28 de fev de 2010

jorio dauster - eu não daria a menor bola...


TRADUZINDO

Acho uma bobagem a obediência irrestrita e mecânica ao texto original, mas isso não significa que se possa tomar liberdades gratuitas com a obra a ser traduzida.

Quando se trata de um autor tão complexo quanto Nabokov, verdadeiro ourives literário, acredito que se exige do tradutor uma relação de verdadeira devoção, pois, se ele estiver buscando apenas uma fonte de renda, faria melhor indo vender sanduíches naturais na praia.

Se me sobrarem tempo e neurônios, pretendo traduzir toda a obra de ficção do Nabokov.

A norma tem de ser respeito com inteligência, sem perder de vista que a tradução não é apenas uma ponte entre idiomas, mas entre culturas. Daí que eu não daria a menor bola se Nabokov não gostasse de minhas traduções.

Para fazer justiça a uma boa obra de ficção, o tradutor tem de conhecer muito bem a língua de origem e ainda melhor a de chegada.

Levo tempo convivendo com a obra, recebendo no fundo da noite, de algum canto do cérebro, a tradução de uma palavra que ficara mal posta na primeira passagem pelo texto.

Para um tradutor - ou pelo menos para este tradutor - uma nota de pé de página é o pior que pode acontecer, pois comprova que ele foi incapaz de encontrar uma solução vernacular satisfatória.

Apenas pratico o ofício de tradutor, não tenho a menor capacitação para fazer crítica literária. E eis um fato que certamente me condenará ao inferno onde ardem os párias intelectuais: jamais consegui passar do primeiro capítulo de Ulisses!

O trabalho de tradução só faz bem, só estimula a produção de endorfinas, quando a gente o faz por amor, sem pressa, revendo e re-revendo.

Com a alegria de viver, a confiança no seu taco e uma boa dose de espírito lúdico, coisas que por sorte nunca me faltaram, não há nada complicado demais na face do planeta.

JORIO DAUSTER

26 de fev de 2010

boa notícia

agradeço uma vez mais todas as manifestações de apoio no caso da editora landmark.

o nãogostodeplágio retoma agora suas atividades normais, com uma ótima notícia: sérgio medeiros, poeta, tradutor, professor de teoria literária na ufsc, assume na segunda-feira a diretoria da Editora da UFSC.

justiça e internet IV

outros posts e notícias sobre o processo movido pela editora landmark e o sr. fábio cyrino contra as denúncias de plágio em tradução:

Coruja em teto de zinco quente, Direito ao esquecimento

Legal, Direito de esquecimento

Urupês, Eu também não gosto de plágio

Relances, Em defesa de Denise

Vicodin verde, Dos plágios das traduções

Blog do Torero, Tsc, tsc...

Letras USP, Editora processa blogueira

Traduções tenebrosas, Editora processa blogueira

BOL Notícias, Acusada de plágio, editora processa tradutora e tenta tirar blog do ar

Link, Blog do Estadão, O outro lado


posts relacionados:

o histórico:

atualização 1:

Roney's posterous, Editoras suspeitas de plágio: Landmark, Martin Claret e outras

Blog do Galeno, Plágios, de novo na Justiça

atualização 2:

Café história, Eu também não gosto de plágio!

Colecionando frases, Eu tb não gosto de plágio

Flanela paulistana, Apoio a Denise e Raquel

atualização 3:

Blogs e..., Acusada de plágio, editora processa tradutora e tenta tirar blog do ar

Ladybug Brasil, Achados na Web 79

25 de fev de 2010

justiça e internet III

reproduzo abaixo dois trechos da posição da crisálida livraria e editora, membro fundador da libre, em plágio e intimidação:

O plágio é uma prática deplorável e sua denúncia e eliminação deveria ter o suporte unânime de livreiros, editores e de todo cidadão consciente. Infelizmente não é o que acontece: a grande maioria das livrarias continua vendendo livros comprovadamente plagiados como se fosse a coisa mais normal do mundo. E as editoras que cometem os plágios continuam vendendo seus livros como edições dignas do nome.

Bom seria se os livreiros agissem em defesa do leitor e retirassem de comércio essas edições espúrias. Infelizmente a maior parte prefere fingir que não sabe ou usar o recurso legalista de "só tiraremos de comércio se formos citados judicialmente".

Crisálida, Plágio e intimidação


atualização 1:
Poemargens, Poemargens manifesta todo o seu apoio a Denise Bottmann


atualização 2:
Drops da Fal, Porque me ufano de meu país

Fórum Clube Cético, Editora Landmark processa blogueira Denise Bottmann, do Não Gosto de Plágio

Fórum Realidade, Editora Landmark processa blogueira Denise Bottmann, do Não Gosto de Plágio

Tradutores, traidores & simpatizantes, Quem denuncia crime de plágio é criminoso? Em que mundo estamos?

Trezentos, Ação popular: Blog Bullying e a Liberdade de Expressão

Batata transgênica, Momento TPM

Lembra?, Inversão de valores


atualização 3:
À manifestação da Editora L&PM e da Editora Crisálida junta-se agora a da Cosac e Naify:

Blog da CosacNaify, Reinações de Denise Bottmann


atualização 4:

Milton Ribeiro, O caso do blog “Não gosto de plágio”

O nerd escritor, Quem gosta de plágio?

Desconcertos,
Denise Bottman, blogueira e tradutora, processada por denunciar plágios nas traduções da editora Landmark

Na prática a teoria é outra, Editora Landmark deve ir à falência

Folha online, Acusada de plágio, editora processa tradutora e tenta tirar blog do ar

24 de fev de 2010

justiça e internet II

agradeço a todos os que têm comentado e divulgado os fatos relativos ao processo movido pela editora landmark e pelo sr. fábio cyrino contra o nãogostodeplágio e minha pessoa. veja aqui.

raquel sallaberry, do blog jane austen em português, também incluída na ação, publicou um esclarecimento.

