30 de set de 2011

que simpatia o cartão que a l&pm está enviando para seus colaboradores!

o dia internacional da tradução

vida eterna a essa coisa maravilhosa que possibilita o entendimento humano na terra: a tradução.

Cimélios

29 de set de 2011

antecipando

só para lembrar, amanhã, dia 30, é o dia internacional da tradução.


imagem: aqui
.

25 de set de 2011

share images - images for blogs

muito legal esse site, creative output., indicação de federico carotti.

amartya sen

Recentemente saiu o belo livro de Amartya Sen, A ideia de justiça, pela Companhia das Letras.


Meu nome consta nos créditos de tradução junto com o de Ricardo Doninelli Mendes. Muito me honra, porém quero frisar que traduzi apenas os capítulos 17 e 18 (mas não o 16, como consta na página de dados catalográficos), as notas e os índices, não mais de cem páginas num volume com quase quinhentas. Praticamente todo o mérito cabe mesmo é a Ricardo D. Mendes.
.

23 de set de 2011

o jabuti volátil


  • o prêmio jabuti, da cbl, foi criado em 1959, com oito categorias. 
  • em 1978, já com o dobro de categorias, dezesseis, estreou a categoria de tradução de obra científica. 
  • em 1979, criou sua décima-sétima categoria, a tradução de obra literária. 
  • até 1986, convivem as duas categorias de tradução. 
  • em 1987, as duas categorias são reduzidas a uma, sob a rubrica geral de "tradução".
  • em 1988, some a "tradução" e volta a categoria anterior de tradução de obra literária, mas apenas ela. 
  • em 1993, some a tradução de obra literária; volta a ser apenas tradução, contemplando os cinco primeiros classificados.
  • a partir de 1997, sempre na categoria única de tradução, passam a ser três classificados.
  • a partir de 1998, a categoria única de tradução volta a se restringir a obras de ficção, com três classificados.
  • em 2009, no ano brasil-frança, é criada uma categoria de tradução de obra literária em francês, além da categoria geral de tradução (apenas literária, desde 1998), com três classificados.
  • em 2010, a categoria de tradução do francês é substituída por tradução do espanhol, nas mesmas condições.
  • em 2011, essa categoria adicional é eliminada, e resta a tradução de obra literária, restrita a contos, crônicas, poesias e romances, com dez finalistas e apenas o primeiro classificado, num total de 29 categorias.
atualização em 13/06/2013:
  • em 2013, retorna a categoria adicional, neste ano contemplando o alemão; a premiação da categoria geral de tradução passa a acolher inscrições de obras de não ficção; o total de categorias é reduzido a 27; amplia-se o número de premiados para os três primeiros classificados, recebendo troféus, e o primeiro classificado recebendo um valor em dinheiro.
fonte: cbl

imagem: stacysix
.

o jabuti atrapalhado

acabou que a comissão do jabuti da cbl resolveu desclassificar a tradução da obra de johann huizinga, o outono da idade média, que havia sido selecionada como obra de ficção, e substituiu por estranho interlúdio, peça de eugene o'neill, em tradução de alípio correia de franca neto. em vista do regulamento estreito e tacanho, mas muito explícito - "29. Tradução: Textos exclusivamente literários de ficção (contos, crônicas, romance, poesia), traduzidos de qualquer idioma, para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil" -, acho meio confuso que se aceitem e se selecionem peças de teatro. uma pena...


acho que realmente o jabuti tem de parar e repensar com calma e sensatez seu inchamento descontrolado, que só gera confusão e alopramento, e deixa de lado coisas fundamentais como as traduções de novelas, peças de teatro, ensaios, artes e humanidades.

veja aqui o regulamento. acompanhe a confusão aqui e aqui. naturalmente, fica uma situação meio incômoda para a cosac, a record e a 34 que foram desclassificadas, mas é evidente que a falha foi, em primeiro lugar, da própria cbl, ao aceitar inscrições sem checar se atendiam aos critérios, e em segundo lugar dos membros das comissões que selecionaram os finalistas e nem se deram ao trabalho de examinar direito as obras que tinham em mãos.

atualização em 29/09/11: infelizmente, mais uma cincada e mais uma desclassificação - veja aqui
.

rideel, uma questão de palavra

de vez em quando faço um acompanhamento das edições espúrias que tal ou tal editora tinha se comprometido a tirar de circulação. hoje encontrei no portal de livros, aqui, vários títulos da coleção de filosofia publicada pela rideel, cuja distribuição supostamente estaria suspensa.



no site da livros de direito, aqui, também encontrei, entre outros títulos supostamente retirados de circulação: 



no site da bestbooks, aqui, note-se que há a ressalva "sujeito a disponibilidade na editora" nos títulos, exceto quando consta "esgotado" (fustel de coulanges) - o que faz supor que os demais estejam disponíveis:


na relativa, aqui, tem:


então estou com receio de que o sr. mario amadio, diretor comercial da empresa, talvez tenha esquecido o compromisso assumido, o qual ele próprio pedira que eu divulgasse em público. pois seria esquisito não manter a palavra dada, e quem sabe não foram os sites das livrarias que esqueceram de tirar esses títulos? assim, antes de tirar conclusões apressadas, vou tentar entender melhor o que aconteceu. 

acompanhe o caso rideel aqui, com os vários cotejos, as declarações do diretor da empresa, a lista das obras.
.

