31 de mar de 2010

centauro a galope

a questão judaica, na edição da centauro, que reproduz fielmente a tradução de wladimir gomide (laemmert, 1969 - veja aqui), porém atribuindo-a a silvio donizete chagas, a rédeas soltas percorre escolas, bibliotecas, ementas de curso, teses, artigos, concursos etc.


eis uma pequena amostra da situação:

http://www.nodo50.org/cubasigloXXI/congreso08/conf4_goncalvesr.pdf

http://www.usp.br/siicusp/Resumos/17Siicusp/resumos/3386.pdf
http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/tosi/tosi_dh_etica_republicana.pdf
http://www.slideshare.net/654789/grupo-de-estudos-marx-e-o-direito
http://www.fazendogenero8.ufsc.br/sts/ST62/Camila_Oliveira_do_Valle_62.pdf
http://www.pucrs.br/edipucrs/online/IIImostra/CienciasSociais/61351%20-%20HENRY%20GUENIS%20SANTOS%20CHEMERIS.pdf
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_87/artigos/RommelMadeiro_rev87.htm
www.ess.ufrj.br/.../201-construcoes-teorico-metodologicas-em-servico-social-fatima-grave-marlise-vinagre
http://www.grupodemocracia.com/artigos/livro%202/pdfs/OLIVEIRA,CiceroJS.pdf
http://www.ufpb.br/cdh/curso2/2curso_ementa02.html
http://abrapso.org.br/siteprincipal/images/Anais_XVENABRAPSO/526.%20%20a%20utopia%20na%20perspectiva%20de%20ernst%20bloch.pdf
www.conpedi.org/anais/36/02_1673.pdf
www.revistas.ufg.br/index.php/philosophos/article/.../6010
http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/dcefs/Prof._Adalberto_Santos/2-o_trabalho_em_marx_e_engels_implicacoes_para_os_estudos_do_lazer_12.pdf
http://www.ceamecim.furg.br/viii_pesquisa/trabalhos/78.doc
http://xivciso.kinghost.net/artigos/Artigo_979.pdf
http://www.ufpel.tche.br/cic/2009/cd/pdf/CH/CH_01656.pdf
http://www.lemarx.faced.ufba.br/marxeengels.html
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/viewFile/26013/25576
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652008000200004
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52582003000100004
http://www.marilia.unesp.br/Home/Instituicao/Concursos/pdfs/edital2010-062.pdf
http://www.conpedi.org/manaus/arquivos/anais/bh/danielle_soncini_bonella.pdf
http://www.trt13.jus.br/ejud/images/arquivos/referencias_bibliograficas.pdf
http://www.pucrs.br/edipucrs/online/IIImostra/CienciasSociais/61351%20-%20HENRY%20GUENIS%20SANTOS%20CHEMERIS.pdf
www.ess.ufrj.br/index.php/.../207-seminario-de-tese-i-maria-das-dores
http://www.revistas.ufg.br/index.php/philosophos/article/viewDownloadInterstitial/4869/6010
http://www.faculdadeages.com.br/revista/index.php?journal=ages&page=article&op=viewFile&path[]=58&path[]=48
http://www.scielo.org.ar/scieloOrg/php/reference.php?pid=S1515-59942009000100001&caller=www.scielo.org.ar&lang=es
http://www4.uninove.br/ojs/index.php/dialogia/article/viewFile/842/722
http://www.unec.edu.br/ics/artigos/eca2.pdf
http://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt2/sessao1/Camilo_onoda.pdf
http://periodicos.unitau.br/ojs-2.2/index.php/humanas/article/view/456/413
http://www.usp.br/siicusp/Resumos/17Siicusp/resumos/780.pdf
http://www.trf4.jus.br/trf4/upload/arquivos/curriculo_juizes/ha_um_fundamento_para_direitos_humanos.pdf
http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/images/stories/pdfs_educacao/v13n1/art05_magalhaes_e_junior.pdf
http://www.ichs.ufop.br/memorial/trab2/edu24.pdf
http://revistas.pucsp.br/index.php/red/article/view/1682/1113
http://www.unipam.edu.br/temp/file/1%C2%AA%20SEMANA%20DE%20ESTUDOS%20JUR%C3%8DDICOS%20E%20SOCIAIS.pdf
http://www.uff.br/iacr/ArtigosPDF/94T.pdf
http://www.abed-defesa.org/page4/page8/page9/page16/files/CamilaValle.pdf
http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/segundosimposio/marisagbarbosa.pdf
http://www.cepehu.com.br/galeria/textos/_mini_bbe475c1ef416c09eac33f77ce191300.pdf
http://www.ts.ucr.ac.cr/binarios/congresos/reg/slets/slets-017-046.pdf
http://www.trt13.jus.br/ejud/images/arquivos/liberdade_igualdade_fraternidade.pdf
http://www.nrodrigues.adv.br/publicacoes/producao-te%C3%B3rica/contribui%C3%A7%C3%A3o-a-cr%C3%ADtica-da-historia-do-direito-de-greve.pdf
http://www.andhep.org.br/downloads/trabalhosIVencontro/CamiladoValleGT1.pdf
http://books.google.com.br/books?id=pfs4SPdlhFAC&pg=PA124&lpg=PA124&dq=%22quest%C3%A3o+judaica%22+marx+centauro&source=bl&ots=-TeAShOVtB&sig=B2ggbMoqfHabQ43YrNVUS-cZpoo&hl=pt-BR&ei=ydSuS-XJKdCluAeT_OjwDQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CBsQ6AEwAzha#
http://seer.bce.unb.br/index.php/SER_Social/article/view/162/120
http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/alceu_n9_oliveira.pdf
http://www2.jatai.ufg.br/ojs/index.php/acp/article/viewDownloadInterstitial/916/455
http://www.ufpa.br/bc/documentos/Alerta_Bibliografico/2009/alertabibliografico03mar2009.pdf
http://www.ppgf.ufba.br/dissertacoes/Jose_Fredson_Souza_Silva.pdf
www.fae.ufmg.br/.../politica_contemporanea_form_prof.doc
http://www.revistas2.uepg.br/index.php/emancipacao/article/view/97/95
http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/tosi/tosi_cosmopolitismo.htm
http://www.ifch.unicamp.br/graduacao/disciplinas/semestre208/disciplinas/HZ353A.pdf
http://www4.uninove.br/ojs/index.php/prisma/article/view/507/486
www.cchla.ufpb.br/.../479-17092008221218-Cosmopolitismo%5B1%5D.60anos_DUDH.doc
http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/html/934/93400107/93400107.html
http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1112992
http://ufpa.br/bc/documentos/Alerta_Bibliografico/2007/alertabibliograficooutubro2007.pdf
http://www.nrodrigues.adv.br/publicacoes/producao-te%C3%B3rica/o-verdadeiro-universal-juridico-e-os-limites-da-universalizacao-de-direitos-sob-o-capitalismo.pdf
http://starline.dnsalias.com:8080/andhep2009/arquivos/8_9_2009_19_44_15.pdf
http://www.sober.org.br/palestra/9/424.pdf
www.segurancacidada.org.br/index.php?option=com_docman...
www.cress16.org.br/flash/catalogo.swf
http://publique.rdc.puc-rio.br/revistaalceu/media/Alceu19_Oliveira.pdf
http://www.pucrs.br/ffch/neroi/mono_revista.pdf
http://www.ufpb.br/cdh/monografias/christiane_fernandes.pdf
http://www.bmfbovespa.com.br/Pdf/Bibliografia_Bobbio.pdf
www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/journals/1/.../669/.../669-683-1-PB.pdf
http://bdtd.ufal.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=726
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/revista/edicoes/32/art16_32.pdf
http://www.cfh.ufsc.br/~alessandro/filpoliticaI-pos.htm

[colaboração de joana canêdo]

veja também outros casos da editora centauro envolvendo plágios de tradução.

apoie a luta contra o plágio.
leia e assine este manifesto.


