30 de abr de 2011

arendt e amis

com a devida vênia, reproduzo aqui o texto publicado na folha de s.paulo, ilustrada, em 30/04/11, disponível aqui para assinantes uol e fsp. trata-se de uma infeliz tentativa de resenha que nem mereceria maiores considerações, à qual só dedico espaço neste blog por solicitação de alguns colegas de twitter que não são assinantes uol ou fsp.

Amis ignora natureza humana, que Arendt tenta mudar

MARTIM VASQUES DA CUNHA
ESPECIAL PARA A FOLHA

"Você não pode mudar a natureza humana", afirmam ao russo Boris Lermontov, personagem de "Os Sapatinhos Vermelhos" (1948), filme da dupla Powell e Pressburger. "É verdade", ele diz. "Mas posso fazer algo melhor: ignorá-la." Alterar ou ignorar o ser humano? Essa é a questão secreta que une "Sobre a Revolução", de Hannah Arendt (1906-1975), e "A Viúva Grávida", de Martin Amis, 61.

O primeiro é um clássico da filosofia política que, após 30 anos da publicação original, se mostra mais interessante pelas imprecisões do que pelos raciocínios que deveria demonstrar. O segundo, lançado em 2010, mostra um escritor no domínio da forma romanesca e sem medo de tocar o dedo na ferida de quem acha que a revolução é um bom negócio.

Arendt medita sobre as revoluções políticas, com ênfase na Americana (1776) e na Francesa (1789), comparando uma com a outra, analisando as diferenças e, muitas vezes, querendo encontrar semelhanças que, no fim, não existiam. Já Amis dramatiza, no verão de 1970 em um castelo italiano, o ápice da "revolução sexual", por meio da história de Keith Nearing, erudito de 20 anos, sua namorada Lily e a amiga de ambos, Scheherazade, por quem Keith nutre uma profunda atração.

O que a não ficção complica, a ficção elucida com uma clareza peculiar; Amis vai além em relação aos teoremas de Arendt justamente porque não ignora a natureza humana. Ela não distingue ao leitor o que deveria ser a liberdade exterior de uma revolução que funda um novo governo e a liberdade interior de quem conquistou certas virtudes em relação aos assuntos obscuros do coração. Nas primeiras 30 páginas, elimina logo qualquer possibilidade de uma revolução ser analisada como um "fenômeno pseudo-religioso". Contudo, usa e abusa de metáforas como "à procura de um absoluto", "o lado sombrio da alma" e "paradigma transcendente".

Seria uma inadequação habitual para alguém que sempre acreditou no liberalismo imanentista e não percebeu que este também era uma pseudo-religião?

Além disso, ao comparar as revoluções Americana e Francesa, Arendt se preocupa em diagnosticar se a primeira perdurou porque criou uma Constituição que mantinha a liberdade política, enquanto a segunda não conseguiu nada disso. Na verdade, os americanos triunfaram na sua revolução porque respeitaram a natureza humana, com sua suspeita do poder e da moral antirreligiosa; já os franceses desejavam alterá-la a qualquer custo - mesmo em nome da liberdade. Martin Amis não cai nessa armadilha em seu romance. Narra um trauma sexual ocorrido no sonho de uma noite de verão que tornou-se um pesadelo niilista.

ESCRAVOS DAS EMOÇÕES

Os jovens do escritor inglês são escravos de suas emoções e sentimentos, vivendo uma mentira romântica disfarçada de sexo, literatura inglesa e conversas sem rumo. Quando a velhice surpreende a todos, o que resta é o passado que cresce igual a um tumor e o "memento mori" como a lição adiada há tempos. Afinal, não é o que todos ignoram quando se fala da natureza humana? O fato de que todos morrerão - e o mundo sempre preferirá o aumento do poder em vez do surgimento da liberdade?

Hannah Arendt e Martin Amis querem ver o que sobrou do ser humano com tantas revoluções sonhadas e vividas. Foi pouca coisa - e não há como ignorar isso.

MARTIM VASQUES DA CUNHA é editor da revista "Dicta&Contradicta" e doutorando pela USP.

SOBRE A REVOLUÇÃO
AUTOR Hanna Arendt
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Denise Bottmann
QUANTO R$ 65 (416 págs.)
AVALIAÇÃO bom

A VIÚVA GRÁVIDA
AUTOR Martin Amis
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Rubens Figueiredo
QUANTO R$ 45 (528 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo

28 de abr de 2011

carta aberta à presidência

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sobre os desconcertantes rumos que vem tomando o ministério da cultura sob o comando de ana de hollanda, em ataque frontal às iniciativas de modernização da lei dos direitos autorais e outras questões voltadas para a ampliação do acesso social à cultura, foi encaminhada ao planalto a Carta à Excelentíssima Presidenta Dilma Roussef, disponível aqui.