21 de set de 2011

finalistas do jabuti, em tradução


que legal, muitos parabéns a todos! registro apenas minha surpresa que o clássico de johann huizinga, o outono da idade média, tenha sido considerado obra de ficção!


fonte: cbl

atualização em 23/9: a comissão do jabuti da cbl resolveu desclassificar o outono da idade média e substituiu por estranho interlúdio, peça de eugene o'neill, em tradução de alípio correia de franca neto. em vista do regulamento estreito e tacanho, mas muito explícito, que dispõe sobre os prêmios jabuti - "29.Tradução: Textos exclusivamente literários de ficção (contos, crônicas, romance, poesia), traduzidos de qualquer idioma, para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil" - acho meio confuso que se aceitem e se selecionem peças de teatro. uma pena...
.
.

o secular darwin plagiado sai da ediouro

A origem das espécies, de Darwin, grassou entre nós a partir dos anos 70, por obra e graça da editora Hemus - até onde sei -, numa pavorosa cópia de uma pavorosa tradução portuguesa feita a partir do francês no começo do século 20. Essa coisa horrorosa foi parar na Ediouro em 1987, que desde então saiu publicando essa pretensa tradução. É uma longa história, amplamente documentada aqui no blog, que não vou repetir. Os posts correspondentes, em todo caso, estão arquivados em "Darwin", aqui, e aqui uma súmula.

Ontem recebi correspondência do Ministério Público do Rio Janeiro, aparentemente com o problema sanado. Apresento aqui a documentação (clique nas imagens para ampliar):







.

não pode, e ponto: a saraiva e a nova fronteira concordam

 Liguei hoje para a Nova Fronteira sobre o caso das alterações feitas na Ilíada e na Odisseia, que comentei no post anterior, aqui. Deixei recado e pouco depois uma moça muito gentil, de nome Shahira, me ligou de volta, explicando que receberam a correspondência enviada pelo professor Érico Nogueira, à qual já responderam agradecendo a contribuição. Segundo Shahira, o gerente comercial da Saraiva determinou ontem no final da tarde a recolha de todos os exemplares à venda dessas duas edições da Saraiva de Bolso, para retificação e restituição fiel do texto de Carlos Alberto Nunes. A previsão é que as edições fiéis entrem em circulação dentro de quinze dias.

Menos mau, parabéns a Érico Nogueira e parabéns à Nova Fronteira, os leitores agradecem.
.

19 de set de 2011

não pode, e ponto.




Não sei grego, li poucas vezes a Ilíada e a Odisseia, e ainda por cima em prosa. O pouquinho que li da tradução da Ilíada de Odorico Mendes nem conta. Nunca li as traduções feitas por Carlos Alberto Nunes, que foram recentemente lançadas na coleção Saraiva de Bolso.

Dito isso, o que sei é que João Angelo Oliva Neto é respeitado e conceituado classicista, e Érico Nogueira também. Assim, se Érico explica que a troca de Odisseu por Ulisses é praticamente um crime de lesa-majestade:
Dois exemplos devem bastar; um da Ilíada:
"Idomeneu, o fortíssimo Ajaz. Ulisses, porventura";
da Odisseia o outro:
"Palas a todos contava do divo Ulisses os trabalhos";
e em ambos o torpe assassinato de Odisseu e do ritmo dactílico, e versos antes perfeitos agora de pé quebrado.
e se João Oliva comenta:
Não bastasse o "Ulisses" fora do ritmo, a Odisséia de bolso, a despeito de três preparadores de originais, manteve erro de efeito semelhante que a 6a edição da Ediouro INSERIU na sua própria e melhor edição anterior.[...]  no verso 38 lê-se:
"do próprio Atrida se uniu imolando-o no dia da volta",
em que os acentos recaem em prÓ, trI, nIU, lAN, dI, e vOL
ou seja, 2a, 4a, 7a, 10a, 13a, e 16a como deve ser para manter-se o andamento datílico.
Pois bem, a edição de 2004, já em formato maior, e esta atual trazem "Átrida", proparoxítono, contra a forma que Carlos Alberto Nunes escolheu, que, inclusive, é a correta, abonada pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa,
eu acredito. E não só acredito, como fico encantada em saber que temos tão bons classicistas, tão bons conhecedores de Homero e admiradores da obra de Carlos Alberto Nunes, capazes de alertar a nós leitores.

Outra coisa que eu sei também é que um dos direitos morais do autor da tradução é o direito à integridade de sua obra. Diz lá na lei 9610/98:
Capítulo II
Dos Direitos Morais do Autor
Art. 24. São direitos morais do autor:
[...]
IV – o de assegurar a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações ou à prática de atos que, de qualquer forma, possam prejudicá-la [...]
Juntando a com b, mesmo em minha mais abissal ignorância do grego, de Homero, da tradução de Carlos Alberto Nunes e das técnicas de versificação, parece-me que alterar um determinado ritmo e quebrar o pé de um verso não são coisa pouca e prejudicam, sim senhor, a integridade da obra.

Então o que concluo é que a Saraiva (ou quem lhe licenciou a tradução) fez mal, errou, cometeu uma infração da lei 9610/98 ao modificar a tradução de Carlos Alberto Nunes e ao violar seu direito moral à integridade da obra.

Eu, se fosse da área ou se os direitos de Carlos Alberto Nunes estivessem sob minha guarda, recorreria aos meios legais para proteger a obra contra essas mutilações editoriais alopradas.

Deixo humildemente minha solidariedade aos lesados por essa violação dos direitos morais de Carlos Alberto Nunes: na verdade, incluo-me entre eles, como leitora.

O caso está no blog de Érico Nogueira, Ars Poetica, aqui. Agradeço o toque de Luiz de Carvalho.

Atualização: veja o desdobramento do caso aqui.

.

