28 de dez de 2010

a febre de voltaire

o caso do voltaire ressurreto na coleção "sacode a poeira" da folha me levou a procurar outras traduções dos anos 1930-1950. encontrei coisas interessantes, e minha listinha ficou assim:

1. cândido, ou o otimista, na já citada tradução de jorge silva, pela editora athena, 1938;
2. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, pela livraria martins, no volume o pensamento vivo de voltaire, 1940;

3. cândido, ou o otimista, tradução de galeão coutinho, pela livraria martins, 1943;

4. cândido, tradução de mario quintana, pela editora globo, num volume chamado contos e novelas, 1951;

5. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, num volume pela difel com o título romances e contos, 1959.

quatro traduções do cândido entre 1938 e 1951! devia estar uma febre danada de voltaire naqueles anos.

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interessou-me bastante a edição rosadinha da martins, em sua coleção excelsior. já há o caso muito bizarro do zadig de voltaire, envolvendo galeão coutinho e mario quintana, ambos assinando traduções absolutamente idênticas, fato que atribuí a algum lapso da editora itatiaia. veja aqui. por outro lado, é interessante que um livro chamado candide, ou le optimisme encontre duas traduções diferentes com o título cândido, ou o otimista. como essa tradução do cândido pela atena parece ser filha única de mãe viúva, como diziam antigamente, do tal "jorge silva", quero dar uma checada. vai que é algum pseudônimo do galeão?

obs.: romances e contos da martins aparece na ilustr. 2 na edição de 1951.
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atualização

prosseguem as notas de leitura no lendo walden, na sequência de baixo para cima:

homero, a leitura

a casa, V

homero e mitos de origem

homero em walden

lareira: referências

a casa, IV

a casa, III

a casa, II

a casa, I

contraste como figura de estilo

lunáticos

sons da mobelha

a mobelha: o riso, o uivo e o chamado

o ulular da coruja

o uivo do mocho

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27 de dez de 2010

coleção poeira

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Acho que a Coleção Folha "Livros que Mudaram o Mundo" devia mudar de nome e passar a se chamar Coleção Poeira.

Vendo o Cândido, ou o otimista, de Voltaire, que sai nesses dias, fiquei mais uma vez decepcionada.


A tradução de Voltaire feita por Jorge Silva foi publicada de início pela editora Atena em 1938, lá se vão mais de setenta anos.


Quem visita o nãogostodeplágio sabe que sou enérgica defensora da preservação de nosso patrimônio tradutório, o qual entre 1995 e 2009 andou sofrendo saques desenfreados. Mas daí até achar que o tempo parou e que desde os anos 1930-1940 não surgiram novas traduções quiçá mais meritórias vai uma grande distância.

Recapitulemos. Nos volumes lançados pela Coleção Poeira, temos:
  • um descarado plágio de uma antiquésima tradução lusitana de 1908: Darwin, A origem das espécies, ainda por cima feita por interposição do francês e crivada de erros grotescos;
  • um lançamento francamente enganoso: o livro de Gabriel Deville, O capital de Karl Marx, resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo científico, apresentado como se fosse o próprio O capital de Marx em edição condensada, e como se o Estudo sobre o socialismo científico fosse de sua autoria, também em vetusta tradução; 
  • uma edição de Descartes que dá vontade de chorar de tão ruinzinha que é; 
e nada menos que cinco títulos - a rigor seis, pois o volume de Maquiavel agrupa duas obras - com encanecidas traduções da antiga Atena (que fechou nos anos 1960), desde então exaustivamente republicadas por várias editoras - Ediouro, Abril Cultural, Nova Cultural, Agir, Nova Fronteira, Escala, Cultura Brasileira, Livraria Exposição do Livro, Hemus, Edipro - e que até acho que talvez já estejam em domínio público:

  • Maquiavel, O príncipe, tradução de Lívio Xavier, 1933
  • Maquiavel, Escritos políticos, tradução de Lívio Xavier, 1940 
  • Platão, A república, tradução de Albertino Pinheiro, s/d (em 1950 já era a 4a. ed.)
  • Thomas Morus, Utopia, tradução de Luís de Andrade, 1937
  • Aristóteles, A política, tradução de Nestor Silveira Chaves, 1944
  • Voltaire, Cândido ou o otimista, tradução de Jorge Silva, 1938

A Coleção Poeira tinha anunciado que a obra de Pascal, Pensamentos, sairia na tradução de Paulo M. Oliveira, também do baú de nossas avós. Mas aparentemente mudou de ideia, pois substituiu em seu site o nome de Paulo Oliveira pelo de outro tradutor. Apenas notei a troca de nomes, mas não cheguei a comprar o exemplar nessa outra tradução.


De mais a mais, A república de Platão e A política de Aristóteles são traduções do francês um tanto, digamos, superadas, e que em minha opinião têm valor basicamente histórico.


Não entendi muito bem a razão para reeditar esses títulos, em tradução seja espúria, medíocre ou ultrapassada, em tiragens tão grandes e com tanto aparato de marketing.
  • sobre darwin, a origem das espécies, veja aqui
  • sobre gabriel deville, o capital de karl marx, veja aqui
  • sobre descartes, discurso sobre o método e princípios de filosofia, veja aqui
Retificação em 02/01/11: a tradução de Platão feita por Albertino Pinheiro relançada nesta coleção é O banquete, 1943, também pela Atena.


aqui na edição de 1950, em volume duplo
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21 de dez de 2010

novo blog

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como os caros leitores do nãogostodeplágio devem ter notado, iniciei uma série de notas sobre walden, de thoreau, que provavelmente ainda se estenderá por bastante tempo. elas estão aqui. minha intenção é reunir subsídios para vir a compor um estudo de perfil mais alentado. esses subsídios, quero ir publicando como uma espécie de "primeira versão", mais informal, que talvez possam ter algum interesse puntual.

de qualquer forma, iniciei um novo blog, chamado lendo walden, dedicado exclusivamente a essas notas de leitura e pesquisa. assim, o nãogostodeplágio interrompe a série em "lendo walden, XIX", e as notas já publicadas aqui serão republicadas lá.
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lendo walden, XIX

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Comentei a infinidade de espécies vegetais que Thoreau menciona em Walden. A fauna - da água, da terra e do ar - também comparece às centenas.


Dois ou três se destacam maravilhosamente; mais que metáforas, como que signos vivos, de altíssimo grau de condensação, estereótipos (como diria Thoreau) da criação. São eles a mobelha (loon, Colymbus glacialis), o mocho orelhudo (hooting owl, Bubo virginianus) e especialmente o lúcio (pickerel, Esox lucius). São longos trechos onde o denso estilo de Thoreau deixa de lado as frases curtas, as ironias incisivas, os juízos ásperos: faz-se ora distendido, ora empático, ora quase grandioso.


Os três são mencionados em diversas ocasiões, mas as passagens mais detidas se encontram, respectivamente, em "Vizinhos irracionais, "Sons"/"Animais de inverno" e "O lago no inverno". 

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20 de dez de 2010

lendo walden, XVIII

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Henry David Thoreau não se chamava assim. Seu nome era David Henry Thoreau, e aos 20 anos, ao voltar de Harvard para Concord, fez a inversão dos nomes, sem chegar a registrar legalmente a mudança. Na verdade, preferia Henry D. Thoreau.