30 de mar de 2010

caso martin claret x denise bottmann

atualizando:
em relação ao caso do sr. martin claret contra minha pessoa, por alegada difamação e crime contra sua honra, o juiz em primeira instância não havia acolhido a queixa-crime, rejeitando-a liminarmente por insuficiência de provas. os advogados do sr. martin claret entraram com recurso, o qual foi analisado hoje pela junta recursal. em decisão por unanimidade, a junta confirmou a sentença e considerou não haver razões para dar acolhimento ao referido recurso.


acompanhe o histórico:

a questão judaica

Um leitor do blog havia comentado algum tempo atrás que achava suspeita a edição d'A Questão Judaica, de K. Marx, pela editora Centauro: muito parecida com a edição da Laemmert. Joana Canêdo então fez um levantamento que apresento abaixo, acrescido de algumas informações adicionais.

A edição da Laemmert é de 1969, com tradução assinada por Wladimir Gomide, que também escreve a apresentação. Na orelha do livro consta a informação: “Esta é a primeira vez que o ensaio de Marx sobre A Questão Judaica aparece em língua portuguesa”. Muito provavelmente a tradução de Gomide se baseou na tradução de Wenceslao Roces para o espanhol, publicada pela Grijalbo em 1959 na coletânea La sagrada familia y otros escritos filosóficos de la primeira época (disponível para download aqui)


A Questão Judaica (1843) corresponde a duas resenhas escritas por Marx para os Anais Franco-Alemães: a primeira se chama “Bruno Bauer, A questão judaica” e a outra “Capacidade dos atuais judeus e cristãos de ser livres”. Além delas, a edição da Laemmert traz em apêndice mais quatro textos: “Colocação de problemas”, “Descobertas críticas sobre Socialismo, Jurisprudência e Política”, “Os anais franco-alemães e a questão judaica” e “Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel”. Wladimir Gomide explica em sua apresentação que optou por traduzir “todos os tópicos em que Marx aborda a questão judaica noutro texto da juventude” (i. é, A Sagrada Família).

Após esse lançamento da Laemmert em 1969, A Questão Judaica foi publicada por outras editoras no Brasil, a saber:
  •  Moraes, sem indicação do tradutor, c. 1981 e reedições.
  • Achiamé, trad. Wladimir Gomide, s/d.
  • Centauro, trad. Silvio Donizete Chagas, 2000 e diversas reedições.
  • Expressão Popular, trad. José Barata-Moura (sob licença da Avante de Portugal), 2009.
No caso da edição da Centauro, alguns detalhes editoriais chamam a atenção:
- A indicação do título original: Zur Judenfrage.
- Uma apresentação anônima.
- A divisão do volume em duas partes: A Questão Judaica propriamente dita, com suas duas resenhas; e os mesmos quatro textos em apêndice que constam na edição da Laemmert.


Salta à vista que a escolha dos textos da Laemmert e da Centauro é a mesma. Os textos das traduções são idênticos. A cópia é literal, do início ao fim, incluindo apresentação e notas de rodapé. As únicas diferenças entre as duas edições são o texto da orelha e a referência ao original. Se Gomide não indica a fonte de sua tradução para a Laemmert, a edição da Centauro indica o original Zur Judenfrage.

  

Seguem-se alguns trechos ilustrativos.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 13)

I – Bruno Bauer, A Questão Judaica (Die Judenfrage). Braunschweig, 1843.
Os judeus alemães aspiram emancipar-se. A que emancipação aspiram? À emancipação civil, à emancipação política.
Bruno Bauer os contesta: Na Alemanha, ninguém está politicamente emancipado. Nós mesmos carecemos de liberdade. Como vamos, então, libertar-vos? Vós, judeus, sois egoístas quando exigis uma emancipação especial para vós, como judeus. Como alemães, devíeis trabalhar pela emancipação política da Alemanha; como homens, pela emancipação humana. Ao invés de sentir o tipo especial de vossa opressão e de vossa ignomínia como uma exceção à regra, devíeis, pelo contrário, senti-lo como a confirmação desta.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 13)

I – Bruno Bauer, A Questão Judaica (Die Judenfrage). Braunschweig, 1843.
Os judeus alemães aspiram emancipar-se. A que emancipação aspiram? A emancipação civil, a emancipação política.
Bruno Bauer os contesta: Na Alemanha, ninguém está politicamente emancipado. Nós mesmos carecemos de liberdade. Como vamos, então, libertar-vos? Vós, judeus, sois egoístas quando exigis uma emancipação especial para vós, como judeus. Como alemães, devíeis trabalhar pela emancipação política da Alemanha; como homens, pela emancipação humana. Ao invés de sentir o tipo especial de vossa opressão e de vossa ignomínia como uma exceção à regra, devíeis, pelo contrário, senti-lo como a confirmação desta.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 24)

A ascensão política do homem acima da religião partilha de todos os inconvenientes e de todas as vantagens da ascensão política em geral. O Estado como tal, anula, por exemplo, a propriedade privada. O homem declara abolida a propriedade privada de modo político quando suprime o aspecto riqueza (4) para o direito de sufrágio ativo e passivo, como já se fez em muitos Estados norte-americanos. Hamilton interpreta com toda exatidão este fato, do ponto de vista político, ao dizer: “A grande massa triunfou sobre os proprietários e o poder do dinheiro”. Acaso não se suprime idealmente a propriedade privada quando o despossuído se converte em legislador dos que possuem? O aspecto riqueza é a última forma política de reconhecimento da propriedade privada.

(4) Nota da tradução brasileira: O direito de voto estava condicionado a determinado teto. O indivíduo que não possuísse o mínimo estipulado não podia ser eleitor.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 22)

A ascensão política do homem acima da religião partilha de todos os inconvenientes e de todas as vantagens da ascensão política em geral. O Estado como tal, anula, por exemplo, a propriedade privada. O homem declara abolida a propriedade privada de modo político quando suprime o aspecto riqueza (4) para o direito de sufrágio ativo e passivo, como já se fez em muitos Estados norte-americanos. Hamilton interpreta com toda exatidão este fato, do ponto de vista político, ao dizer: “A grande massa triunfou sobre os proprietários e o poder do dinheiro”. Acaso não se suprime idealmente a propriedade privada quando o despossuído se converte em legislador dos que possuem? O aspecto riqueza é a última forma política de reconhecimento da propriedade privada.

(4) Nota da tradução brasileira: O direito de voto estava condicionado a determinado teto. O indivíduo que não possuísse o mínimo estipulado não podia ser eleitor.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 62)

A venda é a prática da alienação. Assim como o homem – enquanto permanece sujeito às cadeias religiosas – só sabe expressar sua essência convertendo-a num ser fantástico, num ser estranho a ele, assim também só poderá conduzir-se praticamente sob o império da necessidade egoísta, só poderá produzir praticamente objetos, colocando seus produtos e sua atividade sob o império de um ser estranho e conferindo-lhes o significado de uma essência estranha, do dinheiro.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 50)

A venda é a prática da alienação. Assim como o homem – enquanto permanece sujeito as cadeias religiosas – só sabe expressar sua essência convertendo-a num ser fantástico, num ser estranho a ele, assim também só poderá conduzir-se praticamente sob o império da necessidade egoísta, só poderá produzir praticamente objetos, colocando seus produtos e sua atividade sob o império de um ser estranho e conferindo-lhes o significado de uma essência estranha, do dinheiro.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 65)

Apêndices
a) Colocação dos problemas
Em antítese à massa, o “espírito” passa a se conduzir criticamente ao considerar sua própria obra tão limitada – “A Questão Judaica”, de Bruno Bauer – como absoluta, somente classificando de equivocados os adversários dela. Na réplica número 1 aos ataques dirigidos contra esta obra, seu autor não demonstra sequer a menor disposição de compreender seus vários defeitos. Ao contrário, continua afirmando ter desenvolvido nela o “verdadeiro” significado, o significado “geral” da questão judaica.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 53)

Apêndices
a) Colocação dos problemas
Em antítese à massa, o “espírito” passa a se conduzir criticamente ao considerar sua própria obra tão limitada – “A Questão Judaica”, de Bruno Bauer – como absoluta, somente classificando de equivocados os adversários dela. Na réplica número 1 aos ataques dirigidos contra esta obra, seu autor não demonstra sequer a menor disposição de compreender seus vários defeitos. Ao contrário, continua afirmando ter desenvolvido nela o “verdadeiro” significado, o significado “geral” da questão judaica.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 71)

b) Descobertas Críticas sobre Socialismo, Jurisprudência e Política (nacionalidade)
Aos judeus da massa, materiais, se aconselha a doutrina cristã da liberdade espiritual, da liberdade teórica, esta liberdade espiritualista que aparenta ser livre inclusive sob o signo da sujeição, que se sente em estado de graça “na ideia” e que só entorpece tudo aquilo que seja existência de massa.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 58)

b) Descobertas Críticas sobre Socialismo, Jurisprudência e Política (nacionalidade)
Aos judeus da massa, materiais, se aconselha a doutrina cristã da liberdade espiritual, da liberdade teórica, esta liberdade espiritualista que aparenta ser livre inclusive sob o signo da sujeição, que se sente em estado de graça “na ideia” e que só entorpece tudo aquilo que seja existência de massa.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, pp. 101-102)

Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel
Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da religião é a premissa de toda crítica.
A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial oratio pro aris et focis (1). O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu, onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.

(1) Oração pelo lar e pelo ócio.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, pp. 83-85)

Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel
Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da religião é a premissa de toda crítica.
A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial oratio pro aris et focis (30). O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu, onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.

(30) Oração pelo lar e pelo ócio.

veja mais sobre a editora centauro:

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





29 de mar de 2010

fala erwin theodor

Cara Denise: escreve-lhe o Erwin Theodor Rosenthal, aquele mesmo que há sessenta-e-quatro anos (aos 20 de idade!) levou 12 meses para completar seu primeiro projeto de tradução, a Origem da Tragédia! Por V. fiquei sabendo de sua disponibilização eletrônica e agradeço seus comentários lúcidos e justos. De minha parte acrescento uma passagem de autor que já foi conhecido, e que talvez divirta os inimigos do PLÁGIO. Escreve Egon Friedell numa "CARTA ABERTA" a um autorzinho de nome Anton Kuh, em 1931, de Viena:

"Prezado Senhor, foi surpresa verificar que V. resolveu publicar a minha humilde estória, O Imperador José e a Prostituta, tal como a escrevi, com o acréscimo das três palavras: 'Por Anton Kuh', na publicação Querschnitt. Honra-me sem dúvida o fato de sua escolha ter recaído na minha estorinha, quando toda a literatura mundial desde Homero se encontrava à sua disposição. Teria gostado de retribuir na mesma moeda, mas, depois de examinar toda a sua obra, não encontrei nada que tivesse vontade de subscrever. (ass) Egon Friedell."

Pergunto eu: que tal a obra do sr. Pugliese?

Cumprimentos cordiais, Erwin Theodor.

ver o caso a que se refere nosso mestre germanista em:

27 de mar de 2010


o nãogostodeplágio está em fase de manutenção.
retorna às atividades normais na próxima semana.


26 de mar de 2010

o caso do proz.com

acompanhe o caso do proz.com e leia a petição:

On 3 March 2010, the following petition was delivered to the ProZ.com team. An internal review began immediately and discussions among staff members and petitioners are currently underway. The results of the review process and the outcome of the discussions will be published by 31 March 2010.

A Translators' Petition Concerning ProZ.com's Job Policies
To ProZ.com

We, the undersigned, are a group of translators based around the world.

The purpose of this petition is two-fold. Firstly, it aims to protest against the way ProZ.com manages and supervises its job postings made available to both paying and non-paying ProZ.com members on its "Translation Industry Jobs" board. Secondly, it requests that ProZ.com revise its current policies and procedures on job postings, which we believe are harmful to individual translators and to the industry as a whole.

Over recent months, we have witnessed a steady and alarming increase in the number of ProZ.com job offers that contain rates and working conditions we consider totally unacceptable. One recent example of such a post provoked the enraged reaction of thousands of translators and interpreters and was reported in the Italian national press, in addition to being widely discussed by thousands of other translators on translator mailing lists, blogs, Facebook, and elsewhere. The Italian Minister of Tourism ultimately released a statement disavowing the working conditions contained in the job posting that appeared on ProZ.com.

The post in question is only one example of many such job postings that appear daily on ProZ.com. For our part, we are convinced that such posts have always offended and continue to offend the dignity of professional freelance translators.

ProZ.com's company policy states that it aims to serve "the world's largest community of translators" and deliver "a comprehensive network of essential services, resources and experiences that enhance the lives of its members."

Job postings that do not offer translators a living wage or which contain detrimental working conditions clearly fail to "enhance the lives" of translators. On the contrary, they actively harm our livelihoods and our profession.

To cite one specific example: the fact that ProZ.com allows job posters to set prices and conditions is, in itself, a form of "market distortion" and reveals one of the main reasons why we believe the ProZ.com job posting system is fundamentally flawed. When offering translation services, the freelance translator acts as a service provider, not as a client. To this respect, as in any freelance profession, we believe the freelancer and not the client should establish working conditions, prices, etc.

We hope that ProZ.com will take swift action to revise its job posting system to bring it in line with its stated mission to "serve translators" and deliver "essential services, resources and experiences that enhance" translators' lives. Such action is in all of our interests and would only enhance ProZ.com's reputation as a reliable, responsible service for translators and translation clients.

Until such time as ProZ.com takes clear, decisive steps to achieve that purpose, however, we shall be committed to taking the following action:

1) we will refrain from quoting on all jobs received through the ProZ.com posting system;
2) we will inform job posters of this protest and of the reasons for refusing to quote on their jobs;
3) we will refuse to join the ProZ.com site as subscription-paying members;
4) if we are currently paying members, we will not renew our memberships when they expire;
5) we will urge our colleagues, through every means at our disposal, to do the same.

Sincerely,
{List of 844 names}

23 de mar de 2010

moção de apoio da UBE - União Brasileira de Escritores



Denise Bottmann:

Sua iniciativa de divulgar manifesto contra o mau - e às vezes criminoso - uso de traduções por determinadas editoras, disfarçando autoria, embaralhando direitos, revela generosidade. Ao mesmo tempo em que protege o seu próprio trabalho, estende aos demais tradutores a prevenção contra falcatruas que atentam contra a qualidade da criação e a decência dos relacionamentos profissionais.

Conte com o apoio declarado da União Brasileira de Escritores. Faremos divulgar intensivamente o endereço eletrônico para que nossos associados tomem conhecimento da questão cuja defesa você lidera, e assim participem, votem, compareçam.

Joaquim Maria Botelho
União Brasileira de Escritores
Presidente

22 de mar de 2010

moção de apoio do IEL



MOÇÃO DE APOIO A DENISE BOTTMANN
E AO BLOG NÃO GOSTO DE PLÁGIO

Há algum tempo vem sendo veiculada pelos meios de comunicação a prática de algumas editoras de se apropriar de traduções anteriormente publicadas por outras, trocando o nome do tradutor verdadeiro por outro, quase sempre forjado, fazendo alterações cosméticas e as apresentando como novas. A fim de denunciar tal abuso que, além de ferir a lei de direitos autorais, desfigura o trabalho de muitos profissionais sérios e reconhecidos, constitui concorrência desleal com as editoras que arcam com os custos de tradução das obras e compromete a qualidade do texto desta forma oferecido ao público, a tradutora Denise Bottmann criou um blog com o nome de Não Gosto de Plágio. Sua atividade consiste principalmente em denunciar tal prática, através de transcrições de trechos da tradução original e da “nova”, demonstrando que as diferenças entre elas são insignificantes e, em alguns casos, inexistentes. Por conta disso, já sofreu vários processos. Atualmente está sendo processada pela Editora Landmark, que, numa clara tentativa de intimidação, exige vultosa indenização por pretensos danos morais e materiais e a imediata extinção do blog Não Gosto de Plágio (invocando o “direito de esquecimento”).

Tal processo vem sendo noticiado na imprensa e também no site de algumas editoras que se sentem lesadas por tal prática. Também circula na internet um abaixo assinado em apoio de Denise Bottmann, redigido pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone Castilho Benedetti, que já conta com cerca de 2500 assinaturas. Diante dos fatos relatados, a Congregação do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em reunião realizada a 18 de março de 2010 decidiu se manifestar solidária à campanha empreendida por Denise Bottmann em defesa dos direitos dos tradutores de terem seu trabalho reconhecido e respeitado.

20 de mar de 2010

para os fãs de poe, poe XXXI


primeiros contos de edgar allan poe publicados no brasil:

novellas extraordinarias.
rio de janeiro: h. garnier, c.1903. tradução anônima.



(pena que o livro foi "restaurado" com a lombada de pontacabeça...)

19 de mar de 2010

leitura crítica


artigo de ivone benedetti na seção leitura crítica, do brasil que lê (galeno amorim)


susto


quase desmaiei com isso: 
 
A cigarra e a formiga 6

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
“No verão em que lidavas?”
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: “Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh! Bravo! — torna a formiga —
Cantavas? Pois dança agora!”

6. LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine. Tradução de Milton Amado e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989, Tomo 1, p.25.
tal é a referência que consta na tese de mestrado uma definição de leitura pela teoria dos blocos semânticos, Anexo C, p. 88, além de extensa análise às pp. 66-69.

qualquer criança (pelo menos de antigamente) sabe que esta é a classicíssima tradução de bocage para a fábula de la fontaine, mas aqui amputada da quarta quadra (que é justo a hora em que a cigarra pede ajuda à formiga: - "Amiga", diz a cigarra, / - "Prometo, à fé d'animal, / Pagar-vos antes d'agosto / Os juros e o principal.").

até onde tenho conhecimento, a cigarra e a formiga que consta na edição da itatiaia é outra, aliás um tanto tosca (posta ao lado do primoroso lavor em a raposa e as uvas, no mesmo livro, pode-se ter um indicador bastante razoável das diferenças entre os dois tradutores, respectivamente eugênio e milton).

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."

LA FONTAINE, J. de. 1992. Fábulas de La Fontaine. Belo Horizonte, Itatiaia.
seja lá o que tenha acontecido, o que não se pode é lançar gratuita suspeição sobre nenhum dos dois tradutores. o caso adquire feições ainda mais surreais no caso do pai, milton amado, um dos grandes tradutores brasileiros de poesia: ivo barroso, por exemplo, considera sua tradução d'o corvo de poe inigualável, a melhor existente em língua portuguesa [veja aqui]. e quanto a suspeições, já basta a editora itatiaia querer manchar o nome de mario quintana como reles copista de galeão coutinho, no caso de zadig.

espero que o autor da tese tenha ocasião de esclarecer essa minha dúvida ou de dar uma checada adicional em suas referências. afinal, seu estudo está depositado no acervo de domínio público do mec, e uma afirmação séria como esta precisa ser muito bem fundamentada ou imediatamente corrigida.

ilustração: grandville

18 de mar de 2010

17 de mar de 2010

III congresso da abrates

veja a programação completa do III congresso da abrates, de 19 a 21 de março, em porto alegre.

inaugurando a DDI/Minc

finalmente inaugurei meu contato com a diretoria de direitos intelectuais do minc.

encaminhei à ddi um dossiê expondo o caso muito mal explicado de mario quintana, o qual, a se crer na editora itatiaia e em sua edição de zadig de voltaire, não passaria de reles plagiador de galeão coutinho.

em primeiro lugar, espero que a ddi julgue a questão relevante e tome as providências que julgar pertinentes. em segundo lugar, espero que a itatiaia entenda que sua responsabilidade editorial não cessa na hora em que vende o livro, e pronto, acabou.

acompanhe aqui o caso:

imagem: o quê?!

16 de mar de 2010

de plágios e processos



de plágios e processos: entrevista minha a bruno dorigatti, no portal literal.

imagem: montagem

atualização: como o portal literal encerrou suas atividades e saiu da rede, reproduzo aqui a revista banzeiro:

Por ser de UTILIDADE PÚBLICA, reproduzo aqui a entrevista que a TradutoraDenise Bottmann, editora do blog Não gosto de Plágio, concedeu ao Jornalista Bruno Dorigatti, do Portal Literal, em 15/03/2010.

De plágios e processos


Por Bruno Dorigatti*

A notícia estourou no fim de fevereiro e a repercussão tem sido considerável. Motivada por matérias publicadas em dezembro de 2007 pelo jornal Opção, de Goiânia, e pela Folha de S. Paulo, a tradutora e historiadora Denise Bottmann criou no mesmo mês blog Não gosto de plágio, onde vem denunciando casos de plágio em obras clássicas de nomes como Goethe, Tolstói, Dante, DH Lawrence, entre dezenas de outros autores. Na época, as denúncias caíram sobre as editoras Martin Claret e Nova Cultural. O dono da primeira, cujo nome é o mesmo da editora, entrou na Justiça contra Bottmann e a ação está em andamento. A tradutora, porém, não se intimidou e segue com o seu trabalho de levantar e apurar “coincidências” que ultrapassam o limite do tolerável em traduções. O caso mais recente envolve a editora Landmark e ganhou repercussão por conta de outro processo movido contra Bottmann e também contra Raquel Sallaberry, que mantém o site Jane Austen em Português. No blog, Bottmann apresentou provas de plágio na tradução dePersuasão, de Jane Austen, e O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, publicadas pela Landmark em 2007. “O método é sempre o mesmo. Mantém-se a estrutura da tradução e muda-se uma ou outra palavra antes que o texto seja publicado sob pseudônimo ou assinado por um tradutor desconhecido”, escreve Nahima Maciel, em matéria para o Correio Braziliense

“Entre as 15 editoras com problemas de catálogo, referentes a plágios e contrafações de tradução, a Landmark é a única a negar as evidências”, informa Bottmann. Segundo Alberto J. Marchi Macedo, advogado da editora, “a Landmark propôs a ação competente em face da blogueira Denise Bottmann por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio. Nesse momento a Editora Landmark acredita ser prudente aguardar a tutela jurisdicional que irá por um termo a esse assunto”.

Em entrevista exclusiva ao Portal Literal, a tradutora se defende: “Sustento o que afirmei e vou apresentar todas as provas em juízo. Imagino que a prática processual determinará que se proceda a uma perícia”. Desde que a notícia se tornou pública, divulgada pela tradutora e seu blog, há mais ou menos duas semanas, quase 250 posts, artigos e matérias foram publicados na rede sobre o tema. Foi criado o blogApoio a Denise Bottmann, onde um Manifesto de apoio à tradutora, inicialmente assinado pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone C. Benedetti, já conta com mais de 2.500 adesões. O texto pede mobilização para desmascarar uma prática que “1.Fere a Lei de Direitos Autorais, que considera o tradutor como autor de obra derivada e salvaguarda seus direitos morais e patrimoniais; 2. Configura concorrência desleal, pois as editoras de má-fé, não arcando com os custos dos direitos de tradução ou não pagando por uma retradução, põem em desvantagem as editoras que, pautando-se pela idoneidade, assumem tais custos; e 3. Atenta contra nosso patrimônio cultural, ao disseminar a cópia fraudulenta de obras muitas vezes assinadas originalmente por nomes reconhecidos e estimados de nossa literatura”.

Uma das maiores críticas à Landmark foi a tentativa de censura ao blog, solicitando “a remoção do blogueNão gosto de plágio da internet, invocando o ‘direito de esquecimento’; antecipação dos efeitos da tutela de mérito (ou seja, determinação da remoção imediata do blog antes do exame do mérito da ação impetrada)”. Segundo o advogado da Landmark, em nota enviada ao Blog do Galeno, “em nenhum momento, a Editora está pretendendo cercear o direito de liberdade de expressão, mas tão somente está solicitando a prestação jurisdicional para colocar fim às acusações infundadas que a prejudicam no mercado editorial”.

A seguir, Denise Bottmann recapitula a história de plágios no Brasil, arrisca uma resposta para a proliferação de casos de plágios recentemente, e fala sobre o seu ofício, que – apesar destes casos que mancham um trabalho árduo, sério e nada simples – vem se profissionalizando cada vez mais no país, onde as editoras sérias têm investido em traduções diretamente da língua original em que as obras foram escritas. Confira.

Por que criar um blog para denunciar o plágio nas traduções?


Denise Bottmann. Na verdade, tudo começou em dezembro de 2007, na esteira de matérias do jornalOpção, de Goiânia, e da Folha de S. Paulo, denunciando plágios da editora Martin Claret e da editora Nova Cultural. O e-group Litterati, que reúne tradutores, começou a discutir o problema e um dos participantes, Fábio Said, teve a idéia de montar um blog onde apresentaríamos um abaixo-assinado de protesto contra tais procedimentos editoriais e divulgaríamos notícias, tentaríamos angariar apoio etc. O blog se chamava Assinado-Tradutores. Depois, por divergências internas entre os colaboradores do blog, preferi me retirar e criar um blog pessoal, que é o Não gosto de plágio.

Você falou em pressão e intimidação nestes dois anos. Mas agora a ameaça é judicial. Aposta o que teria motivado a editora?

Bottmann. Já há uma ação judicial do Sr. Martin Claret, como pessoa física, em andamento contra mim. O juiz havia rejeitado de plano as alegações do Sr. Claret, seus advogados entraram com recurso, meu advogado entrou com as chamadas contra-razões, e agora estamos aguardando a decisão da junta recursal.

Realmente, não sei o que pode ter motivado a editora Landmark. Entre as 15 editoras com problemas de catálogo, referentes a plágios e contrafações de tradução, a Landmark é a única a negar as evidências. Então não entendi a razão da ação. Numa declaração dada ao jornalista Guilherme Freitas, de O Globo, "a editora Landmark afirmou, através de seu advogado, que entrou com a ação contra Denise 'por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio'." Bom, eu sustento o que afirmei e vou apresentar todas as provas em juízo. Imagino que a prática processual determinará que se proceda a uma perícia.

Ao que se deve a essa proliferação de plágios recentemente? A descoberta é que só se deu agora, ou a prática começou mesmo recentemente?

Bottmann. Olha, Bruno, esta é uma questão muito, muito importante. Plágio aqui, plágio ali, localizei um de 1903! Mas eram coisas muito avulsas e esporádicas, não chegavam, a meu ver, a configurar um procedimento sistemático no setor editorial. Não mesmo.

Bom, tenho a mais profunda convicção de que, enquanto fenômeno sociocultural em escala significativa, é algo recente. Embora eu sempre repita que o pioneirismo cabe à Nova Cultural, com o franco e deslavado recurso a essa prática a partir de 1995, foi um caso que hoje em dia considero até atípico. Em termos de volume, de escala, de abrangência, o caso da Nova Cultural foi brutal: calculo por baixo uns 2 milhões de exemplares.Considero atípico porque certamente a motivação, digamos assim, ou melhor, o contexto em que se desencadeou isso na Nova Cultural foi muito peculiar, em decorrência dos termos da partilha entre os dois irmãos e da extinção da Abril Cultural.

Bom, mas historicamente eu situo o início desse fenômeno nos plágios publicados pelo Círculo do Livro (que na época abrigava a recém-criada Nova Cultural) e pela própria Nova Cultural, tanto na coleção dos Imortais da Literatura Universal quanto na coleção d' Os Pensadores.

Mas a coisa realmente assume outro feitio a partir de 1999, em decorrência, em meu entender, da malfadadaLei do Direito Autoral (LDA), de 1998, a Lei n. 9.610. O que houve com essa lei? Em termos muitos resumidos, ela pura e simplesmente proibiu todo e qualquer tipo de xerox, cópia etc., e reduziu drasticamente as exceções anteriormente previstas pela lei de 1973.

Então, veja só, todo o ensino deste país, com o recurso maciço a xerox de capítulos de livros ou de livros inteiros, mesmo porque muitos são esgotados e não se encontram à venda, ficou refém dessa criminalização absurda.

Você deve lembrar das invasões policiais em tantos campi e faculdades de norte a sul do país, quando máquinas xérox foram lacradas, ações judiciais da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), com o apoio do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) contra os próprios reitores das universidades.

Bom, mas me diga: você dá aula de filosofia, ou de estética, ou de teoria literária, ou de artes cênicas, ou de cultura geral, quer falar sobre o conceito de unidade de ação, tempo e espaço, ou sobre a diferença entre tragédia e comédia, quer indicar aos alunos, sei lá, a leitura da Poética de Aristóteles. Meu deus, era pela coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, vendida em bancas de revistas, livro esgotadíssimo, e agora não pode mais tirar xerox, e só há, sei lá, dois ou três exemplares na biblioteca da faculdade. Multiplique isso por milhares de cursos e estabelecimentos de ensino, imagine a demanda medonha pela obra, que não existe, que não se encontra em circulação, e você não pode xerocar.

Falei no Aristóteles. Ponha aí Platão, Descartes, Hobbes, Maquiavel, Thomas More, Campanella, Marx, Ihering, Rousseau, Locke, Weber e quantos mais você lembrar como bibliografia obrigatória da graduação de todo o país, sem falar nos clássicos da literatura, de Homero até o século XX.

Aí, em 1999 começa o primeiro esperto a ver essa imensa demanda sem ser atendida, a ver que a lei realmente proíbe o xerox e a ABDR realmente persegue policial e judicialmente as oficinas de xerox, os professores, os alunos, os reitores etc. – e num estalar de dedos, revirando em sebos, você tem um enorme catálogo de obras fundamentais, com mercado garantido, demanda constante, a custo praticamente de banana. Editoras fechadas, por exemplo, Vecchi, Pongetti, Atena e tantas outras; tradutores mortos, por exemplo, Lívio Xavier, Godofredo Rangel, Leonidas Hegenberg; e por aí vai.

Então, em meu entender, esse fenômeno se funda, em primeiro lugar, no absurdo período de tempo necessário para que uma obra entre em domínio público: 70 anos APÓS A MORTE do autor (e tradutor, perante a lei, tem todos os direitos de autor). Vem uma nova conjuntura, com uma nova legislação, proibindo o acesso à obras esgotadas por xerox, digitalização etc., as escolas continuam a indicar Aristóteles, Platão etc. O que que resulta? Nesse nicho extremamente próspero e perverso de algumas editoras que recorrem maciçamente a tais procedimentos.

Poderia falar um pouco mais sobre a Nova Cultural, e o que significa essa volta dos clássicos pela Abril , 32 anos depois?

Bottmann. Eis os fatos que conheço sobre a questão:

Em 1982, houve a partilha da Abril entre os dois filhos de Victor Civita. Os fascículos e coleções de banca couberam a Richard Civita. Em 1984, a Abril Cultural é extinta. Coleções importantes da antiga Abril Cultural, como Imortais da Literatura Universal, Obras-Primas, Os Pensadores, Os Economistas, passaram para a Ed. Nova Cultural, como empresa de início pertencente ao Círculo do Livro e depois ao grupo CLC (Comunicação Lazer e Cultura). Em 1995, é publicado o primeiro plágio da Nova Cultural: Os irmãos Karamazov, na tradução de Natália Nunes, surge em nome de "Enrico Corvisieri", como primeiro volume inaugurando sua Coleção Imortais da Literatura Universal, com 20 títulos. Veja aqui.

Na mesma coleção, os volumes 3 (Balzac, A mulher de trinta anos), 4 (Tolstói, Ana Karênina), 8 (Stendhal, O vermelho e o negro), 10 (Zola, Germinal), 11 (Scott Fitzgerald,Suave é a noite), 15 (Dumas, Os três mosqueteiros) e 16 (Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray) são cópias mais ou menos disfarçadas de traduções anteriores. Veja aqui.

Em 1999, começam a surgir edições fraudadas na coleção Os Pensadores. Veja, por exemplo, a calamidade da edição do Discurso do método [de Descartes], também em pretensa tradução de "Enrico Corvisieri", o grau de infiltração nas escolas etc. Em 2002-2003, é lançada a coleção Obras-Primas, com o patrocínio da Suzano Celulose e do Instituto Ecofuturo, com 50 títulos, dentre os quais nada menos de 20 são plagiados de traduções anteriores.


Naturalmente, não faço idéia das razões que podem ter levado a Editora Abril a criar umanova coleção de clássicos da literatura. Posso ter lá minhas opiniões a respeito, mas não vêm ao caso. O que sei é que é uma coleção nova – embora muitos títulos também tenham sido publicados pela antiga Abril Cultural e pela Nova Cultural, agora são outras traduções, ao que sei, pela relação divulgada pela Editora Abril. Segundo a sra. Marta Medeiros, com quem conversei na Editora Abril, essas traduções foram licenciadas junto às editoras e/ou herdeiros de tradutores falecidos detentores dos direitos patrimoniais sobre elas. É uma operação editorial absolutamente normal e corrente. Quanto ao conteúdo propriamente dito, a única coisa que lamento é que a tradução de Crime e castigo seja por interposição do francês, e não direta do russo.

O que acha que os advogados da editora querem dizer quando afirmam que a ação foi movida contra você "por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio"?

Bottmann. Boa pergunta. Não sei te dizer. De minha parte, eu digo que as denúncias estão totalmente agarradas à realidade fática, razão pela qual existe todo o cabimento quanto à acusação de plágio.

Em que circunstâncias você começou a traduzir livros?

Bottmann. Olha só, que interessante. Naquela época (1985), eu dava aula na Unicamp, e um dia alguém da Brasiliense, meio de ponto em branco, por intermédio de uma amiga jornalista, me propôs fazer a tradução de um livrinho chamado O capitalismo histórico, de Immanuel Wallerstein. Como sou historiadora, achei interessante e topei. A Brasiliense gostou, e me passou logo a seguir A crise da crise do marxismo, de Perry Anderson. Então, de 1985 a 1995, mais ou menos, fiquei fazendo um pouco de tradução, sempre nessa área mais acadêmica, geralmente ligada à história, à historiografia, teoria da história etc. Mas depois parei, por uns dez anos, e em 2005 resolvi tentar de novo. Deu certo, e hoje em dia me dedico bastante a traduções. Mas sempre nessa área mais, digamos, acadêmica, ligada à ciências humanas e humanidades em geral.

Traduzir é sua ocupação integral? É possível dedicar-se só a ela no Brasil?

Bottmann. Quer dizer, atualmente é minha única ocupação, embora não em tempo integral. As pesquisas de história da tradução no Brasil, dos plágios, que faço por conta própria, me tomam um tempo danado. Dedicar-se só a ela, você diz em termos monetários? Olha, quando eu me afastei da Unicamp, foi por razões de ordem pessoal, e nunca cheguei a me aposentar. Então minha renda atual provém única e exclusivamente das traduções. Como vivemos, meu marido e eu, meio retirados, numa cidade pequena, não faço muita idéia do que são salários, remunerações etc., hoje em dia. O que posso te dizer é que é mais do que eu recebia como docente universitária. Não sei, Bruno, realmente não sei se é feio falar essas coisas ou se eu vivo muito defasada das faixas de remuneração dessa classe média-média à qual me sinto integrada, mas acho que, para mim, está de bom tamanho. Então acho que sim, é possível viver bem razoavelmente apenas com o trabalho de tradução.

O que lhe instiga nas traduções?

Bottmann. Ah, eu adoro. Não sei dizer. É tipo charada, são pequenos desafios constantes e ininterruptos. É algo que realmente envolve a mente. Sempre tive a impressão de que é um tipo de atividade que demanda alguns traços obsessivos de caráter: aquela coisa meio maníaca de muita concentração e persistência, e senso de desafio. É algo meio competitivo, de você consigo mesmo.

Para o que um tradutor deve atentar quando mergulha na tradução de uma obra?

Bottmann. Ih, não sei. Como não faço tradução literária, e sim mais teórica e conceitual, as principais preocupações são com os conceitos, o fio da argumentação e a estruturação "lógica", digamos assim, da obra. Claro, não estou falando da língua, das estruturas sintáticas, frasais, pois ça va sans dire.

Você traduz prosa, poesia, ficção e não-ficção, ensaios etc.? O que muda de um gênero para outro?

Bottmann. Vide acima. Não faço tradução literária. Fiz apenas O amante, de Marguerite Duras, para a Cosac Naify, acho que ficou bem razoável, recebeu boas críticas e uma boa tese de análise comparada. No momento, excepcionalmente, até estou fazendo um romance, mas não é muito minha praia. Talvez algum dia... Muda, muda muito. Não tem nada uma coisa a ver com a outra. Traduzir, sei lá, Hannah Arendt, cuja língua materna é o alemão, mas que escreveu muita coisa em inglês, num inglês aliás bem arrevesado, discorrendo sobre Dilthey ou sobre o conceito de compreensão ou de causalidade em Kant, é muito diferente da mocinha contemplando o Mekong conforme a barca vai descendo o rio, no francês ébrio e semissussurrado de uma Duras. São paixões diferentes. Pessoalmente, gosto mais da paixão arendtiana. Bem ou mal, uma teórica apaixonada acaba tendo uma passionalidade mais concreta do que uma literata apaixonada, pois esta até pode projetar e transpor essa paixão para os personagens, enquanto uma teórica apaixonada dificilmente projetará suas paixões sobre Santo Agostinho, por exemplo. Sua paixão se executará na escrita, num outro registro, num outro nível, na reflexão, não sei bem como dizer.

O que lhe deu mais prazer ao traduzir?

Bottmann. Olha, há vários livros de que gosto muito. Um que foi muito importante para mim foi Piero della Francesca, de Roberto Longhi, que foi minha efetiva retomada do ofício, já em 2006. O primeiro Longhi, o da juventude, mesmo para os italianos é considerado um desafio estilístico. E aprendi muitíssimo, é uma obra linda, e fiquei muito, muito feliz quando soube que a tradução foi apreciada por gente que respeito muito, como Jorge Coli, Luiz Marques, Marco Lucchesi...

E o que lhe deu mais dificuldade?

Bottmann. Além do Longhi, que foi difícil e muito prazeroso, fiquei assombrada com o grau de dificuldade que tive, você não acredita com quem: Thoreau, Walden Pond !!! A quantidade de referências ocultas, implícitas, cruzadas, entrecruzadas, sobrecruzadas, de trocadilhos, aliterações, assonâncias, dissonâncias, metáforas, um tratamento alegórico forte, sua concepção da correspondência entre micro e macrocosmo não só na natureza, mas também envolvendo as sociedades humanas, jogos de palavras, registros diferentes do oral ao mais formal e até o lírico, com poemas do próprio Thoreau, as classificações zoológicas e botânicas e outros, fiquei perplexa. Não fazia idéia. Tomou-me o triplo do tempo que eu imaginava que levaria. Cheguei a fazer uma edição anotada, com umas cinqüenta páginas, mas a editora teve por bem não usar as notas. Ainda não saiu, deve sair em julho. Sinceramente não sei como ficou em português, tomara que preste. Mas é um texto muito difícil, quase hermético, e boa parte das referências vai passar batido para o leitor, e talvez o texto em português possa vir a parecer inexplicavelmente opaco, mas é porque não tinha como ficar parafraseando, cortando ou simplificando demais aquela carga absurda de referências. Fiquei orgulhosinha porque, naturalmente, consultei edições anotadas de vários comentadores abalizados, e trechos que nem eles próprios conseguiam desvendar eu consegui! Não digo a língua, o inglês, mas o sentido da coisa, o sentido da inserção daquele trecho naquela passagem, sua relação interna e suas referências externas, esse tipo de coisa. Mas, como lhe disse, a edição não vai sair anotada. Talvez algum dia eu publique um voluminho,Lendo Thoreau :-)

Como vê a situação da tradução no Brasil, comparada com outros países, não só da Europa e os Estados Unidos, mas também com o restante da América Latina, Ásia e Leste europeu?

Bottmann. Não sei dizer. Mas o Paulo Werneck [editor da Cosac Naify] diz uma coisa interessante: o Brasil é o país no mundo com os melhores tradutores literários no mais amplo leque de línguas, devido às inúmeras migrações para o país, desde poloneses, húngaros, chineses, japoneses, russos, árabes ao que mais você imaginar. Ele coloca a coisa de forma mais elaborada, mas é algo meio por aí.

O que esses casos de plágios revelam sobre essa situação?

Bottmann. Os casos de plágios de tradução, a meu ver, mostram o absurdo e o despropósito da atual Lei n. 9610/98 e a necessidade premente de uma reformulação de alguns dispositivos da lei, no que refere ao direito de reprodução para fins de ensino e uso privado, sem fim lucrativo, mas principalmente a liberação, mesmo para fins comerciais, dos direitos de publicação das obras esgotadas, órfãs e abandonadas, que são o grande alvo dos saques. Os EUA traduzem tão pouco, a Europa idem, seus capítulos sobre o acesso a obras órfãs e abandonadas, e uso didático e privado, são de modo geral tão mais flexíveis do que os nossos que nem há termo de comparação possível. De fato, acho que esse terreno tão fértil para a avalanche dos plágios em escala industrial resulta de uma conjuntura muito específica: o tremendo avanço das tecnologias digitais e uma reforma extremamente retrógrada da lei de 1973, que resultou no espantalho da de 1998, justamente num momento de salto tecnológico na área digital. Fica patético: e-books a torto e a direito, cópias xerox proibidas, livros de baixa qualidade gráfica e editorial com conteúdo roubado. Tenho pena das turmas que ingressaram nas universidades a partir de 1999...

O que pensa sobre a autoria e o direito autoral do tradutor? Como equacionar essa questão delicada?

Bottmann. Não entendi bem. Mas o que eu gostaria de comentar é a bizarríssima situação jurídica criada pela malfadada Lei n. 9610/98, nossa atual Lei do Direito Autoral (LDA). Já comentei que houve um brutal estreitamento dos capítulos que dispunham sobre o acesso às obras. Além disso, segundo a LDA, quanto às violações de seus dispositivos, a eventuais lesões dos direitos ali regulamentados, as únicas partes que poderiam reclamar e ir a juízo seriam os "diretamente" envolvidos, ou seja, no setor editorial, o autor/tradutor ou seus sucessores, e a editora lesada. Como se não existissem leitores, como se não existissem cidadãos, como se não existissem entidades, instituições públicas e privadas, bibliotecas idem idem, que pudessem se sentir lesadas, por exemplo, com o problema do plágio editorial. O único recurso que restava justamente ao destinatário mais importante deste bem cultural que é o livro – a saber, o cidadão leitor – seria reclamar ao Ministério Público... Imagine só! Se você lembrar, de mais a mais, a gradual extinção de qualquer instância pública regulatória na seara autoral a partir de 1990, a situação realmente ficou um descalabro. Veja, com a LDA de 1973 foi criado o Conselho Nacional do Direito Autoral (CNDA). Em 1990, ele foi praticamente desativado, e na lei de 1998 foi simplesmente extinto. Então ficou apenas aLei n. 9610/98, dispondo sobre os direitos autorais exclusivamente entre as partes, sem levar minimamente em conta as necessidades sociais de acesso aos bens culturais (de novo, repito, proibição de xerox, microfilmes, todo e qualquer tipo de reprodução sem fins lucrativos, para acervos públicos, ensino, uso privado etc.), nem a possibilidade de ação judicial no caso dos destinatários finais, os próprios usuários, que eventualmente se sentissem lesados, nem a existência de qualquer instância oficial, pública, a que pudéssemos recorrer. Não é um absurdo? Ficou uma lei totalmente patrimonialista, a indústria cultural de um lado, as pessoas físicas dos autores do outro, e ponto. Então, saudei com grande alegria a recente criação daDiretoria dos Direitos Intelectuais (DDI), no Ministério da Cultura (MinC), que prevê também o atendimento e defesa dos interesses do LEITOR! Ainda é muito recente, não sei como está operando, mas acho que é um grande avanço. Afinal, quem compra os livros são os cidadãos (e o governo, para escolas, bibliotecas etc.), e não vai poder reclamar quando vê algum problema? Complicado. Além disso, também nesse debate em curso para a revisão de alguns aspectos demasiado restritivos da atual LDA, estou vendo a inclusão da figura do cidadão, do usuário, justamente, e acho isso muito positivo.

Mas foi em virtude dessa falta de dispositivos jurídicos na atual LDA para a defesa dos interesses dos leitores cidadãos que me vi obrigada a entrar com mais de uma dúzia de pedidos de representação junto ao Ministério Público Federal e aos Ministérios Públicos estaduais de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná, para pedir providências nesses descalabros.

Outra coisa: diz-se "direito autoral". Bom, acontece que em grande parte dos debates, das discussões, do mero uso da expressão "direito(s) autoral(is)", o que está se mencionando é o direito autoral patrimonial, isto é, o direito econômico de exploração comercial daquela obra. Então você tem aquela situação bizarra de algumas editoras ou associações de editoras dizendo "respeite o direito autoral", mas silenciando ou fazendo vistas grossas sobre suas próprias práticas ou as práticas de alguns de seus associados que infringem rudemente os direitos autorais MORAIS, isto é, o direito a ter estampado seu nome, a reivindicar a qualquer momento a paternidade e exigir a integridade da obra de sua autoria etc. No caso dos plágios, repito, como a imensa maioria dos autores/tradutores é falecida, e muitas vezes nem se localizam seus sucessores, a coisa realmente fica meio descontrolada.

Ora, pessoalmente eu me recuso a engolir uma tradução de Monteiro Lobato ou de Odorico Mendes ou de Eça de Queiroz, copiada e estampada em nome de um fantasma inventado qualquer, e acho realmente um atentado contra os direitos morais desses autores/tradutores, e principalmente contra os direitos dos cidadãos em ter acesso a obras legítimas e os direitos da sociedade em ter preservado seu patrimônio imaterial. Pois imagine que empobrecimento de nossa cultura geral! Você está lendo a prosa de Eça tradutor, de Lobato tradutor, de Odorico tradutor, e nem sabe! E depois vai dizer: "Ai, mas que coisa difícil esse Homero", ou "Nossa, Monteiro Lobato traduzia? Eu não sabia..."

De qualquer maneira, temos visto surgir muitas e boas traduções nos últimos anos, diretamente da língua de origem dos livros, o que não acontecia até alguns anos atrás. O que, de fato, mudou para melhor? E o que ainda precisa melhorar, em se tratando das traduções no Brasil?

Bottmann. Sim, é verdade, ufa, que bom. Acho que é fruto de um amadurecimento gradual do setor editorial. Pois todos esses descalabros que me deixam doente, e imagino que deixem muita gente doente, são praticados por uma pequena minoria de casas editoriais. Seus efeitos são medonhos, já comentei isso antes, e a impunidade que tem cercado esse vicejamento dos plágios a partir de 1999 é também um dos principais elementos a contribuir para esse fenômeno. Já disse também: acho que a DDI pode ter aí um bom papel para dirimir esse tipo de conflito leitor lesado x editora lesiva; acho que o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e as promotorias da Justiça do Consumidor têm mostrado maior sensibilidade ao problema e assim por diante.

Posto isso, olha, sinceramente acho que as traduções no Brasil, graças aos bons praticantes do ofício, às editoras sérias e idôneas e aos leitores atentos e exigentes, estão indo bem, obrigado.

E uma última questão é: será que a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores do Livro (Snel) poderiam se manifestar claramente sobre a situação dos plágios no país?



*Bruno Dorigatti foi editor do Portal Literal entre setembro de 2009 e junho de 2010. Foi subeditor e repórter do Portal Literal de março de 2005 a março de 2009.

fonte: http://banzeirotextual.blogspot.com.br/2010/07/bruno-dorigatti-entrevista-denise.html