é fundamental o apoio de todos neste momento crítico: peço que leiam, divulguem, assinem.
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23 de abr de 2011

"a guerra das traduções"


john milton escreveu alguns anos atrás uma súmula circunstanciada do célebre bate-boca (difícil chamar de debate ou discussão) entre bruno tolentino e augusto de campos, "a guerra das traduções". embora o episódio tenha sido um tanto grotesco, vale o artigo de john milton para os arquivos da história lítero-tradutória no país: disponível aqui.

imagem: aqui
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22 de abr de 2011

de kipling a conrad


não sei se alguém já comentou isso (muito provavelmente sim): retomando heart of darkness nesses dias, não consigo deixar de ver um antecedente das palavras finais de kurtz, "o horror, o horror", nos olhos vítreos de pavor em outro coração das trevas, desta feita na índia colonial britânica, que kipling descreve em at the end of the passage.

a explicação que o criado indiano dá para a morte de seu sahib é:
Heaven-born, in my poor opinion, this that was my master has descended into the Dark Places, and there has been caught because he was not able to escape with sufficient speed.
acho esse conto belíssimo, sufocantemente sensível e apavorante, uma das melhores coisas de kipling. hummil não aguenta olhar o abismo, tortura-se para não dormir, mas o espectro da dissolução o toma mesmo assim. em heart of darkness, é como se conrad tivesse permitido a kurtz ir aonde hummil não pôde chegar. a despeito dos itinerários muito diversos de hummil e kurtz, a angústia do horror vivido pelos dois personagens me parece muito semelhante.

kipling tentou racionalizar o colonialismo como "o fardo do homem branco"; conrad foi um anti-imperialista convicto. mas
às vezes tenho a impressão de que falavam da mesma coisa.

aliás, a primeira frase do conto, citando entre aspas os direitos fundamentais da constituição americana em contraste patético-fulgurante com os quatro jogando uíste na colônia, me parece um dos inícios mais magistrais que conheço em literatura.

por fim, fala-se muito em coração das trevas e apocalipse now! - como não ver também the end of the passage no ventilador do teto do filme, fazendo tum, tum, tum (whining dolefully at each stroke) ao som de jim morrison, this is the end?

esse conto se encontra em português: "no fim do caminho", in rudyard kipling, o homem que queria ser rei e outras histórias, tradução de cristina carvalho boselli, pela record, sem data (pp. 158-78).

imagem: aqui
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20 de abr de 2011

coração das trevas II

comentei em coração das trevas a profusão de traduções dessa obra de conrad no brasil, e o recente lançamento da undécima delas pela editora landmark. dei uma olhada nessa edição: infelizmente, vem coalhada de erros de tradução, frases truncadas, falhas de entendimento, problemas de revisão, não restando muitos vestígios da elegância do original. para poupar aos leitores o desconforto e à editora o constrangimento, arrolo apenas alguns breves exemplos:

"Mind," he began again, lifting one arm from the elbow, ... so that ... he had the pose of a Buddha preaching in European clothes and without a lotus-flower
"Imaginem", ele começou novamente, libertando um dos braços a partir do cotovelo. ... assemelhando-se a um Buda que pregava, vestindo roupas europeias e a uma flor-de-lotus (p. 13)

I wouldn't have believed it of myself; but, then—you see—I felt somehow I must get there by hook or by crook. So I worried them. The men said 'My dear fellow,' and did nothing. Then—would you believe it?—I tried the women.
Eu mesmo não acreditava em mim; mas, vejam, que eu tinha que chegar lá a qualquer custo. Mas vocês acreditariam que eu tentei tudo isso através das mulheres? (p. 15)

I hastened to assure him I was not in the least typical. 'If I were,' said I, 'I wouldn't be talking like this with you.'
Apressei-me em assegurar-lhe que eu era uma pessoa muito comum. 'Se eu fosse especial', disse eu, 'não estaria conversando com você nesses termos.' (p.19)

I came upon a boiler wallowing in the grass
Deparei-me com uma caldeira deleitando-se sobre a relva (p. 23)

resumindo, minha opinião: não vale a pena.

edições brasileiras:
 
lpm: albino poli jr. 
cia. letras: sérgio flaksman

      itatiaia: regina r.junqueira
hedra: josé roberto o'shea

global: hamilton trevisan
nova alexandria: juliana l. freitas

nova alexandria: josé vicente bernardo
(adaptação juvenil)

iluminuras: celso paciornik                                                               ediouro: marcos santarrita

brasiliense: marcos santarrita

abril: celso paciornik                                                                biblioteca folha: celso paciornik

martin claret: luciano a. meira                                        landmark: fábio cyrino

a propósito, vale a pena ver o artigo de alfredo monte, "as margens derradeiras: 'aprisionados pelo inacreditável'", aqui.

atualização em 22/04/11: retificado com a inclusão da adaptação juvenil pela nova alexandria (josé vicente bernardo) e a capa correta da tradução de 2001, de juliana l. freitas. agradeço a alfredo monte.

19 de abr de 2011

tradução densa

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reproduzo aqui um trecho de wa"erdenghu, de lendo walden, pois acho que talvez possa ter interesse mais geral do que a "leitura cerrada" que faço lá:
... Thick translation ("tradução densa") achei uma expressão ótima, que parece um bom acompanhamento às propostas do close reading ou "leitura cerrada". Vim a descobrir que a noção de "tradução densa" foi proposta por Kwame Appiah - de quem, aliás, traduzi uns meses atrás um livro chamado The Honor Code -, desenvolvida a partir da thick description ou "descrição densa" de Ryle, adotada por Clifford Geertz (1973), o qual também parece apreciar a linha do "meaning of the meaning" dos pais do close reading moderno. O artigo de Appiah se chama Thick Translation, originalmente publicado em 1993 na revista Callaloo, vol. 16, n. 4, e reeditado na coletânea de Venuti (2000), The Translation Studies Reader, às pp. 389-401 (visualização parcial no Google Books, aqui).
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17 de abr de 2011


o mascote do tradutor:

firme, forte, fiel


bom programa

para quem está em curitiba, hoje às 14,30, no solar do barão, vai ter uma mesa-redonda muito legal: a autoridade do original e a autoria da tradução, com sabrina lopes, virna teixeira e claudio daniel (mediador).

o programa completo está aqui.