Existem algumas interpretações sobre o fato, mas ele mesmo não deixou explicações. Thoreau mantinha registros em caráter esporádico, e só iniciou de fato seu diário, que veio a ocupar 47 volumes manuscritos, também aos 20 anos, no retorno da faculdade, por sugestão de Emerson, e aí já como Henry David.

Thoreau é sobrenome de origem francesa, e muitos pronunciam mais ou menos "Thorôu". Mas Alcott comenta que Thoreau, pessoalmente, pronunciava como Thór-o, e em Concord diziam também Thôr-o. Aliás, em seu outro grande prazer, a filologia, não deixava de apontar distantes relações entre seu sobrenome e Thor, o deus escandinavo do trovão e da agricultura, e/ou thorough (perfeito, íntegro, completo) em inglês. Imagino que fosse uma boutade.
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lendo walden, XVII

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A certa altura (p. 137), ao falar de saúde, Thoreau diz:

Qual é a pílula que nos manterá bem, serenos, contentes? Não a do meu ou do teu bisavô, mas a botânica medicinal universal de nossa bisavó Natureza, com a qual ela mesma se conserva sempre jovem, sobrevivendo a tantos velhos Parrs e alimentando sua saúde com a obesidade decadente deles.
Old Parr conhecemos mais como aquele uísque escocês meio forte (que existe desde 1871). O nome não é à toa: trata-se, no uísque e na passagem de Thoreau, do inglês Thomas "Old" Parr, famoso como o homem mais longevo do mundo, nascido em 1483, falecido em 1635, com quase 153 anos de idade. Não que Thoreau demonstre grande simpatia por ele...


Na continuação do parágrafo, Thoreau declara que não é adepto dos recursos da medicina ("Não sou adorador de Higeia, filha daquele velho curandeiro Esculápio"). E, numa imagem que parece curiosa, completa: "e sim de Hebe, a escansã de Júpiter, filha de Juno e da alface-silvestre" (p. 138).

Tive um problema de gênero para traduzir wild lettuce, que, a despeito de aparecer aqui como pai de Hebe, ficou no feminino... A versão mais corrente é que Hebe seria filha de Hera e Zeus (Walden traz o correspondente romano Júpiter), mas Thoreau adota a versão menos habitual de que Hera teria concebido Hebe ao tocar numa folha de alface-silvestre.

Seja como for, a alface-silvestre, alface-brava ou alface do ópio é a lactuta virosa, erva com propriedades analgésicas, sedativas e brandamente psicotrópicas, relaxando os estados de ansiedade, com efeitos narcóticos e aumentando a vividez dos sonhos. É conhecida desde a antiguidade grega e entrou na mitologia na figura de sua filha Hebe, a atendente que servia nos cálices dos deuses o elixir da imortalidade.


Thoreau não usava álcool, chá, café, tabaco, e não era um adepto de "ampliar a percepção" com recursos externos. Pelo contrário, e numa provável menção indireta a De Quincey (cuja obra de helenista bem conhecia), ele dizia: "prefiro o céu da natureza ao paraíso de um comedor de ópio" (p. 209). E acrescentava: "Entre todas as espécies de embriaguez, quem não prefere se inebriar com o ar que respira?"

Assim, o cântaro de Hebe - em oposição à taça de Esculápio, "onde às vezes se abebera a serpente" (e é impossível deixar de sentir aí uma anacrônica ressonância do símbolo cristão do mal) - aparece como um dos recursos da "botânica medicinal universal" a que ele se referia antes. Belamente termina o parágrafo: "e, por onde ela ia, era primavera".

imagens: old parr e hebe (wiki)
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19 de dez de 2010

lendo walden, XVI

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A Ilustríssima de hoje, na versão online, publicou uma breve entrevista minha a Marcelo Maraninchi, sobre Walden e Thoreau.
Em entrevista à Ilustríssima, Bottmann conta como foi seu primeiro contato com a obra, menciona os desafios da tradução e afirma Goethe, Wordsworth e Kant como influências perceptíveis na obra de Thoreau.

Folha - Quando você teve contato com Thoreau pela primeira vez, e como foi?

Denise Bottmann - Li Walden pela primeira vez aos 16, 17 anos (1970/71), numa época em que abandonar a faculdade, sair pelo mundo de mochila nas costas, viver no campo, morar em comunidade, virar vegetariano ou macrobiótico, em suma, levar uma "vida alternativa", exerciam um tremendo fascínio para adolescentes urbanos sob a ditadura. Andei com aquele livrinho debaixo do braço por uns três, quatro anos. Duvido que tenha entendido muita coisa, além de decorar frases de efeito e guardar folhinhas secas entre suas páginas. Mas era uma companhia muito interessante.

Quando tempo você dedicou à tradução de Walden? Quais foram os maiores desafios?

Olha, quem faz tradução em tempo integral e vive disso tem de ter uma produtividade média razoável. Então, quando hoje revejo a quantidade de pesquisas e anotações que fiz, até me admiro que tenha levado apenas quatro meses, mesmo em regime de trabalho bem puxadinho. Por outro lado, é um absurdo de tempo, pois qualquer tradutor morreria de fome se levasse esse tempo todo para fazer 300 páginas. Quero dizer: para um leigo, quatro meses pode parecer pouco, e para um estudioso não é nada; mas, para um tradutor profissional, é bastante.

Como você avalia a importância dele para a cultura americana?

Essa pergunta beira o irrespondível, de tão abrangente e complicada que é. Mas, muito esquematicamente, eu diria: no contexto da história do pensamento moral americano oitocentista, ele foi a voz levemente - atenção, apenas levemente - dissonante e um pouco estridente entre aquela linhagem do individualismo de tipo heroico que tem em Emerson seu grande expoente. Já no contexto dos anos 60/70, período de sua redescoberta e divulgação entre o grande público, Thoreau foi alçado a guru de diversas correntes ideológicas que, a meu ver, dificilmente ele compartilharia. Tenho bastante dificuldade em enxergá-lo como papa da contracultura - e no entanto é essa sua adoção pelos pacifistas, hippies e outras correntes posteriores (ecologistas e vegans, p.ex.) que permitiu desempoeirá-lo daquela pátina meio mofada do transcendentalismo novo-inglês.

Thoreau tem uma dicção que lembra, em vários momentos, poetas como Walt Whitman e Álvaro de Campos. Seu isolamento e paixão pelos livros lembra também Montaigne. Você identifica uma linhagem clara para ele, com as implicações de filiação e influência literárias?

Quanto à dicção, sobretudo Wordsworth, não? Quanto à linhagem nem sempre explícita e à flor da pele, mas muito enraizada e entranhada, seria, a meu ver, o romantismo inglês, com sua leitura bastante peculiar de Kant, o papel da percepção e da intuição, e sua teoria do sublime. E não há como deixar de ver o dedinho de Goethe com sua doutrina da natureza.

Esse aspecto final que comento por cima - a presença de Kant, via romantismo inglês, no transcendentalismo da Nova Inglaterra (e daí também a designação do grupo) - me parece muito fecundo. Voltarei ao tema.