15 de set de 2011

14 de set de 2011

agenor moura e olívia krähenbühl


há tempos me sinto incomodada com uma crítica do articulista agenor soares de moura à finíssima tradutora e crítica literária olivia krähenbühl. trago o assunto à tona apenas porque a carreira de crítico de agenor moura foi revivida em anos recentes, graças à compilação organizada por nosso grande ivo barroso e publicada em 2003 com o título de À margem das traduções.

a peça de agenor moura consta logo no início de seu primeiro artigo escrito para o diário de notícias do rio de janeiro em 1944, inaugurando uma coluna semanal dedicada à crítica de traduções no brasil, e se encontra reproduzida à p. 21 do citado À margem das traduções. reproduzo aqui o comentário de agenor moura sobre a competência linguística e literária de olivia krähenbühl:
A sra. Olivia Krahenbuhl, em artigo intitulado "Duplo aspecto da tradução",* aparecido num dos nossos suplementos dominicais, refere-se aos Sonetos da portuguesa, de Elizabeth Barrett Browning. Para quem fala de traduções, a referência, como está feita, me parece claudicante. Certamente o desejo da autora do artigo foi mencionar os Sonnets from the portuguese, coletânea de quarenta e quatro sonetos a que a mulher de Robert Browning deu esse título fantasista (ver a Cambridge history of english literature) - pois, embora não se trate de traduções, o título exprime que os sonetos da poetisa foram feitos "como se" inspirados nos da língua portuguesa. Logo, em português, o livro de Elizabeth Browning deveria chamar-se Sonetos tirados do português, ou Sonetos à maneira dos portugueses, ou ainda Sonetos ao molde dos da língua portuguesa. O que não se deve é dizer Sonetos da portuguesa, o que parece indicar que haja uma dama lusitana autora dos poemas.
* o artigo citado pode ser lido aqui.

Magister dixit. Faço um resumo rápido: muitos anos antes de escrever os poemas mais tarde enfeixados como Sonnets from the Portuguese, Elizabeth Barrett havia escrito um poema de amor chamado "Catarina a Camões". Quando ela tem seu longo romance secreto com Robert Browning, urdido numa intensa troca de cartas e juras de amor, ambos por vezes tomam como personae Catarina e Camões, justamente. Já casados, Robert convence Elizabeth a publicar os poemas de amor que ela lhe dedicara, e optam deliberadamente por um título que sugerisse tratar-se de uma tradução de poemas escritos por uma anônima poeta portuguesa. Essa pseudotradução (como se diz), ademais, ressoa também com as figuras históricas que o casal havia escolhido como emblemas do seu romance.*
* Ivo Barroso aponta que o título pretendia indicar que se tratava de uma tradução do português: ver aqui. Há também quem sustente que os "Sonetos da portuguesa" receberam esse nome porque Robert chamava Elizabeth de "minha portuguesinha", devido à sua tez azeitonada.

Faça-se, pois, justiça a Olívia Krähenbühl: certa ela, errado seu crítico. Sonetos da portuguesa é a tradução mais adequada.


Fico muito feliz com o recente lançamento pela editora Rocco da belíssima tradução feita por Leonardo Fróes (e, naturalmente, com o título de Sonetos da portuguesa). A edição bilíngue vem acompanhada de um precioso e iluminador posfácio do tradutor.
.

13 de set de 2011

jane eyre, o cotejo II

sodré viana:

"Sangram-me os pés. E sinto-me cansada.
A estrada é longa e os montes são agrestes.
Breve, uma noite fúnebre, sem luar,
Virá tingir a estrada da orfãzinha.

Por que me exilam, tão distante e só,
Nos fundos tremedais, nas rochas tristes?
Homens maus... A doçura dos arcanjos
Vela pela jornada da orfãzinha.

Agora, longe e branda, a aragem sopra.
O céu está limpo e tem estrelas meigas.
A bondade de Deus unge de amparo
E conforto e esperança a orfãzinha.

Que eu tombe atravessando a ponte em ruínas,
Que os pirilampos me arremessem aos charcos:
Meu Pai, ciciando bênçãos e promessas,
Há de acolher em Si a orfãzinha.

Idéia cuja força me conforta,
Sensação de carinho e de amizade:
O céu é um lar onde terei descanso,
Porque Deus é amigo da orfãzinha."

waldemar rodrigues de oliveira:

"Sangram-me os pés. E sinto-me cansada.
A estrada é longa e os montes são agrestes.
Breve, uma noite fúnebre, sem luar,
Virá tingir a estrada da orfãzinha.

Por que me exilam, tão distante e só,
Nos fundos tremedais, nas rochas tristes?
Homens maus... A doçura dos arcanjos
Vela pela jornada da orfãzinha.

Agora, longe e branda, a aragem sopra.
O céu está limpo e tem estrelas meigas.
A bondade de Deus unge de amparo
E conforto e esperança a orfãzinha.

Que eu tombe atravessando a ponte em ruínas,
Que os pirilampos me arremessem aos charcos:
Meu Pai, ciciando bênçãos e promessas,
Há de acolher em Si a orfãzinha.
Idéia cuja força me conforta,
Sensação de carinho e de amizade:
O céu é um lar onde terei descanso,
Porque Deus é amigo da orfãzinha."

original:


“My feet they are sore, and my limbs they are weary;
   Long is the way, and the mountains are wild;
Soon will the twilight close moonless and dreary
   Over the path of the poor orphan child.
Why did they send me so far and so lonely,
   Up where the moors spread and grey rocks are piled?
Men are hard-hearted, and kind angels only
   Watch o’er the steps of a poor orphan child.
Yet distant and soft the night breeze is blowing,
   Clouds there are none, and clear stars beam mild,
God, in His mercy, protection is showing,
   Comfort and hope to the poor orphan child.
Ev’n should I fall o’er the broken bridge passing,
   Or stray in the marshes, by false lights beguiled,
Still will my Father, with promise and blessing,
   Take to His bosom the poor orphan child.
There is a thought that for strength should avail me,
   Though both of shelter and kindred despoiled;
Heaven is a home, and a rest will not fail me;
   God is a friend to the poor orphan child.”