16 de abr de 2011

os artigos de gabriel perissé sobre tradução

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gosto  muito do trabalho de gabriel perissé na revista língua portuguesa. ele publica regularmente artigos sobre tradução, escritos com simplicidade, leveza e precisão. costuma comparar soluções de duas ou mais traduções de uma mesma obra, apontando acertos e insuficiências, mostrando aos leitores a importância e a delicadeza do ofício.

eis um exemplo, sobre a tradução de dr. jekyll and mr. hyde, de robert l. stevenson:
Há várias traduções desse clássico no Brasil. A versão de José Maria Machado (Clube do Livro, 1951), republicada em 1989, pela Estação Liberdade, tem revisão do catarinense Vicente Cechelero. Em 1960, a editora Saraiva publicou o trabalho assinado por Nair Lacerda. A FTD lançou a tradução de Lígia Cademartori, em 1989, voltada para o público infanto-juvenil. Na década de 1990, foram publicadas a de Rodrigo Lacerda (Nova Fronteira, 1992), a de Heloisa Jahn (Ática, 1994) e a de Flávia Villas Boas (Paz e Terra, 1995). De lá para cá, foram editadas mais três versões - a de Adriana Lisboa (Ediouro, 2001), a de Fabio Cyrino (Landmark, 2008) e a de José Paulo Golob, Maria Angela Aguiar e Roberta Sartori, sob a orientação da tradutora e professora Beatriz Viégas-Faria (L&PM, 2008).

Faço nestas páginas, a seguir, alguns breves comentários às três versões mais recentes, a partir de um trecho das declarações dramáticas que Jekyll faz sobre si mesmo no último capítulo do livro.

O ORIGINAL

Robert Louis Stevenson

Between these two, I now felt I had to choose.1 My two natures had memory in common, but all other faculties were most unequally shared between them. Jekyll (who was composite)2 now with the most sensitive apprehensions, now with a greedy gusto,3 projected and shared in the pleasures and adventures of Hyde; but Hyde was indifferent to Jekyll, or but remembered him as the mountain bandit remembers the cavern in which he conceals himself from pursuit. Jekyll had more than a father's interest; Hyde had more than a son's indifference. To cast in my lot with Jekyll,4 was to die to those appetites which I had long secretly indulged and had of late begun to pamper.5 To cast it in with Hyde was to die to a thousand interests and aspirations, and to become, at a blow and for ever, despised and friendless.

AS VERSÕES

Adriana Lisboa 

Senti, então, que precisava escolher entre os dois.1 Minhas duas naturezas tinham a memória em comum, mas todas as outras faculdades dividiam-se entre elas de modo bastante desigual. Jekyll, que era complexo,2 projetava, ora com as maiores apreensões, ora com um entusiasmo voraz,3 os prazeres e as aventuras de Hyde, compartilhando-os; mas Hyde era indiferente a Jekyll, ou apenas se recordava dele como o bandido das montanhas se lembra da caverna em que se esconde, quando perseguido. Jekyll tinha um interesse maior do que o típico dos pais; Hyde, uma indiferença maior do que a típica dos filhos. Unir-me a Jekyll 4 significava abrir mão daqueles apetites com os quais eu há muito era indulgente em segredo e que ultimamente começara a mimar.5 Unir-me a Hyde significava abrir mão de mil interesses e aspirações, e me tornar, num único instante e para sempre, desprezado e sem amigos.

Fabio Cyrino

Entre esses dois, percebia agora que não tinha escolha alguma.1 Minhas duas naturezas tinham lembranças em comum, mas todas as minhas outras faculdades eram divididas, de forma desigual, entre elas. Jekyll, que se compunha2 com as mais sensíveis apreensões, com uma excitação mesquinha,3 agora, projetava e compartilhava dos prazeres e aventuras de Hyde; mas, Hyde era indiferente a Jekyll, ou apenas se lembrava dele como o bandido que se recorda da caverna em que se oculta da perseguição. Jekyll tinha mais do que um interesse paternal; Hyde tinha mais que a indiferença filial. Unir-me, definitivamente, a Jekyll 4 era morrer para aqueles apetites a que me havia entregado, longa e secretamente; e que, por fim, começara a descartar.5 Unir-me a Hyde, era morrer para milhares de interesses, aspirações e tornar-me de um golpe só, para sempre, desprezado e sem amigos.

José Paulo Golob / Maria Angela Aguiar / Roberta Sartori

Eu sentia que agora deveria escolher entre os dois.1 Minhas duas naturezas tinham uma memória em comum, entretanto todas as outras faculdades eram compartilhadas entre si de forma desigual. Jekyll (que era um composto),2 às vezes com forte apreensão, outras vezes com um prazer ávido,3 projetava-se e envolvia-se nos prazeres e nas aventuras de Hyde; mas Hyde era indiferente a Jekyll, ou apenas recordava-se dele como o bandido da montanha lembra da caverna na qual se esconde de perseguições. Jekyll tinha mais do que um interesse de um pai; Hyde tinha mais do que a indiferença de um filho. Apostar minha sorte em Jekyll 4 era morrer para aqueles apetites que eu, por muito tempo e em segredo, me permiti e que posteriormente passara a mimar.5 Apostar em Hyde seria morrer para centenas de interesses e aspirações e tornar-me, de uma vez e para sempre, um ser desprezado e sem amigos.

