31 de jan de 2010

jorio dauster - o cosmopolita galopavão


Afinal de contas, me perguntei outro dia, por que o popular Meleagris gallopavo, aquela ave de carúncula avermelhada originária da América do Norte, tem o nome de um país latino-americano em português e de um país do Oriente Próximo em inglês? Aposto que você também já foi assaltado por tal indagação, mas muito provavelmente nada fez para respondê-la, não é mesmo?

Pois saiba (como acabo de aprender no Houaiss) que o nosso peru vem do fato de que, no Portugal do século XVI, todos achavam que a apetitosa ave provinha da terra dos incas, a qual, por sua fama, passara mesmo a significar toda a América espanhola. Já o prato de resistência dos almoços de Thanksgiving nos Estados Unidos tem o nome de turkey porque a ave em causa foi confundida (certamente por linguistas ingleses que jamais a haviam visto) com a galinha-d’angola, a qual, por sua vez, imaginavam ser originária da Turquia. O que só faz acrescentar mais um complicador geográfico a este verdadeiro samba do crioulo doido, pois a referida representante da família dos numidídeos também é conhecida em português como galinha-da-guiné e, compreensivelmente, atende hoje em inglês pela alcunha de guinea fowl. Mas a coisa se complica ao vermos que o peru gaulês, o dindon, deve seu nome à fêmea da espécie, a dinde, assim chamada carinhosamente para designar a poule d’Inde. E, como já percorremos alguns continentes, vou ficando por aqui, feliz por não ter um dicionário de javanês em minhas estantes.

JORIO DAUSTER

30 de jan de 2010

leitura


"a tradução literária no brasil" de josé paulo paes, in armazém literário, em organização de vilma arêas.

no google books há uma boa prévia do artigo, praticamente na íntegra.

29 de jan de 2010

matéria de marcelo gusmão na caros amigos

leia aqui a matéria de marcelo villela gusmão, na revista caros amigos, de janeiro de 2010. clique nas imagens para ampliar.


agradeço a gentil licença do autor e da revista para a reprodução do artigo

atualização em 04/02/10: agora disponível para download na revista brasil que lê.

veja também "Plágio: Pesquisadora Denuncia Publicação de Cópias de Traduções", aqui

.

o gato nassettiano na academia, poe XXV

algumas coisas me espantam.

a mais recente foi a leitura de uma análise descritiva das traduções brasileiras do conto the black cat de edgar allan poe,

estudo publicado em julho de 2009 por um docente de uma importante universidade federal, integrante de um também importante núcleo de pós-graduação em estudos de tradução. o artigo é em sua maior parte ocupado por dados biográficos de poe, pinceladas a respeito da fortuna histórica de sua obra, elementos paraliterários das edições sob análise e a exposição dos marcos teóricos adotados pelo articulista. num breve item final antes da conclusão, o docente apresenta uma sucinta comparação de quatro frases do conto o gato preto em duas traduções diferentes.

e aqui surge minha perplexidade: uma das traduções é legítima, da autoria de william lagos (pela lpm), e a outra é espúria, em nome de pietro nassetti (pela martin claret). faz anos que a farsa claretiana tem sido repetidamente desmascarada em inúmeros jornais, revistas e veículos de comunicação digitais, e não consigo entender como suas pseudotraduções podem ser tratadas em pé de igualdade com traduções legítimas, ainda mais em ambiente acadêmico.

os trechos apresentados no referido estudo são curtos, e reproduzo-os aqui:

I. william lagos:
- Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever [...] Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar a minha alma.
- Todos aqueles que estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratificação que deriva de tal relacionamento [...] Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade.

II. pietro nassetti:
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, contudo, bastante doméstica que vou contar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já experimentaram afeto por um cão fiel e esperto, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

além de estranhar a escolha da edição martin claret para fins de análise especializada, admira-me também que um estudioso das traduções brasileiras de the black cat não reconheça de plano, no segundo lote de amostras, a tradução de brenno silveira:

- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

esse triste episódio no campo dos estudos tradutórios no país, a meu ver, apenas confirma um fato para o qual o mestre alfredo bosi alertou desde o primeiro momento: os plágios de tradução põem em risco "a integridade mesma da vida intelectual no Brasil".

imagem: astound

28 de jan de 2010

boa matéria para reflexão


O Manifesto pelo Domínio Público

para assiná-lo, clique aqui: publicdomainmanifesto.org

O domínio público, tal como o entendemos, é o manancial de informações que está livre das barreiras de acesso ou reutilização geralmente associadas à proteção de direitos autorais, seja porque ele é livre de qualquer proteção de direitos autorais, ou porque os detentores de direitos decidiram remover essas barreiras.

O domínio público é a base da nossa autocompreensão, expressa pelo nosso conhecimento e cultura comuns. É a matéria-prima da qual são derivados os novos conhecimentos e criadas as novas obras culturais. O domínio público atua como um mecanismo de proteção para garantir que essa matéria-prima esteja disponível ao custo de sua reprodução – próximo de zero – e que todos os membros da sociedade possam construir com base neste conteúdo.

Promover a existência de um domínio público saudável e vibrante é essencial para o desenvolvimento social e o bem-estar econômico das nossas sociedades. O domínio público desempenha um papel capital nas áreas de educação, ciência, patrimônio cultural e de informação do setor público. Domínio público acessível é um dos pré-requisitos para assegurar que os princípios do artigo 27 da Declaração Universal dos Direitos Humanos ("Todo mundo tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e de seus benefícios.") possam ser apreciados por todos ao redor do mundo.

A sociedade da informação digital em rede trouxe a questão do domínio público para o primeiro plano das discussões sobre direitos autorais. A fim de preservar e fortalecer o domínio público, precisamos de uma atualização consistente na compreensão da natureza e do papel deste recurso essencial. Este Manifesto pelo Domínio Público define o que entendemos como domínio público no século 21, e define os princípios e as orientações necessárias para a concretização de um domínio público que responda às demandas do nosso tempo.

O domínio público é aqui considerado em sua relação com a lei de copyright, com exclusão de outros direitos de propriedade intelectual (como patentes e marcas), e onde a lei de copyright deve ser entendida em seu sentido mais amplo para incluir os direitos econômicos e morais de autor e direitos conexos (incluindo direitos vizinhos [neighboring rights] e direitos de banco de dados).

Portanto, ‘copyright’ (direito de cópia) é utilizado no restante deste documento como um termo abrangente para estes direitos. Além disso, o termo “trabalhos” inclui todos os materiais protegidos por direitos de autor assim definidos, portanto incluindo bases de dados, apresentações e gravações. Da mesma forma, o termo ‘autores’ abrange fotógrafos, produtores, empresas de radiodifusão, pintores e artistas.

O Domínio Público no Século 21

O domínio público, como formulado neste Manifesto, é definido como o substrato cultural livre para ser usado sem restrições, onde a proteção de direitos autorais está ausente. Além das obras que estão formalmente em domínio público, existe um crescente lote de obras valiosas que indivíduos compartilham voluntariamente, viabilizando a formação de um commons construído de forma privada, mas que funciona em muitos aspectos como o domínio público. Além disso, os indivíduos podem também fazer uso de muitas obras protegidas através de exceções e limitações ao direito de autor, uso justo (fair use) e troca justa. Todos estes mecanismos que permitem um maior acesso à nossa cultura e ao patrimônio cultural são extremamente importantes, e devem ser ativamente sustentados e aperfeiçoados para que a sociedade possa colher os benefícios do conhecimento e cultura comuns.

Princípios Gerais

Em um período de mudanças tecnológicas e sociais extremamente rápidas, o Domínio Público cumpre um papel essencial no fomento à participação cultural e à inovação digital e, portanto, precisa ser apoiado ativamente. A manutenção ativa do Domínio Público precisa levar em conta uma série de princípios gerais. Os princípios listados a seguir são essenciais para fomentar uma compreensão consistente sobre o papel do domínio público na cultura digital, e para garantir que o domínio público continue a funcionar no ambiente tecnológico da sociedade da informação em rede. No que diz respeito à estrutura de Domínio Público os princípios são os seguintes:

1. O domínio público é a regra, proteção de direitos autorais é a exceção. Na medida em que a proteção de direitos autorais é concedida apenas a ‘formas originais de expressão’, a grande maioria dos dados, informações e ideias produzidas no mundo em dado momento pertence ao Domínio Público. Além das informações que não são elegíveis para a proteção, o domínio público é ampliado a cada ano por obras cujo prazo de proteção expira. A aplicação combinada dos ‘requisitos de proteção’, e de uma duração limitada para a proteção de direitos autorais, contribui para o enriquecimento do Domínio Público, garantindo maior acesso à nossa cultura e conhecimento compartilhados.

2. A proteção de copyright deve durar apenas o tempo necessário para alcançar um equilíbrio razoável entre (1) a proteção para recompensar o autor por seu trabalho intelectual, e (2) a salvaguarda do interesse público na divulgação da cultura e conhecimento. Não existe nenhum argumento válido, seja histórico, econômico, social ou outro, seja da perspectiva do autor, seja do público em geral, que justifique o apoio a um prazo excessivamente longo de proteção de direitos autorais. Embora o autor tenha direito de colher os frutos do seu trabalho intelectual, o público em geral não deve ser privado por um período excessivamente longo dos benefícios de utilizar livremente as obras.

3. O que está em domínio público deve permanecer no Domínio Público. Controle exclusivo sobre as obras de domínio público não deve ser restabelecido através de reivindicação de direitos exclusivos de reprodução técnica das obras, ou pelo uso de medidas de proteção técnica (TPM) para limitar o acesso a reproduções dessas obras.

4. O utilizador legítimo de uma cópia digital de uma obra em domínio público deve ser livre para (re)utilizar, copiar e modificar esse trabalho. O estado de domínio público de uma obra não significa necessariamente que ela deve ser acessível ao público. Os proprietários das obras físicas que estão em domínio público são livres para restringir o acesso a essas obras. Contudo, uma vez que acesso a uma obra tenha sido concedida, então não deveria haver restrições legais sobre a reutilização, a modificação ou a reprodução destas obras.

5. Contratos ou medidas técnicas de protecção para restringir o acesso e reutilização de obras em domínio público não devem ser aplicados. O estado de domínio público de uma obra garante o direito de reutilizar, modificar e reproduzir. Isso inclui também as prerrogativas decorrentes de exceções e limitações, e dos regimes de uso justo e negociação justa, assegurando que estas prerrogativas não podem ser limitadas por via contratual ou tecnológica.

Além destes, os seguintes princípios estão no centro do espaço comum de voluntariado e das prerrogativas do usuário acima descritos:

1. A renúncia voluntária dos direitos de autor e compartilhamento de obras protegidas são exercícios legítimos de exclusividade de direitos autorais. Muitos dos autores que têm direito à proteção de suas obras não querem exercer esses direitos em toda a sua extensão, ou desejam abrir mão desses direitos completamente. Tais ações, desde que sejam voluntárias, são um exercício legítimo da exclusividade de direitos de autor e não podem ser impedidas por lei ou por outros mecanismos, incluindo os direitos morais.

2. As exceções e limitações ao direito de autor, e os regimes de uso justo e negociação justa, devem ser bem aplicados na legislação de forma a garantir a eficácia do equilíbrio fundamental entre os direitos de autor e o interesse público. Estes mecanismos criam prerrogativas ao usuário que constituem o espaço de respiração dentro do sistema de direitos autorais. Dado o ritmo acelerado das mudanças na tecnologia e na sociedade, é importante que eles permaneçam capazes de assegurar o funcionamento de instituições sociais essenciais e a participação social de pessoas com necessidades especiais. Tais mecanismos devem portanto ser interpretados como de natureza evolutiva, devendo ser constantemente adaptados para dar conta do interesse público.

Para além destes princípios gerais, uma série de questões relevantes para o domínio público devem ser tratadas imediatamente. As seguintes recomendações são no sentido de defender o domínio público e garantir que ele possa continuar a funcionar de forma significativa. Embora estas recomendações sejam aplicáveis em todo o espectro dos direitos autorais, elas são de especial importância para a educação, o patrimônio cultural e investigação científica.

Recomendações gerais

1. O prazo de proteção de direitos autorais deve ser reduzido. A duração excessiva de proteção de direitos autorais combinada com uma ausência de formalidades para registro é altamente prejudicial para a acessibilidade do nosso conhecimento e cultura comuns. Além disso, aumenta a ocorrência de obras órfãs e obras que não ficam nem sob o controle de seus autores, nem da parte do domínio público, e em ambos os casos não podem ser usados. Assim, para novas obras a duração da proteção de direitos autorais deve ser reduzida para um prazo mais razoável.

2. Qualquer mudança no escopo de proteção dos direitos autorais (incluindo qualquer nova definição de matéria suscetível de ser protegida ou ampliação de direitos exclusivos) precisa levar em conta os efeitos sobre o domínio público. Qualquer alteração do âmbito de proteção de direitos autorais não deve ser aplicada retroativamente a obras que já foram objeto de proteção. O direito autoral é uma exceção de tempo limitado ao estado de domínio público da nossa cultura e conhecimento compartilhadas. No século 20 o seu âmbito foi alargado de forma significativa, de forma a acomodar os interesses de uma pequena classe de titulares de direitos, às expensas do público em geral. Como resultado, a maior parte da nossa cultura e conhecimento compartilhados está trancada atrás de direitos autorais e de restrições técnicas. Temos de garantir, no mínimo, que esta situação não se agrave, e que seja afirmativamente melhorada no futuro.

3. Quando o material for considerado de domínio público estrutural no seu país de origem, o material deve ser reconhecido como parte da estrutura de Domínio Público em todos os outros países do mundo. Quando o material em um país não é elegível para proteção de direitos autorais, porque se enquadra no âmbito de um exclusão específica, ou porque ele não atende o critério de originalidade, ou porque a duração da sua proteção tenha caducado, não deve ser possível para qualquer pessoa (incluindo o autor) invocar proteção de direitos autorais sobre o mesmo material em outro país, de modo a retirar o material da estrutura de Domínio Público.

4. Qualquer tentativa falsa ou enganosa de apropriação indevida de material de domínio público deve ser legalmente punida. A fim de preservar a integridade do domínio público e proteger os utilizadores de material de domínio público contra representações imprecisas e enganosas, toda tentativa falsa ou enganosa para reivindicar exclusividade sobre material de domínio público deve ser declarada ilegal.

5. Nenhum direito de propriedade intelectual deve ser usado para reconstituir a exclusividade sobre material de domínio público. O domínio público é essencial para o equilíbrio interno do sistema de direitos autorais. Este equilíbrio interno não deve ser manipulado por tentativas de reconstituir ou obter o controlo exclusivo através de regulamentos que são externos ao direito de autor.

6. Deve haver um caminho prático e eficaz de disponibilizar “obras órfãs” e trabalhos publicados que não estão mais disponíveis comercialmente (como fora-de-obras impressas) para reutilização pela sociedade. A extensão do alcance e a duração dos direitos de autor, e a restrição às formalidades para as obras estrangeiras, criaram um corpo enorme de obras órfãs que nem estão sob o controle dos seus autores, nem fazem parte do Domínio Público. Dado que essas obras sob a lei atual não beneficiam os autores ou a sociedade, precisam ser disponibilizadas para o reuso produtivo da sociedade como um todo.

7. Instituições de patrimônio cultural devem tomar para si um papel especial no registro eficiente e na conservação das obras em domínio público. A preservação do nosso conhecimento e cultura comuns durante séculos foi confiada a organizações de patrimônio cultural. Como parte deste papel elas precisam garantir que as obras no domínio público estejam disponíveis para toda a sociedade, rotulando-as, preservando-as e tornando-as disponíveis gratuitamente.

8. Não deve haver obstáculos jurídicos que impeçam o compartilhamento voluntário de obras ou a dedicação de obras ao domínio público. Ambos são legítimos exercícios de direitos exclusivos concedidos pelo autor e ambos são fundamentais para garantir o acesso a bens culturais e conhecimentos essenciais, e para respeitar os desejos dos autores.

9. O uso pessoal e não-comercial de obras protegidas deve em geral ser possível, e modos alternativos de remuneração para o autor devem ser explorados. Embora seja essencial para o autodesenvolvimento de cada indivíduo que ele seja capaz de fazer uso pessoal e não-comercial das obras, é também essencial que a posição do autor seja tomada em consideração ao estabelecer novas limitações e exceções nos direitos de autor, ou ao rever as antigas.

Organizações que apoiam o Manifesto pelo Domínio Público:

Association for Fair Audiovisual Copyright in Europe – AFACE – Italy
Center for the Study of the Public Domain – USA
Center for Technology and Society at Fundacao Getulio Vargas – Brazil
Creative Commons – USA
Digitale Allmend – Switzerland
Knowledge Ecology International – USA
Knowledgeland – Netherlands
iCommons Ltd – UK
Intellectual Property Institute – Slovenia
Interdisciplinary Center for Computational and Mathematical Modelling, University of Warsaw – Poland
Luxcommons asbl – Luxembourg
Multimedia Institute – Croatia
NEXA Center for Internet & Society at Politecnico di Torino – Italy
Open Knowledge Foundation – UK
Waag Society – Netherlands





Tradução Livre: José Murilo

27 de jan de 2010

orgulho e preconceito da lpm

.
et voilà!


a boa notícia é que, em meio a:
- a antiga tradução de lúcio cardoso, circulando desde 1940
- o plágio da tradução de lúcio cardoso na best-seller desde 1997
- outro plágio da tradução de lúcio cardoso na martin claret desde 2001

finalmente sai uma nova tradução de alto nível, feita por celina portocarrero, pela editora lpm, com introdução do poeta e tradutor ivo barroso e uma belíssima capa, em edição de bolso, com 400 páginas, a preço acessível.
 
nós leitores agradecemos à iniciativa de raquel sallaberry, do jane austen em português: cansada de tantos plágios e tantas dificuldades em encontrar os livros esgotados de jane no brasil, publicou um post aberto à editora, sugerindo boas edições a bons preços da obra completa de jane austen. et voilà!
.

o insidioso orgulho plagiado

.
mais um caso de involuntária legitimação acadêmica do mais pernicioso delito intelectual, a saber, o plágio - aqui, com a referência a "enrico corvisieri" como pretenso autor da tradução de orgulho e preconceito, na verdade furtada a lúcio cardoso. clique na imagem para ampliar.


Genilda Azeredo,
Jane Austen, adaptação e ironia : uma introdução
(agradeço a ivo barroso pelo aviso e pela imagem)

quando cessará a infiltração das fraudes tradutórias entre os materiais de estudo na academia? e a memória cultural, como preservá-la?

26 de jan de 2010

galeão coutinho plagiado

como vimos, galeão coutinho, a crer nos dados fornecidos pela editora itatiaia, teria tido sua tradução de zadig, de voltaire, despudoradamente copiada de fio a pavio por mario quintana. veja "mario quintana, plagiador?".

comentei que isso me parece uma sandice, e que a editora itatiaia, em minha opinião, está mostrando certa irresponsabilidade perante a situação em que tem colocado mario quintana desde 2004.

por outro lado, galeão coutinho foi plagiado, sim. sua tradução de werther de goethe, publicada pela livraria martins nos anos 40, foi copiada recentemente por duas editoras:

- pela editora martin claret, que atribuiu a pretensa tradução publicada em 2001 em sua coleção A Obra-Prima de Cada Autor ao assíduo pietro nassetti. veja "carlota tropical".

- pela editora nova cultural com patrocínio da suzano celulose, em 2002, que atribuiu a pretensa tradução publicada em sua coleção Obras-Primas a um fantasmagórico "alberto maximiliano". veja "goethe, werther".

torço vivamente para que a guardiã dos direitos e da memória de galeão coutinho tome as necessárias providências para proteger seu nome e sua obra. e que, diante do caso da itatiaia, ajude a deslindar a bizarria: se eventualmente dispuser de algum manuscrito ou qualquer indício sobre algum zadig traduzido por galeão coutinho, por favor traga a público.

imagem: traça

25 de jan de 2010

discussões na campus party


amanhã, dia 26, começa a campus party 2010, com excelentes programações. veja, por exemplo, o campus fórum e a agenda blog.

a jornalista ana magal, d'o jornal rj, vai apresentar a debate, durante o evento, duas matérias sobre a internet, blogs, plágios e ações judiciais. agradeço a cobertura dada ao nãogostodeplágio.

eis aqui as matérias:

- a internet facilitou o plágio?
- blogueiros x lei: quem está correto?

imagem: disponível no google images

24 de jan de 2010

jorio dauster - um achado

O SALINGER QUE (QUASE) NINGUÉM LEU

Entre 1940 e 1965, J. . Salinger publicou um total de 36 contos e um romance. Daqueles, treze foram reunidos em três volumes bem conhecidos: Nove Estórias; Franny e Zooey; e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação. Os vinte e dois restantes há muito permanecem enterrados, e em larga medida ignorados (exceto por alguns poucos fãs), nas revistas em que apareceram. Esses vinte e dois contos estão reproduzidos nestes dois volumes. Alguns imaturos, outros excelentes, são talvez a chave mestra para entender o tema religioso de Salinger em sua permanente evolução, desde os primeiros conflitos sociais dos adolescentes de classe média, passando pelas frustrações do intelectual nos tempos de guerra, até chegar à figura místico-literária do próprio Seymour, o ápice da caminhada de Salinger em busca de seu eu mais profundo.

livraria

Por incrível que pareça, essas poucas - e instrutivas - linhas constituem o prefácio de uma edição pirata de tudo aquilo que Salinger se recusara a publicar sob a forma de livro antes de mergulhar na reclusão e no mais absoluto silêncio autoral. Entre as vinte e duas peças, lá está a última vinda a público há exatos trinta e sete anos, Hapworth 16, 1924, e que talvez ainda possa ser lançada entre capas duras para gáudio das hostes salingerianas em todo o mundo.

Quando saiu O apanhador no campo de centeio, em 1951, Salinger já publicara 27 contos em diversas revistas, tais como Collier´s, The Saturday Evening Post, Cosmopolitan, Story, Mademoiselle, Cosmopolitan e The New Yorker. Seis deles foram integrar o volume das Nove estórias, publicada em 1953, mas a partir daí começaram a rarear as aparições de Salinger em pessoa e também em letra de forma: Franny e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira só apareceram em 1955, Zooey em 1957, Seymour, uma apresentação em 1959, até o derradeiro Hapworth 16, 1924 em junho de 1965.

Enquanto isso, crescia de forma estupenda a fama do autor, já então objeto de verdadeiro culto, transformado em guru de todos os adolescentes que se identificavam com Holden Caufield na sua rejeição das falsidades da vida adulta. Quando ficou claro que os contos não incluídos na coletânea jamais veriam a luz do dia com o beneplácito do autor, estabeleceu-se uma verdadeira caçada às revistas que os haviam abrigado originalmente. Para os jovens fãs incapazes de disputar os cobiçados exemplares com colecionadores mais abonados, o instrumento de eleição era a gilete e o campo de ação as bibliotecas públicas e universitárias: nestas últimas, diz-se que não resta incólume um único dos números visados.

E foi então, se não me engano no início dos 70, que recebi de um colega diplomata lotado no exterior um artigo do Herald Tribune sobre Salinger. Sabedor de que eu co-traduzira o Apanhador no campo de centeio e Nove estórias (o primeiro com Álvaro Alencar e Antônio Rocha, o segundo apenas com Álvaro), mandava-me a matéria por imaginar que eu gostaria de conhecer a luta do autor para coibir uma edição fantasma que, certamente se valendo dos esforços daqueles bravos cirurgiões de revistas, continha os vinte e dois contos que ele condenara ao esquecimento. Segundo a matéria jornalística, não havia muito o que a polícia pudesse fazer: os vendedores piratas ofereciam os exemplares de livraria em livraria, cobrando em espécie e desaparecendo a seguir; os livreiros, por sua vez, escondiam os volumes em algum canto bem seguro da loja e, auferindo um belo lucro, só os ofereciam a clientes de confiança. Para mim, labutando no Planalto Central, ficava a certeza de que não teria nem mesmo a chance de cometer o pecadilho de comprar a obra pirata.

Eis-me, alguns anos depois, caminhando pelas ruas de Paris, para onde havia sido levado por uma reunião de cunho econômico. Nem me recordo por que, naquele dia, me afastara tanto do tradicional roteiro hotel-local da conferência-embaixada-hotel que costumava palmilhar. Por força do hábito, dou uma breve paradinha diante da vitrina de modesta livraria, passo os olhos a galope pelos títulos franceses e... Estranha dupla de volumes: capas brancas com o desenho de uma mulher e uma menina, vestidas nos trinques e empoleiradas na beira de uma cama com dossel e volumosos travesseiros, conversando com um soldado sentado diante delas numa poltrona; na parte superior, em letras vermelhas sobre fundo rosa no melhor estilo belle époque, o nome do autor; mais abaixo, March 1940 (mês em que foi publicado o primeiro conto, Young Folks); na parte inferior, os títulos dos contos (17 no primeiro volume, 5 no segundo) e, num retângulo rosa-pálido, as palavras que me deixaram atônito: Featuring The Complete Uncollected Short Stories!

Confesso que entrei disparado na livraria, perseguido pela idéia insana de que lá dentro já estaria alguém finalizando a compra daquele pequeno tesouro. Evidentemente, a loja estava às moscas, a senhora que me atendeu sem dúvida jamais ouvira falar em J. D. Salinger, e pelo jeito ficou muito feliz quando me declarei disposto a levar não só a dupla da vitrina mas também as duas outras que dormitavam numa prateleira mal iluminada (e com as quais presenteei meus co-tradutores).

Na época, sem pensar muito sobre o assunto, achei que aqueles volumes eram parte da operação iniciada no outro lado do Atlântico, quem sabe as sobras que tiveram de buscar outros mercados fugindo à repressão policial. Agora, porém, ao escrever estas notas, olhei com mais cuidado as publicações, que obviamente não trazem nenhuma indicação bibliográfica, e convenci-me de que não parecem ser um produto norte-americano. Contribuem para isso o rebuscado da capa e alguns erros de impressão no prefácio (“skelton key”, “tracable” e “adolesents”), denunciando uma provável origem gaulesa. Mas a melhor pista, que consistia em saber se o artigo do Herald Tribune falava ou não de dois volumes, havia se perdido nas brumas do passado.

Fica o mistério policial, passível de ser resolvido por algum fã mais bem informado do que eu. Mas restará para sempre o mistério maior, a tessitura inconsútil que transformou um devotado tradutor de Salinger em cúmplice confesso (embora impenitente) de um doce atentado à propriedade intelectual do ermitão de New Hampshire.

JORIO DAUSTER

23 de jan de 2010

leitura


sugestão de final de semana: um delicioso artigo de heitor megale sobre duas traduções do lancelote de chrétien de troyes.

imagem: o cavaleiro da carroça (ou "da charrete").

tradução lítero-humanística na rede


outro dia fiz um levantamento de sites, blogs e publicações com conteúdo disponível online que se dedicassem basicamente a temas sobre a tradução literária e humanística no brasil.

22 de jan de 2010

campus party 2010

imperdível a programação da campus party. começa agora dia 26.

galeão quintana e mario coutinho


itatiaia (galeão) e globo (quintana)
clique nas imagens para ampliar









para o histórico da questão,

20 de jan de 2010

mario quintana, plagiador?

o jornalista, romancista, contista e tradutor salisbury galeão coutinho (pseudônimo: joão sem terra) nasceu em curral d'el rey (belo horizonte) em 1897 e morreu tragicamente num acidente de avião em 1951.

nos anos 30 galeão coutinho criou uma efêmera editora, chamada cultura brasileira. com mário de andrade, sergio milliet e mais uma turminha de primeira, foi um dos fundadores da sociedade brasileira dos escritores (1942), futura UBE, e seu quarto presidente. autor de memórias de simão o caolho, vovô morungaba, a vida apertada de eunápio cachimbo, confidências de dona marcolina, semeador de pecados.

entre suas traduções incluem-se o paraíso norte-americano de egon erwin kisch, a vida maravilhosa de sarah bernhardt de louis verneuil, os sofrimentos do jovem werther de goethe, são julião hospitaleiro, herodíades, um coração simples, bouvard e pécuchet e dicionário das ideias feitas (estes dois últimos com augusto meyer) de flaubert, cândido ou o otimismo e os ouvidos do conde de chesterfield de voltaire. estes dois contos de voltaire foram publicados pela livraria martins, como volume 21 da coleção excelsior, em 1944.

não conheço nenhuma referência em sebos, bibliotecas e centros de estudo do país a qualquer tradução de zadig feita por galeão coutinho - a não ser uma publicação recente, de 2004, pela editora itatiaia, como sétimo volume de uma coleção também chamada "excelsior", a partir da indicação dada por mayra guedes.

o poeta e tradutor mario quintana praticamente dispensa apresentações. traduziu muitas dezenas de obras, dizem que mais de uma centena, entre elas uma coletânea de contos e novelas de voltaire. o volume foi publicado pela editora globo em 1951, e tem sido constantemente reeditado, até a data de hoje. a coletânea, pelo menos em minha edição da abril cultural de 1972, aliás começa com zadig.

a tradução de zadig publicada pela editora itatiaia, atribuindo-a a galeão coutinho, é absolutamente idêntica à tradução de mario quintana. parece-me uma sandice imaginar que quintana tenha plagiado galeão coutinho. e o inverso não só seria igual sandice, mas constituiria uma impossibilidade física, visto que galeão, como disse acima, morreu em 1951, quando a tradução de mario quintana mal tinha - se é que tinha - chegado à praça. resta, pois, a hipótese de que a editora itatiaia tenha decidido, sabe-se lá por qual insondável razão, transferir a titularidade da tradução de um para outro.

de um lado, espero que as guardiãs dos direitos de mario quintana e de galeão coutinho, respectivamente a sra. elena quintana e a sra. regina galante, deem ao problema a atenção que ele indubitavelmente merece.

por outro lado, espero que a editora itatiaia saia de seu obstinado silêncio, dê satisfações quanto a essa esdrúxula atribuição e perceba que, enquanto não apresenta qualquer referência concreta mostrando que a tradução circulante de zadig é efetivamente de autoria de galeão coutinho, ela está jogando na lama a reputação de mario quintana e lançando suspeitas sobre sua idoneidade.

por outro lado ainda, fica um vigoroso alerta a leitores, estudantes e pesquisadores: antes de julgarem que quintana foi mero copista de coutinho, avaliem bem as fontes impressas que dariam azo a essa estrambótica conclusão.

19 de jan de 2010

zadig e seu duplo

em outubro do ano passado, mayra guedes deixou um comentário no post não gosto de plágio, comentando que vira uma tradução de zadig de voltaire em nome de galeão coutinho, idêntica à feita por mario quintana.

a notícia me pareceu estarrecedora.

na época pesquisei um pouco em bibliotecas e acervos, consultei várias pessoas que ficaram tão atônitas e chocadas quanto eu, fui atrás da editora responsável pela edição do zadig em que consta o nome de galeão coutinho. foi meio difícil ser atendida. mas, depois de insistir por alguns dias, conversei com a responsável pela editora, a qual, como sói ser em muitos desses casos, não sabia, não tinha ideia, iria verificar etc. em dezembro liguei de novo, a secretária prometeu retorno. ok, cá estou esperando.

quando eu acordar, posto aqui as "evidências" (aliás, um dos anglicismos falsos amigos em traduções do inglês para o português mais horrorosos que conheço).

imagem: zzz

18 de jan de 2010

obra de tradução desprotegida?

na mesa-redonda "o direito autoral do tradutor literário", no dia 19/1, às 19,30, na casa das rosas, em são paulo, o tema que vou levantar - a despeito dos pouquíssimos subsídios disponíveis, pois o minc ainda não trouxe a público a versão final de seu anteprojeto para a reformulação da lei de direitos autorais 9610/98 - será a proposta já apresentada pelo ministério no que tange a obras de tradução sob encomenda.

lembrete

lembrando ao pessoal que mora em são paulo e adjacências:

amanhã, dia 19, às 19,30, mesa-redonda na casa das rosas sobre "o direito autoral do tradutor literário", com lenita esteves, luciane de carvalho, alzira allegro, jiro takahashi e esta que vos fala, com mediação de marcelo tápia.

veja aqui a programação.

17 de jan de 2010

jorio dauster - o apanhador


DE QUE VALE UM TÍTULO?

“... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Ninguém que tenha lido a obra-prima de J. D. Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.

A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.

Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português The Catcher in the Rye. Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.

É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio”. Phoebe o corrige, dizendo que o certo é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”, e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao “erro” de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.

Voltando ao nosso drama linguístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Eureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.

Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.

Em espanhol, saíram-se com El cazador oculto, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!

O francês nos brindou com L’attrape-coeurs, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.

E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou Uma agulha no palheiro (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o Psycho hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger Uma Agulha no Palheiro foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The Catcher in the Rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.” *

* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos “Foda-se” se transformam em pálidos “Vai à merda”. Graves problemas de sinonímia ou de anatomia?

Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título A Sentinela do Abismo. O Autor preferiu, entretanto, o título O Apanhador no Campo de Centeio.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.

E você, já leu o Apanhador?

JORIO DAUSTER

16 de jan de 2010

leitura

o blog da cultura traz um artigo de kelly de souza sobre polêmica: a revisão da lei de direito autoral.



uma boa súmula, com vários links importantes.

imagem: st george in his scriptorium, google images

15 de jan de 2010

matéria sobre os plágios de tradução

a revista caros amigos de janeiro publica matéria de marcelo villela gusmão sobre os plágios de tradução, com direito a chamada na capa e tudo.

mais um gato, gato XXIV

no ano passado, montei uma pequena pesquisa sobre edgar allan poe no brasil.

no levantamento específico das traduções de the black cat no país, tinha-me passado desapercebida a tradução de william lagos, publicada em 2002 pela lpm no volume os assassinatos da rua morgue e outras histórias. minhas desculpas por uma omissão tão crassa. agora consta devidamente creditada nos posts o gato brasileiro e as andanças do gato.

com isso, eleva-se a 23 o número de traduções brasileiras do referido conto que consegui localizar até o momento.

pedido de representação no ministério público


é direito de todo consumidor ter acesso às informações corretas que, por lei, devem obrigatoriamente constar em cada unidade de produto comercializado. o leitor, como consumidor do produto livro, tem o direito de saber quem é o autor da tradução da obra que pretende adquirir.

a editora tem o dever de incluir em suas edições a informação sobre a autoria da obra traduzida, conforme estipula a lei 9610/98.

conforme apresentado aqui e aqui, a editora fundamento educacional aparentemente se julga desobrigada de atender à lei e ao leitor. após vários contatos improfícuos com a empresa, e em vista dessa continuada lesão dos direitos de seus leitores, na semana passada entrei com pedido de representação no ministério público do paraná, solicitando as providências cabíveis.

imagem: nicepinheiro

14 de jan de 2010

avulsas

traduzir é divertido, e todo mundo que traduz sempre acumula um enorme arsenal de anedotas, pequenos orgulhos e satisfações, algumas raivas, vergonhas dos mais variados tamanhos. vou passar a comentar de vez em quando lembranças avulsas da minha experiência pessoal.

começo por uma que foi inesquecível. é antiga, aconteceu lá por volta de 1988/89. eu tinha entregado uma tradução, já fazia meses, e fui à editora por qualquer razão que não lembro agora. na saída, vem o editor e me pergunta: "denise, você sabe o que é loathe?" - surpresa,  respondo: "ué, claro, detestar, abominar".

aí o editor me estende o livro que eu tinha traduzido, mostra uma página com a citação de um poema no original e a tradução em pé de página, e diz: "então por que você pôs 'amar'?"

imagem: myspace

o nãogostodeplágio agradece o apoio da livraria 30 por cento.

13 de jan de 2010

orgulho e preconceito da best seller

jane austen no brasil é um caso sério. várias de suas obras vivem esgotadas, algumas traduções - por exemplo, persuasão pela landmark - são cópias adulteradas de traduções previamente existentes e por aí vai.

o caso de orgulho e preconceito, infelizmente, não é exceção. já mostrei em liz bennet kidnapped que a tradução atribuída a "jean melville", publicada em sucessivas reedições pela editora martin claret, é uma cópia mal disfarçada da tradução de maria francisca ferreira de lima, publicada em 1975 pela editora europa-américa.

a tradução brasileira mais conhecida é a de lúcio cardoso, de 1940, pela josé olympio e atualmente pela civilização brasileira. foi ela que serviu de base para uma cópia adulterada que tem sido publicada em nome de "enrico corvisieri", pela editora best seller, desde 1997 até hoje.

 escolhi alguns trechos salteados ao longo do livro.

1. capítulo VII, quando elizabeth vai visitar sua irmã jane.

- original:
In Meryton they parted; the two youngest repaired to the lodgings of one of the officers' wives, and Elizabeth continued her walk alone, crossing field after field at a quick pace, jumping over stiles and springing over puddles with impatient activity, and finding herself at last within view of the house, with weary ankles, dirty stockings, and a face glowing with the warmth of exercise.

She was shown into the breakfast-parlour, where all but Jane were assembled, and where her appearance created a great deal of surprise. That she should have walked three miles so early in the day, in such dirty weather, and by herself, was almost incredible to Mrs. Hurst and Miss Bingley; and Elizabeth was convinced that they held her in contempt for it. She was received, however, very politely by them; and in their brother's manners there was something better than politeness; there was good humour and kindness. Mr. Darcy said very little, and Mr. Hurst nothing at all. The former was divided between admiration of the brilliancy which exercise had given to her complexion, and doubt as to the occasion's justifying her coming so far alone. The latter was thinking only of his breakfast.

- tradução de lúcio cardoso:
Em Meryton as moças se separaram. As duas mais jovens se dirigiram para a residência da esposa de um dos oficiais e Elizabeth continuou sozinha, atravessando campo após campo, pulando cercas e saltando por sobre poças d'água, com impaciência, e afinal encontrou-se a pouca distância da casa, com os tornozelos doídos, as meias sujas e o rosto corado pelo exercício.
Foi introduzida numa sala de almoço onde todos estavam reunidos, com exceção de Jane. O seu aparecimento causou bastante surpresa. Mrs. Hurst e Miss Bingley acharam incrível que ela tivesse caminhado três milhas tão cedo, com tanta umidade e sozinha; e Elizabeth ficou convencida de que elas a desprezaram por isto. Receberam-na, entretanto, muito amavelmente; quanto ao irmão dessas senhoras, havia nas suas maneiras mais do que simples polidez; havia bom humor e bondade. Mr. Darcy falou pouco e Mr. Hurst não disse nada. O primeiro estava em dúvida sobre se devia admirar as belas cores que o exercício emprestara ao rosto da moça ou refletir que o motivo talvez não justificasse a sua vinda sozinha, de tão longe. O segundo pensava apenas no seu almoço.

- "tradução" de enrico corvisieri:
Em Meryton, as moças se separaram. As duas mais jovens se dirigiram para a residência da esposa de um dos oficiais e Elizabeth continuou sozinha, atravessando campo após campo, pulando cercas e saltando por sobre poças d'água, com impaciência, e finalmente encontrou-se a pouca distância da casa, com os tornozelos doídos, as meias sujas e o rosto corado pelo exercício.
Foi introduzida em uma sala de almoço onde todos estavam reunidos, com exceção de Jane. Seu aparecimento causou grande surpresa. A sra. Hurst e a srta. Bingley acharam incrível que ela tivesse caminhado cinco quilômetros tão cedo, com tanta umidade e sozinha; e Elizabeth ficou convencida de que elas a desprezaram por isso. Contudo receberam-na [] muito amavelmente; quanto ao irmão dessas senhoras, havia em suas maneiras mais do que simples polidez, havia bom humor e bondade. O sr. Darcy falou pouco e o sr. Hurst não disse nada. O primeiro estava em dúvida sobre se devia admirar as belas cores que o exercício emprestara ao rosto da moça ou refletir que o motivo talvez não justificasse a sua vinda, sozinha, de tão longe. O segundo pensava apenas em seu almoço.

2. capítulo XIX, parte inicial do comicíssimo pedido de casamento de mr. collins.

- original:
My reasons for marrying are, first, that I think it a right thing for every clergyman in easy circumstances (like myself) to set the example of matrimony in his parish; secondly, that I am convinced that it will add very greatly to my happiness; and thirdly—which perhaps I ought to have mentioned earlier, that it is the particular advice and recommendation of the very noble lady whom I have the honour of calling patroness. Twice has she condescended to give me her opinion (unasked too!) on this subject; and it was but the very Saturday night before I left Hunsford—between our pools at quadrille, while Mrs. Jenkinson was arranging Miss de Bourgh's footstool, that she said, 'Mr. Collins, you must marry. A clergyman like you must marry. Choose properly, choose a gentlewoman for my sake; and for your own, let her be an active, useful sort of person, not brought up high, but able to make a small income go a good way. This is my advice. Find such a woman as soon as you can, bring her to Hunsford, and I will visit her.' Allow me, by the way, to observe, my fair cousin, that I do not reckon the notice and kindness of Lady Catherine de Bourgh as among the least of the advantages in my power to offer. You will find her manners beyond anything I can describe; and your wit and vivacity, I think, must be acceptable to her, especially when tempered with the silence and respect which her rank will inevitably excite.

- tradução de lúcio cardoso:
- Minhas razões para casar são: primeiro, penso que é uma obrigação de todos os pastores que se encontrem em boa situação, como eu, dar bom exemplo à sua paróquia. Em segundo lugar estou convencido de que isto contribuirá grandemente para a minha felicidade. E o terceiro motivo, que eu devia talvez ter mencionado primeiro, é o conselho e a expressa recomendação da muito nobre senhora que eu tenho a honra de chamar a minha protetora. Duas vezes ela condescendeu em dar-me a sua opinião sobre este assunto, sem que eu lhe pedisse. E na noite que precedeu a minha partida de Hunsford, durante um jogo de cartas e enquanto Miss Jenkinson punha um tamborete sob os pés de Miss de Bourgh, Lady Catherine disse: "Mr. Collins, o senhor precisa se casar. Um pastor como o senhor tem a obrigação de se casar. Escolha uma mulher educada, é o que lhe peço; e, para seu interesse, escolha uma pessoa ativa, útil, que não tenha sido mimada pelos pais, mas que saiba administrar uma casa com economia. Encontre uma pessoa nessas condições o mais depressa possível, traga-a para Hunsford e eu irei visitá-la". Permita-me a propósito observar, minha encatandora prima, que não considero a atenção e a amabilidade de Lady Catherine uma das menores vantagens que estão em meu poder oferecer-lhe; [aqui faltou uma frase do original] penso que o seu espírito e a sua vivacidade a tornarão aceitável aos olhos de Lady Catherine, especialmente se combinar estas qualidades com a veneração e o respeito que a posição de Lady Catherine hão [sic] de provocar inevitavelmente em seu espírito.

- "tradução" de enrico corvisieri:
- Minhas razões para casar são: primeiro, penso que é uma obrigação de todos os pastores que se encontrem em boa situação, como eu, dar bom exemplo a sua paróquia. Em segundo lugar, estou convencido de que isto contribuirá grandemente para a minha felicidade. E o terceiro motivo, que eu deveria talvez ter mencionado primeiro, é o conselho e a expressa recomendação da muito nobre senhora que eu tenho a honra de chamar de minha protetora. Duas vezes ela condescendeu em dar-me a sua opinião sobre este assunto, sem que eu lhe pedisse. E na noite que precedeu a minha partida de Hunsford, durante um jogo de cartas e enquanto a sra. Jenkinson punha um tamborete sob os pés da srta. De Bourgh, lady Catherine disse: "Senhor Collins, o senhor precisa se casar. Um pastor como o senhor tem a obrigação de se casar. Escolha uma mulher educada, é o que lhe peço; e, para seu interesse, escolha uma pessoa ativa, útil, que não tenha sido mimada pelos pais, mas que saiba administrar uma casa com economia. Encontre uma pessoa nessas condições o mais depressa possível, traga-a para Hunsford e eu irei visitá-la". Permita-me a propósito observar, minha encantadora prima, que não considero a atenção e a amabilidade de lady Catherine uma das menores vantagens que estão em meu poder oferecer-lhe; [mesmo salto] penso que o seu espírito e a sua vivacidade a tornarão aceitável aos olhos de lady Catherine, especialmente se combinar essas qualidades com a veneração e o respeito que a posição de lady Catherine hão [tb sic] de provocar inevitavelmente em seu espírito.

3. seguem alguns trechos da longuíssima carta de mr. darcy a elizabeth, no capítulo XXXV, com uma inversão de frase e alguns cosméticos. a bobagem em lançar mão de tais cosméticos é que eles costumam passar longe das peculiaridades do texto submetido a plágio, e apenas ressaltam ainda mais o fato.

- original:
"Be not alarmed, madam, on receiving this letter, by the apprehension of its containing any repetition of those sentiments or renewal of those offers which were last night so disgusting to you. I write without any intention of paining you, or humbling myself, by dwelling on wishes which, for the happiness of both, cannot be too soon forgotten; and the effort which the formation and the perusal of this letter must occasion, should have been spared, had not my character required it to be written and read. You must, therefore, pardon the freedom with which I demand your attention; your feelings, I know, will bestow it unwillingly, but I demand it of your justice.
"Two offenses of a very different nature, and by no means of equal magnitude, you last night laid to my charge. The first mentioned was, that, regardless of the sentiments of either, I had detached Mr. Bingley from your sister, and the other, that I had, in defiance of various claims, in defiance of honour and humanity, ruined the immediate prosperity and blasted the prospects of Mr. Wickham. Wilfully and wantonly to have thrown off the companion of my youth, the acknowledged favourite of my father, a young man who had scarcely any other dependence than on our patronage, and who had been brought up to expect its exertion, would be a depravity, to which the separation of two young persons, whose affection could be the growth of only a few weeks, could bear no comparison. But from the severity of that blame which was last night so liberally bestowed, respecting each circumstance, I shall hope to be in the future secured, when the following account of my actions and their motives has been read. If, in the explanation of them, which is due to myself, I am under the necessity of relating feelings which may be offensive to yours, I can only say that I am sorry. The necessity must be obeyed, and further apology would be absurd."

- tradução de lúcio cardoso:
"Não fique alarmada, Miss Eliza, ao receber esta carta, pela apreensão de que ela contenha a repetição daqueles sentimentos ou a renovação daquelas propostas que ontem à noite tanto lhe repugnaram. Escrevo-lhe sem nenhuma intenção de aborrecê-la ou de me humilhar insistindo em exprimir esperanças que para a felicidade de ambos não podem ser esquecidas cedo demais. E o esforço da minha parte ao escrever esta carta e o seu em percorrê-la teria sido poupado se o meu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso pois que me perdoe a liberdade com que exijo a sua atenção; sei que os seus sentimentos a concederão com relutância. Mas eu o exijo da sua justiça. Duas foram as acusações que me fez ontem à noite, de natureza muito diferente e de importância igualmente desigual. A primeira foi: que eu tinha separado Mr. Bingley da sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra de ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras de Mr. Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade. Ter repudiado voluntária e gratuitamente o companheiro da minha infância, o favorito declarado de meu pai, um rapaz que dependia exclusivamente da nossa proteção e a quem esta fora prometida seria uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente no espaço das poucas semanas que estiveram juntas. Espero estar a salvo, para o futuro, da severidade das censuras que me foram feitas com tanta veemência a respeito destes dois casos, depois de ter lido a seguinte explicação dos meus atos e dos seus motivos. Se durante esta explanação eu me encontrar na necessidade de exprimir sentimentos que possam ser ofensivos aos seus, posso dizer apenas que isto me entristece sinceramente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E quaisquer outras desculpas serão supérfluas."

- "tradução" de enrico corvisieri:
"Não se alarmesenhorita Eliza, ao receber esta carta, por apreensão de que ela contenha a reiteração dos sentimentos ou a renovação das propostas que ontem à noite lhe causaram tanto repúdio. Escrevo-lhe sem nenhuma intenção de aborrecê-la ou de me humilhar insistindo em exprimir esperanças que, para a felicidade de ambos, não podem ser esquecidas cedo demais. E o esforço da minha parte ao escrever esta carta e o seu de lê-la teria sido poupado se meu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso, pois, que me perdoe a liberdade com que exijo sua atenção; sei que os seus sentimentos hão de concedê-la com relutância. Mas isso eu exijo de seu senso de justiça. Duas foram as acusações que me fez ontem à noite, de natureza muito diferente e de importância igualmente díspar. A primeira foi: que eu havia separado o senhor Bingley de sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra de eu ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras do senhor Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade. Ter repudiado voluntária e gratuitamente o companheiro de minha infância, o favorito declarado de meu pai, [] rapaz que dependia exclusivamente da nossa proteção e a quem esta fora prometida, seria uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente no intervalo das poucas semanas em que estiveram juntas. Depois que a senhorita tiver lido a seguinte explicação dos meus atos e [] motivações, espero estar a salvo, no futuro, do rigor das censuras que me foram dirigidas com tamanha eloquência a respeito desses dois casos. Se ao longo desta explanação eu me vir na necessidade de expressar sentimentos que possam ser ofensivos aos seus, só me resta afirmar que isso me entristece sinceramente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E quaisquer outras desculpas serão supérfluas."

4. um exemplo final, do cap. LVII, mais um trecho do divertido mr. collins:

- original:
Mr. Collins moreover adds, 'I am truly rejoiced that my cousin Lydia's sad business has been so well hushed up, and am only concerned that their living together before the marriage took place should be so generally known. I must not, however, neglect the duties of my station, or refrain from declaring my amazement at hearing that you received the young couple into your house as soon as they were married. It was an encouragement of vice; and had I been the rector of Longbourn, I should very strenuously have opposed it. You ought certainly to forgive them, as a Christian, but never to admit them in your sight, or allow their names to be mentioned in your hearing.' That is his notion of Christian forgiveness! The rest of his letter is only about his dear Charlotte's situation, and his expectation of a young olive-branch. But, Lizzy, you look as if you did not enjoy it. You are not going to be missish, I hope, and pretend to be affronted at an idle report. For what do we live, but to make sport for our neighbours, and laugh at them in our turn?"

- tradução de lúcio cardoso:
"Causa-me muita alegria saber que o triste caso da minha prima Lydia conseguiu ser abafado tão depressa! E o que me preocupa apenas é que outros tenham ficado sabendo que eles vivessem juntos antes de se casarem. Não posso, entretanto, esquecer os deveres do meu estado, nem deixar de manifestar o espanto que senti, ao ouvir dizer que o senhor recebeu o jovem casal na sua casa logo após o matrimônio. Considero isto um encorajamento ao vício, e se fosse o reitor de Longbourn ter-me-ia oposto a isto terminantemente. É certo que como cristãos [sic] os devia ter perdoado, porém jamais devia admiti-los em sua presença nem permitir que os seus nomes lhe fossem mencionados."
- Esta é a noção que ele tem do perdão cristão das ofensas. O resto da carta trata apenas da situação da sua querida Charlotte e das esperanças que ele tem de um herdeiro. Mas, Lizzy, você parece que não está gostando. Espero que não leve a sério e nem vá ficar ofendida por causa deste boato tolo. Não vejo por que não possamos rir, do nosso lado, com o ridículo dos nossos vizinhos...

- "tradução" de enrico corvisieri:
"Causa-me muita alegria saber que o triste caso da minha prima Lydia conseguiu ser abafado tão depressa! E o que me preocupa apenas é que outros tenham ficado sabendo que eles vivessem juntos antes de se casarem. Não posso, entretanto, esquecer os deveres do meu estado, nem deixar de manifestar o espanto que senti, ao ouvir dizer que o senhor recebeu o jovem casal na sua casa logo após o matrimônio. Considero isto um encorajamento ao vício, e se fosse o reitor de Longbourn ter-me-ia oposto a isto terminantemente. É certo que como cristãos [sic] os devia ter perdoado, porém jamais devia admiti-los em sua presença nem permitir que os seus nomes lhe fossem mencionados."
- Esta é a noção que ele tem do perdão cristão das ofensas. O resto da carta trata apenas da situação da sua querida Charlotte e das esperanças que ele tem de um herdeiro. Mas, Lizzy, você parece que não está gostando. Espero que não leve a sério e nem vá ficar ofendida por causa deste boato tolo. Não vejo por que não possamos rir, do nosso lado, com o ridículo dos nossos vizinhos...

espero sinceramente que o grupo record não se limite a "aguardar" a "iniciativa dos interessados diretos, os tradutores dessas obras, que são os titulares dos eventuais direitos, na forma da lei", conforme declarou seu coordenador editorial, e mostre o devido apreço por seus leitores.

aliás, se o requisito do grupo record para retirar esse plágio de catálogo e circulação é, não o respeito pelo leitor, mas o contato com o tradutor e/ou sucessor, quem sabe talvez o próprio grupo record não se dispõe a encaminhar a questão junto ao interessado direto, o sobrinho de lúcio cardoso e, até onde sei, atual detentor de seus direitos?

imagino que não seja muito difícil - pois afinal a civilização brasileira, que decerto obteve a devida autorização para publicar a obra orgulho e preconceito traduzida por seu falecido tio, faz parte do mesmo grupo editorial a que pertence a best seller.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagens de capa: penguin; best seller; civilização brasileira.