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18 de dez de 2010

lendo walden, XV

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Uma das ideias a meu ver um tanto equivocadas que cercam o mito de Walden é que Thoreau estaria procurando uma vida isolada.

De maneira nenhuma. Quando morava em Walden, recebia muitas visitas, acolhia hóspedes, promovia reuniões na casa; aceitava excursionistas e visitas guiadas de turmas de escolas; ia diariamente, ou quase diariamente, à cidade; visitava os vizinhos nas áreas próximas; era convidado para dar palestras em Concord; costumava jantar na casa de Emerson ou da própria família (consta que, antes de servir a refeição, a esposa de Emerson tocava um sino que Thoreau ouvia em Walden, avisando-o que a comida estava quase pronta). Apenas durante uma ou duas semanas não teve visitas em Walden, devido à intensidade das neves no auge do inverno (p. 252); mas mesmo nesse período ele não deixou de ir à cidade (p. 254). Thoreau podia ser meio brusco e abespinhado no trato com as pessoas, crítico feroz do convívio social superficial, eivado de formalismos e convencionalismos, mas nunca abriu mão da companhia dos amigos e conhecidos, nem mesmo de qualquer potencial público ouvinte.

Eremita ou anacoreta seria uma das mais impróprias descrições de Thoreau. Embora em "Vizinhos Irracionais" ele descreva uma visita de Channing a Walden, para irem à pesca, criando um diálogo entre o Ermitão e o Poeta (pp. 215-217), o parágrafo inicial de "Visitas" parece dar um retrato mais fiel de sua personalidade:
Penso que gosto de convívio social tanto quanto a maioria das pessoas, e rapidamente grudo como sanguessuga em qualquer homem de sangue bom que me apareça pela frente. Não sou ermitão por natureza, e poderia muito bem me converter no mais convicto frequentador de bares, se meus assuntos me chamassem a isso. (p. 139)
A questão - ou o ponto a ser provado - era a autossuficiência, não o isolamento. Se o parágrafo que abre o livro diz "eu vivia sozinho na mata", o ponto que ele destaca é que morava "numa casa que eu mesmo tinha construído" e "ganhava minha vida apenas com o trabalho de minhas mãos" (p. 17). A autonomia do homem, sua independência passava por ser capaz de prover sozinho a suas necessidades. E tanto mais fácil ser autossuficiente quanto mais simples as necessidades.

Por isso Thoreau procede ao arrolamento das "coisas necessárias à vida": alimento, abrigo, roupa e combustível para o aquecimento, sobre as quais discorre entre as páginas 25 e 29. Segue-se uma digressão sobre suas atividades antes de decidir ir para Walden (pp. 29-33), quando, "para chegar logo à parte prática da questão", passa a expor como proveu àqueles quatro "recursos ... indispensáveis".

Começa pela roupa nos aspectos gerais (pp. 33-38), segue para o abrigo também nos aspectos gerais (pp. 38-50), descreve a construção do abrigo em termos específicos, isto é, em Walden (pp. 50-62), então expõe o que fazia para garantir seu pão (pp. 62-71), comentando até surpreendido o pouquíssimo trabalho para obter o alimento necessário para a subsistência (p. 68). Ele registra meticulosamente suas receitas e despesas para demonstrar como era possível viver com pouco e preservar a independência. Há alguns detalhes práticos e até engraçados, que Thoreau menciona apenas de passagem: quem lavava e consertava suas roupas eram a mãe e a irmã, que naturalmente não lhe cobravam nada pelo serviço, e por isso ele não pôde lançar as despesas em sua contabilidade: "tirando lavar e consertar a roupa, que em geral foram serviços feitos fora e as contas ainda não tinham chegado" (p. 67).

Quanto às maneiras concretas de obter roupa e combustível, desconversa:

Assim, quanto à comida, eu já podia dispensar qualquer troca e comércio, e, já tendo um abrigo, faltava apenas conseguir roupa e combustível. As calças que estou usando agora foram tecidas num lar de agricultores (...) e num país novo combustível não é problema. (p. 71)
Em sua crítica à divisão industrial do trabalho e em seu elogio à autossuficiência, a questão é como preservar o máximo de tempo livre. Bens materiais são armadilhas que tolhem a liberdade do homem, roubando-lhe o tempo de uma vida autêntica.

O longo capítulo inicial é o esforço de demonstrar "na ponta do lápis" como é possível escapar a tais armadilhas: descobri que, trabalhando cerca de seis semanas por ano, podia fazer frente a todas as despesas da vida (p. 75); descobri que a profissão de diarista rural era a mais independente de todas, principalmente porque bastavam apenas trinta ou quarenta dias por ano para sustentar uma pessoa (p. 76). Antes disso já comentara: os rebanhos são os pastores dos homens, pois são muito mais livres (p. 64); os homens se enganam em trabalhar e acumular bens, pois "é uma vida de tolo" (p. 19); os dedos não conseguem colher os frutos delicados da vida, pois ficam deformados pelo excesso de trabalho (p. 20); os luxos e confortos da vida são, na maioria, francos obstáculos à elevação da humanidade (p. 27); os avanços modernos não passam de meios aperfeiçoados para um fim não aperfeiçoado (p. 61); um espírito simples e independente não trabalha sob as ordens de ninguém (p. 65)...

Autonomia sim, isolamento não.
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lendo walden, XIV

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Outra faceta muito interessante em Thoreau era sua atividade como tradutor. Graças à sua formação em literatura e línguas clássicas, ele traduziu Ésquilo, Píndaro, Anacreonte, publicados em 1843 e 1844 em The Dial, o periódico transcendentalista,* além de rascunhos que ficaram inéditos. A título de amostra, temos em Walden algumas passagens em que traduz Varrão e Catão, aliás aproveitando a oportunidade para desancar uma tradução de Catão que circulava na época (p. 90).

*Aqui encontram-se todos os números de The Dial entre 1840 e 1844. Para quem se interessar pelo convívio de Thoreau com os clássicos gregos e latinos, existe um artigo bastante informativo de Ethel Seybold, "Thoreau: The Quest and the Classics", in Harold Bloom (org.), Henry David Thoreau. Nova York: Infobase Publishing, 2007, pp. 13-34. 

Com seu enorme interesse pelas filosofias e doutrinas orientais, Thoreau também traduziu vários analectos de Confúcio, por interposição do francês, a partir da tradução de M. J. Pauthier, Confucius et Mencius. Em 1844, The Dial publicou uma tradução da Parábola das Ervas, o quinto capítulo da Sutra do Lótus, um dos textos sagrados centrais do budismo mahayana (a partir da tradução de Eugène Burnouf do sânscrito). Alguns estudiosos dão por certo e outros consideram altamente provável que a tradução para o inglês tenha sido feita por Thoreau, sozinho ou em colaboração com Elizabeth Palmer Peabody.


Detalhe interessante: trata-se da primeira versão em inglês de qualquer passagem das escrituras budistas.