O COMENTÁRIO

1. Fabio Cyrino faz Jekyll dizer o contrário do que escreveu. O protagonista teria de escolher, sim: ou ser médico respeitado, mas frustrado, ou o monstro que satisfaz seus desejos, à margem da sociedade.
2. Jekyll "was composite", composto por muitas "partes", inclusive a parte Hyde (brincadeira com o inglês hidden, escondido). Os tradutores da L&PM escolhem "composto", que em português também pode significar que Jekyll tinha compostura, era contido, disciplinado. Para Cyrino, Jekyll "se compunha com", deturpando o original. Lisboa opta acertadamente por "complexo".
3. A expressão greedy gusto recebe três soluções: "entusiasmo voraz" (Lisboa), adequada; "excitação mesquinha" (Cyrino), em que o adjetivo destoa; e "prazer ávido" (L&PM), que deixa a desejar, inclusive por repetir o termo "prazer", usado a seguir.
4. Traduzir to pamper por "mimar" seria correto se o texto se referisse a mimar criança. Melhor "satisfazer" ou "estimular", em se tratando de apetites e desejos. Equivocada a frase "começara a descartar", de Cyrino, o oposto do que Jekyll afirma.
5. "Unir-me a" não atinge em cheio o sentido da expressão "to cast in one's lot with". A frase "to cast in my lot with Jekyll" foi bem compreendida pelos tradutores da L&PM com "apostar minha sorte em Jekyll". Se o texto fosse coloquial, outra solução seria "fechar com Jekyll".
in: O médico, o monstro ... e o tradutor. como bem diz gabriel aqui:
Uma tradução ou é cuidadosa ou não é tradução. Isto conduz a certa obsessão (salutar) em cuidar de detalhes que poderiam ser desprezados sem que ninguém os percebesse, caso não se fizessem comparações.
os artigos estão acessíveis na íntegra aqui, para assinantes da revista ou para assinantes da uol.
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15 de abr de 2011

tradução em revista

o último número de tradução em revista, da puc-rio, traz como tema geral "tradução e literatura em correspondência" (vol. 2, n.9, 2010). está disponível aqui, e os artigos são:


APRESENTAÇÃO: TRADUÇÃO E LITERATURA EM CORRESPONDÊNCIA, MAURICIO MENDONCA CARDOZO, HELENA FRANCO MARTINS

VIVER DO LONGE: TRADUÇÃO COMO CORRESPONDÊNCIA, MARCIA SA CAVALCANTE SCHUBACK

VILÉM FLUSSER: FILOSOFIA DO EXÍLIO E LEITURA DE UM PAÍS CHAMADO BRASIL, MARCIO ORLANDO SELIGMANN SILVA

VARIAÇÕES SOBRE UM ENCONTRO: JACQUES DERRIDA E ABDELKEBIR KHATIBI (SE) COR-RESPONDEM, MARIA ANGELICA DEANGELI

CORRESPONDÊNCIA DE CHARLES BAUDELAIRE: PISTAS PARA SUA POÉTICA DO TRADUZIR, ALVARO FALEIROS

EDGAR ALLAN POE NA FRANÇA E NAS CARTAS DE STÉPHANE MALLARMÉ, SANDRA M. STROPARO

STÉPHANE MALLARMÉ: CARTAS SOBRE LITERATURA, SANDRA M. STROPARO

AS CORES DO BRANCO, CRISTINA MONTEIRO DE CASTRO PEREIRA

AUSÊNCIAS E PRESENÇAS PARA UMA CARTA DE STEPHEN MACKENNA, CAETANO WALDRIGUES GALINDO

CORREIO TEATRAL: FRAGMENTOS DE UM DISCURSO CRIATIVO, WALTER LIMA TORRES NETO

O LUGAR DO EPISTOLÁRIO NA LOBATIANA: EXERCÍCIO CONTINUADO DE TEORIZAÇÃO E CONCEPÇÃO DE PROJETOS, ELIZAMARI RODRIGUES BECKER

SOBRE UMA CARTA DE HENRY MILLER, HELENA FRANCO MARTINS, MARCIA SA CAVALCANTE SCHUBACK

DE AMOR E TRADUÇÃO: GUIMARÃES ROSA NAS RELAÇÕES COM SEUS TRADUTORES, MAURICIO MENDONCA CARDOZO, MARIA PAULA FROTA
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imagem: aqui
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poe XXXV, em portugal

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encontro nos cadernos de tradução da ufsc, vol. 2, no. 24 (2009), um artigo muito interessante de vivina carreira figueiredo: "fortuna literária de edgar allan poe traduzido em portugal". o texto está aqui.


imagem: google images
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14 de abr de 2011

cursos, palestras

às vezes fico comovida quando estudantes de cursos de tradução comentam suas perplexidades sobre o ofício. mas não é por falta de oportunidade, pelo menos em são paulo e curitiba.

Ciclo de Palestras sobre Tradução - CITRAT* e Departamento de Letras Modernas, FFLCH, USP.

Palestra "A Festa da Tradução: Vilém Flusser" Cláudia Santana Martins e Murilo Jardelino, 15 de abril, 14h, Sala 261, Prédio de Letras, USP. Avenida Luciano Gualberto 406, Cidade Universitária, SP

Desafios da tradução literária - com Maurício Santana Dias

Um panorama das principais questões sobre a tradução literária, passando por suas diferentes concepções ao longo da história e pelos problemas teóricos e práticos que envolvem o trabalho do tradutor, como as pesquisas paralelas à tarefa tradutória, as ambiguidades que permeiam a interpretação do texto e as demandas do mercado editorial, com exemplos de versão para o português da obra de Italo Calvino, Luigi Pirandello e outros autores.

Programa
12 de abril
Delimitando o campo: teorias da tradução na história e situação atual dos estudos de tradução
19 de abril
Demandas do texto literário e competências do tradutor
26 de abril
Da cultura de partida à cultura de chegada: um difícil equilíbrio
3 de maio
Duvidar o tempo todo: o trabalho interminável da tradução

Maurício Santana Dias é professor de Literatura Italiana na USP, crítico e tradutor de 71 contos de Primo Levi (Cia. das Letras, 2005), Trabalhar cansa, de Cesare Pavese (Cosac Naify, 2009) e O príncipe, de Maquiavel (Penguin / Cia. das Letras, 2010).

Abralic Simpósio "Tradução e Adaptação: Entrecruzamentos e Limites"
Inscrição até 15 de abril
Prezados,
Nós o convidamos a participar e a divulgar o simpósio "Tradução e Adaptação: Entrecruzamentos e Limites" (com resumo abaixo), que coordenaremos no XII Congresso Abralic (18 a 22/07/11, UFPR, Curitiba). A inscrição deve ser feita SOMENTE no site da Abralic - http://www.abralic.org.br/ - entre os dias 14/03 e 15/04/11.

NA CASA GUILHERME DE ALMEIDA: http://www.casaguilhermedealmeida.org.br/

GRUPO DE ESTUDOS DE TRADUÇÃO POÉTICA

Por Alípio Correia de Franca Neto
Quintas-feiras, das 19h30 às 21h30, Dias 7 e 14 de abril; 5, 12, 19 e 26 de maio.

Essa atividade permanente da Casa Guilherme de Almeida destina-se à discussão de aspectos teóricos e práticos da tradução de poemas, com base no próprio exercício orientado de tradução de obras escolhidas.

Alípio Correia de Franca Neto é tradutor e escritor. Traduziu, entre outros, os livros Música de câmara, de James Joyce, e A balada do velho marinheiro, de S. T. Coleridge.

OFICINA DE TRADUÇÃO DE PROSA

Por Alzira Allegro
Sábados, das 10h30 às 12h30.
Dias 12, 19 e 26 de março; 2 e 30 de abril; 7 e 14 de maio; 4 e 18 de junho.

O curso terá por objetivo a realização, pelos alunos, de tradução de uma obra de prosa; para tanto, tratará de aspectos teóricos e práticos de tradução literária. O resultado do trabalho em grupo será publicado pela Casa Guilherme de Almeida.

Alzira Allegro é professora de Literatura de Povos de Língua Inglesa e de Práticas de Tradução no Centro Universitário Ibero-Americano (Unibero). Tem diversos trabalhos publicados na área de tradução, entre eles, A Evolução – Cartas Seletas de Charles Darwin (1860-1870) e O Espelho e a Lâmpada.

JAMES JOYCE ENTRE NÓS: TRADUÇÃO BRASILEIRA

Por Maria Teresa Quirino
Terças-feiras, das 19h30 às 21h30. A partir do dia 5 de abril.

A oficina propõe a leitura, em voz alta, pelos participantes, de diferentes traduções da obra de Joyce, seguida de observações e comentários sobre os textos. A série de encontros, que deverá se prolongar por todo o ano, inicia-se, no dia 5 de abril, com a leitura dos contos do livro Dublinenses, que será seguido, em outro módulo do programa, pelo romance Ulisses. Do grupo de leitura emergirá um grupo de pesquisa, que terá a missão de observar e analisar as diferenças entre as traduções lidas, sob vários aspectos, com o objetivo de elaborar trabalhos a serem publicados pelo Centro de Estudos de Tradução Literária do museu.

Maria Teresa Quirino é professora, tradutora, especialista em estudos de tradução, mestre e doutoranda em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela USP e bolsista da James Joyce Summer School 2010, na University College Dublin.

CARLOS RENNÓ: LETRAS E VERSÕES

Por Carlos Rennó - Quartas-feiras, das 19h30 às 21h30. - Dias 6, 13 e 27 de abril.

O letrista e tradutor Carlos Rennó discutirá os processos de criação e de tradução de letras de música popular, apontando diferenças em relação à criação de poemas

Carlos Rennó é letrista, parceiro de Lenine, João Bosco, Gilberto Gil, Arrigo Barnabé, Pedro Luiz, Rita Lee e outros. Canções com letras suas já foram gravadas por nomes que vão de Tetê Espíndola e Gal Costa a Maria Rita, Roberta Sá e Seu Jorge. É autor de Cole Porter - Canções, Versões (Paulicéia) e organizador de Gilberto Gil - Todas as Letras (Companhia das Letras).

A POESIA DE JOYCE - Por Alípio Correia de Franca Neto
Dia 9 de junho, quinta-feira, das 19h30 às 21h30.

O tradutor dos livros de poemas de Joyce para o português aborda características da poesia joyciana e aspectos de sua experiência de tradução.

Alípio Correia de Franca Neto é tradutor e escritor. Traduziu, entre outros, os livros Música de câmara, de James Joyce, e A balada do velho marinheiro, de S. T. Coleridge.
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espinhos do ofício

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a superficialidade e ligeireza no trato editorial de uma tradução e a simplificação pasteurizadora impingida ao texto na fase de revisão são monstrinhos que não de hoje assolam as obras de tradução.

o caríssimo oséias ferraz, da editora e livraria crisálida de belo horizonte, traz à minha atenção uma carta que paulo césar de souza - tradutor de nietzsche e freud - escreveu 25 anos atrás a seu editor da época, moisés limonad. o editor, felizmente, demonstrou sensatez e o tempo se confirmou como senhor da razão.

a carta foi publicada em sem cerimônia, esgotadíssima coletânea de textos variados de paulo césar de souza, com o título de "traduzindo nietzsche: carta a um editor" (oiti, 1999). com a devida vênia, reproduzo-a aqui:






clique nas imagens para ampliar
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13 de abr de 2011

coração das trevas



joseph conrad é muito traduzido no brasil. só heart of darkness contava, até data recente, com treze traduções e adaptações diferentes. engraçado que, embora seja de 1902, o coração das trevas parece ter chegado ao brasil apenas na esteira do apocalypse now! do coppola. pelo menos não localizei nenhuma tradução anterior a 1984, ano que conheceu um minissurto de edições da obra. depois um intervalo razoável, de treze anos, e a partir daí uma sucessão constante.

O coração das trevas
(com variantes: O coração da treva; No coração das trevas; Coração das trevas)
  • Global, 1984, Hamilton Trevisan
  • Brasiliense, 1984, Marcos Santarrita (Ediouro, 1996)
  • Itatiaia, 1984, Regina Régis Junqueira
  • L&PM, 1997, Albino Poli Jr.
  • Nova Alexandria, 2001, Juliana L. Freitas
  • Iluminuras, 2002, Celso M. Paciornik (Biblioteca Folha, 2002; Clássicos Abril, 2010)
  • Martin Claret, 2003 [2007?], Luciano Alves Meira (até 2009 "Pietro Nassetti" no ISBN/FBN)
  • Nova Alexandria, 2005, José Vicente Bernardo (adaptação juvenil)
  • Rideel, 2007, Rodrigo Espinosa Cabral (adaptação juvenil)
  • Hedra, 2008, José Roberto O’Shea
  • Companhia das Letras, 2008, Sergio Flaksman
  • Landmark, 2011, Fábio Cyrino
  • Revan, 2011, Julieta Cupertino
  • Virtualbooks, 2013, "Giacomo Hund"
atualização em 22/04/11: agradeço a alfredo monte pelas informações sobre as edições da nova alexandria.

atualização em 28/03/2016: agradeço a caio meira a indicação do lançamento da virtualbooks

ver a continuação deste post em coração das trevas II.

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11 de abr de 2011

musa rara

sexta-feira próxima, dia 15 de abril, tem início o portal musa rara - literatura e adjacências, de edson cruz. o projeto fantástico de edson, ex-capitu e ex-cronópios, está aqui.


MUSA RARA – Literatura e Adjacências

MUSA NA MESA (Café literário do site, na home e em todas as páginas)
POESIA
PROSA
ARTIGOS
CRÔNICAS
ENTREVISTAS
ENSAIOS
ACADÊMICOS (textos mais acadêmicos; teses completas, monografias, debate acadêmico etc)
CRÍTICA LITERÁRIA
RESENHAS
LANÇAMENTOS (Agenda, sinopses e capas)
INFANTOJUVENIL
CIBERCULTURA (textos e agitos da cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais)
COLUNISTAS
TRADUÇÕES
BLOG DE NOTÍCIAS (informes quentinhos sobre o Mercado literário – autores de várias regiões com acesso direto para atualização. Por eqto: Zema Ribeiro [Maranhão]; Geo Cardoso [BH]; Fernando Ramos (editor do VAIA).)
LINKS (indicações de sites e blogues selecionados)
BLABLABLOGUES (toda semana alguém apresenta e comenta um blogue ou site)
TVMUSA (espaço para vídeos e outras produções visuais/player na home com o vídeo mais recente)
BANNERS (2 espaços na home, e em todas as páginas, para publicidade)
O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO? (enquete constante, na home, sempre mostrando as 3 últimas respostas)
MUSA RARA EDIÇÕES (embrião de editora voltada para edições on-demand, pubicações de alta-ajuda e e-books)
NEWSLETTER SEMANAL

COLUNISTAS CONFIRMADOS:
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Xico Sá
Fernando Ramos (editor do VAIA)
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9 de abr de 2011

coisas boas


saiu o número 2 da (n.t.), revista literária em tradução, maravilhosa. leia e baixe aqui.

POESIA SELETA

Александрийские песни
Canções alexandrinas, de Mikhail Kuzmin
[Trad. Oleg Almeida]

Επιγραμματα
Epigramas Bélicos, de Simônides de Ceos
[Trad. Robert de Brose]

Güneş
Sol, de Orhan Veli
[Trad. Leonardo da Fonseca]

Sprüche
Seleta de Lemas, de J. W. Goethe
[Trad. Gabriela Wondracek Linck]

Gerarchia
Hierarquia, de Pier Paolo Pasolini
[Trad. Stella Rivello]

Poèmes de la Renaissance Française
Poemas da França renascentista, seleção
[Trad. Andityas Soares de Moura]

Ατελη Ποιηματα
Poemas Inacabados, de Konstantinos Kaváfis
[Trad. Miguel Sulis]

Motivos de ciudad
Poemas citadinos, de Alfonsina Storni
[Trad. Gleiton Lentz]

PROSA POÉTICA

Selected fragments
Fragmentos selecionados, de Ossian (James Macpherson)
[Trad. Thiago Rhys Bezerra Cass]

CONTOS & EXCERTOS

Frammenti sul genere letterario
Fragmentos sobre gênero literário, de Leopardi
[Trad. Andréia Guerini]

Dxiibi
Miedo
O medo, de Víctor Cata
[Trad. Scott Ritter Hadley]

Otto Ruff, de Hal Porter
[Trad. Monica Stefani]

The Machine stops
A Máquina para, de E. M. Forster
[Trad. Celso Braida]

MEMÓRIA DA TRADUÇÃO

A história do dilúvio, d'A Epopeia de Gilgamesh
[original em cuneiforme e tradução em prosa a partir da versão inglesa]
[Trad. Carlos Daudt de Oliveira]

ILUSTRAÇÕES

Reflexión
Reflexão, de Federico García Lorca
[Ilustrações de Aline Daka]

SUPLEMENTO DE ARTE (n.t.) 2°

Artista convidada: Diane Victor (África do Sul)
Mostra Virtual: Modus operandi: retratando transcendências
Texto: Além da zona de conforto

Artista homenageada: Julia Margaret Cameron (Inglaterra)
Mostra Fotográfica: De onde estamos para Cameron: possibilidades

Texto: Da atemporalidade das fotografias sépias d'outrora
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7 de abr de 2011

entrevista

reproduzo abaixo uma entrevista com a jornalista luciana romagnolli, publicada no jornal o tempo. a edição se encontra aqui.


A patrulheira das traduções

Tradutora do inglês, francês e italiano, a curitibana se tornou a principal vigilante da qualidade das traduções em circulação no mercado brasileiro, à frente do blog www.naogostodeplagio.blogspot.com. Mantém atualizada uma lista negra das versões "não recomendadas" e já comprou brigas com as editoras Landmark e Martin Claret.

LUCIANA ROMAGNOLLI - Publicado no Jornal O TEMPO em 03/04/2011


Há quanto tempo você mantém o blog Não Gosto de Plágio e o que a motivou a criá-lo?

Criei o Não Gosto de Plágio em outubro de 2008, trazendo materiais que eu tinha publicado num blog coletivo chamado Assinado Tradutores. Desde 2002, críticos literários como Alfredo Monte e Ivo Barroso já denunciavam a ocorrência de plágios e cópias indevidas de traduções antigas. Em 2007, o jornal "Opção", de Goiânia, e a "Folha de S.Paulo" trouxeram a público plágios praticados pela editora Martin Claret. Na mesma época, o tradutor Saulo von Randow Jr. apurou que o mesmo procedimento tinha sido adotado pela editora Nova Cultural. A partir daí, comecei a pesquisar essas e outras ocorrências.

Você diria que nem editoras nem leitores dão suficiente atenção à qualidade e à proveniência das traduções disponíveis no mercado brasileiro?

Quanto à qualidade das traduções que circulam, eu diria que é variável. Num balanço rápido, tendo a crer que houve nos últimos 20 ou 30 anos um salto qualitativo na tradução de livros no Brasil. A atividade está mais madura e, principalmente, tem se generalizado entre as editoras a percepção de que a qualidade da tradução faz uma grande diferença. Leitores, em sua maioria, sabem distinguir claramente entre traduções boas e não tão boas. Em inúmeros sites, blogs e fóruns, surpreende a preocupação com a qualidade das traduções no Brasil.

Quais são as principais estratégias de plágio? Pode dar exemplos?

A mais banal é a cópia pura e simples de traduções antigas, esgotadas há muito tempo. Um exemplo é "O Homem que Foi Quinta-feira", de G. K. Chesterton, pela editora Germinal, com tradução atribuída a Vera Lúcia Rodrigues, mas que não passa da cópia fiel da tradução de José Laurênio de Mello, pela Agir. A editora Centauro também costuma reproduzir literalmente traduções das quais se apropriou: "A Questão Judaica de Marx", "Minha Irmã e Eu", de Nietzsche (apócrifa), "O Desenvolvimento do Psiquismo", de Leontiev, e outros. A seguir, vêm as tentativas de disfarçar inabilmente a cópia, com maior ou menor número de adulterações da tradução inicial: é o procedimento mais utilizado. Existe também a montagem de duas traduções diferentes, geralmente com tentativas de disfarçar a apropriação. Veja-se, por exemplo, "Arte Poética de Aristóteles", pela editora Martin Claret, com tradução em nome de Pietro Nassetti: é uma montagem do texto e das notas de Antônio Pinto de Carvalho com as eruditas notas de Eudoro de Souza. Há ainda os casos de cópias de traduções portuguesas - e, aí, tenta-se adaptar o texto ao português do Brasil, nunca com pleno sucesso. Na maioria dos casos, essas fraudes utilizam edições esgotadas de editoras que já encerraram suas atividades, como a Vecchi, a Minerva e a Atena. Obras esgotadas há muitas décadas, abandonadas, formam uma espécie de limbo editorial. Um ponto muito positivo na proposta de revisão da lei dos direitos autorais, que esteve em curso durante a gestão anterior do MinC, era a possibilidade de se conceder uma licença não exclusiva a editoras interessadas em recuperar esse patrimônio tradutório jogado às traças.

Você declinou da responsabilidade pela tradução do livro "Como Funciona a Ficção", do crítico James Wood, publicada pela Cosac Naify, porque a editora usou, em vez das suas, traduções pré-existentes dos trechos citados pelo autor, mas que não corresponderiam ao estilo original que o crítico pretendia destacar. Como ficam suas relações com a editora?

O problema de "Como Funciona a Ficção" foi muito localizado. Embora eu tenha ficado numa situação que me fez vir a público, continuo a colaborar com a Cosac com outras traduções.

Você já entrou com 15 petições contra traduções de autoria forjada. Pode comentar os casos mais acintosos de plágio que já encontrou, fazendo uma "lista negra" básica para o leitor?

No Não Gosto de Plágio, criei uma seção listando os livros que não recomendo e uma seção com cotejos entre a edição legítima e a edição espúria. São todos eles realmente acintosos! A cópia fiel é ridícula ao supor que os leitores são ignorantes; a cópia disfarçada é patética pela má-fé ainda mais evidente.

Denúncias suas causaram reações negativas de editoras, que até entraram com processo contra você - como a Landmark. Houve, ao contrário, casos em que as editoras mudaram o rumo de suas atividades?

Felizmente! Na verdade, várias delas acataram o que apontei, sem represálias nem ameaças, e não precisei recorrer ao Ministério Público. É o caso da Nova Cultural, da Rideel, da Madras, da Cedic, que prontamente retiraram as obras espúrias de circulação e catálogo. Recebi apoio de diversas editoras íntegras.

Quais são as suas "brigas" atuais?

Ufa, felizmente não tenho visto novas ocorrências de fraudes em tradução. Quem acompanha o blog pode observar que, até onde consigo acompanhar, a prática não só estacionou, mas também se reduziu muito. Mas - infelizmente! - muitas dezenas, talvez mais de uma centena, de obras espúrias continuam em circulação. As ações demoram para transitar nos tribunais, as livrarias em sua maioria continuam a vender obras que, em alguns casos, até mesmo o próprio editor admite publicamente serem espúrias. Em suma, os leitores precisam continuar atentos para não serem enganados. A briga continua, mas em marcha lenta: as investigações sobre a editora Martin Claret - o caso mais escandaloso, pela quantidade de obras irregulares ainda à venda -, instauradas por determinação do Ministério Público, estão em andamento em pelo menos dois processos independentes. Há ainda uma ou duas editoras com obras bastante duvidosas em seus catálogos, sobre as quais estou reunindo dados e pretendo, futuramente, trazer esses casos a público.

Como o leitor pode se precaver ou se defender de uma má aquisição?

Para se precaver, tem que se informar. Para se defender, sei de pelo menos um caso de leitor insatisfeito que, após contatos infrutíferos com a editora do livro, recorreu ao Tribunal de Pequenas Causas de sua cidade, e o juiz acatou a reclamação. Mas imagino que o leitor lesado pode, em primeiro lugar, pedir a devolução do dinheiro junto à livraria ou à própria editora. Caso enfrente alguma dificuldade, talvez possa registrar a ocorrência na delegacia. Caminhos existem vários. De qualquer forma, é sempre um desgaste e me parece um absurdo que tenhamos de chegar a tal ponto.

Outro aspecto a ser levado em conta - e é assustador - é a presença dessas obras espúrias em dezenas de milhares de artigos, dissertações, teses, bibliografias de cursos universitários, concursos vestibulares, licitações públicas, de Norte a Sul do país. Além dessa inacreditável difusão, tem-se a perpetuação da fraude sob a forma de referência bibliográfica. Mesmo quando todas essas imposturas estiverem fora da circulação, continuarão presentes em todo o sistema de ensino. E não me refiro só a estudantes, talvez mais desavisados, mas também a professores que as recomendam em seus cursos.
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4 de abr de 2011

fatos, realidades etc.

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em janeiro de 2009, a partir de indicações dadas por uma leitora de jane austen, apontei uma flagrante irregularidade na edição de persuasão, da editora landmark. resumidamente, a autoria da tradução publicada pela landmark vinha atribuída a fábio cyrino, diretor editorial da empresa. no entanto, ela se afigurava quase idêntica, inclusive nos erros e gralhas de impressão, à tradução de isabel sequeira, publicada pela editora europa-américa de portugal. expus a questão aqui.

em fevereiro de 2010, recebi a citação de uma ação judicial movida pela editora landmark e o sr. fábio cyrino, pleiteando remoção imediata do blog e uma indenização de quatrocentos salários mínimos por danos materiais e morais. a editora reiterou na imprensa, por meio de seu advogado, que tinha ingressado com a ação porque minhas denúncias estariam "totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio" (aqui). o processo se encontra em andamento.

logo a seguir, em generosa mostra de solidariedade, foi criado um manifesto em defesa da luta contra os plágios de tradução, que se encontra aqui.

agora em 2011, pelo que vejo, a editora landmark parece ter admitido a real realidade dos fatos, passando a reconhecer a verdadeira autoria da tradução de persuasão.

em recente cadastramento da obra persuasão em formato ebook junto à agência brasileira do isbn, na fundação biblioteca nacional, a editora landmark incluiu o devido crédito da tradução a isabel sequeira. cabe notar que o nome de fábio cyrino agora consta como coautor da tradução: como aparentemente o ebook é uma réplica digital da edição impressa de 2007, a responsabilidade de fábio cyrino nessa coautoria talvez diga respeito às leves alterações na tradução portuguesa de isabel sequeira, quando foi publicada em livro em seu nome.


a ficha do cadastro oficial da obra se encontra aqui.

captura de tela: jane austen em português.
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3 de abr de 2011

getting wilde

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não bastava o massacre a que o retrato de dorian gray foi submetido na edição da landmark, conforme a resenha do professor e crítico literário alfredo monte, "o retrato desfigurado", a revista época não deixou por menos:


fonte: http://twitpic.com/46lyp9/full, via @cloacanews no twitter.

atualização em 4/4/11: a pífia errata, que nos faz curiosos sobre as brumas entre as quais parece caminhar esse jornalismo apressado, está aqui: http://tinyurl.com/3waqesh, via @ericaCSI no twitter.
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