.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



jane eyre, o cotejo

hoje, por fim, chegou meu exemplar de jane eyre na tradução de sodré viana. já tinha recebido na semana passada a edição da itatiaia, com tradução em nome de um certo "waldemar rodrigues de oliveira".

veja a introdução ao tema aqui, em "leitora alerta"ou na linha de assuntos "itatiaia", aqui.

transcrevo abaixo alguns parágrafos das "duas" traduções. como a leitora vanessa já tinha transcrito o parágrafo inicial, sigo um pouco adiante.

sodré viana:

Capítulo I
      [...] Isto me alegrava; não gostava de caminhadas longas, principalmente em tardes frias. Temia a volta, os dedos e os artelhos torturados, o coração confrangido pelos carões de Bessie, a governante, e humilhada na consciência da minha inferioridade física diante de Lisa, de John e de Georgiana Reed.
      Agora, na sala de visitas, Elisa, John e Georgiana rodeavam a mamãe deles. E ela, reclinada no sofá, ao pé do fogo, com os seus queridos em torno (no momento não estavam rusgando nem gritando) tinha um olhar fundamente feliz. Quanto a mim, vivia banida do grupo. A senhora Reed declarara "lamentar muito ter de conservar a distância". E que: "enquanto não ouvisse de Bessie, e não pudesse ela mesma constatar que eu me esforçava sinceramente por adquirir um comportamento mais sociável e mais próprio a uma menina, um modo atraente, e jovial - qualquer coisa de mais dúctil, mais franco e mais espontâneo - via-se na obrigação de me excluir dos privilégios devidos somente às criancinhas bem procedidas e alegres".

waldemar rodrigues de oliveira:

Capítulo I
      [...] Isto me alegrava; não gostava de caminhadas longas, principalmente em tardes frias. Temia a volta, os dedos e os artelhos torturados, o coração confrangido pelas censuras de Bessie, a governante, e humilhada na consciência da minha inferioridade física diante de Lisa, de John e de Georgiana Reed.
      Agora, na sala de visitas, Elisa, John e Georgiana rodeavam a mamãe deles. E ela, reclinada no sofá, ao pé do fogo, com os seus queridos em torno (no momento não estavam rusgando nem gritando) tinha um olhar fundamente feliz. Quanto a mim, vivia banida do grupo. A senhora Reed declarara "lamentar muito ter de conservar a distância". E que: "enquanto não ouvisse de Bessie, e não pudesse ela mesma constatar que eu me esforçava sinceramente por adquirir um comportamento mais sociável e mais próprio a uma menina, um modo atraente, e jovial - qualquer coisa de mais dócil, mais franco e mais espontâneo - via-se na obrigação de me excluir dos privilégios devidos somente às criancinhas bem procedidas e alegres".

original:

      I was glad of it: I never liked long walks, especially on chilly afternoons: dreadful to me was the coming home in the raw twilight, with nipped fingers and toes, and a heart saddened by the chidings of Bessie, the nurse, and humbled by the consciousness of my physical inferiority to Eliza, John, and Georgiana Reed.
     The said Eliza, John, and Georgiana were now clustered round their mama in the drawing-room: she lay reclined on a sofa by the fireside, and with her darlings about her (for the time neither quarrelling nor crying) looked perfectly happy.  Me, she had dispensed from joining the group; saying, “She regretted to be under the necessity of keeping me at a distance; but that until she heard from Bessie, and could discover by her own observation, that I was endeavouring in good earnest to acquire a more sociable and childlike disposition, a more attractive and sprightly manner—something lighter, franker, more natural, as it were—she really must exclude me from privileges intended only for contented, happy, little children.”

posso assegurar que todo o restante do livro segue nessa mesma toada da pura cópia, nem mesmo fazendo outras trocas ao estilo de "carão" por "censura" ou de "dúctil" por "dócil".

a tradução de sodré viana está longe de ser um primor de correção, estilo ou fluência, mas é ele o seu autor, e como tal deve ser tratado. agora, quem é esse "waldemar rodrigues de oliveira" - um nome inventado, um ser de carne e osso que se apropriou da tradução de sodré viana ou que emprestou o seu nome à itatiaia para que a editora se apropriasse dela - não sei dizer. o que me parece cristalino e irrefutável é o fato concreto, material, objetivo da apropriação indevida.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.






.

9 de set de 2011

lindíssimo

.
uma das coisas mais lindas que vi nos últimos tempos:

acesse: Quad Time from The Joy of Box on Vimeo.
.

8 de set de 2011

a propósito

.
na esteira da espantosa constatação da existência de nada menos que oito traduções de jane eyre no brasil e nenhuma tradução de seu romance villette e apenas uma tradução de mais de 60 anos atrás de charlotte (e esquecidíssima e esgotadíssima), peço licença à folha de s.paulo de transcrever aqui a íntegra de um artigo de nelson ascher, disponível apenas para assinantes.

embora tenha sido escrito mais de três anos atrás (saiu em 05 de maio de 2008), o artigo continua atualíssimo e talvez seja ainda mais pertinente nessa grave e ridícula crise de superposição e superprodução editorial dos últimos anos.

NELSON ASCHER 

Para racionalizar o mercado de traduções


Não valeria mais a pena dirigir a atenção dos tradutores para obras que seguem inéditas?


NUNCA TEREMOS um mercado editorial de traduções literárias tão opulento e variado quanto o anglo-americano, um mercado que pode se dar ao luxo de, por exemplo, oferecer ao público, em poucos anos, duas traduções completas da "Argonáutica" de Apolônio de Rodes, duas da "Farsália" de Lucano e uma da "Tebaida" de Estácio, todas em verso.

Mas não é por isso que um pouco mais de ordem, disciplina e racionalidade não ajudariam nosso mercado a dar um salto qualitativo. A ausência dessas, que poderia começar a ser corrigida com um banco de dados que arrolasse e avaliasse o que já se traduziu no Brasil, acaba acarretando um desperdício de energia que seria mais útil se aplicada a projetos não redundantes.