Livros e afins, Editora Landmark processa blogueira Denise Bottmann

Todo Prosa, Editora processa blogueira: pode plagiar esta notícia

Flanela paulistana, Editora Sambarilove & Cia.

Bibliophile, Editora Landmark processa a tradutora Denise Bottmann, do Não Gosto de Plágio

Prosa online, Editora acusada de plágio processa tradutora

O livreiro, Quem gosta de plágio?

Filisteu, Quando crescer quero ser igual à Denise Bottmann

Por quem os sinos dobram, Clipping: Editora processa blogueira

L&PM, Autora do blog Não Gosto de Plágio é processada

Tradutor Profissional, Edição extra

De gustibus non est disputandum, Eu também não gosto de plágio…e muito menos de covardia

Forense contemporâneo, Anotação #12-2010

Enredos e tramas, Derek Walcott: sobre traduções e plágio

Hellfire Club, Efeito Streisand

Substantivo plural, Editora processa blogueira

Vísceras literárias, Blogueira é processada pela editora Landmark

Mundo livro, Tradução e reação (9)

Buzzvolume, Editora processa blogueira

Ubervu, Editora processa blogueira

e todos os links, blogrolls, tweets e retweets que têm informado sobre os fatos.


atualização 1:

Tradutor profissional, Não deixe calarem a Denise e a Raquel!

Tecla SAP, Eu também não gosto de plágio!

Meia palavra, Blogueira é processada por editora

Pop News, Blogueira denuncia plágio e é processada por editora

Vermelho carne, Quem gosta de plágio?

Observatório da Imprensa, Como lidar com o plágio

grupo blogagem coletiva anuncia apoio.


atualização 2:

Animot, Blogueira prova plágio, editora pede retirada do blog do ar, "direito de esquecimento"

Meia palavra, As malditas traduções...

Tradutores e Intérpretes BR, Barulho sobre Bottman x Landmark


atualização 3:

Comunica tudo!, Podem plagiar esta notícia

Bibliocracias, Editora processa blogueira Denise Bottmann

Na linha, Livros: uma questão de Justiça


atualização 4:

QueroTerUmBlog.com!, A internet não esquece

Ler, Lost in translation

Gangrena diário, o lindo cheiro da liberdade rodeada de zumbis

A retórica do dragão, Medo de escrever, medo de fazer a coisa certa...

r.izze.nhas, Desespero e exagero: Landmark e Não Gosto de Plágio

Portal Literal, Editora Landmark processa a tradutora Denise Bottmann, do Não Gosto de Plágio

Link, Blog do Estadão, Processada por denunciar

Topsy

Ephemera, Plagiando traduções

Máquina de letras, Bottmann x Landmark

Cidadão quem?, Blogueira Denise Bottmann é processada por não gostar de plágio

Casa da Ceiwyn, Editora Landmark processa a tradutora Denise Bottmann, do Não Gosto de Plágio

23 de fev de 2010

justiça e internet

sexta-feira recebi uma carta de citação da quarta vara cível de são paulo.

numa ação movida pela editora landmark e pelo sr. fábio cyrino, estou sendo processada por pretensas calúnias contra os reclamantes, por ter publicado no nãogostodeplágio provas mostrando a prática de plágio nas traduções de persuasão, de jane austen, e o morro dos ventos uivantes, de emily brontë, ambas publicadas pela referida editora em 2007.

além de vultosa indenização por pretensos danos morais e materiais, os reclamantes solicitaram:
- "publicidade restrita", isto é, que o processo corresse em sigilo de justiça,
- a remoção do blog nãogostodeplágio da internet, invocando o "direito de esquecimento",
- "antecipação dos efeitos da tutela de mérito", isto é, que a justiça determinasse a remoção imediata do blog antes da avaliação do mérito da ação impetrada.

o juiz, em seu despacho, não determinou segredo de justiça e negou a antecipação de tutela, por considerar que se trata de uma questão complexa, envolvendo discussão a respeito da liberdade de expressão e crítica na internet, sendo necessária uma análise mais apurada dos fatos para verificar a verossimilhança das alegações.

entre as variadas reações extrajudiciais e judiciais que tenho enfrentado a partir das denúncias feitas aqui no nãogostodeplágio, esta é a primeira que solicita a remoção do blog.

isso, a meu ver, extrapola o campo em que devo me defender contra acusações de pretensa denunciação caluniosa e adquire envergadura mais ampla. estamos aqui numa seara muito mais delicada e fundamental, a saber, a simples e básica necessidade de constante defesa do estado de direito, contra tentativas de amordaçamento e atropelo das garantias democráticas da sociedade.

atualizando em 07/03/10
leia e assine o manifesto em apoio à luta contra o plágio:

22 de fev de 2010

boa notícia

a partir do dia 26 inicia-se a distribuição em bancas de mais uma coleção de clássicos da literatura.

agora é pela editora abril, 30 títulos em 35 volumes. basicamente são os mesmos títulos publicados nos anos 70 e 80 pela extinta abril cultural, e em 2002-2003 pela nova cultural/ suzano.

ainda traumatizada com os problemas de plágio de tradução que andaram acontecendo em 20 títulos da nova cultural/ suzano, suspirei aliviada ao ver a relação dessa nova coleção da abril.

é a seguinte (via doidivana):

1. Crime e castigo – vol. I – Fiódor Dostoiévski (trad. Rosário Fusco)
2. Crime e castigo – vol. II – Fiódor Dostoiévski (trad. Rosário Fusco)
3. Madame Bovary – Gustave Flaubert (trad. Fúlvia M. L. Moretto)
4. O retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde (trad. José Eduardo Moretzsohn)
5. Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
6. A divina comédia – Inferno – Dante Alighieri (trad. Jorge Wanderley)
7. Os sofrimentos do jovem Werther – J. W. Goethe (trad. Leonardo Lack)
8. O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha – vol. I – Miguel de Cervantes (trad. José Luis Sánchez e Carlos Nougué)
9. O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha – vol. II – Miguel de Cervantes (trad. José Luis Sánchez e Carlos Nougué)
10. Hamlet, Rei Lear, Macbeth – William Shakespeare (trad. Barbara Heliodora)
11. Ilusões perdidas – vol. I – Honoré de Balzac (trad. Leila de Aguiar Costa)
12. Ilusões perdidas – vol. II – Honoré de Balzac (trad. Leila de Aguiar Costa)
13. Orgulho e preconceito – Jane Austen (trad. Lúcio Cardoso)
14. O primo Basílio – Eça de Queirós
15. Moby Dick – vol. I – Herman Melville (trad. Berenice Xavier)
16. Moby Dick – vol. II – Herman Melville (trad. Berenice Xavier)
17. O falecido Mattia Pascal – Luigi Pirandello (trad. Rômulo Antônio Giovelli e Francisco Degani)
18. O homem que queria ser rei e outras histórias – Rudyard Kipling (trad. Cristina Carvalho Boselli)
19. Os lusíadas – Luís de Camões
20. A metamorfose – Franz Kafka (trad. Lourival Holt Albuquerque)
21. Outra volta do parafuso – Henry James (trad. Brenno Silveira)
22. O assassinato e outras histórias – Anton Tchekhov (trad. Rubens Figueiredo)
23. O morro dos ventos uivantes – Emily Brönte (trad. Raquel de Queiroz)
24. Mensagem – Fernando Pessoa
25. Coração das trevas – Joseph Conrad (trad. Celso M. Paciornik)
26. O vermelho e o negro – Stendhal (trad. Raquel Prado)
27. Cândido – Voltaire (trad. Marcos Bagno)
28. Os Malavoglia – Giovanni Verga (trad. Aurora Bernardini e Homero de Andrade)
29. Os sertões – vol. I – Euclides da Cunha
30. Os sertões – vol. II – Euclides da Cunha
31. Contos de amor, de loucura e de morte – Horacio Quiroga (trad. Eric Nepomuceno)
32. Infância –Maksim Górki (trad. Rubens Figueiredo)
33. Grandes esperanças – Charles Dickens (trad. José Eduardo Moretzsohn)
34. No caminho de Swann – Marcel Proust (trad. Fernando Py)
35. Odisseia – Homero (trad. Jaime Bruna)

naturalmente, como ocorre com qualquer coleção, sempre se pode objetar aqui e ali: minha principal reclamação é crime e castigo em retradução do francês, por rosário fusco (que até pode ser ótimo, mas afinal já temos maturidade editorial suficiente no país para dispor de traduções diretas do russo). afora isso, muita gente de primeiríssima linha. achei uma iniciativa supimpa!
 
imagem: luradoslivros

leitor quer nome do tradutor na capa


valeu a domingueira da batata transgênica: "Eu sou a favor de colocarem o nome do tradutor na capa dos livros. E nas informações nos sites também", entre outras boas razões porque "também nos ajudaria a não comprar gato por lebre".

e indico de novo o artigo "até os livros me traíram".

imagem: calidri 

21 de fev de 2010

jorio dauster - minha alma, minha lama

.

        Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
       Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
       Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado.
       Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins - os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam esse emaranhado de espinhos.

OS PORQUÊS DE LOLITA

Não há lista minimamente séria dos melhores romances do século XX em que Lolita não apareça nas cabeceiras, muitas vezes na primeira posição. Difícil imaginar carreira tão brilhante para um livro que, recusado por quatro editoras norte-americanas, teve de ir ao prelo numa pequena casa parisiense que publicava até mesmo obras pornográficas. Mas o fato é que, nesses quase cinquenta anos que transcorreram desde seu nascimento problemático, a obra-prima de Vladimir Nabokov (1899-1977) gerou uma verdadeira indústria, inspirando milhares de artigos, dezenas de teses de doutorado, um punhado de livros de análise literária e dois filmes. Mais ainda, preenchendo estranha lacuna vocabular, legou a várias línguas duas palavras que servem para designar aquelas adolescentes iluminadas por uma sensualidade diabólica: “ninfeta” e o próprio nome da personagem principal.

Como explicar esse fenômeno? Como entender o espaço que o livro passou a ocupar no imaginário mundial?

O primeiro motivo, cumpre admitir, tem a ver com o tema, a paixão desenfreada de um quarentão por uma menina de doze anos. Assunto sempre delicadíssimo, mas simplesmente chocante na longínqua década de 1950, ainda fortemente marcada pelo que hoje chamaríamos de caretice. Outros elementos da história só serviam para fortalecer as reações de pudor das alminhas mais sensíveis: o pedófilo escrevia as recordações na prisão, onde cumpria pena por haver matado outro amante de meia-idade de sua jovem companheira; ele era um professor europeu, ela, uma jovem americana que, na realidade, já perdera a virgindade e toma a iniciativa na primeira relação carnal entre eles; a mãe da menina, uma viúva com quem o professor se casa a fim de ter acesso a sua presa, morre num acidente ao saber das reais intenções do marido... Dose pesada, até mesmo segundo os padrões liberais dos dias de hoje.

Daí que muitos - mas certamente apenas os que nunca se deram ao trabalho de ler o livro - imaginaram tratar-se de uma obra pornográfica; ou, ao ver que ela não tinha propósitos obscenos, num giro de cento e oitenta graus buscaram imputar ao autor propósitos moralistas e até mesmo a ideia de que, como escritor russo chegado poucos anos antes aos Estados Unidos para fugir da guerra na Europa, Nabokov queria mostrar o Velho Mundo sendo corrompido pelo Novo. Quanta bobagem, quando dirigida a um autor que sempre rechaçou qualquer tentativa de misturar a produção literária, vista como arte, com “mensagens” de qualquer tipo.

Além de surgir incidentalmente num ou noutro conto da fase em que escrevia em russo, a ideia central de Lolita já havia recebido um tratamento mais longo e menos bem sucedido num romance curto intitulado O mago. Sem dúvida, o tema atraía Nabokov por se tratar de uma situação-limite, pouco explorada na literatura séria e, por isso mesmo, com um grande potencial em termos da criação de novos tipos e interações humanas. Aliás, não é por outra razão que, entre suas grandes obras, consta a história de um pederasta louco que imaginava ser um rei exilado (Fogo Pálido) e um casal de irmãos que mantém uma relação incestuosa durante toda a vida (Ada). Em todos esses casos, a circunstância de lidar com figuras excêntricas e eventos insólitos não é usada para chocar o leitor, mas, pelo contrário, o convida a abrir seu compasso mental, a considerar sem preconceitos fenômenos que em princípio poderiam repugná-lo e até assustá-lo. Para que isso ocorra, é de todo necessário que os personagens, por sua densidade existencial, sejam capazes de merecer a atenção e, idealmente, a empatia de quem vai conhecê-los pelas mãos do autor.

É assim que Humbert Humbert, embora reconheça a crueldade e a vileza de suas ações como pedófilo, aparece diante de nossos olhos como um ser complexo, com uma trajetória pessoal em que está incrustada, lá atrás em sua juventude na França, uma precursora da menina da Nova Inglaterra. E também como um intelectual que, sem buscar justificar seu comportamento, não deixa de denunciar uma certa hipocrisia com que são tratadas as relações entre adultos e adolescentes no tempo e no espaço – lembrando, por exemplo, que a Beatriz de Dante tinha nove anos quando o poeta se apaixonou por ela, e que Laura conquistou Petrarca antes de completar seus treze aninhos. Entretanto, é esse homem torturado que, ao deparar-se após longa procura com uma Lolita grávida e precocemente envelhecida, supera enfim sua enfermidade e se oferece para casar com ela, tentando em vão lhe devolver a vida que ajudara a destruir.

A segunda razão pela qual a obra teve tamanho impacto é bem mais simples de explicar, e bem mais importante: o livro é muitíssimo bom!

Como em todos os escritos de Nabokov, cada palavra é escolhida sem afetação, mas com o esmero de um ourives selecionando as pedras preciosas que farão parte de uma coroa real. As descrições, ricas em símiles e metáforas, muitas vezes nos fazem ver as coisas mais banais de uma forma surpreendentemente nova. Malgrado as mudanças de ritmo da narrativa, a trama prende a atenção do começo ao fim, tendo um quê deliberado de romance policial. Enfim, nas palavras do próprio Nabokov ao definir a razão de ser de uma obra de ficção, o que Lolita nos proporciona é a “volúpia estética, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma”.

Por isso, se alguém conseguir ler o livro sem dar ao menos uma boa risada ou sem verter ao menos uma lágrima, é ruim da cabeça... ou deve voltar à primeira página e começar tudo de novo.

Jorio Dauster

imagem: lolita

20 de fev de 2010

josé olympio

a josé olympio era uma editora e tanto. já comentei uma vez como foi cordial a acolhida que o próprio josé olympio deu àquela guria que, no alto de seus dez ou onze anos de idade, tinha ido à rua dos gusmões pedir colaboração para uma feirinha do livro que estavam organizando em sua escola, isso lá nos idos dos anos 60.

agora, folheando o moby dick da coleção fogos cruzados, vejo na contrapágina do frontispício a lista dos volumes de uma outra coleção, com os nomes de seus respectivos tradutores. vejo também outras traduções feitas por berenice xavier, a tradutora do livro em questão.


fico feliz em descobrir que berenice traduziu kropotkin junto com seu irmão lívio xavier, e vou correndo complementar minha listinha de obras traduzidas por ele.

e no final vejo a relação completa das obras que compõem a coleção até aquela data, todas cuidadosamente creditadas. tinha noção das coisas, o zé olympio...

19 de fev de 2010

haja leviandade

o sr. paulo matos peixoto, ex-paumape e ex-germape, afirma que vendeu a germape para a gráfica prol em 2005. nega categoricamente que tenha vendido, cedido ou transferido à prol os direitos sobre as traduções do catálogo da antiga germape.

a filha do proprietário da gráfica prol, a sra. bruna martins de carvalho, foi a editora-chefe da cedic responsável pela biblioteca de clássicos da literatura universal da referida editora. segundo a sra. gislene cavalheiro, sócia-proprietária da editora cedic, tratar-se-ia de uma parceria entre a prol e a cedic para publicar títulos da antiga germape (a qual, repito, não teria cedido os direitos sobre eles).

que imbróglio!

voltando ao caso dos moby dick da germape e da cedic - em nome de uma espectral "leonor de medeiros", na verdade cópia integral da edição da martin claret (!), que por sua vez já era um plágio atamancado da tradução de péricles eugênio da silva ramos, constato mais uma bizarrice, esta talvez tributável à tal gráfica prol, fazendo a triangulação:

contracapas de moby dick:


note-se que o número de isbn (fbn) e o código de barras são idênticos. acontece que o código identificador da germape na fbn (fundação biblioteca nacional) e, por extensão, em qualquer isbn seu, é 89155, ao passo que o da cedic é 7530. aqui, nestes dois casos, apresenta-se apenas o cadastramento da obra em nome da germape, mesmo na edição atribuída à cedic.

capas e nomes da editoras nas lombadas:













fichas catalográficas, à esquerda da germape, à direita da cedic:


desculpem a péssima fotógrafa que sou, mas o ponto é o seguinte: a edição da germape traz em sua imprenta a ficha catalográfica e até o próprio logozinho da cedic.

coisa de louco, como dizem: a cedic com isbn da germape, a germape com imprenta da cedic, a germape dizendo que não tem nada a ver com a cedic, e vice-versa. como fica, então? a germape que vendeu (o quê? o nome, a razão social, mas não o catálogo?) à gráfica prol, a gráfica prol editando os livros da cedic, a cedic dizendo que era a filha do dono da prol que cuidava de sua coleção de literatura, e daí por diante.

desculpem-me, dona germape, dona prol e dona cedic, mas o que nós leitores teríamos a ver com isso? pois o que temos em mãos é uma edição que deixa a desejar, plágio de outro plágio já muito atamancado, em nome de duas editoras diferentes; misturando números de identificação junto à fbn, que é a principal instância pública responsável pelo acervo bibliográfico do país; misturando fichas catalográficas, que são os principais mecanismos de registro mundial de qualquer obra - isso é brincadeira, escárnio, desprezo pelo leitor, pela sociedade, pelos órgãos públicos representantes de nossa cidadania, ou o quê?

caso sério


até os livros me traíram, de clício barroso filho

 

18 de fev de 2010

pesos e medidas

notícias que me espantam pela hipocrisia e parcialidade:

"AUTORAL
Desde agosto de 2009, até o final de janeiro deste ano, foram encontrados na internet 15.713 links para download pirata de livros, segundo levantamento da ABDR (Associação Brasileira dos Direitos Reprográficos). Mais de 90% foram retirados do ar após notificação da entidade, que começou a fazer trabalho de busca de links piratas no segundo semestre do ano passado."

"Pirataria Digital
No dia 05.02.2010, o Jornal Folha de São Paulo, caderno Economia (coluna “Mercado Aberto”), noticiou os números da campanha de combate à pirataria digital de livros da ABDR, com o apoio do SNEL, no período de agosto/2009 a janeiro/2010. Mais de 15.700 links para download piratas de livros tirados do ar pela nossa equipe técnica."


a abdr é aquela mesma do dedão sinistro que diz "respeite o direito autoral" e cujo quadro de associados inclui a editora martin claret, a editora rideel, a editora madras, dadas a uns plagiozinhos e contrafações descaradas. qual será o princípio imparcial e objetivo que norteia a abdr? qual é a moral da abdr para se arvorar no que quer que seja?

e como fica o snel, que também abriga entre seus associados as editoras rideel e madras, dando apoio declarado a essa perseguição hipócrita?

a propósito, uma das vítimas desse furor desenfreado foi teotônio simões, do ebooksbrasil.org, sofrendo intimidações arbitrárias da abdr com o apoio do snel, conforme a notícia dada aqui.

12 de fev de 2010

moro num país tropical



o nãogostodeplágio volta dia 18 de fevereiro.

11 de fev de 2010

Em defesa da integridade acadêmica

Grande novidade no ar: foi lançado recentemente um novo site brasileiro para engrossar as fileiras da luta contra o plágio!

O http://www.plagio.net.br/ foi criado por Marcelo Krokoscz, um professor de Metodologia Científica cansado de ver plágio no meio acadêmico. Assim, seu site é principalmente dedicado ao plágio em escolas, faculdades, universidades e a academia em geral, mas é de interesse geral, para qualquer pessoa que escreva (blogs, trabalhos, livros...) e que não goste de plágio, como nós.
Por ser professor, Marcelo é muito didático – ainda bem! Ele explica o que é o plágio, fala de plágio involuntário (você pode estar plagiando sem saber...), discute a questão ética, oferece técnicas para evitar o plágio (essencialmente como fazer citações corretas e boas paráfrases de suas fontes) e propõe até um certificado anti-plágio para o seu texto.
O site tem vários links legais de pesquisas, publicações, informações, eventos sobre o plágio no Brasil e no mundo. E também liks para programas de detecção de plágio - o Farejador, por exemplo, que é um software brasileiro que ajuda a descobrir plágios na net.
Muito esclarecedor. Vale a pena checar!
E o NãoGosto aproveita para agradecer o PláGiO.net por nos ter recomendado.

Joana

mobidique por aí

o moby dick adulterado em nome de "alex marins", pela ed. martin claret, está presente em teses, artigos, acervos de bibliotecas, editais de compras...

10 de fev de 2010

essa praga do plágio


à praga do plágio de traduções no país, que já adquiriu dimensões de calamidade, soma-se a participação do centro difusor de cultura, CEDIC, de belo horizonte.

como eu disse em moby dick, no brasil existem três traduções integrais do opus magnum de herman melville, além de incontáveis adaptações e condensações. há também um plágio grosseiro publicado pela editora martin claret desde 2004.

em 2005, a editora cedic de belo horizonte publicou o que supostamente seria uma tradução inédita, em nome de "leonor de medeiros".













ao consultá-la, porém, constato que é uma cópia literal, de fio a pavio, da edição espúria da martin claret.

a edição claretiana já era uma afronta não só à lei, ao leitor e à sociedade, mas também à gramática, misturando "Vá de Corlears Hook até Coenties Slip" com "Eis vossa insular cidade"; "Que vedes?" com "Mas veja"; "Pare para imaginar: você está no campo" com um dos mais famosos inícios de toda a literatura mundial, "Chamai-me Ismael".

a cedic, por seu lado, não se deu ao trabalho de atamancar ou desatamancar coisa alguma em sua edição. lá está a mesma mixórdia de tratamentos, lá estão as mesmas desfigurações claretianas impingidas à tradução legítima de péricles eugênio da silva ramos.

à esquerda, martin claret; à direita, cedic. 
clique nas imagens para ampliar.












rir para não chorar: em péricles eugênio consta, no período central do primeiro parágrafo: "[...] é preciso um sólido princípio moral para impedir-me de sair deliberadamente para a rua e metodicamente surrar as pessoas" - na cópia da ed. martin claret, ficou "medicamente surrar as pessoas", numa intervenção cirúrgica também adotada pela cedic.

epílogo, idem













entra ano, sai ano, nunca deixo de me assombrar com a desfaçatez e a iniquidade de tal procedimento. como explica o jurista josé carlos costa netto, trata-se da " 'modalidade de contrafação mais repulsiva' não só pelo furto intelectual, mas principalmente pelo processo de dissimulação utilizado pelo plagiário" (regime jurídico do plágio, pp. 9-10).

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as duas pretensas traduções, outras traduções e com o original.

9 de fev de 2010

moby dick

quanto às edições da germape e da cedic, um título me deixou curiosa.

a germape publicou em 2005 uma edição de moby dick, de herman melville, com tradução atribuída a alguém de nome "leonor de medeiros", que também consta no catálogo da cedic, inclusive com a mesma capa.

ora, sucede que este é, de fato, um dos grandes clássicos da literatura universal. existem vários resumos e adaptações no brasil, mas traduções de fato são pouquíssimas.

em verdade, até 2008, quando a editora cosac naify lançou a tradução de irene hirsch e colaboração de alexandre barbosa de souza, existiam apenas duas:
  1. a de berenice xavier (josé olympio, 1950; reeditada pela ediouro e pela biblioteca folha);
  2. a de péricles eugênio da silva ramos (abril cultural, 1972; reeditada pela nova cultural).*


assim, fiquei surpresa ao saber de uma tradução inédita, que passou desapercebida no cenário editorial brasileiro, de uma obra de tal complexidade. encomendei um volume da germape e outro da cedic, para lê-los com calma e prestar meus devidos respeitos à referida leonor de medeiros.

* diga-se de passagem que em 2004 surgiu uma edição de praxe da editora martin claret, com várias reedições até hoje, que consiste numa cópia grosseiramente atamancada da tradução de péricles eugênio. a editora martin claret atribui os créditos de tradução à inexistente figura de "alex marins". 

veja também:

Idec discute direitos autorais e marco civil da internet com o Governo

germape/ cedic

já sabemos que a editora cedic, um tanto altaneira em relação aos dispositivos legais, às vezes dispensa-se de apresentar fichas catalográficas e de estampar o nome dos autores das traduções que publica. já vimos também que seu catálogo retoma o catálogo das extintas paumape e germape.

a paumape se desobrigou de cadastrar suas obras na fundação biblioteca nacional. já a germape cadastrou 99 títulos, distribuídos basicamente entre literatura nacional e literatura estrangeira. dos 36 títulos de literatura estrangeira, nove não apresentam o nome do autor da tradução. entre os 27 restantes, treze me chamaram a atenção.
  • em nome de "henry dualib": contos (maupassant); fábulas (la fontaine); contos e histórias (poe); édipo rei (sófocles); o banquete (platão); a dama das camélias (dumas).
  • em nome de "hillary dias": drácula (stoker); uma aventura de natal (dickens); vinte mil léguas submarinas (verne); a comédia dos erros (shakespeare); a tempestade (shakespeare); a história secreta (procópio); o fantasma de canterville (wilde)
esses títulos fazem parte da coleção de literatura da cedic, embora o sr. matos peixoto negue qualquer cessão ou transferência de catálogo das extintas paumape/ germape para a referida cedic. veja aqui. pelo menos no caso de contos e histórias de poe, já vimos que a página de rosto da cedic estampa o logotipo "mp", das antigas editoras do sr. matos peixoto. logo volto a essa curiosa história.
 
imagem: google images

8 de fev de 2010

mais um gato preto, poe XXX


a editora cedic é responsável pela edição de um pequeno volume chamado contos & histórias, de edgar allan poe, c. 2008. os contos presentes na coletânea são: a camuflagem da morte escarlate, o poço e o pêndulo, o gato preto, o retrato oval e o pipo de "amontillado". traz ainda o poema o corvo, em tradução de machado de assis.

a referida edição não traz imprenta, nem ficha catalográfica, nem créditos, nem nada. na página de rosto apresenta o logotipo "mp", correspondente a matos peixoto, das extintas paumape e germape.


sobre as complexas relações entre cedic, paumape e germape, veja:
por sua vez, a edição da germape, com o mesmo título contos e histórias, consta cadastrada com a data de 2005 na fundação biblioteca nacional, dando como tradutor um misterioso "henry dualib".

não consegui localizar nenhum exemplar impresso dos contos e histórias da germape. mas imagino e tomo como hipótese provável, pelas razões apresentadas nos posts anteriores, que se trata da mesma coletânea.

o que posso afirmar com plena certeza é que a tradução publicada pela cedic não é apócrifa nem do suposto "henry dualib". trata-se de transcrição literal - por plágio ou contrafação - da tradução portuguesa feita por tomé santos júnior, publicada desde 1950 pela editorial verbo de lisboa, na coletânea de nome histórias de mistério e imaginação.

como minha pesquisa versa sobre as edições d'o gato preto publicadas no brasil, incluo aqui, como 25a. tradução, o texto de tomé santos júnior publicado irregular e anonimamente pela editora cedic de belo horizonte, e com grande probabilidade falsamente atribuído a "henry dualib" pela editora germape de são paulo.

veja também:  o gato brasileiro, lista das várias traduções de the black cat publicadas no brasil

leitura

representar e verter, entender e manifestar: matéria simpática de carol almeida, com eric nepomuceno, rosa freire d'aguiar e renato motta.

7 de fev de 2010

jorio dauster - lolita


A LOLITA DE NABOKOV, OU O DESEJO COMO OBSESSÃO


Na sua vasta obra de ficção escrita em três línguas - centenas de poemas, dezoito romances, sessenta e cinco contos -, Vladimir Nabokov jamais descreveu um único ato sexual, mas nem por isso deixou de tratar do desejo sob todas as formas com que a libido subjuga os pobres mortais. No entanto, talvez só tenha ficado realmente famoso devido ao romance em que investigou o desejo como obsessão, o desejo como tara.

O roteiro central é bem conhecido, inclusive graças aos dois filmes que foram feitos com base no livro: Humbert Humbert, um professor francês de 37 anos, se apaixona por Lolita, menina americana de 12 anos e cópia perfeita do primeiro amor que vivera um quarto de século antes na Riviera. Para assegurar o acesso à filha, HH casa-se com a mãe dela, que morre atropelada por um carro pouco depois de ler o diário onde o marido registrara sua monstruosa atração por Lolita. Fazendo-se passar por pai e filha, os dois circulam por todos os Estados Unidos e se instalam por alguns meses numa pequena cidade, até que a menina foge com outro pedófilo. Três anos depois HH recebe uma carta de Lolita em que ela lhe pede ajuda, pois estava grávida e vivendo na pobreza com um jovem mecânico. Num encontro patético, a ex-ninfeta se recusa a voltar para a companhia dele e confessa a identidade do homem com quem havia escapado, o qual é posteriormente assassinado por HH.

É óbvio que este resumo faz tanta justiça ao livro quanto a visão de um bloco de mármore pode sugerir a forma que lhe será dada pelo cinzel do escultor. Como em toda a obra de Nabokov, o que importa é a combinação mágica de imagens e cores, seu cuidado de ourives na busca de cada palavra, sua capacidade de tomar uma fatia de vida e, mediante um jogo de espelhos, transmudá-la de forma até mesmo grotesca para chegar aos limites da experiência humana.

A característica mais notável de Lolita é que, lidando com um tema tão sensível, Nabokov sequer tangencia o pornográfico e, muito pelo contrário, constrói sem pieguice uma fábula claramente moralista. Mas o faz a seu modo: cabe à garota, que perdera a virgindade na colônia de férias onde HH vai buscá-la após a morte de sua mãe, a iniciativa da primeira relação sexual; é o próprio HH que, escrevendo na prisão, mais duramente condena a bestialidade de seus atos, as torturas que sua inesgotável lascívia haviam infligido à menina, embora não deixe de assinalar que, em outros tempos e outras culturas, a ligação entre eles nada teria de anormal; e é através do assassinato de seu “duplo” que ele se desfaz do passado.

Mas, acima de tudo, a verdadeira redenção de HH está em que o desejo lúbrico pela ninfeta Lolita se transfigura num amor sem limites pela mulher Lolita. E só mesmo nas palavras do autor se pode entender com que força explode essa paixão.

“De trás do barraco de Bill, o rádio de alguém que voltara do trabalho levou até nós uma música que falava de loucura e destino, e lá estava ela com sua beleza destroçada, as veias saltadas nas mãos estreitas de adulta, a pele arrepiada nos braços brancos, as orelhas sem viço, as axilas descuidadas, lá estava ela (minha Lolita!) irremediavelmente gasta aos dezessete anos, com aquela criança que dentro de seu ventre já sonhava em ser um sujeito importante e se aposentar no ano 2020 – e fiquei olhando para ela, sabendo, tão lucidamente como sei que vou morrer um dia, que eu a amava mais do que tudo o que jamais vi ou imaginei neste mundo, ou que possa esperar em qualquer outro. Ela era apenas um traço fugaz de perfume, o eco de uma folha morta, quando comparada à ninfeta sobre a qual eu rolara outrora gemendo de prazer; um eco à beira de uma ravina acobreada, com uma floresta longínqua sob o céu lívido, folhas marrons sufocando o riacho, um derradeiro grilo nas ervas ressequidas... mas, graças a Deus, não era apenas esse eco que eu venerava. Aquilo que eu costumava acariciar entre as vinhas emaranhadas de meu coração, mon grand péché radieux, estava reduzido a sua essência: todo o resto, o vício estéril e egoísta, fora abolido, amaldiçoado. Podem zombar de mim, ameaçar de evacuar o tribunal, mas até que eu seja amordaçado e semi-asfixiado continuarei a proclamar aos brados minha pobre verdade. Insisto em que o mundo saiba o quanto amei minha Lolita, esta Lolita, pálida e poluída, carregando o filho de outro homem, mas ainda com os mesmos olhos cinzentos, os mesmos cílios cor de fuligem, os mesmo tons de castanho e amêndoa, a mesma Carmencita, ainda e sempre minha! Changeons de vie, ma Carmen, allons vivre quelque part où nous ne serons jamais séparés. Ohio? Os ermos de Massachusetts? Não importa, mesmo que teus olhos fiquem embaciados como os de um peixe míope, mesmo que teus mamilos inchem e se rachem, mesmo que se macule e rasgue teu jovem e adorável delta, tão delicadamente aveludado... mesmo então eu enlouqueceria de ternura à simples vista de teu rosto amado e lúrido, ao simples som de tua voz rouquenha, minha Lolita.”

JORIO DAUSTER
imagem: lolita

6 de fev de 2010

leitura



tradutores são a ponte entre o leitor e a cultura universal, uma matéria simpática de walter sebastião em divirta-se notícia, com depoimentos de paulo henriques britto e ivo barroso.

imagem: divirta-se

5 de fev de 2010

quantos e quais são, poe XXIX


há no brasil catorze antologias de contos de edgar allan poe com o nome de histórias extraordinárias. os dados abaixo se referem a treze delas (omiti a seleta de cirne lima, globo, 1987, porque desconheço seu conteúdo).

essas treze antologias trazem um número de contos que varia de seis a dezoito. somando todos eles, são 37 contos diferentes com um total de 156 ocorrências. como a seleta mais extensa traz dezoito contos, os outros dezenove se distribuem entre as demais coletâneas.

os contos que se repetem com maior frequência são o gato preto e a carta roubada, ambos com dez ocorrências entre as treze coletâneas - ausentes, portanto, apenas de três delas.

segue-se uma relação dos contos em ordem decrescente pelo número de ocorrências nas várias histórias extraordinárias. entre parênteses constam as variantes dos títulos.

1. o gato preto (o gato negro) e a carta roubada (a carta furtada): 10 ocorrências.
2. o escaravelho de ouro: 9 ocorrências.
3. berenice; william wilson; a queda da casa de usher; o barril de amontillado (o barril de amontilhado); o poço e o pêndulo; manuscrito encontrado numa garrafa; os crimes da rua morgue (duplo assassínio na rua morgue): 8 ocorrências.
4. o mistério de marie rogêt; metzengerstein: 5 ocorrências.
5. o sistema do dr. alcatrão e do professor pena (o sistema do dr. breu e do professor pena); sombra - uma parábola (sombra); a máscara da morte rubra (a máscara da peste vermelha; a máscara da morte vermelha); o homem da multidão (o homem na multidão); nunca aposte sua cabeça com o diabo; a descida no interior do maelström (uma descida no maelström; descida ao maelström): 4 ocorrências.
6. coração revelador (o coração denunciador); ligéia; pequena palestra com uma múmia (pequena discussão com uma múmia); a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall; hopfrog: 3 ocorrências.
7. o retrato ovalado (o retrato oval); o diabo no campanário; o caixão quadrangular (a caixa quadrangular); silêncio (silêncio: uma fábula); o duque de l'omelette; o jogador de xadrez de maelzel; a verdade sobre o caso do sr. valdemar (o caso do valdemar); enterro prematuro (o enterro prematuro): 2 ocorrências.
8. o poder da palavra; o demônio da perversidade; rei peste; o encontro marcado; deus (revelação magnética); eleonora: 1 ocorrência.

a relação dos 37 contos publicados entre as treze coletâneas de nome histórias extraordinárias é a seguinte, por ordem alfabética e respectivo número de ocorrências:

  • aventura sem paralelo de um tal hans pfaall, a, 3
  • barril de amontillado, o (o barril de amontilhado), 8
  • berenice, 8
  • caixão quadrangular, o (a caixa quadrangular), 2
  • carta roubada, a (a carta furtada), 10
  • coração revelador (o coração denunciador), 3
  • crimes da rua morgue, os (duplo assassínio na rua morgue), 8
  • demônio da perversidade, o, 1
  • descida no interior do maelström, a (uma descida no maelström; descida ao maelström), 4
  • deus (revelação magnética), 1
  • diabo no campanário, o, 2
  • duque de l'omelette, o, 2
  • eleonora, 1
  • encontro marcado, o, 1
  • enterro prematuro (o enterro prematuro), 2
  • escaravelho de ouro, o, 9
  • gato preto, o (o gato negro), 10
  • homem da multidão, o (o homem na multidão), 4
  • hopfrog, 3
  • jogador de xadrez de maelzel, o, 2
  • ligéia, 3
  • manuscrito encontrado numa garrafa, 8
  • máscara da morte rubra, a (a máscara da peste vermelha; a máscara da morte vermelha), 4
  • metzengerstein, 5
  • mistério de marie rogêt, o, 5
  • nunca aposte sua cabeça com o diabo, 4
  • pequena palestra com uma múmia (pequena discussão com uma múmia), 3
  • poço e o pêndulo, o, 8
  • poder da palavra, o, 1
  • queda da casa de usher, a, 8
  • rei peste, 1
  • retrato ovalado, o (o retrato oval), 2
  • silêncio (silêncio: uma fábula), 2
  • sistema do dr. alcatrão e do professor pena, o (o sistema do dr. breu e do professor pena), 4
  • sombra - uma parábola (sombra), 4
  • verdade sobre o caso do sr. valdemar, a (o caso do valdemar), 2
  • william wilson, 8
não incluí nessas contas o corvo, a gênese de um poema, método de composição e o corvo na tradução de machado de assis, publicados na edição da ordibra/inl (1972).

acompanhe a pesquisa sobre poe no brasil clicando aqui.

atualização em 22/3/10: ver mais uma edição com o título histórias extraordinárias, aqui. com esta edição, mesmo espúria, são 11 ocorrências para o gato preto; 9 para o poço e o pêndulo e o barril de amontillado (o pipo de "amontillado"); 5 para a máscara da morte rubra (a camuflagem da morte escarlate); 3 para o retrato oval. como esta edição traz cinco contos, o total de ocorrências passa para 161, em 14 coletâneas consultadas, do total de 15 coletâneas localizadas, com o mesmo título de histórias extraordinárias.


imagem: ábaco romano