de nov de 2009

bom programa



Dostoiévski Ontem e Hoje, de 01 a 04 de dezembro, em sp. vai ter, por exemplo, boris schnaiderman e paulo bezerra falando sobre "dostoiévski, nosso contemporâneo", e aurora bernardini numa mesa sobre "dostoiévski e a vanguarda russa na arte do século XXI".

leitura


mais uma daquelas divertidas listas dos mais+mais: os cem contos da revista bravo.

imagem: o bravo leitor

27 de nov de 2009

flávio josefo, flavius josephus II



inicio agora a série de cotejos dos quatro textos utilizados nas seleções de flávio josefo, trad. pe. vicente pedroso, edameris, 1974, e nas seleções de flavius josephus, com problemas na atribuição de tradução, madras, 2005.*

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

segue abaixo o começo do prefácio de flávio josefo às suas antiguidades judaicas.

I.
Aqueles que determinam escrever história a isso nem sempre são levados pela mesma razão: muitas vezes as têm bem diversas. Uns o fazem pelo desejo de mostrar a própria eloquência e conquistar fama. Outros fazem-no para homenagear àqueles cujos feitos narram, e não há esforços que não façam para lhes ser agradáveis. Outros, ainda, o fazem porque, tendo tomado parte nos acontecimentos que descrevem, querem que todos disso saibam. E outros, por fim, o fazem porque não podem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas, no silêncio. Estas duas últimas razões levaram-me a escrever. Pois, de um lado, como tomei parte na guerra contra os romanos e fui testemunha dos feitos que lá se realizaram, conheço vários episódios dela, senti-me obrigado e quase forçado a escrever-lhe a história, para dar a conhecer a má-fé daqueles que, tendo-a escrito antes de mim, obscureceram a verdade. (vicente pedroso)

II.
Aqueles que se propõem a escrever história, a isso nem sempre são levados pelo mesmo motivo: muitas vezes as têm bem diversas. Alguns o fazem pelo desejo de mostrar a própria eloquência e conquistar fama. Outros, [] para homenagear aqueles cujos feitos narram, e não há esforços que não façam a fim de serem agradáveis. Outros, ainda, fazem-no porque, tendo tomado parte nos acontecimentos que descrevem, querem que todos saibam disso. E há os que, por fim, fazem-no por não poderem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas no silêncio. Essas duas últimas razões levaram-me a escrever. Pois, de um lado, como tomei parte na guerra contra os romanos e fui testemunha dos feitos que lá se realizaram, conheço vários episódios dela, e senti-me obrigado e quase forçado a escrever [] a história para se fazer conhecer a má-fé daqueles que, tendo-a escrito antes de mim, obscureceram a verdade. (madras)

como disse anteriormente, a imprenta da edição da madras especifica: "Publicado originalmente em inglês sob o título The Works of Flavius Josephus". não existe nenhuma seleta em inglês chamada the works of flavius josephus. o único corpo de textos que tem esse nome, até onde sei, corresponde à obra de flávio josefo traduzida por william whiston em 1737 e que se mantém até hoje como a tradução consagrada em língua inglesa. encontra-se disponível aqui.

em todo caso, por uma questão de método, se a editora madras afirma que a suposta tradução foi feita a partir de the works of flavius josephus (na tradução, deduzo eu, de william whiston), creio que cabe reproduzir aqui o trecho correspondente.

THOSE who undertake to write histories, do not, I perceive, take that trouble on one and the same account, but for many reasons, and those such as are very different one from another. For some of them apply themselves to this part of learning to show their skill in composition, and that they may therein acquire a reputation for speaking finely: others of them there are, who write histories in order to gratify those that happen to be concerned in them, and on that account have spared no pains, but rather gone beyond their own abilities in the performance: but others there are, who, of necessity and by force, are driven to write history, because they are concerned in the facts, and so cannot excuse themselves from committing them to writing, for the advantage of posterity; nay, there are not a few who are induced to draw their historical facts out of darkness into light, and to produce them for the benefit of the public, on account of the great importance of the facts themselves with which they have been concerned. Now of these several reasons for writing history, I must profess the two last were my own reasons also; for since I was myself interested in that war which we Jews had with the Romans, and knew myself its particular actions, and what conclusion it had, I was
forced to give the history of it, because I saw that others perverted the truth of those actions in their writings.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: flávio josefo; whiston

26 de nov de 2009

flávio josefo, flavius josephus I

em flávio josefo, seleções e em flávio josefo, história dos hebreus apresentei dados preliminares para o cotejo entre a edição da edameris (1974), na tradução erudita de vicente pedroso, e a edição da madras (2005), com uma pretensa nova tradução.*
* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

julgo de uma imoralidade única que se pratiquem tais coisas.* octogenário, pe. vicente pedroso escrevia em sua "advertência" à obra:

"Nada mais me resta a acrescentar; como estes dois volumes compreendem toda a antiga história sagrada, desejo que não sejam lidos apenas por divertimento e por curiosidade, mas que se procure aproveitar, pelas considerações úteis de que fornecem tanta matéria. Foi esse o motivo que me levou a empreender esta tradução; do contrário, ela ter-me-ia, aos oitenta anos, feito empregar em vão muito tempo e dar-me muito trabalho numa idade na qual só devemos pensar em nos preparar para a morte. # O tradutor"

a edição da madras, além de pouco idônea, é indizivelmente ruim e confusa, e tenho até dificuldade em expor os insensatos emaranhados do livro. mas tentarei.

em antiguidades judaicas, josefo escreveu um curto prefácio, de cerca de duas páginas. na seleta da edameris, ele foi reproduzido e, em seguida, os editores explicaram num bloco em itálico:

"por motivos óbvios, deixamos de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas', que se sobrepõem ao relato bíblico da antiga história judaica. o período que se inicia com as conquistas de alexandre, o grande, e termina com o reinado de nero, aparece na segunda metade das 'antiguidades', de onde extraímos o texto destas seleções".

ótimo, mais claro impossível. assim, a organização da seleta prossegue a partir do livro XI (o final dele) até o livro XVIII, encerrando com o chamado "testemunho de cristo" e a apresentação de joão batista. são 76 páginas, com prefácio e trechos de vários capítulos dos livros XI ao XVIII, e pronto.

na edição da madras, toda essa seleta se chama simplesmente "prefácio", com 63 páginas. ou melhor, o que a madras chama de "prefácio" é, na verdade, uma cópia completa das antiguidades judaicas da seleta da edameris. mas a surpresa é que, após o excerto sobre joão batista que encerra a seleta da edameris e o "prefácio" da madras, esta resolve acrescentar outros trechos, e é nessas horas que sinto a força da expressão "pior a emenda do que o soneto".

pois, como disse acima, a edameris desconsiderou os dez primeiros livros e seguiu do final do livro XI das antiguidades - precisando melhor, partiu do oitavo e último capítulo do livro XI -, até o livro XVIII. embora a suposta tradutora ou o anônimo organizador da seleta da madras também alerte que "deixei de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas'" etc., mesmo assim ela/ele decide incluir após o livro XVIII (isto é, após o final de seu "prefácio") capítulos integrais e parciais dos livros VII, VIII e XI.

nessa sarabanda maluca, em que davi ordena a salomão que construa o templo após a derrota de herodes, surge outra novidade madrasiana. os excertos, até então, vinham vindo, estranhos, sem nome, sem identificação, como se fossem ainda o bendito prefácio de josefo, mas vinham vindo. de repente, nesse carrossel desgovernado agora surgem capítulos inteiros com parágrafos numerados, começando pelo 304 e indo ininterruptamente até o 351, dando um salto inexplicado para o 419 e então seguindo até o 445. são 60 páginas de capítulos integrais, sem excerto, sem seleção, sem pausa, alguns salteados e com o pulo do quarto para o sétimo capítulo do livro oitavo. por fim, com neemias, terminam as inominadas antiguidades judaicas das seleções de flavius josephus da editora madras.

* obs.: posso adiantar que essa edição da madras não passa de um evidente plágio da tradução do pe. vicente pedroso. como essa montagem feita pela madras se pretende muito ishperta, preferi antes dar o quadro geral ao longo destes três últimos posts, e em seguida apresentar os comparativos contra o pano de fundo mais completo. 

imagens: flavio josefo, carrossel

25 de nov de 2009

flávio josefo, história dos hebreus

no post anterior comentei a existência de duas coletâneas de textos de flávio josefo de seleta praticamente idêntica. a primeira é a da edameris, 1974, e a segunda da madras, 2004. esta última traz alguns excertos a mais em relação à primeira. mas, antes de comentá-las, cabem algumas informações.

flávio josefo  legou os seguintes textos à posteridade: resposta a ápio (ou contra ápio), guerras judaicas, antiguidades judaicas, autobiografia (ou a vida de flávio josefo escrita por ele mesmo) e ainda o martírio dos macabeus.

pe. vicente pedroso traduziu a obra completa de flávio josefo. para fins de publicação, o tradutor acrescentou ao final da obra o relato de fílon. esse corpo de textos recebeu o título geral de história dos hebreus e foi publicado pela edameris em 1956, numa edição ilustrada de dois tomos em nove volumes. foi esta edição de 1956 que serviu de base para a seleta que a edameris organizou e publicou em 1974.












a edameris encerrou suas atividades no final dos anos 70, começo dos anos 80.

sua alentada história dos hebreus voltou a ser publicada em 1990, pela casa publicadora das assembleias de deus (CPAD), numa edição condensada em três volumes, e em 2000 num volume só.

a partir de 2001, a CPAD volta a publicar a obra completa de flávio josefo em sua íntegra, com o monumental trabalho de tradução devidamente creditado a vicente pedroso. há algumas alterações, substituindo, por exemplo, "sacrificador" e "grão-sacrificador" por "sacerdote" e "sumo sacerdote", e outras modificações de pequena monta, naturais num trabalho de revisão. a imprenta destaca que as citações bíblicas foram revistas de acordo com a versão almeida de 1995. as guerras judaicas e as antiguidades judaicas trazem seus parágrafos numerados, e os demais textos (autobiografia, resposta a ápio, martírio dos macabeus e relato de fílon) seguem apenas as divisões em livros e capítulos. 

esta edição integral da CPAD está disponível para download em vários sites evangélicos e laicos, por exemplo aqui.




imagens: estantevirtual e google

24 de nov de 2009

flávio josefo, seleções


em 1974, a extinta editora das américas, também conhecida como edameris, publicou um volume chamado seleções de flávio josefo.

é uma seleta composta a partir da celebrada tradução brasileira feita pelo pe. vicente pedroso, publicada pela mesma edameris em 1956. como comentei num post anterior, flávio josefo escreveu sua obra em aramaico e no grego koiné da época helenística. a tradução de pe. vicente pedroso, de alto grau de erudição, segue as edições gregas e latinas.

devido à imensidão da história dos hebreus, nome genérico que a edameris deu à publicação das obras de josefo em português, essas criteriosas seleções de 1974 são extremamente úteis. elas trazem a íntegra da autobiografia de josefo e de sua resposta a ápio, e excertos das antiguidades judaicas e das guerras judaicas.

em seleções de flavius josephus, não sei por que a editora madras ou o responsável pela organização ou tradução da obra* optou pela mesmíssima seleta, acrescida de alguns excertos a mais das antiguidades judaicas. parece-me o tipo de iniciativa editorial infeliz, que apenas duplica o que já temos, mesmo que apenas em sebos e bibliotecas, e limita o horizonte dos leitores. afinal o conjunto da obra de josefo (que na edição brasileira da edameris resultou em quase três mil e quinhentas páginas), daria azo a outras seletas também significativas.

* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução desta obra, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

este é o primeiro - e sério - reparo que eu faria a esta edição da madras. o segundo é a barbaridade informada nos dados da imprenta do livro: "Publicado originalmente em inglês sob o título The Works of Flavius Josephus".

o terceiro reparo, menor, é a violência diacrítica praticada algumas vezes em "Flávius". ou bem se deixa Flavius, ou bem se usa Flávio.

quarto reparo: não há qualquer menção sobre o trabalho de seleção dos textos. quem é o organizador dessa coletânea da madras?

quinto reparo: a nota do editor, com grande destaque na folha seguinte à do frontispício da obra, parece de uma pobreza calamitosa.

"Nota do Editor: [...] Os textos de Seleções de Flavius Josephus não seguem uma sequência cronológica e tentamos reproduzi-los de maneira fiel, atentando-nos [sic - na verdade, o atentado é contra o leitor], principalmente, ao contexto histórico dos fatos relevantes da época."

o que significa isso, ó céus? e por que não se explica qual foi, afinal, a ordem adotada, e as razões que a justificam? o restante da frase não resiste à mais superficial leitura.

impressiona também que a nota do editor se limite a apresentar josefo como alguém que "acompanhou a ascensão do império romano e participou ativamente das guerras judaicas ocorridas em meados do século I"! será irrelevante lembrar que flávio josefo foi o comandante supremo do exército da galiléia, nomeado no ano 66? e que este é o maior, o mais importante registro histórico de primeira mão sobre os tempos de calígula, nero e vespasiano, e a principal e mais extensa fonte primária de que dispomos até hoje sobre os primórdios do cristianismo, ademais considerada de grande isenção?

o reparo final, por ora, diz respeito ao índice e à distribuição dos excertos e textos ao longo do volume da madras. o leitor que está tendo seu primeiro contato com josefo não tem a menor ideia se está lendo as antiguidades judaicas, ou as guerras judaicas ou o quê. só foi informado que os textos estão fora de ordem cronológica... mesmo os dois livros, como se diz, que compõem a resposta a ápio são tratados como se fossem obras independentes, ou meros capítulos na sequência da destruição de jerusalém. um primarismo imperdoável.

ah, em tempo! na capa consta "seleções de flavius josephus - histórias dos hebreus". muito que bem que a edameris tenha criado o título geral de história dos hebreus para enfeixar as obras de josefo. e essas histórias dos hebreus da madras, vêm a quê?
imagens: capas em google images; emoticon yikes; hello kitty ponders in counterfeit

23 de nov de 2009

diz-me com quem andas


acho engraçado que algumas das editoras que mais gostam de usar o dedão sinistro da abdr sejam justamente aquelas que impingem fraudes descabeladas aos leitores. já vimos isso em obras que montam a milhões de exemplares fraudados da editora martin claret, da editora rideel, da editora madras...



eu, se fosse a abdr, começaria a ficar meio preocupada. que moral!

imagem: logo da abdr. clique em cima.

nenhum estudante merece livros falsificados

XI Festa do Livro

Quando: dias 25, 26 e 27 de novembro, das 9h às 21h
Onde: saguão do prédio da Geografia e História (FFLCH)
Informações: Edusp

Editoras presentes na XI Festa do Livro da USP

7 Letras; Aeroplano; Alameda; Algol; Annablume; Argos/Unochapecó; Artes e Ofícios; Ateliê; Átomo e Alínea; Autêntica; Autores Associados; Azougue; Barcarolla; Barracuda; Beca; Berlendis & Vertecchia; Biruta; Boitempo; Brasiliense; Brinque-Book; Callis; Capivara; Casa da Palavra; Centauro;

22 de nov de 2009

ivo barroso - itinerários IV


A PRIMEIRA DETERMINAÇÃO

Havia alguns tradutores injustiçados, que eu simplesmente venerava. Faria o que estivesse a meu alcance para promovê-los, para divulgar suas qualidades ímpares. O primeiro deles seria Mílton Amado, autor de uma tradução inigualável do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. A primeira vez que a li, sem ainda conhecer o original, senti que estava diante de uma organização poética perfeita: ritmo, linguagem, dramaticidade.

O posterior cotejo com o original veio corroborar minha sensação primitiva: toda a angústia, grandeza, euforia, exaltação que Poe me transmitia em inglês retinia, ecoava, revivia nos versos de Milton. E quem era ele? Um desconhecido e tímido jornalista mineiro que sempre vivera esmagado pela estreiteza intelectual da província; pobre, marginalizado, sem que ninguém lhe reconhecesse o talento. Seu nome sequer constava nas obras de Poe como o tradutor dos versos. O que aparecia em letras grandes era o de Oscar Mendes, tradutor dos contos (aliás de parte dos), da prosa do genial Edgar Allan. O crédito a Milton, quando havia, era em corpo mínimo, escondido, escamoteado. Consegui a informação de que a viúva e seu filho Eugênio (também tradutor) moravam em Belo Horizonte. Procurei-os lá e soube que Milton pegava com Oscar Mendes traduções para fazer e em geral quem levava as honras era este último. Apesar de suas inúmeras traduções, as assinadas apenas com seu nome, Milton Amado, eram o Dom Quixote e as Fábulas de La Fontaine (Milton fez em vida o 1º volume e Eugênio terminou o 2º). Falei-lhes de minha intenção de escrever um pequeno ensaio provando com argumentos críticos que a tradução de O Corvo, feita por Milton, era superior às conhecidas de Machado de Assis e de Fernando Pessoa. Os direitos autorais da 1ª edição reverteriam para a família.

Os direitos autorais da tradução de Milton (as traduções eram vendidas aos editores) pertenciam à Nova Aguilar e foi a ela que propus a publicação de meu ensaio, que saiu em 1ª edição em 1998, com um entusiástico prefácio de Carlos Heitor Cony. Ele não conhecia a tradução de Milton e ficou encantado quando a viu. Escreveu uma crônica na Folha, que despertou a atenção de seus inúmeros leitores. Eu fazia um cotejo da tradução de Milton com a dos outros autores que então conhecia: Machado, Pessoa, Emílio de Meneses, Gondim da Fonseca, Benedito Lopes e Alexei Bueno. Acrescentei as duas famosas francesas, de Baudelaire e de Mallarmé. O livro vendeu bem, a família ficou contente, a editora pensou logo numa 2ª edição. Já a esta altura (2000) haviam chegado muitas informações e colaborações. Foram acrescentadas as de Jorge Wanderley e a de Didier Lamaison (em francês) e mencionadas mais as seguintes: a de Alfredo Ferreira Rodrigues (várias, a mais antiga de 1914), a de João Inácio Padilha, a de Aluísio Mendonça Sampaio, a de Sérgio Duarte, a de Luís Carlos Guimarães, a de Vinícius Alves e a (ótima) de Diego Raphael. Intimei meu amigo Didier Lamaison a dotar sua língua de uma tradução em versos do grande poema; tanto Baudelaire quanto Mallarmé o haviam feito em prosa, o que, na minha opinião, invalidava a possibilidade de transmitir o ritmo, a beleza das rimas tríplices, a grandiloquência declamatória do poema. Não se podia esquecer que Poe, em seus últimos anos, vivia de declamar em público a sua criação magistral. Didier aceitou o repto e reproduziu, em francês, a façanha que Milton Amado conseguira em português. Se, com minhas traduções de escritores gauleses, tenho prestado, ainda que indiretamente, algum serviço cultural à França, ter sido o instigador dessa genial tradução foi para mim o trabalho que seria mais digno de encômio.#

Ivo Barroso

21 de nov de 2009

found functions



leitura


vale a pena ler tradução e comunicação, periódico da unibero com ótimos artigos sobre tradução.




20 de nov de 2009

leitura

legal!

o último número de Ipotesi - Revista de Estudos Literários é dedicado a


 

lesa leitor

o pesadelo chestertoniano-germinalista, a saber, o plágio de o homem que foi quinta-feira assinado por vera lúcia rodrigues, está à venda nos responsáveis solidários usuais:


imagem: copycat

19 de nov de 2009

um pesadelo

sobre a editora germinal: há vários artigos na imprensa denunciando seus plágios de tradução desde 2004. aqui mostramos mais outras obras em que a referida editora lançou mão dessa prática pouco louvável. para o histórico dos cotejos, consulte o arquivo em "germinal".

como disse no post anterior, josé laurênio de mello é o autor da tradução o homem que foi quinta-feira (um pesadelo), de g. k. chesterton, que foi publicada pela editora agir em 1957 com algumas reedições pelo menos até 1967, e depois pelo círculo do livro até 1975.

em 2004 a editora germinal publica uma cópia praticamente igual da tradução de josé laurênio de mello. no entanto traz no frontispício da obra: "tradução: vera lúcia rodrigues".

vera lúcia rodrigues, até onde consegui entender, era a sócia do falecido advogado, sociólogo e jornalista wilson hilário borges na editora germinal. após a morte do sócio, manteve a editora sob sua responsabilidade. neste caso de o homem que foi quinta-feira, creio que será mais difícil a sra. vera lúcia rodrigues lançar mão das mesmas evasivas que usou em relação aos outros plágios, em suas entrevistas à imprensa: afinal a tradução está assinada por ela, que é também a responsável pela editora.

transcrevo abaixo o primeiro e os dois últimos parágrafos da obra.

1. josé laurênio de mello (agir):
Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante, ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo, mirão em assuntos de arte, que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo na singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e somente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante, ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo, apreciador de assuntos de arte, que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo a singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e somente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia.

1. josé laurênio de mello (agir):
Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão, encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam com os membros doídos, se estão deitados no campo. A experiência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha, visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse companheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão, encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam com os membros doídos se estão deitados no campo. A experiência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha, visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse companheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade.

1. josé laurênio de mello (agir):
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas, como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu, mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados, colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e magnífica das moças.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas, como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu, mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados, colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e magnífica das moças.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



18 de nov de 2009

chesterton e laurênio de mello

mais um plágio de cortar o coração: o homem que foi quinta-feira, de g. k. chesterton. josé laurênio de mello fez a tradução que saiu pela agir em 1957. tenho a terceira edição, de 1967, e a capa é de rubens gerchman. foi editada também pelo círculo do livro nos anos 70.

josé laurênio de mello morreu poucos anos atrás, em 2006. foi um dos fundadores do ateliê o gráfico amador em 1954, um marco na história do design gráfico.* poeta, editor, tradutor, intelectual de grande importância e influência cultural, tornou-se vítima da indecorosa sanha da editora germinal.

apresentarei o cotejo no próximo post. por ora, nosso tributo a laurênio.

* veja aqui o catálogo das edições d'o gráfico amador.

atualização em 13/02/2011: que alegria! sai o livro O Gráfico Amador: as origens da moderna tipografia brasileira, de guilherme cunha lima. veja aqui o artigo de josélia aguiar em painel das letras.  

17 de nov de 2009

kafka anônimo-borgiano-torrieriano II

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Un artista del hambre

En los últimos decenios, el interés por los ayunadores ha disminuido muchísimo. Antes era un buen negocio organizar grandes exhibiciones de este género como espectáculo independiente, cosa que hoy, en cambio, es imposible del todo. Eran otros los tiempos.
Entonces, toda la ciudad se ocupaba del ayunador; aumentaba su interés a cada día de ayuno: todos querían verle siquiera una vez al día; en los últimos del ayuno no faltaba quien se estuviera días enteros sentado ante la pequeña jaula del ayunador; había, además, exhibiciones nocturnas, cuyo efecto era realizado por medio de antorchas; en los días buenos, se sacaba la jaula al aire libre, y era entonces cuando les mostraban el ayunador a los niños. Para los adultos aquello solía no ser más que una broma en la que tomaban parte medio por moda, pero los niños, cogidos de las manos por prudencia, miraban asombrados y boquiabiertos a aquel hombre pálido, con camiseta oscura, de costillas salientes, que, desdeñando un asiento, permanecía tendido en la paja esparcida por el suelo, y saludaba, a veces, cortamente o respondía con forzada sonrisa a las preguntas que se le dirigían o sacaba, quizá, un brazo por entre los hierros para hacer notar su delgadez, volviendo después a sumirse en su propio interior, sin preocuparse de nadie ni de nada, ni siquiera de la marcha del reloj, para él tan importante, única pieza de mobiliario que se veía en su jaula. Entonces se quedaba mirando al vacío, delante de sí, con ojos semicerrados, y sólo de cuando en cuando bebía en un diminuto vaso un sorbito de agua para humedecerse los labios. (tradução anônima, revista de occidente, 1927, indevidamente atribuída a jorge luís borges, losada, 1938)

Um artista da fome

Nos últimos decênios, o interesse pelos jejuadores diminuiu muitíssimo. Antes era um bom negócio organizar grandes exibições deste gênero como espetáculo independente, coisa que hoje, em troca, é totalmente impossível. Eram outros os tempos. Então, toda a cidade ocupava-se do jejuador; aumentava seu interesse a cada dia de jejum; todos queriam vê-lo ao menos uma vez por dia; nos últimos dias do jejum não faltava quem ficasse dias inteiros sentado diante da pequena jaula do jejuador; havia, além disso, exibições noturnas, cujo efeito era realçado por meio de tochas; nos dias bons, punha-se a jaula ao ar livre, e era então quando mostravam o jejuador às crianças. Para os adultos aquilo costumava não ser senão uma brincadeira na qual tomavam parte meio por moda, mas as crianças, seguros [sic] pelas mãos por prudência, olhavam assombrados e boquiabertos [sic] aquele homem pálido, com camiseta escura, de costelas salientes, que, desdenhando um assento, permanecia estendido na palha esparsa pelo solo, e saudava, às vezes, cortesmente [sic] ou respondia com forçado sorriso às perguntas que dirigiam a ele, ou tirava, talvez, um braço por entre os ferros para fazer notar sua magreza, tornando depois a sumir-se em seu próprio interior, sem se preocupar por ninguém ou com nada, nem sequer pela marcha do relógio, para ele tão importante, única peça de mobiliário que se via em sua jaula. Então permanecia olhando para o vazio, diante de si, com olhos semicerrados, e apenas de quando em quando bebia em um diminuto copo um golezinho de água para umedecer os lábios. (torrieri guimarães, livraria exposição do livro, 1965)

acompanhe a sequência de posts sobre o kafka hispano-brasileiro clicando aqui.
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kafka anônimo-borgiano-torrieriano

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para finalizar, eu concluiria este tópico sobre kafka afirmando que a metamorfose na tradução de torrieri guimarães foi feita não do francês, conforme alega ele, e sim com toda probabilidade a partir de uma tradução anônima do espanhol, publicada em 1925 na revista de occidente.

quanto à edição utilizada, é mais difícil de determinar. não me parece muito improvável que eli behar, o proprietário da editora livraria exposição do livro que incumbiu torrieri guimarães de verter a obra de Kafka para sua casa editorial, tenha-lhe fornecido a edição portenha em nome de jorge luis borges. tanto mais porque, antes de chegar ao brasil em 1955, consta que behar teria passado algum tempo na argentina, onde a edição da losada já era extremamente difundida naquela época. mas esta é uma simples hipótese.

seja como for, via edição espanhola anônima, via edição castelhana atribuída a borges, creio ser esta a única maneira capaz de explicar a profunda identidade morfológica e estrutural entre o texto da tradução espanhola e o da tradução brasileira.

quero ressaltar que não se trata de plágio, e tampouco estou sugerindo que tradução indireta seja algo ilícito, de maneira alguma. meu único propósito é contribuir para aclarar as incertezas sobre a fonte d'a metamorfose de torrieri guimarães. em se tratando de uma tradução das mais reproduzidas no brasil, desde 1965 até a data de hoje, julgo importante tentar estabelecer com a maior segurança possível dados que fazem parte da história da difusão de kafka no brasil.

seguem abaixo mais alguns trechos comparativos.

Eran las seis y media, y las manecillas seguían avanzando tranquilamente. Es decir, ya era más. Las manecillas estaban casi en menos cuarto. ¿Es que no había sonado el despertador?. Desde la cama podía verse que estaba puesto efectivamente en las cuatro; por lo tanto, tenía que haber sonado. Mas ¿era posible seguir durmiendo impertérrito, a pesar de aquel sonido que conmovía hasta a los mismos muebles?. Su sueño no había sido tranquilo. Pero, por lo mismo, probablemente tanto más profundo. Y ¿qué hacía él ahora?. El tren siguiente salía a las siete; para alcanzarlo era preciso darse una prisa loca. El muestrario no estaba aún empaquetado, y, por ultimo, él mismo no se sentía nada dispuesto. Además, aunque alcanzara el tren, no por ello evitaría la filípica del amo, pues el mozo del almacén, que habría bajado al tren de las cinco, debía de haber dado ya cuenta de su falta. Era el tal mozo una hechura del amo, sin dignidad ni consideración.

Eram seis e meia, e os ponteiros continuavam avançando tranquilamente. Quer dizer, já era mais. Os ponteiros estavam quase em sete menos um quarto. Não teria tocado o despertador? Da cama podia ver que estava realmente posto nas quatro horas; portanto, tinha de tocar. Mas era possível continuar dormindo indiferente, apesar daquele som que fazia vibrar até os móveis? Seu sono não tinha sido tranquilo. Mas, por isso mesmo, provavelmente tanto mais profundo. E que faria agora? O trem seguinte saía às sete; para tomá-lo, era preciso dar-se uma pressa louca. O mostruário ainda não estava empacotado, e, por último, ele mesmo não se sentia nada disposto. Além disso, ainda que alcançasse o trem, nem por isso evitaria a cólera do patrão, pois o empregado do armazém, que teria descido do trem das cinco, devia já ter dado pela sua falta. Era o tal moço uma cópia do patrão, sem dignidade nem consideração.

Mas cuando, después de realizar a la inversa los mismos esfuerzos, subrayándolos con hondísimos suspiros, hallóse de nuevo en la misma posición y tornó a ver sus patas presas de una excitación mayor que antes, si era posible, comprendió que no disponía de medio alguno para remediar tamaño absurdo, y volvió a pensar que no debía seguir en la cama y qye lo más cuerdo era arriesgarlo todo, aunque sólo le quedase una ínfima esperanza.

Mas quando, depois de realizar de modo inverso os mesmos esforços, sublinhando-os de profundíssimos suspiros, encontrou-se de novo na mesma posição e tornou a ver suas patas tomadas de uma excitação maior do que antes, se era possível, compreendeu que não dispunha de meio algum para remediar tamanho absurdo, e tornou a pensar que não devia continuar na cama e que o mais sensato era arriscar tudo, embora apenas lhe restasse uma ínfima esperança.

Y en tal estado de apacible meditación e insensibilidad, permaneció hasta que el reloj de la iglesia dio las tres de la madrugada. Todavía pudo vivir aquel cominezo del alba que despuntaba destrás de los cristales. Luego, a pesar suyo, su cabeza hundióse por completo, y su hocico despidió débilmente su postrer aliento.
A la manãna siguiente, cuando entró la asistenta - daba tales portazos que, en cuanto llegaba, ya era imposible descansar en la cama, a pesar de las infinitas veces que se le habían rogado otras maneras - para hacer a Gregorio la breve visita de costumbre, no hallé en él, al principio, nada de particular. Supuso que permanecía así inmóvil con toda intención, para hacerse el enfadado, pues le consideraba capaz del más completo discernimiento.

E em tal estado de aprazível meditação e insensibilidade, permaneceu até que o relógio da igreja deu as três horas da madrugada. Ainda pôde viver aquele começo de madrugada que despontava por trás das vidraças. Depois, contra sua vontade, sua cabeça tombou por completo, e seu focinho despediu debilmente seu último alento.
Na manhã seguinte, quando a criada entrou - batia tanto as portas que, quando chegava, era já impossível ficar na cama, apesar das infinitas vezes que lhe tinham pedido que adotasse outras maneiras - para fazer a Gregório a breve visita do costume, não encontrou nele, a princípio, nada de particular. Supôs que permanecia assim imóvel com toda intenção, para fazer-se de aborrecido, pois considerava-o capaz do mais completo discernimento.

edições: editorial losada, [1938] 2001, em tradução atribuída a jorge luís borges;* livraria exposição do livro, 1965, tradução de torrieri guimarães.

* ainda sobre a relutância da losada em aceitar o desmentido do próprio borges, em 1970, sobre a autoria dessa tradução: a edição consultada (2001), que traz apenas a novela la metamorfosis, na coleção "biblioteca clásica y contemporánea", destaca na capa: "Traducción y prólogo de Jorge Luis Borges", e na contracapa: "Jorge Luis Borges lo dio a conocer en nuestra lengua, con esta magnífica e insuperable traducción de 'La metamorfosis' que muestra plenamente las características tan poderosas, tan singulares y turbadoras que posee la escritura de Kafka".

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16 de nov de 2009

kafka anônimo-borgiano

sobre o divertido e importante debate sobre as traduções borgianas de kafka, ver em especial a polêmica entre pestaña e sorrentino.

Alejandro Toledo, Samsa en un pestañeo, 2004
Carlos Correas, K, conferência CAF, s/d
Carlos García, Borges y Kafka, 2005
Celso Cruz, Metamorfoses de Kafka, Fapesp/Annablume, 2007
Cristina Pestaña Castro, Intertextualidad de F. Kafka en J.L. Borges, 1997
Cristina Pestaña Castro, ¿Quién tradujo por primera vez "La Metamorfosis" de Franz Kafka al castellano?, 1999
Ezequiel Martínez, Los disparates de Kafka, 2009
Fernando Sorrentino, El kafkiano caso de la Verwandlung que Borges jamás tradujo, 1998; também em hispanista
Fernando Sorrentino, No le deis al César lo que no es del César, 2000
Fernando Sorrentino, Borges y Die Verwandlung: algunas precisiones adicionales, 1999
Fernando Sorrentino, Borges: traductor y traducido, 2000-2005
Francisco Ynduráin, Leer a Kafka, 2008

cabe lembrar que a famosa edição da losada, em 1938, inaugurando a coleção "la pajarita de papel" com uma coletânea de contos de kafka, com prólogo e tradução atribuída a jorge luís borges, trazia os seguintes textos: La metamorfosis, La edificación de la Muralla China, Un artista del hambre, Un artista del trapecio, Una cruza, El buitre, El escudo de la ciudad, Prometeo e Una confusión cotidiana. Hoje se sabe, graças às pesquisas de Sorrentino, que os três contos assinalados em vermelho não foram traduzidos por borges, e sim reproduzidos de uma tradução anônima publicada na Revista de Occidente.

imagem: kafka sorridente
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pingos nos is


em 10 de novembro, atendendo a um convite da sra. rosely boschini, presidente da cbl, estive na sede da entidade em são paulo, para uma reunião com ela e seu diretor executivo eduardo mendes.

nesta ocasião, foi-me participado que a cbl vinha organizando nos últimos meses alguns encontros entre representantes das várias áreas de produção editorial do livro, citando-se como exemplo a associação dos ilustradores. a sra. rosely comentou que consideraria importante a participação dos tradutores, com o que concordei e sugeri que fosse feito um convite à abrates, associação brasileira de tradutores e intérpretes. o sr. eduardo mendes se prontificou a contatar a referida associação.

de minha parte, em 11/11 entrei em contato com a abrates e repassei o convite da cbl a seu presidente em exercício, recomendando a iniciativa da cbl como um bom canal para os tradutores. a abrates enviou à cbl a aceitação formal do convite, aliás mencionando gentilmente minha pessoa e o trabalho do nãogostodeplágio, e indicou representante para participar da reunião de 13/11.

posteriormente fui informada de que a referida reunião na cbl congregava não as entidades dos profissionais diretamente envolvidos na produção de um livro, conforme eu havia entendido, e sim os integrantes do chamado "grupo do livro pelo direito autoral". trata-se de uma esfera de discussões do setor privado que nem remotamente interessam a mim ou ao nãogostodeplágio. desculpei-me junto ao presidente em exercício da abrates pelo papel que acabei desempenhando involuntariamente, o de emissária de um convite cujo teor havia escapado ao meu entendimento.

quero aqui deixar registrado que eu, denise bottmann, sou uma cidadã sem vínculos associativos, não faço política e não nutro simpatias por práticas de instrumentalização, quaisquer que sejam. desautorizo qualquer menção pessoal ou institucional a meu nome e ao blog nãogostodeplágio relacionada com a cbl ou com o grupo do livro pelo direito autoral, e repudio publicamente qualquer tentativa de envolvimento de minha pessoa em assuntos que desconheço ou não me dizem respeito.