O caso exemplar é o da "Comédia Humana" de Balzac, título genérico sob o qual se reúne sua produção ficcional madura, ou seja, várias dezenas de contos, novelas e romances interconectados. Traduzida no Brasil entre os anos 1940/50 e publicada pela Editora Globo em 17 volumes, esta, uma das maiores empreitadas editoriais do país, resultou do esforço coletivo de diversos tradutores trabalhando sob a coordenação de Paulo Rónai, que não apenas reviu meticulosamente o texto em português como acrescentou-lhe uma bela biografia do autor, além de milhares de notas explicativas, selecionando, ademais, ensaios de escritores e críticos consagrados para prefaciar cada tomo.

Reeditado poucas vezes desde então, o conjunto está agora fora do mercado e é difícil lhe achar qualquer um dos volumes até em sebos. Ao que parece, o que impede uma nova publicação é a falta de acordo entre editores e os herdeiros do organizador, algo que, obviamente, faz parte do jogo legítimo do mercado e se resolve mediante negociações.

Acontece que se, no entretempo, os leitores perdem a oportunidade de ler a excelente tradução dessa obra em arquipélago que se encontra no centro do universo romanesco do Ocidente, em breve a situação se consolidará em prejuízo de todos, inclusive dos herdeiros. Pois, atendendo à demanda, outras editoras, em especial a L&PM, têm lançado suas próprias traduções, algumas muito boas, outras nem tanto, dos livros individuais. Assiste-se, portanto, a uma corrida contra o tempo, porque, tão logo o núcleo da "Comédia Humana" esteja disponível em traduções diferentes, ainda que inferiores, a clientela potencial para a edição completa e anotada encolherá sensivelmente.

Há tantas excelentes traduções já esgotadas e sem perspectiva próxima de republicação que seria lícito tomá-las antes como a regra geral do que como exceções infelizes.

Restringindo-nos somente aos clássicos franceses, conviria mencionar "Servidão e Grandeza Militares", de Vigny, traduzido pelo próprio Rónai, a coletânea da ficção de Prosper Mérimée (cuja novela "Carmen" celebrizou-se ao ser convertida na ópera homônima de Bizet) traduzida por Mário Quintana, "Bouvard e Pécuchet", de Flaubert, traduzido por Galeão Coutinho e Augusto Meyer.

A não ser que se conseguissem versões capazes de eclipsar aquelas - algo improvável -, não valeria mais a pena dirigir a atenção dos tradutores contemporâneos para obras que seguem inéditas na língua, como, digamos, os aforismos de Joseph Joubert?

Não que o problema seja novo. Meio século atrás, quando saíram, quase simultaneamente, três traduções de "As Relações Perigosas", de Choderlos de Laclos, duas delas tornaram-se imediatamente irrelevantes, pois a terceira vinha assinada por Carlos Drummond de Andrade. Hoje, contudo, os departamentos universitários de Letras, operando com editores, críticos e consulados, teriam condições de criar na internet sites cujas informações auxiliariam tanto a recolocar em circulação traduções esquecidas como a maximizar o mais escasso dos recursos, a saber, tradutores competentes.

Se, quando se trata de prosa, o bom senso manda primeiro exaurir o repertório de obras inéditas no país para só depois buscar superar traduções dignas com outras mais elaboradas, o que ocorre com a poesia é precisamente o contrário. Não obstante também nessa arte existir um repertório mínimo que configuraria um dos âmagos da "literatura universal" postulada por Goethe, o fato é que o equivalente lírico da tradução notável de um romance clássico não seria tal ou qual entre suas versões, mas, cotejadas e comparadas, todas elas juntas. Tal paradoxo contribui para tornar ainda mais urgente a reedição de pontos altos da tradução poética nacional, como o Baudelaire, o Verlaine e demais poetas franceses recriados por Guilherme de Almeida.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0505200822.htm
.

7 de set de 2011

mário quintana


encontrei uma listagem com traduções feitas por mario quintana - suponho que bem incompleta, pois consta que quintana traduziu mais de uma centena de obras. mas é um bom começo para ir rastreando sua produção lítero-tradutória, penso  eu:


BALZAC, Honoré de. Os proscritos. Porto Alegre: Globo, 1955.
BALZAC, Honoré de. Os sofrimentos do inventor. Porto Alegre: Globo, 1951.
BALZAC, Honoré de. Seráfita. Porto Alegre: Globo, 1955.
BALZAC, Honoré de. Uma paixão no deserto. Porto Alegre: Globo, 1954.
BAUM, Vicki. Hotel Shangai. Porto Alegre: Globo, 1942.
BEAUMARCHAIS. O barbeiro de Sevilha ou a precaução inútil. Porto Alegre: Globo, 1946.
BROWN, Frederic. O tio prodigioso. Porto Alegre: Globo, 1951.
BUCK, Pearl S. Debaixo do céu. Porto Alegre: Globo, 1955.
CONRAD, Joseph. Lord Jim. Porto Alegre: Globo, 1939.
FULOP-MILLER, René. Os grandes sonhos da humanidade. Porto Alegre: Globo, 1942 (de parceria com R. Ledoux).
GIDE, André. A escola das mulheres. Porto Alegre: Globo, 1944.
GRAVE, R. Eu, Claudius Imperator. Porto Alegre: Globo, 1940.
GREENE, Graham. O poder e a glória. Porto Alegre: Globo, 1953.
HUXLEY, Aldous. Duas ou três graças. Porto Alegre: Globo, 1951.
JAMMES, Francis. O albergue das dores. Porto Alegre: Globo, 1945.
LAFAYETTE, Condessa de. A princesa de Clèves. Porto Alegre: Globo, 1945.
LAMB, Charles & LAMB, Mary Ann. Contos de Shakespeare. Porto Alegre: Globo, 1943.
LEHMANN, Rosamond. Poeira. Porto Alegre: Globo, 1945.
LUDWIG, Emil. Memórias de um caçador de homens. Porto Alegre: Globo, 1939.
MARSYAT, Fred. O navio fantasma. Porto Alegre: Globo, 1937.
MAUGHAM, Somerset. Biombo chinês. Porto Alegre: Globo, 1952.
MAUGHAM, Somerset. Cavalheiro de salão. Porto Alegre: Globo, 1954.
MAUGHAM, Somerset. Confissões. Porto Alegre: Globo, 1951.
MAUPASSANT, Guy de. Contos. Porto Alegre: Globo, 1943.
MAUROIS, André. Os silêncios do Coronel Branble. Porto Alegre: Globo, 1944.
MÉRIMÉE, Prosper. Novelas completas. Porto Alegre: Globo, 1954.
MORGAN, Charles. A fonte. Porto Alegre: Globo, 1944.
MORGAN, Charles. Sparkenbroke. Porto Alegre: Globo, 1941.
PAPINI, Giovanni. Palavras e sangue. Porto Alegre: Globo, 1934.
PROUST, Marcel. À sombra das raparigas em flor. Porto Alegre: Globo, 1951.
PROUST, Marcel. No caminho de Swann. Porto Alegre: Globo, 1948.
PROUST, Marcel. O caminho de Guermantes. Porto Alegre: Globo, 1953.
PROUST, Marcel. Sodoma e Gomorra. Porto Alegre: Globo, 1954.
STACPOOLE, H. de Vere. A laguna azul. Porto Alegre: Globo, 1940.
THOMAS, Henry & ARNOLD, Dana. Vidas de homens notáveis. Porto Alegre: Globo, 1952.
VARALDO, Alessandro. A gata persa. Porto Alegre: Globo, 1938.
VOLTAIRE. Contos e novelas. Porto Alegre: Globo, 1951.
WOOLF, Virginia. Mrs. Dalloway. Porto Alegre: Globo, 1946.
YUTANG, Lin. A importância de viver. Porto Alegre: Globo, 1941.



Fonte: DITRA


complementando (todos pela Globo de Porto Alegre):

Simenon, George. A sombra chinesa
Simenon, George. O homem que olhava o trem passar
Simenon, George. Os fantasmas do chapeleiro
Wallace, Edgar. Sanders da África


Fonte do complemento: Sônia Maria de Amorim, Em busca de um tempo perdido. Edusp/Ed.Univ. UFRGS, 1999)



prosseguindo:

Graves, Robert. Eu, Claudius Imperador. Globo, 1955

imagem: aqui

questão de critério


sempre acho meio engraçado esse afã da concorrência entre as editoras. fartam-se e refartam-se com os mesmos títulos. oito traduções de jane eyre? que tédio!


já outro romance de charlotte brontë, shirley, parece ter tido uma única tradução - aliás  esquecidíssima e esgotadíssima - em 1949, pela gráfica brasileira.

e villette, se não me engano, continua inédito entre nós. 

por outro lado, seu póstumo the professor teve relativo sucesso: 

raul lima, josé olympio, 1944

reeditada pela global em 1983:


e outra edição pela saraiva em 1958, cujo tradutor não consegui descobrir, num curioso volume duplo, junto com a lenda de ulenspiegel, de charles de coster:

O Professor C Bronté e a Lenda de Ulenspiegel, C de Coster

o professor também saiu pelo clube do livro em 1958, com tradução em nome de josé maria machado, o que, porém, não esclarece muita coisa ("josé maria machado" significava basicamente uma sapecada do clube do livro em traduções alheias, e pronto).



apesar da pouca ou nenhuma atenção dada a shirley e a villette, romances publicados em vida de charlotte brontë, a nova fronteira, sabe-se lá por qual critério de relevância, preferiu lançar dois textos da juvenília, o segredo & lily hart, em tradução de maria ignez duque estrada (1993):


sobra de um lado, falta do outro, escolhem-se textos que têm mais valor de curiosidade do que qualquer outra coisa... não termos villette, acho imperdoável! pois creio que sobre uma coisa todos hão de convir: obra publicada em vida tem um valor autoral que não se compara ao de manuscritos e esboços de juventude guardados envergonhadamente no fundo da gaveta ou ao de obras póstumas que não tiveram a chancela do autor em vida.

tudo tem sua importância relativa, claro, mas um pouco de critério acho que não faria mal às editoras. repito: oito traduções de jane eyre, sendo que pelo menos quatro estão ativas em catálogo? senhores editores, que tal pensar um pouco mais nos leitores e um pouco menos nos concorrentes?

p.s.: depois formam estoque e ficam às voltas com seus encalhes,
e não sabem por quê...

atualização em 12/2/12: "napoleão e o espectro" saiu em o grande livro de histórias de fantasmas, pela suma de letras, em 2006, com tradução de cristina cupertino:

.

6 de set de 2011

leitora alerta

.

foi vanessa d'amato quem forneceu os elementos que me parecem justificar um cotejo entre a tradução de sodré viana (pongetti, 1942) e a tradução em nome de "waldemar rodrigues de oliveira" (itatiaia, 2008).

transcrevo aqui, com sua autorização, alguns trechos muito lúcidos e perspicazes de um gentil e-mail que vanessa me enviou há poucos dias:

... encontrei num sebo uma tradução de Jane Eyre, numa edição da Ediouro, da coleção "Clássicos de Bolso". A tradução, segundo consta da capa e da folha de rosto, é de Sodré Viana (pelo que pesquisei, uma tradução dos anos 1940, originalmente para a Pongetti Irmãos Editora). 
Pois bem. Dia desses, eu estava na Livraria Cultura e fui procurar uma edição de Jane Eyre para presentear uma amiga. Encontrei a da Editora Itatiaia, de 2008, que eu nunca havia visto até então. Resolvi folhear para ver o que achava da tradução. Logo nas primeiras frases do primeiro capítulo, levei um susto: eram idênticas, ou praticamente idênticas, às da tradução que li, da edição da Ediouro. Logo pensei: "ah, com certeza esta é a tradução do Sodré Viana". Mas ao olhar a folha de rosto, vi que o nome que constava como tradutor era outro: Waldemar Rodrigues de Oliveira. Não sendo do ramo, não conheço este tradutor. Mas continuei folheando o livro, e a primeira impressão foi se confirmando. Na verdade, eu conheço várias passagens de tradução do Viana de cor, pois a reli inúmeras vezes (pelo menos dez). E reconheci muitas delas na edição da Itatiaia. Como, por exemplo, as frases iniciais do livro, que já mencionei. O seguinte trecho (o primeiro parágrafo do livro) é uma transcrição da edição de Ediouro, que tenho diante de mim agora. E posso jurar pela minha vida que está idêntico (com exceção de talvez uma palavra ou duas, não mais que isso) ao trecho correspondente que li na edição da Itatiaia. 
"Naquele dia não fora possível um passeio. É verdade que pela manhã, durante uma hora, tínhamos brincado sob o arvoredo nu. Mas, desde o almoço (quando a senhora Reed estava sem hóspedes almoçava muito cedo) o vento do inverno trouxera nuvens tão carregadas e uma chuva tão penetrante que o ar livre havia sido posto fora de cogitações." 
E o mesmo trecho no original: 
"There was no possibility of taking a walk that day.  We had been wandering, indeed, in the leafless shrubbery an hour in the morning; but since dinner (Mrs. Reed, when there was no company, dined early) the cold winter wind had brought with it clouds so sombre, and a rain so penetrating, that further out-door exercise was now out of the question."
Pelo menos na minha opinião, as soluções trazidas pela tradução acima não são tão óbvias, não é? Não justifica as traduções serem idênticas. 
Uma outra frase me chamou muito a atenção. Lembro-me que ao lê-la na edição da Ediouro, antes mesmo de ter tido qualquer contato com o romance no original, ela já me soou muito "esquisita". É uma frase dita pelo sr. Rochester no capítulo XV,  quando Jane joga água em sua cama para acordá-lo e salvá-lo das chamas. No original, lê-se: 
“Is there a flood?” he cried.
Na tradução de Sodré Viana, essa frase ficou assim: 
"- Isto é lagoa? - gritou." 
É o tipo da frase que, mesmo para os meus ouvidos de leiga completa (e mesmo sem que eu soubesse como era essa passagem no original), soou um pouco estranha, quando li o livro pela primeira vez. Antiquada, talvez. Enfim, no mínimo, uma maneira incomum de se traduzir a frase original. Procurei a mesma passagem na edição da Itatiaia, como uma forma de "tirar a prova", pois, apesar de não ter pretensões de ser entendida no assunto, confesso que não vejo como dois tradutores, por conta própria, pudessem chegar a essa mesmíssima solução diante dessa frase. E adivinhe só? Estava idêntica à tradução acima.  
Não percebi semelhança somente nessas duas passagens que menciono, é claro, mas também em inúmeras outras. [...] A única dúvida que tenho é se há possibilidade de a tradução do Sodré Viana já ser de domínio público. Seria isso possível? As regras de copyright de traduções são as mesmas do copyright de obras originais? Pensei também na hipótese de a a editora detentora dos direitos da tradução do Viana tê-los cedido à Itatiaia, mas, se assim for, não entendo por que fizeram constar Waldemar Rodrigues de Oliveira como tradutor na edição da Itatiaia. 
agora é esperar chegarem os exemplares que encomendei e avaliar a extensão da coisa. por ora, como leitora, tradutora e apreciadora de nossa memória cultural, deixo aqui meu agradecimento à vanessa pelo alerta.

imagem: plagiarius
.

a título de curiosidade

no primeiro post sobre jane eyre no brasil, aqui, citei uma edição de 1926 pela vozes; a rigor, por "Natalino Typographia das VOZES DE PETRÓPOLIS".

não descobri muito sobre ela, e não sou tão fã assim de charlotte brontë para comprá-la (já estou comprando a edição da pongetti e a da itatiaia). mas pedi informações a dois livreiros da estante virtual, que me dizem o seguinte: de fato não consta o nome do tradutor de joanna eyre, mas há um "prefacio do traductor" datado de 1916, em porto alegre, e mais adiante, a menção ao ano de 1925, florianópolis - provavelmente para essa segunda edição de 1926.

assim, parece lícito crer que a edição inicial saiu em 1916 ou pouco depois.


aliás, a respeito desta tradução, encontro aqui um trecho do prefácio do anônimo tradutor: "“Na segunda metade, porém, onde as reflexões e considerações às vezes estorvavam o andamento da narração, tomei a liberdade de cortar desapiedadamente tudo quanto pudesse impedir a carreira dos eventos para o desenlace final. Mais de uma nuance de sentimentos, aliás subtilissima, mais de uma flôr poetica, aliás fragrantissima, ficaram esmagadas pela marcha inexoravel que os factos peremptoriamente exigiam.”

bom, se respeito pela pena da autora ele não tinha, pelo menos senso de humor parecia ter.
.

as edições

sodré viana, pongetti, aqui na edição de 1946

waldemar rodrigues de oliveira, itatiaia, 2008

no post anterior, apresentei uma lista de traduções feitas por sodré viana, basicamente nos anos 40. quanto a waldemar rodrigues de oliveira, não encontrei nenhuma referência.
.