De Anacreonte reproduzo aqui a tradução de Thoreau, que ele incluiu em seu longo artigo sobre a "História Natural de Massachusetts" (The Dial, 1843, I), apresentando o poema como um dos mais memoráveis. Impossível não ver nele a antecipação do pathos que envolverá várias passagens de Walden.
Return of the Spring

Behold, how spring appearing,
The Graces send forth roses;
Behold, how the wave of the sea
Is made smooth by the calm;
Behold, how the duck dives;
Behold, how the crane travels;
And Titan shines constantly bright.
The shadows of the clouds are moving;
The works of man shine;
The earth puts forth fruits;
The fruit of the olive puts forth.
The cup of Bacchus is crowned,
Along the leaves, along the branches,
The fruit, bending them down, flourishes.
No mesmo artigo há outra ode de Anacreonte, "A cigarra", também traduzida e vivamente recomendada por Thoreau. Ficaria um pouco longo reproduzi-la aqui, mas não resisto a transcrever os primeiros quatro versos:
We pronounce thee happy, Cicada,
For on the tops of the trees,
Drinking a little dew,
Like any king thou singest.
Entende-se por que Thoreau, ao arrepio das interpretações usuais na história da literatura, considerava Anacreonte não um um poeta sensualista menor, e sim um poeta da elevação.

imagem: sutra do lótus

17 de dez de 2010

lendo walden, XIII

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Em Walden são infindáveis as menções às várias ervas, líquens, fungos, arbustos, árvores, às vezes com descrição detalhada de suas folhas, flores e frutos. Uma parte da coleção botânica de Thoreau, que começou a montá-la de maneira sistemática a partir de 1850, hoje se encontra no Herbário da Universidade de Harvard  (onde havia cursado história natural e botânica), devidamente classificada. Vale a pena uma visita ao site.


Aqui o Acer spicatum, ou bordo da montanha, nativo da região nordeste dos Estados Unidos, que Thoreau colheu nas matas do Maine em 1853.

imagem: the henry david thoreau herbarium
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lendo walden, XII

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Walden é recheado de citações entremescladas no texto. Além delas, há versos e poemas em destaque, poucos com indicação da autoria. Seu amigo Ellery Channing e, depois, alguns estudiosos identificaram a fonte e mesmo as edições usadas por Thoreau.
São eles:
  • p. 19, Ovídio, Metamorfoses
  • p. 44, George Chapman, The tragedy of Caesar and Pompey
  • p. 51, o próprio Thoreau
  • p. 71, anônimo da Nova Inglaterra
  • p. 85, Thomas Carew, Coelum Britannicum
  • p. 88, William Cowper, Verses supposed to be written by Alexander Selkirk
  • p. 93, anônimo, musicado em 1611 por Robert Jones, The Muses Gardin of Delights
  • p. 116, Ellery Channing, "Walden Spring"
  • p. 122, Milton, Paradise Lost
  • p. 123, Thoreau
  • p. 132, Patrick MacGregor (Ossian), "Croma"
  • p. 141, Edmund Spenser, The Faerie Queene
  • p. 143, Homero, Ilíada
  • p. 150, Elizur Wright, "The Fugitive Slave to the Christian"
  • p. 151, Thoreau
  • p. 161, Francis Quarles, "The Shepherd's Oracle"
  • p. 168, Tibulo, Elegias de Tibulo
  • p. 187, Thoreau
  • p. 196, Ellery Channing, "Baker Farm"
  • pp. 196-197, idem
  • pp. 200-201, idem
  • p. 205, Geoffrey Chaucer, Canterbury Tales
  • p. 212, John Donne, "To Sir Edward Herbert at Iulyers"
  • p. 241, Thoreau
  • p. 243, Ellen Hooper, "The Wood-Fire"
  • p. 256, Thomas Storer, "Wolseius Triumphans"
  • p. 273, Milton, Paradise Lost
  • p. 297, Ovídio, Metamorfoses
  • pp. 298-299, idem
  • pp. 302-303, William Habington, "To My Honored Friend Sir Ed. P. Knight"
  • p. 304, Claudiano, "O velho de Verona"
Thoreau se formou em Harvard. Não seguiu alguma das carreiras que se esperariam de um Harvard man, e preferiu se tornar "o homem dos mil instrumentos", como diz à p. 66 de Walden. Seu principal ganha-pão, no futuro, viria a ser o trabalho de topógrafo. Mas seus conhecimentos de literatura clássica e moderna, o domínio do grego e do latim que obteve na universidade nunca vieram a lhe faltar.

Fontes: Walden, edição anotada por Walter Harding, e The Thoreau Reader
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16 de dez de 2010

lendo walden, XI

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Nas páginas finais de Walden (pp. 303-4), Thoreau investe contra o que lhe parecia ser uma futilidade, viajar:
Qual era o significado daquela Expedição de Exploração dos Mares do Sul, com toda a sua pompa e ostentação, senão um reconhecimento indireto do fato de que existem oceanos e continentes ainda inexplorados no mundo moral, onde cada homem é um istmo ou um braço de mar, mas que é mais fácil singrar milhares e milhares de quilômetros por entre o frio, as tempestades e os canibais, num navio do governo, com quinhentos homens e rapazes para auxiliar um único indivíduo, do que explorar o mar privado, o Oceano Atlântico e Pacífico de apenas um ser?


Que errem e escrutem os distantes australianos.
Eu tenho mais de Deus, eles mais da estrada.

Não vale a pena dar a volta ao mundo para contar os gatos em Zanzibar.


Sobre essa frase encantadoramente inesperada, fecho de ouro de sua peroração: Harding informa tratar-se de referência ao livro de Charles Pickering, The Races of Man, publicado em Londres em 1851 e que Thoreau lera em 1853, conforme anotou em seu diário. Pickering narrava sua viagem ao redor do mundo, e falava dos felinos que vira na ilha de Zanzibar (costa da Tanzânia).

imagem: cat in zanzibar
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lendo walden, X

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Finalmente, o terceiro aspecto mais visível na estruturação
de Walden é a flagrante desproporção do primeiro capítulo, "Economia", dentro do corpo da obra.


"Economia" corresponde, sozinho, a quase 1/4 de Walden: cerca de 70 páginas num total de 300. As outras 230 páginas se dividem entre os demais dezessete capítulos + a conclusão.

Essa desproporção do capítulo "Economia", quando comparado ao restante do texto, parece imprimir um certo desequilíbrio ao conjunto do livro. Como esse jogo interno das partes é um dos principais aspectos que qualquer autor enfrenta ao compor sua obra, naturalmente a conclusão a que devemos chegar é que essa desproporção foi um recurso deliberado de Thoreau, e que o desequilíbrio resultante para a dinâmica geral da obra seria apenas aparente.

Sabe-se que "Economia" foi escrito como texto independente, que serviria de introdução a Walden propriamente dito, trazendo inclusive numeração própria das páginas. Por alguma razão, Thoreau decidiu que o texto de introdução passaria a capítulo de abertura, e o livro traria à guisa de introdução apenas a epígrafe, já citada, do alegre chantecler. E assim foi.

Esse fato até explica a desproporção resultante entre "Economia" e os demais capítulos. Mas não explica por que Thoreau teria optado por introduzir esse desequilíbrio entre as partes. Quanto a isso, não me atrevo a aventar nenhuma hipótese, pois, não tendo domínio suficiente da vida e obra de Thoreau, seria como tentar arrombar portas que certamente já estão abertas.

Em todo caso, eu diria duas coisas: é muito interessante ler Walden a partir do segundo capítulo, "Onde e para que vivi", como se fosse ele o começo do livro. Muda a visão, muda o quadro geral da coisa. É uma experiência muito ilustrativa, e serve como contraponto para tentarmos entender por que Thoreau julgou que não bastaria, por que considerou que a obra só se faria completa se se iniciasse justamente pelo extenso texto, muitas vezes tido como árido e fastidioso, da "Economia".

A segunda coisa é a seguinte: pretendo em breve fazer uma modesta desmontagem dos núcleos temáticos que compõem esse primeiro longo capítulo. Mas, até lá, parece-me que um ponto é certo. É em "Economia" que Thoreau ilustra, expõe, alerta e adverte o principal elemento de seu, digamos assim, individualismo existencial: as experiências de cada indivíduo são irredutíveis e intransferíveis, cabendo a cada um seguir o rumo da própria existência:
Não gostaria que ninguém adotasse meu modo de vida em hipótese alguma; pois, além de poder encontrar algum outro antes que ele tivesse aprendido direito este de agora, desejo que possa existir o maior número possível de pessoas diferentes no mundo; mas gostaria que cada uma delas se dedicasse a encontrar e seguir seu próprio caminho, e não o do pai, da mãe ou do vizinho. O jovem pode construir, plantar ou navegar, basta que não seja impedido de fazer o que ele me diz que gostaria de fazer. Se somos sábios é apenas graças a um ponto matemático, como o marinheiro ou o escravo fugido que mantém à vista a estrela polar; mas é um guia suficiente para toda nossa vida. Podemos não chegar a nosso porto num período calculável, mas manteremos o curso certo. (p. 77, itálico no original)
De passagem: "o escravo fugido" - Thoreau, certa feita, acolheu em Walden um escravo fugitivo, e o aconselhou a seguir para o norte tomando como referência a estrela polar (como, aliás, já costumavam fazer); "o marinheiro" - Thoreau irá utilizar várias metáforas náuticas, sobretudo a navegação por cálculo (dead reckoning).

Neste sentido, a vida em Walden era sua experiência pessoal e a mais ninguém se aplicaria. O que ele poderia dizer e transmitir dessa experiência, o que dela poderia ser partilhado, não precisaria ser vivido em Walden. Estava apresentado em Walden.

Num aparte secundário, isso reforça e corrobora por que sua decisão - que comentei em post anterior - de eliminar o subtítulo or, Life in the Woods: a despeito de suas advertências, muitos insistiam em tomá-lo ao pé da letra e seguir seus passos, indo também viver algum tempo nas matas.

imagem: chart pie, wiki
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lendo walden, IX

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O segundo aspecto mais visível na estruturação de Walden é o ordenamento temporal dessa distribuição temática, que comentei no post anterior. O texto cobre o ciclo de um ano, com suas quatro estações. Começa nos meados do verão, avança para o outono, detém-se bastante no inverno e termina nos meados da primavera. Longe de abarcar os 26 meses de permanência de Thoreau em Walden, Walden mal chega a onze meses: vai do começo de julho ao começo de maio do ano seguinte.

Como diz Thoreau no final do último capítulo, "Primavera", esticando um pouco as datas e apontando a superfluidade em se prolongar: "Assim se completou o primeiro ano de minha vida na mata; e o segundo ano foi muito semelhante a ele". (p. 301)

Este arco temporal que se estende de "Onde e para que vivi" até a "Primavera", deixando como abas laterais o capítulo de abertura, "Economia", e a conclusão, é um milagre de flexibilidade estilística. A meu ver, é o aspecto mais importante da estruturação da obra, tanto por encapsular quase invisivelmente os aspectos mais simbólicos e metafísicos, quanto por conseguir criar uma aparência de naturalidade empírica, palpável, realmente impressionante do começo ao fim.

Deve ter sido bastante complicado, em termos literários, conseguir compatibilizar o ordenamento temático dos capítulos com as linhas de força temporais, sem que em momento algum estas viessem a travar a apresentação dos mais variados assuntos, criteriosamente distribuídos entre os capítulos. Considero um feito magistral, um trabalho de gênio. Não o uso do ciclo anual em si como forma de condensação da experiência - que até pode ser interessante, mas é um tanto trivial. O que me parece de gênio é a tremenda plasticidade que Thoreau conseguiu imprimir nessa interação temática/ temporalidade - ainda mais se considerarmos como é fácil cair na diluição dramática ou expressiva quando se usa esse tipo de enquadramento temporal como mero recurso de síntese.

O que provavelmente contribui para essa proeza deve ser a implícita noção de circularidade do ciclo das estações. Talvez tenha sido com essa cumplicidade do senso comum que Thoreau contou, ao escolher o ciclo do ano para ser o molde de Walden. Mas essa noção de circularidade, também ela pertencente ao common mint que Thoreau mencionava a propósito da linguagem - aqui transposto para aquele armazém de conceitos do senso comum de seus semelhantes -, seria, para as finalidades dele, sem dúvida necessária, mas apenas implícita, apenas, repito, como um piscar de olhos de cumplicidade: "sei do que você está falando, faz parte de minha experiência".

Pois, no fundo, no fundo, as coisas não batem, o ciclo não fecha, há uma abertura, que não consigo localizar bem onde, mas é por onde essa circularidade é necessariamente superada. Não é a noção de uma circularidade em espiral (embora esse conceito também apareça no texto), nem de uma porosidade, e muito menos de um fraturamento, este não, em momento algum. Embora seja apenas uma intuição, creio que seria este o elemento que, para Thoreau, daria sentido a Walden, para além da piscadela do common mint. Sei que esse elemento guarda algum tipo de relação com o substrato temporal em sentido amplo, conta com os préstimos do significado simbólico dos ciclos naturais, não tem nada de místico ou religioso como eternidade ou imortalidade, e que provavelmente é o que dá sustentação - ou elevação, podendo talvez operar, digamos assim, como fator antigravitacional - ao edifício de Walden.

Se conseguir localizá-lo, virei correndo avisar.

imagem: four seasons
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15 de dez de 2010

lendo walden, VIII

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Walden seria um registro autobiográfico? Um diário, um relato dos 26 meses que Thoreau passou junto ao lago? Em suma, Walden seria a vida em Walden? Walden foi escrito em Walden?

A resposta a todas essas perguntas é uma só:
não propriamente, nem essencialmente.

Walden é antes a apresentação de um programa existencial aplicado e ilustrado na prática. Foi redigido depois que Thoreau saiu de Walden, embora utilizando muitas anotações feitas no local. Além das notas redigidas em Walden e reflexões anteriores e posteriores àquele período, Thoreau incorporou a Walden o conteúdo de várias palestras que proferiu em Concord. Esse recurso de incluir as palestras explica a mudança de tom em várias passagens, em que o leitor percebe claramente que ele está se dirigindo a uma plateia, sobretudo a jovens ouvintes. Muda o registro, muda o tratamento, muda o humor, mudam as imagens.

Walden tem dezessete capítulos e uma conclusão. Diga-se de passagem que a edição da L&PM presenteou seus leitores com a inclusão, à guisa de apêndice, do necrológio de Emerson a Thoreau (pp. 315-335). Voltando a Walden, sua estruturação é um pouco complicada e, a meu ver, apresenta três aspectos mais evidentes.


O primeiro deles é a organização dos capítulos segundo critérios basicamente temáticos: leitura, sons, visitas, os lagos, vizinhos irracionais, o lago no inverno etc. Nessa divisão por assuntos, o tema central se desdobra em diversos subtemas correlatos. Assim, por exemplo nas dez páginas do breve capítulo "Leitura" (pp. 103-112), temos a crítica à degeneração dos tempos heroicos, a distinção entre oratória e leitura, entre linguagem oral e linguagem escrita, a crítica ao ensino "comum" (isto é, a escola fundamental) e a defesa do ensino "incomum", a ridicularização do puerilismo cultural e das versões simplificadas da Bíblia, menções às seitas dos crentes renascidos na fé, a Zoroastro, a Platão, a projetos universitários para a Nova Inglaterra, intercalados com trechos comicíssimos - por exemplo aqui, falando dos leitores onívoros, com referências também às aventuras do Barão de Münchhausen:
Existem aqueles que, como cormorões e avestruzes, conseguem digerir todo esse tipo de coisa, mesmo depois da mais lauta refeição com carnes e legumes, pois não admitem desperdiçar coisa alguma. Se outras são as máquinas que fornecem tais acepipes, estes são as máquinas de leitura. Leem a nona-milésima história de Zebulão e Sefrônia, e o quanto os dois se amaram como nunca ninguém tinha amado antes, e como jamais um verdadeiro amor correu tão bem – ou, pelo menos, correu, tropeçou, levantou e continuou!; e como um pobre desgraçado que nunca tinha subido nem num campanário subiu na agulha de uma torre, e então, tendo desnecessariamente posto o sujeito ali, o romancista todo feliz bate o sino para chamar todo mundo, que se reúne e diz: Oh, que coisa! Como ele conseguiu descer dali! Quanto a mim, penso que melhor fariam se metamorfoseassem todos esses aspirantes a heróis do romance universal em cataventos humanos, tal como antigamente colocavam os heróis entre as constelações, e lá os deixassem girando até se enferrujar, sem descer para virem incomodar as pessoas de bem com suas travessuras. (p. 108)
E tudo permeado com deliciosos trocadilhos, como, pouco adiante, ao ridicularizar os jornais de Boston e um periódico metodista da época: sucking the pap of "neutral family" papers, or browsing "Olive Branches", que infelizmente tive de desdobrar como "tomando a papinha insípida dos jornais 'de família', manducando os brotos dos Ramos de Oliveira e folheando as páginas dos Olive Branches"...

imagem: graphics, google images
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14 de dez de 2010

lendo walden, VII

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Eu regava o mirtilo vermelho, a ameixeira brava e o lódão bastardo americano, o pinheiro vermelho e o freixo negro, a uva branca e a violeta amarela, que do contrário mirrariam na época da seca. (p. 31)
Thoreau era um grande botanista: dedicado, atento, sistemático. Coletou mais de novecentos espécimes e classificou cerca de trezentos. Por muitos anos cuidou de várias espécies vegetais raras na região de Concord.

Durante a tradução, passei uns bons dias rastreando a infinidade de plantas citadas em Walden, localizando os nomes latinos e então usando-os como ponte para encontrar os correspondentes em português. Por exemplo, para a frase acima, muito bonita também pela ciranda das cores, eu tinha montado a listinha:

mirtilo vermelho: red huckleberry, Vaccinium parvifolium
ameixeira brava: sand cherry, Prunus prunilla
lódão bastardo americano: nettle tree (hackberry), Celtis occidentalis
pinheiro vermelho: red pine, Pinus resinosa
freixo negro: black ash, Fraxinus nigra
uva branca: white grape, Vitis labrusca
violeta amarela: yellow violet, Viola pubescens

Hoje, com grande alegria, descobri um site fantástico, que não conhecia antes e teria facilitado muito esse trabalho quase insano. Chama-se Botanical Index to the Journal of Henry David Thoreau, um levantamento maravilhoso de Ray Angelo.

Dei uma conferida rápida neste exemplo acima, e apareceu uma discrepância: Ray Angelo dá o red huckleberry (que tomei como o Vaccinium parvifolium) como Gaylussacia baccata, a qual em minhas pesquisas aparece como o black huckleberry. Quando tiver ocasião, vou dar uma boa geral nos nomes que usei, checando com o índice botânico de Angelo, e corrigir eventuais erros que eu possa ter cometido.

Por ora, nessa amostra, sinto até uma pontinha de orgulho que os termos em português estejam bastante exatos. Aliás, um episódio engraçado: um dos revisores, talvez um pouco desatento, queria trocar o frondoso lódão americano (nettle tree, da família dos olmeiros) por uma modesta urtiga (nettle).


A cena até ficaria simpática:
Thoreau regando anualmente um pé de urtiga.

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a arte da (im)prudência

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retomo aqui a arte da prudência, de baltasar gracián, já comentada em post anterior.

esta, que é uma das obras-primas do barroco espanhol, acabou se tornando nos últimos vinte anos um guia de autoajuda e gestão de negócios, ao estilo, digamos, da arte da guerra de sun tzu.

trata-se de obra de difícil tradução. a edição da best-seller, tanto na época em que pertencia a richard civita quanto agora, no grupo record, segue a tradução em inglês, já moldada ao gosto dos manuais de aconselhamento. os créditos são claros e corretos, constando na página de rosto "tradução do inglês de ieda moriya", e no verso da página os dados sobre a edição utilizada, a saber, a tradução de christopher maurer, de 1992.



a eventuais interessados indico duas traduções de gracián para o inglês: a primeira de joseph jacobs (1892), disponível aqui, e a mais recente de christopher maurer (1992), supracitada e disponível aqui.

a tradução em nome de pietro nassetti, publicada pela editora martin claret, parece se abeberar exaustivamente na tradução de ieda moriya, inclusive nas notas. veja-se um exemplo:

ieda moriya:
3. Manter o suspense. O êxito inesperado ganha admiração. A obviedade excessiva não é nem útil, nem de bom gosto. Não se declarar de imediato desperta curiosidade, em especial se a posição é importante o bastante para causar expectativas. O mistério, por sua característica arcana, provoca a veneração. Mesmo ao se revelar, evite a franqueza total e não permita que todos venham a conhecer o seu íntimo. É no silêncio cauteloso que a prudência se refugia. As decisões, uma vez declaradas, nunca granjeiam estima e expõem à crítica. Se desacertadas, estará duplamente desgraçado. Se quiser atenção e desvelo, imite a divindade.
pietro nassetti:
3. Manter o suspense. O êxito inesperado ganha admiração. O que é óbvio não é nem útil, nem de bom gosto. Não se declarar de imediato atiça a curiosidade, em especial se a posição é importante o bastante para causar expectativas. O mistério, por sua característica arcana, provoca a veneração. Mesmo ao se revelar, evita a franqueza total e não permite que todos venham a franquear o seu íntimo. É no silêncio cauteloso que a sensatez se refugia. As decisões, uma vez declaradas, nunca granjeiam estima e expõem à censura. Se desacertadas, estará duplamente desgraçado. Se quiser atenção e desvelo, imite a divindade.
pode-se ver a cópia, levemente disfarçada - aliás, essas adulterações às vezes são bastante tolas e distorcem o sentido - como, aqui, o conselho de gracián ao leitor, no imperativo ("evite", "não permita"), que se torna ação ininteligivelmente atribuída ao sujeito "mistério". eis o original de gracián e a tradução de maurer:

3. Llevar sus cosas con suspensión. La admiración de la novedad es estimación de los aciertos. El jugar a juego descubierto ni es de utilidad ni de gusto. El no declararse luego suspende, y más donde la sublimidad del empleo da objecto a la universal expectación; amaga misterio en todo, y con su misma arcanidad provoca la veneración. Aun en el darse a entender se ha de huir la llaneza, assí como ni en el trato se ha de permitir el interior a todos. Es el recatado silencio sagrado de la cordura. La resolución declarada nunca fue estimada; antes se permite a la censura, y si saliere azar, será dos vezes infeliz. Imítese, pues, el proceder divino para hazer estar a la mira y al desvelo.
3. Keep matters in suspense. Successes that are novel win admiration. Being too obvious is neither useful nor tasteful. By not declaring yourself immediately you will keep people guessing, especially if your position is important enough to awaken expectations. Mystery by its very arcaneness causes veneration. Even when revealing yourself, avoid total frankness, and don't let everyone look inside you. Cautious silence is where prudence takes refuge. Once declared, resolutions are never esteemed, and they lie open to criticism. If they turn out badly, you will be twice unfortunate. If you want people to watch and wait on you, imitate the divinity.
poderia me estender ao longo dos trezentos aforismos do livro, apenas para reiterar a constatação.

além de me sentir injuriada com o logro, fico admirada que a best-seller compre os direitos de tradução da editora americana, pague uma tradutora, publique sua edição e pouco se importe que venha outra empresa colega de profissão, publique a contrafação em oito, dez reedições, e fique tudo por isso mesmo.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



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13 de dez de 2010

lendo walden, VI

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Uma das frases mais bonitas em Walden:

I long ago lost a hound, a bay horse, and a turtle dove, and am still on their trail.
[Muito tempo atrás perdi um cão de caça, um cavalo baio e uma rola, e ainda continuo a procurá-los. p. 29.]

Essa é difícil, e não sei explicar. Meu consolo é que não sou só eu. 

Dizem do cão de caça: seria o gentle boy Edmund Sewall, a autoria de um livro, a emanação de uma essência, o instinto ou sensibilidade para descobrir o rastro das coisas, uma decepção emocional expressa em termos míticos, uma referência aos antigos poetas persas, o símbolo da natureza, a Verdade, a constelação Cão Maior, uma perda material cifrada segundo os Quatro Livros Chineses, imagem tomada a alguma antiga balada (como "The Twa Corbies"), imagem tomada ao velho folclore irlandês ("The Story of Conn-eda"), referência ao poema de Ermerson "Forerunners", encarnação do sentimento de perda em si, referência a Zadig de Voltaire, mentirinha como pretexto para entrar em propriedades alheias...

Dizem do cavalo baio: seria seu irmão John Thoreau, ter uma propriedade rural, emanação de outra essência, a sagacidade e a força para empreender a busca das coisas, outra decepção emocional expressa em termos miticos, outra referência aos antigos poetas persas, o símbolo do estímulo intelectual, a Bondade, a constelação de Pégaso, outra perda material cifrada segundo os Quatro Livros Chineses, outra imagem tomada a alguma antiga balada (como "The Twa Corbies"), outra imagem tomada ao velho folclore irlandês ("The Story of Conn-eda"), mais uma referência ao poema de Ermerson "Forerunners", encarnação do sentimento de perda em si, outra referência a Zadig de Voltaire, mais uma mentirinha como pretexto para entrar em propriedades alheias...

Dizem da rola: seria sua amada Ellen Sewall, ter a esposa de seus sonhos, emanação de outra essência, a inocência que assegura a proteção divina, outra decepção emocional expressa em termos miticos, outra referência aos antigos poetas persas, o símbolo da purificação espiritual, a Beleza, a constelação das Plêiades, outra perda material cifrada segundo os Quatro Livros Chineses, outra imagem tomada a alguma antiga balada (como "The Twa Corbies"), outra imagem tomada ao velho folclore irlandês ("The Story of Conn-eda"), mais uma referência ao poema de Ermerson "Forerunners", encarnação do sentimento de perda em si, mais uma referência a Zadig de Voltaire, outra mentirinha como pretexto para entrar em propriedades alheias...

Perguntaram várias vezes a Thoreau o que aquela frase queria dizer. Numa das vezes, ele respondeu que nossas experiências são únicas e exclusivas, mas que usamos uma linguagem para expressá-las que é comum a todos. E continuou: assim como os outros tinham perdas pessoais, ele também tinha as suas - e que o cão de caça e o cavalo "deles" talvez até pudessem ser símbolos de algumas das perdas dele, Thoreau.

Aqui talvez seja bom lembrarmos, nós dos centros urbanos do século XXI, que cento e setenta anos atrás, em pequenos povoados rurais (Concord tinha cinco mil habitantes), não era raro que as pessoas perdessem seus cães e cavalos, que volta e meia se extraviavam ou fugiam. Assim, dizer que tinha perdido um cavalo não era nada do outro mundo: fazia parte da vida, e podia ser usado como imagem a partir do common mint da linguagem, para expressar experiências diversas.

Prossegue Thoreau: mas tinha perdido ou estava em vias de perder um bem muito mais etéreo e precioso que nenhuma perda "deles" seria capaz de simbolizar.

Claro, ninguém criava rolas, que viviam soltas na natureza; não eram "bens", ninguém perdia uma rola como se podia perder um cavalo ou um cão de caça - daí também a estranheza da frase para seus conterrâneos: perder um cavalo, ok, deve ser símbolo de alguma coisa que a gente até consiga entender; mas perder uma rola?!

Assim Thoreau explica que escolhera a imagem da rola como símbolo de um tesouro muito mais etéreo, porque essa perda que ele queria expressar não encontraria uma imagem correspondente na experiência e na consciência de seus conterrâneos. Não era um cavalo nem um cão, que, estes sim, eram imagens que (talvez) podiam encontrar correspondentes na experiência e consciência deles.*

Eis aqui o trecho de sua carta a Wiley, em 1857, a mais longa resposta quando lhe perguntavam sobre o significado da passagem:
How shall we account for our pursuits, if they are original? We get the language with which to describe our various lives out of a common mint. If others have their losses which they are busy repairing, so I have mine, and their hound and horse may perhaps be the symbols of some of them. But also I have lost, or am in danger of losing, a far finer and more ethereal treasure which commonly no loss, of which they are conscious, will simbolize.
Seja como for, acho interessante essa clivagem entre o cão e o cavalo, de um lado, e a rola de outro lado - e não só pelo sentido mais evidente de que os dois são animais domésticos que andam na terra e a avezinha selvagem voa livre nos céus. É uma pista que, porém, colocaria algumas ressalvas às interpretações que situam essas imagens no mesmo patamar de abstração simbólica, p.ex., respectivamente: Verdade, Bondade e Beleza; ou sensibilidade, força e inocência; ou livro, terras e esposa; ou natureza, intelecto e espírito...

Há outra resposta de Thoreau: cáustica, curta e que, em sua rudeza, não deixa de ser simpática. A outro curioso, declarou: "Bem, meu senhor, suponho que todos nós temos nossas perdas". (Claro que o interlocutor não gostou e retrucou: "Que bela maneira de responder aos outros".)

Disse Harding, o comentador de Walden que mais cito: a variedade de interpretações é tão grande, e a falta de unanimidade é tão completa que cada leitor fique à vontade para entender essa passagem como desejar.

* Diga-se de passagem: esse conceito de Thoreau sobre si mesmo como uma espécie de detentor ou profeta da verdade, e todo ou quase todo o resto da humanidade tomado de um filistinismo irrecuperável, é o próprio estofo de Walden - como ele deixa claro desde a epígrafe da obra, ao se apresentar como o pomposo chantecler matutino em sua missão de despertar o próximo.


acompanhe lendo walden aqui.

imagem: google images
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lendo walden, V

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Quando saiu a primeira edição de Walden, em 1854, a obra tazia o subtítulo or, Life in the Woods.



Para esse subtítulo, segundo Harding, Thoreau pode ter se inspirado num ensaio de seu amigo Charles Lane, "Life in The Woods", publicado em 1844 em The Dial, a revista do grupo transcendentalista, ou no texto de John S. Williams, "Our Cabin; or, Life in the Woods", publicado em 1843 na American Pioneer.

Seja como for, mais tarde Thoreau mudou de ideia e preferiu retirá-lo. Uma das hipóteses é que ele achou que os leitores estavam tomando muito ao pé da letra a menção a uma vida na mata, sem dar tanta atenção aos aspectos mais importantes da obra, isto é, suas reflexões filosóficas. Então escreveu a seus editores Ticknor and Fields, pedindo que eliminassem o subtítulo nas edições seguintes, no que foi acatado.

E é por isso que a edição da L&PM se chama apenas Walden.
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lendo walden, IV

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Um aspecto fundamental, no pano de fundo de Walden, é a doutrina vegetariana do grupo transcendentalista com que se relacionava Thoreau. Embora não fosse um transcendentalista estrito, nem um vegetariano “linha dura”, Thoreau evitava alimentos de origem animal e preferia uma dieta simples.

Há inúmeras passagens em Walden sobre o tema, em especial no capítulo "Leis superiores". Uma das frases que bem sintetizam sua posição, a meu ver, é a seguinte:
Acredito que todo homem que algum dia se empenhou seriamente em preservar ao máximo suas faculdades poéticas ou mais elevadas teve uma especial propensão em se abster de alimentos de origem animal. (p. 207)
A questão era programática, para a elevação do espírito. Mas não só; não se tratava de alguma espécie de mortificação da carne. Era antes uma forma de se colocar em harmonia com o universo, obedecendo ao que a própria natureza ensinava (aqui também se fazem visíveis as influências do romantismo inglês e ressonâncias goetheanas):

Por que o homem se enraíza com tanta firmeza na terra, a não ser para poder se elevar em igual proporção aos céus? – pois as plantas mais nobres são valorizadas pelo fruto que trazem ao ar e à luz, longe do solo, e não são tratadas como os alimentos mais rústicos que, mesmo que tenham um ciclo completo de dois anos, só são cultivados até a raiz adquirir sua plena forma, e muitas vezes são podados na parte de cima para a raiz se desenvolver melhor, de modo que muita gente nem conhece sua florada. (p. 28)
A título de curiosidade: esse alimento rústico com ciclo de dois anos, cultivado apenas até que a raiz se desenvolva, é a cenoura. De fato, quantas pessoas conhecem a flor da cenoura?



Thoreau mantinha um regime de disciplina física quase espartano: caminhava diariamente dezenas de quilômetros, subindo montes, escalando escarpas, percorrendo florestas com pernas notoriamente atléticas; evitava gorduras, carne, leite, manteiga, pratos elaborados, estimulantes como chá e café, era abstêmio e não fumava. Essa disciplina na busca da realização individual encontra curiosas semelhanças em Nietzsche, outro infatigável e atlético caminhante, vegetariano frugal e avesso ao álcool.

Nietzsche foi grande, dizem alguns até fervoroso e entusiástico, leitor de Emerson, e há quem aponte as raízes do übermensch nietzscheano no plus man emersoniano. Para além da abordagem doutrinária, conceitual ou filosófica dos dois pensadores, talvez pudesse ser interessante comparar alguns aspectos dos programas físico-dietéticos adotados por Thoreau e Nietzsche.

Uma triste ironia desse ideário de espiritualização por meio da disciplina física, no caso de Thoreau - além da morte precoce antes de completar 45 anos de idade -, foi que, desde os 32 anos, não lhe restava um único dente na boca.

imagem: flor de cenoura
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11 de dez de 2010

lendo walden III

Da cidade desesperada você vai para o campo desesperado, e tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados.
Primeiro o dever, depois o prazer; antes a obrigação, então a diversão; que satisfação haveria nesses “jogos e entretenimentos da sociedade”? There is no play in them, for this comes after work. Rotina e distração compõem os dois lados da mesma vida do homem moderno: passar a semana na cidade, ir para o campo no final de semana... Nesse contato com a natureza, vislumbres da liberdade que ele já não possui: “tem de se consolar com a coragem das martas e dos ratos almiscarados”.

É um bonito exemplo da prosa de Thoreau. Não uma metáfora; antes uma sinédoque: ao contrário da maioria dos homens que levam “uma vida de calado desespero”, os seres na natureza não se desesperam, não se resignam. Não renunciam à liberdade.

E por que a marta e o rato almiscarado? Porque esses animaizinhos, quando presos na armadilha do caçador, roem a própria pata para se libertar. Ver essa coragem deles, tal é o consolo que resta ao homem desesperado.



Parece-me cabível reiterar aqui: as imagens em Walden são concretas, as referências são muito materiais, às vezes brutais. Bravery: não se trata do esplendor ou "magnificência dos visons", nem de um vago "ânimo dos minks", como nos dão algumas traduções em espanhol e português. Trata-se da encarniçada, valente, corajosa luta pela liberdade.
 
Thoreau retomará extensamente a imagem da “armadilha”, e não apenas como imagem. Para isso se servirá da polissemia do termo: trap, armadilha; traps, bens, pertences. Os bens de um homem: armadilha que o aprisiona. E em sua vida resignada, ao contrário da raposa, da marta, do rato almiscarado, o homem já não tem a coragem (ou, diz também Thoreau, a elasticidade) para se desprender deles, para se soltar da armadilha e recuperar sua liberdade.

Thoreau, Walden, trad.Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2010, pp. 21-22.
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