30 de jan de 2011

leitura dominical II

muito bom artigo de lenke peres: "mudança no mundo da tradução", no observatório da imprensa.
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leitura dominical

para quem é assinante da uol ou da folha de s.paulo, um ótimo artigo de paulo henriques britto: "caleidoscópio de boris".
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29 de jan de 2011

leitura

@lhpellanda no twitter, muito a propósito:
De quem com letras secretas
tudo o que alcança é por tretas
(...)
de manhã até a tarde:
Deus me guarde.
Gregório de Matos, Anjo Bento
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22 de jan de 2011

Ministério Público Federal investiga obras lançadas pela Martin Claret

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Editora é acusada de plagiar traduções de Monteiro Lobato

Ministério Público Federal investiga obras lançadas pela Martin Claret

Guss de Lucca, iG São Paulo
22/01/2011 10:28

Além de autor de romances consagrados, o escritor Monteiro Lobato, criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, também se dedicou a traduções de obras estrangeiras para o português, entre elas “O Livro da Jângal”, de Rudyard Kipling, e “O Lobo do Mar”, de Jack London.

Essas duas obras foram lançadas no Brasil pela editora Martin Claret, com traduções atribuídas a Alex Marins e Pietro Nassetti. O Ministério Público Federal investiga denúncia de que ambas seriam, na verdade, de Lobato.

"'O Livro da Jângal' da Martin Claret é idêntico ao do Monteiro Lobato, enquanto 'O Lobo do Mar' tem leves mudanças", explica a autora da denúncia, a tradutora Denise Bottmann. "Mandei a petição e diversas fotocópias para várias livrarias, pedindo que tirassem as publicações de circulação, o que não ocorreu. A questão principal é o desrespeito ao leitor, que mal sabe que está lendo Monteiro Lobato".

Atualmente nas mãos do Ministério Público Federal, a petição - que foi enviada em março de 2009 - passa pela análise da perícia, que deve determinar, até abril, se houve reprodução não-autorizada do trabalho do escritor.

"A prova do crime é a parte difícil deste caso. Existe uma dificuldade técnica em avaliar seus elementos", revela a procuradora Adriana Zawada Melo, responsável pelo inquérito. Ela não descarta a possibilidade de buscar auxílio em universidades para determinar se houve ou não reprodução não autorizada. "Nesse caso, precisaríamos de uma pessoa isenta, desvinculada de certos interesses e objetiva em suas análises", completa.

De acordo com Denise Bottmann, a IBEP/Companhia Editora Nacional, que detém os direitos sobre as traduções, já fez um acordo com a Martin Claret. Porém, os livros continuam em circulação sem ajustes no que diz respeito ao crédito da tradução. "Temo que o objetivo do acordo seja só financeiro, sem se preocupar com o que é oferecido ao leitor", disse Adriana Zawada sobre o acordo extrajudicial.

O principal problema, de acordo com a procuradora, é a falta de um órgão responsável pela fiscalização destas edições. "Essa área tem um limbo na fiscalização. O ideal seria poder auditar o catálogo da editora, mas não temos estrutura para fazer isso."

"A Martin Claret disse que faria os acertos nas próximas edições, mas como a editora raramente informa qual é a edição comercializada, isso nunca ocorreu. O primeiro 'O Livro da Jângal' é de 1998, isso quer dizer que durante doze anos eles estão vendendo a mesma edição?", questiona Denise.

A advogada da editora, Maria Luiza Egea, afirma que o Ministério Público Federal não entrou em contato com a Martin Claret e que ela desconhece a denúncia. Ressalta que todos os títulos do catálogo que foram acusados de erros de tradução estão esclarecidos.

"Se o Ministério Público Federal constatar alguma irregularidade, a editora vai apresentar os seus argumentos. A Martin Claret já contratou experts para avaliar traduções em outros casos e sempre que surgiram problemas, a orientação foi a de suspender as publicações e ressarcir o prejuízo. E quando houve interesse em manter a publicação, a editora refez as traduções dos títulos para não restar nenhuma dúvida", disse.

Se constatadas irregularidades nas traduções das obras, o Ministério Público Federal deve indiciar a editora no artigo 216 da Constituição Federal, que trata da defesa do patrimônio cultural brasileiro. Nesse caso, a pena pode ser de prisão para os envolvidos, retirada dos livros de circulação ou a inclusão de uma errata nas obras.

http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/livros/editora+e+acusada+de+plagiar+traducoes+de+monteiro+lobato/n1237958839855.html

14 de jan de 2011

traduções de monteiro lobato

monteiro lobato considerava que a tradução era abrir as janelas para o mundo. "a tradução é minha pinga", e afirmava um pouco dramático que, não fosse o ofício da tradução, provavelmente teria se suicidado na fase mais dura das perseguições e falência de seus projetos.

conforme levantamento no instituto de estudos da linguagem (iel), unicamp, suas obras de tradução são as seguintes:
  • ANDERSEN, Hans C. Contos de Andersen. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1932
  • BARRINGTON, E. Cleopatra. “Coleção Para Todos”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1935
  • BRADLEY, H. Dennis. Rumo às estrelas. “Biblioteca de Estudos Psíquicos”. São Paulo: Sociedade Metapsiquica de São Paulo, 1939
  • BURNETT, W. R. O pequeno Cesar (Os “Gangsters” de Chicago). “Serie Negra”, vol. 13. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1935
  • BURROUGHS, Edgard Rice. Tarzan no centro da terra. “Coleção Terramarear”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1936
  • BURROUGHS, Edgard Rice. Tarzan, o terrível. São Paulo: Codil: Companhia Distribuidora de Livros, 1959
  • CARROLL, Lewis. Aventuras de Alice no país das maravilhas. 3ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1936
  • COLLODI, C. Pinocchio. 7ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1955
  • CURIE, Eva. Madame Curie. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d
  • DEEPING, Warren. Lagrimas de homem. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1942
  • DEFOE, Daniel. Robinson Crusoe. 6ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1945
  • DOYLE, Arthur Conan. O doutor negro. “Serie Negra”, vol. 1. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1934
  • DU MAURIER, Daphne. Rebecca, a mulher inesquecível. Tradução de Ligia Junqueira Smith e Monteiro Lobato. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1940
  • DUMAS, Alexandre. A mão do finado: continuação d’O Conde de Monte-Christo. Companhia Graphico-Editora Monteiro Lobato, 1925
  • DURANT, Will. Filosofia da vida. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d
  • DURANT, Will. Historia da Civilização: Terceira Parte: Cesar e Cristo. Dois Tomos. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d
  • FORD, Henry. Minha vida e minha obra. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1926
  • GRIMM, Irmãos. Contos de Grimm. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d
  • GRIMM, Irmãos. Novos Contos de Grimm. 2ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1938
  • HAMMETT, Dashiell. A ceia dos acusados. Cia Editora Nacional, 1936*
  • HEMINGWAY, Ernest. Adeus ás armas. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1942
  • HEMINGWAY, Ernest. Por Quem os Sinos Dobram;São Paulo: Cia Editora Nacional, 1942*
  • HUGO, Victor. Os homens do mar. São Paulo: Companhia Graphico-Editora Monteiro Lobato, 1925
  • KIPLING, Rudyard. Kim. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d
  • KIPLING, Rudyard. Mowgli, o menino lobo. “Collecção Terramarear”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1933
  • LONDON, Jack. A filha da neve. “Coleção Para Todos”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1947 [1934, na verdade - db]
  • LONDON, Jack. Caninos brancos. “Coleção Terramarear”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1933
  • LONDON, Jack. O grito da selva. “Coleção Para Todos”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1935
  • LONDON, Jack. O lobo do mar. “Coleção Para Todos”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1934
  • MAUROIS, André. Memórias. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1943
  • MELVILLE, Herman. Moby Dick. Tradução de Adalberto Rochsteiner e Monteiro Lobato. 4ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1957
  • PERRAULT, Charles. Contos de fadas. 3ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1939
  • PORTER, Eleanor H. Pollyana. “A Nova Biblioteca das Moças”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1942
  • ROBINSON, J. H. Aformação da mentalidade. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1945
  • RUSSELL, Bertrand. Da educação. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d*
  • SEWELL, Anna. Diamante Negro. História de um Cavalo. "Série Clássicos". São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d*
  • SPRING, Howard. Meu filho, meu filho! Tradução de Ligia Junqueira Smith e Monteiro Lobato. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1940
  • STADEN, Hans. Meu captiveiro entre os selvagens do Brasil. 3ª edição. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1927
  • STEPHENSON, Nathaniel Wright. Lincoln. “Biblioteca do Espirito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1945
  • TRAIL, Armitrage. Scarface, o tzar dos gangsters. “Serie Negra”, vol. 1. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1935
  • TWAIN, Mark. Aventuras de Huck. “Collecção Terramarear”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1934
  • VAN LOON, Hendrik Willem. A historia da Bíblia. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1940
  • VAN PAASSEN, Pierre. Somente neste dia. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1942
  • WEBSTER, Jean. O querido inimigo. “ANova Biblioteca das Moças”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1934
  • WEBSTER, Jean. Patty. “A Nova Biblioteca das Moças”. São Paulo: Cia Editora Nacional, s/d
  • WELLS, H. G. A construção do mundo: o trabalho, a riqueza e a felicidade do mundo. 1º volume. Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1943
  • WELLS, H. G. O destino da espécie humana. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1945
  • WILDER, Thorton. A ponte de São Luiz Rei. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1946
  • WILLKIE, Wendell. Um mundo só. “Coleção Guerra e Paz”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1943
  • YUTANG, Lin. Momento em Pekin: romance da vida chinesa de hoje. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1942
  • YUTANG, Lin. Uma folha na tempestade. Tradução de Ruth Lobato e Monteiro Lobato. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1949
constam também algumas traduções revistas por ele:
  • BEY, Essad. A luta pelo petroleo. Tradução de Charlie W. Frankie, revista e prefaciada por Monteiro Lobato. Cia Editora Nacional, 1935*
  • DURANT, Will. Historia da Civilização: Segunda Parte: Nossa herança clássica; a vida na Grécia. Dois Tomos. Tradução de Gulnara de Morais Lobato, revista por Monteiro Lobato. “Biblioteca do Espírito Moderno”. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1943
  • REID, Mayne. Os náufragos de Borneo. “Collecção Terramarear”. Traducção revista por Monteiro Lobato. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1933
* a listagem do iel é parcial. os títulos assinalados com asterisco foram incluídos por mim, a partir de pesquisas pessoais. complementarei a lista conforme for encontrando as referências bibliográficas de outras traduções feitas por monteiro lobato.

silvia cobelo envia gentilmente este link - clique aqui - com uma relação das traduções da obra de lobato.

12 de jan de 2011

Ministério Público Federal determina instauração de inquérito sobre Martin Claret

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PORTARIA No- 694, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2010


Representação nº 1.34.001.002410/2009-98.
Assunto: PATRIMÔNIO PÚBLICO.

Notícia de publicação de traduções de obras feitas por Monteiro Lobato atribuídas a outros autores, pela Editora Martin Claret.

O Ministério Público Federal, pela Procuradora da República subscritora da presente,

CONSIDERANDO os elementos constantes do Procedimento Preparatório nº 1.34.001.002410/2009-98, em que se apura se traduções de obras feitas por Monteiro Lobato foram atribuídas a outros autores, em publicações da Editora Martin Claret;

Resolve, com fundamento no artigo 129, III da Constituição Federal, bem como artigos 6º, inciso VII, alínea "b" e 7º, inciso I, ambos da Lei Complementar nº 75/93, instaurar INQUÉRITO CIVIL PÚBLICO, determinando:

a) o registro e a autuação da presente Portaria, procedendose às anotações de praxe;
b) a comunicação à 4ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal - 4ª CCR, nos termos do artigo 6º, da Resolução nº 87, de 03 de agosto de 2006, do Conselho Superior do Ministério Público Federal;
c) determino que os autos sejam encaminhados para o núcleo pericial para elaboração de Parecer Técnico pelo perito em Antropologia..

ADRIANA ZAWADA MELO
Procuradora da República
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9 de jan de 2011

os 400 anos da bíblia do rei jaime



THE NEW YORK TIMES Editorial Notebook


The King James Bible at 400

By VERLYN KLINKENBORG

Published: January 8, 2011

Sometime in 1611, a new English Bible was published. It was the work of an almost impossibly learned team of men laboring since 1604 under royal mandate. Their purpose, they wrote, was not to make a new translation of the Bible but “to make a good one better, or out of many good ones, one principal good one.” What was published, 400 years ago, was indeed one principal good one: the King James Version of the Bible.

It’s barely possible to overstate the significance of this Bible. Hundreds of millions have been sold. In 1611, it found a critical balance in a world of theological conflict, and it has been beloved since of Protestant churches and congregations of every stripe. By the end of the 17th century it was, simply, the Bible. It has been superseded by translations in more modern English, translations based on sources the King James translators couldn’t have known. But to Christians all around the world, it is still the ancestral language of faith.

To modern readers, the English of the King James Version sounds archaic, much as Shakespeare does. But there would have been an archaism for readers even in 1611 because the King James Bible draws heavily from a version of William Tyndale’s New Testament published in 1534 and from translations by Miles Coverdale also published in the 1530s.

Tyndale’s aspiration was to make his New Testament accessible to “the boy that driveth the plough.” Though readers often talk about the majesty of the King James Bible, what has made it live is in fact the simplicity of its language.

Scholars have often debated just how much the King James Bible has influenced the English language. They count the number of idioms — “the powers that be,” for instance — that entered the language from the Bible. They look at how often it’s cited in the Oxford English Dictionary.

T. S. Eliot and C. S. Lewis deplored the idea of considering the secular literary or linguistic influence of the King James Bible. Eliot said it had such a profound effect because it was “the Word of God.” Lewis went further. He argued that the King James Bible had little influence on the rhythms of English and that many of the Bible’s characteristic rhythms were simply “unavoidable in the English language.”

But Lewis missed the point. The King James Bible has had an enormous impact on English for the very reason that it captures and preserves — and communicates down through the centuries — the unavoidable rhythms of good English. Its words are almost never Latinate, and its rhythms are never hampered by the literalism that afflicts other translations.

It would have been so easy to get that wrong, to let scholarship overwhelm common sense, to let theology engulf plainness. We owe an enormous debt to William Tyndale’s imaginary plowboy. All who speak this wonderful language still speak in the shadow of the King James Bible.

A version of this editorial appeared in print on January 9, 2011, on page WK9 of the New York edition.
 
agradeço a sérgio pachá por ter enviado o artigo.

imagem: kjv
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legislação de direitos autorais e correlatos

 vários documentos referentes à legislação sobre os direitos autorais.

8 de jan de 2011

em companhia de thoreau

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prosseguem as notas de leitura no lendo walden, na sequência de baixo para cima:
  • a guilty fellow
  • forças britânicas na ponte de concord
  • a batalha de concord
  • o rebate e o dobre
  • woods burner
  • a finalidade do homem
  • o catecismo
  • a paga do esforço
  • alfaiates e pontos
  • mingaus...
  • o barco
  • a terceira pata
  • walden, 1953
  • thoreau tradutor de ésquilo
  • homero no campo de feijão
  • homero, o mosquito matinal
  • homero, a batalha dos mirmidões
  • edição anotada
imagem: lago walden
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6 de jan de 2011

cândido: conclusão II

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outro ponto: eu tinha ficado curiosa com a tradução de jorge silva, ressurreta na coleção folha empoeirada de "livros que mudaram o mundo", pois parecia ser filha única de mãe viúva, e me ocorreu a hipótese de que talvez fosse um pseudônimo de galeão coutinho.

não, não é. são traduções independentes, bastante distintas entre si, a de jorge silva mais adornada (p. ex., épouser = apertar os sagrados laços), a de galeão coutinho mais direta e mais fiel ao texto em francês.

a título de curiosidade, apresento o primeiro parágrafo de cândido no original e nas três traduções levantadas, em ordem cronológica.

Il y avait en Vestphalie, dans le château de M. le baron de Thunder-ten-tronckh, un jeune garçon à qui la nature avait donné les moeurs les plus douces. Sa physionomie annonçait son âme. Il avait le jugement assez droit, avec l'esprit le plus simple; c'est, je crois, pour cette raison qu'on le nommait Candide. Les anciens domestiques de la maison soupçonnaient qu'il était fils de la soeur de monsieur le baron et d'un bon et honnête gentilhomme du voisinage, que cette demoiselle ne voulut jamais épouser parce qu'il n'avait pu prouver que soixante et onze quartiers, et que le reste de son arbre généalogique avait été perdu par l'injure du temps.


1. jorge silva (1938)
Havia na Vestfália, no castelo do barão de Thunder-ten-tronckh, um rapazinho a quem a natureza havia dotado com os mais brandos costumes. Espelhava-se-lhe a alma na doçura da fisionomia. Eram retos os seus juízos, sem desmerecerem a simplicidade do espírito e, por tal motivo, suponho, lhe haviam posto o nome de Cândido, pelo qual era conhecido. Presumiam os velhos criados da casa que ele era filho da irmã do senhor barão e de um bom e honrado fidalgote das vizinhanças, com quem a mesma senhora não consentiu nunca em apertar os sagrados laços, visto como ele apenas conseguira provar a legitimidade aristocrática de setenta e um quartéis do seu escudo, pois todo o resto da árvore genealógica se havia perdido sem poder resistir às injúrias do tempo. (edição folha, p. 9)
2. galeão coutinho (1943)
Havia na Vestfália, no castelo do senhor Barão de Thunder-ten-tronckh, um rapaz a quem a natureza dotara com a índole mais suave. A fisionomia refletia-lhe a alma. Tinha o raciocínio reto e a alma simples, motivo, creio eu, por que o chamavam Cândido. Os antigos criados da casa suspeitavam que ele fosse filho da irmã do senhor Barão, com um bom e honesto fidalgo da vizinhança, que essa senhorita não quis desposar porque só pôde provar setenta e um quartos da sua árvore genealógica, uma vez que o resto se perdera pela ação do tempo. (edição martins, p. 5)
3. mario quintana (1951)
Havia na Vestfália, no castelo do Sr. Barão de Thunder-ten-tronckh, um jovem a quem a natureza dotara da índole mais suave. Sua fisionomia lhe anunciava a alma. Era reto de juízo e simples de espírito, razão pela qual, creio eu, chamavam-no de Cândido. Suspeitavam os velhos criados que fosse filho da irmã do senhor barão e de um bom e honrado gentil-homem da vizinhança, com quem esta jamais consentira em casar-se, porque ele só pudera alegar setenta e uma gerações, havendo as injúrias do tempo destruído o resto da sua árvore genealógica (edição abril, p. 155)
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cândido: conclusão I

com isso, creio que podemos eliminar o nome de lívio teixeira como tradutor do cândido. então teríamos três, e não quatro, traduções de cândido entre 1938 e 1951:
  • cândido, ou o otimista, tradução de jorge silva, pela editora atena, 1938;
  • cândido, ou o otimismo, tradução de galeão coutinho, pela livraria martins, 1943;
  • cândido ou o otimismo, tradução de mario quintana, pela editora globo, 1951.
no entanto, como induzem a erro as próprias páginas de rosto das edições! aqui, no exemplo abaixo, lívio teixeira desaparece como tradutor d' os ouvidos do conde de chesterfield:


apenas à p. 179 do mesmo volume, antes de se iniciar o conto, é dada a referência correta:


posts relacionados:

cândido, voltaire

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dando andamento ao levantamento sobre a febre de voltaire, recebi o voluminho cor-de-rosa da livraria martins, de 1944 (2a. edição).


traz cândido, ou o otimismo (e não "o otimista"), em tradução de galeão coutinho, e os ouvidos do conde de chesterfield em tradução de lívio teixeira. corresponde ao vol. 21 da coleção excelsior. o vol. 20 trazia a princesa de babilônia, micromegas e o ingênuo, em tradução de miroel silveira.

quanto a lívio teixeira aparecendo em algumas referências como tradutor de cândido para a mesma martins, creio que deslindei a confusão. o volume romances (martins, 1951) traz várias novelas de voltaire: e justamente a princesa de babilônia, micromegas e o ingênuo, em tradução de miroel silveira; cândido, ou o otimismo em tradução de galeão coutinho; os ouvidos do conde de chesterfield em tradução de lívio teixeira. em muitos cadastros, foi registrado apenas o nome de lívio teixeira, daí gerando a atribuição errônea da tradução das outras novelas também a ele.
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não que a biblioteca nacional prime pelo capricho nem pelo respeito à língua, mas temos lá depositado em nosso acervo um exemplar da edição da martins, de 1956:

63/160 ________________________________________

Autor: Voltaire, François Marie Arouet de, 1694-1778.

Título / Barra de autoria: Romances: Candido; ou, O otimismo [trad. de Galcão Coutinho] Os ouvidos do conde de Chesterfield [trad. de Livio Teixeira] A princesa da Babilonia, o Ingênuo, Micromogas [trad. de Mircel Silveira]

Imprenta: São Palo, Liv. Martins [1956]
Descrição física: 369 p. ilus.
Notas: Registro Pré-MARC
Entradas secundárias: Coutinho, Galcão trad.
Teixeira, Livio trad.
Silveira, Mircel, 1914- trad.

Classificação Dewey:
Edição: 843
Indicação do Catálogo: II-302,3,15
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eia nóis

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no final do livro história da beleza, de umberto eco, pela editora record, tradução de eliana aguiar, consta uma lista chamada "referências bibliográficas das traduções utilizadas".

ali, impertérritos, comparecem os fantasmáticos enrico corvisieri (platão, a república, nova cultural) e alex marins (platão, fedro, martin claret).


vá lá que em 2004, quando foi lançada a primeira edição de história da beleza no brasil, não se tinha muito conhecimento do que estava acontecendo em matéria de contrafações e plágios tradutórios, e apenas algumas vozes solitárias bradavam no deserto - a saber, ivo barroso, alfredo monte e euler de frança belém.

mas a imagem acima reproduzida corresponde à p. 341 do volume da record publicado em julho de 2010, quando esse fenômeno de fraude editorial já era razoavelmente notório, e a própria editora nova cultural já tinha retirado de circulação e catálogo ess'a república de platão.

dona record, custava dar uma limpadinha nessa sua reedição e substituir os trechos espúrios por trechos legítimos? não é que faltem boas traduções dessas duas obras em português!

agradeço a rogério bettoni pela informação e pela imagem. como afirma ele, e compartilho: "fico triste ao ver que todo mundo sabe dos plágios e, ainda assim, continua indicando as obras como referência".
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3 de jan de 2011

2011

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o ano começa com ótimas notícias, que irei pingando aos poucos, conforme o tempo (lendo walden, meu novo xodó, é meio demandativo).

mas essa eu não podia deixar passar: encerrando o recesso natalino, ivo barroso retoma sua gaveta de preciosidades e volta para gáudio dos leitores. veja aqui.

imagem: 2011
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