sodré viana

as traduções feitas por sodré viana que consegui localizar são:*
  • a letra escarlate, de nathaniel hawthorne, pela josé olympio (1942)
  • jane eyre, de charlotte brontë, pela pongetti (1942)
  • com um pé no céu, de hartzell spence, pela pongetti (1943)
  • alma forte, de elizabeth chevalier, pela pongetti (1944)
  • "canção de um segundo abril", de edna st vincent millay (1944)
  • bhagavad-gita, da versão em inglês de swami paramananda, pela pongetti (1955)
  • thais, de anatole france, pela pongetti (s/d)
* encontrei mais duas referências: a casa dos sete oitões o fauno de mármore, ambos de nathaniel hawthorne, que teriam saído também pela josé olympio, sem data. mas não encontrei nenhuma corroboração dessas referências, e por isso não as incluo aqui.

agora, quem era sodré viana, onde e quando nasceu, quando morreu, se era o jornalista e militante jerônimo sodré viana, o pesquisador gastronômico e musical, ou se era a ele que nelson rodrigues se referia em suas memórias (aqui), não sei dizer.

atualização em 06/09: cláudia martins gentilmente informa na caixa de comentários de mais uma tradução de sodré viana:
céu roubado, de franz werfel (josé olympio, 1940).



aliás, fui procurar no google como "sodré vianna", com dois "n", e encontrei uma gracinha: elefante bolinha (elmerindo), de walt disney, pela A Noite, 1941.


e também epíscopo & cia, de gabrielle d'annunzio, pela pongetti, em 1943:


além disso:

5 de set de 2011

jane eyre

.
Ficheiro:Jane Eyre title page.jpg

se fôssemos julgar pela quantidade de traduções de jane eyre no brasil, concluiríamos que charlotte brontë é um tremendo sucesso entre nós, superando largamente sua irmã emily brontë com wuthering heights e até mesmo a grande dama do romance clássico inglês, jane austen: são nada menos de sete traduções entre nós, além de uma adaptação.

a primeira delas saiu pela vozes, com o nome de joanna eyre: não sei em que ano, mas em 1926 constava como segunda edição. não descobri ainda o nome do tradutor. veja atualização aqui.

em 1942, veio a tradução de sodré viana pela pongetti, com dezenas de reedições até 1960 (mais tarde reeditada pela ediouro, e ainda em catálogo).

em 1945, ver atualizações, abaixo.

em 1971, a ediouro lançou a adaptação feita  por miécio tati.

em 1983, saiu a de marcos santarrita, pela francisco alves (disponível para download aqui).

em 1996, a tradução de lenita esteves e almiro piseta saiu pela paz & terra.

em 2008, a itatiaia lança uma tradução em nome de waldemar rodrigues de oliveira.

em 2010, sai pela landmark a tradução de doris goettems.

em 2011, é lançada a tradução de heloísa seixas pela bestbolso.

por uma valiosa indicação de uma apreciadora de charlotte brontë, o nãogostodeplágio vai iniciar uma pesquisa comparativa entre a tradução de sodré viana e a tradução lançada pela itatiaia, em nome de waldemar rodrigues de oliveira.

atualização em 07/09: consta no catálogo antigo da fbn uma edição de 1945 pela edições e publicações do brasil s/a, com o título jane eyre (a mulher sublime). ainda não localizei o nome do tradutor.

atualização em 08/09: um livreiro me informa que essa edição de 1945 é uma tradução de virgínia silva lefèvre. legal. então, oito traduções diferentes de jane eyre.
.

4 de set de 2011

genial, toque de federico carotti

0570_44e1

fonte: aqui

no canto em baixo, à direita, devem ser as tais aparas e
a incineração de que o povo tanto gosta
.

1 de set de 2011

esclarecimento público

Um problema bastante complicado que tem afetado o setor editorial brasileiro nos últimos anos é a superprodução. Naturalmente, como em qualquer crise de superprodução de qualquer setor, isso pode gerar problemas de estoque a tal ponto que, em algum momento, entra em pauta a hipótese de destruição do produto.

Num país com problemas crônicos na área da alfabetização e leitura, com custos altos de produção e preços elevados para a aquisição do livro, a ideia de incinerar ou transformar em aparas milhões e milhões de volumes é realmente dolorosa.

Abordei o tema aqui. Hoje, para minha surpresa, vejo atribuído a mim algo que só posso considerar um equívoco por parte de Raquel Cozer, jornalista do Estado de São Paulo, em seu blog do jornal. Afirma ela que, "Por e-mail, a tradutora Denise Bottman argumentou ainda que a venda de sobras para reciclagem gera lucro para as editoras, ao contrário da doação".

Gostaria de contestar publicamente tal declaração, que jamais fiz. Abaixo reproduzo o comentário que deixei no blog de Raquel Cozer: http://blogs.estadao.com.br/a-biblioteca-de-raquel/2011/09/01/ainda-sobre-a-superproducao-de-livros-no-brasil/comment-page-1/#comment-1319

01/09/2011 - 23:30
Enviado por: denise bottmann
prezada raquel: apenas a título de esclarecimento, e talvez fosse interessante vc retificar na matéria. não me lembro de ter escrito em lugar algum – nem mesmo em nossa troca privada de emails, que reli atentamente – que vender para reciclagem ou sucata “gera lucro para as editoras” – seria uma sandice, uma demonstração da mais absoluta ignorância imaginar que vender estoque para sucata gera algum centésimo de lucro em qualquer lugar do mundo para qualquer empresa que seja.
minha afirmação foi que vender para reciclagem gera FATURAMENTO, o que é muito diferente de LUCRO.
e esta afirmação não foi feita em troca privada de emails, e sim publicamente, em meu blog. reproduzo o trecho:
“quando uma editora fala em transformar seus estoques em aparas, imagino que isso significa que ela vende seus encalhes para empresas de sucata e reciclagem, não? aí é evidente que qualquer doação sempre será um prejuízo, em comparação a uma operação de venda, que gera faturamento. ou estou enganada?” – http://naogostodeplagio.blogspot.com/2011/08/encalhe-destruicao-etc.html
agradeceria que você publicasse esta retificação na matéria principal
atenciosamente,
denise bottmann
.

muito legal


ótima indicação de mônica s.martins: