30 de set de 2012

dia do verbo

assim como todo dia era dia de índio, todo dia é dia do verbo

imagem: aqui

30 de setembro, dia mundial dos tradutores

28 de set de 2012

los traductores


muito bonito o artigo de muñoz molina sobre tradução, no caderno de cultura de el país, aqui. transcrevo um trechinho:
Un mismo libro se vuelve otro ligeramente distinto en la imaginación de cada lector: pero esa multiplicación, esa metamorfosis, es más acentuada aún en el caso de cada traductor. El traductor es el lector máximo, el lector tan completo que acaba escribiendo palabra por palabra el libro que lee. Él o ella es quien detecta los errores y los descuidos que el autor no vio y los editores no corrigieron. Él se ve forzado a medir el peso y el sentido de cada palabra con mucho más escrúpulo que el novelista mismo. Willi Zurbrüggen utilizó un término musical para hablar de su trabajo: lo que más se parece a una traducción, sobre todo entre lenguas tan distintas como el español y el alemán, es la transcripción de una pieza musical. 
Escuchaba hablar a estas personas, tan distintas entre sí, tan iguales en su devoción por el trabajo que hacen, y sentía gratitud y algo de remordimiento: una palabra que yo elegí por azar o instinto, una frase a la que dediqué tal vez unos minutos, les han podido causar horas o días de desvelo. Aprender sobre los límites de lo que puede ser traducido lo hace a uno más consciente de que también hay límites a lo que las palabras mismas pueden decir.
imagem: aqui

24 de set de 2012

finalistas do jabuti de tradução

Início

no dia 20 de setembro, saiu a relação dos finalistas do prêmio jabuti de tradução literária.

o regulamento era bastante claro (ver aqui):
29. TraduçãoTextos exclusivamente literários de ficção (prosa ou poesia), traduzidos de qualquer idioma, para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil.
já no ano passado, entre os finalistas houve a desclassificação de o outono da idade média, de johan huizinga, em tradução de francis petra janssen, justamente por não atender ao critério literário. a coordenação e o júri da atual edição do jabuti parecem não ter lido direito o regulamento nem aprendido a lição do ano passado, pois agora em 2012 foram indicadas duas obras entre os finalistas que escapam aos critérios de ficção e/ou poesia: frida, a biografia e, mais surpreendentemente, os grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política, de marx.

deve ser inútil esperar qualquer providência da cbl em relação a tais irregularidades. uma pena.

tirando isso, parabéns aos tradutores das oito obras legitimamente classificadas entre as dez finalistas. são eles:
1º - Odisseia - Trajano Vieira - Editora 34
2º - Madame Bovary - Mário Laranjeira - Companhia das letras
3º - Guerra e Paz - Rubens Figueiredo - Cosac & Naify
4º - Heine Hein? Poeta dos Contrários - André Vallias - Editora Perspectiva
5º - Duplo Canto e Outros Poemas - Bruno Palma - Editora Ateliê
6º - Frida: a biografia - Renato Marques - Editora Globo
7º - Os sonâmbulos - Marcelo Backes - Editora Saraiva
8º - Poesia completa de Yu Xuanji - Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao - Editora UNESP
9º - Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política - Mario Duayer, Nélio Schneider, Alice Helga Werner e Rudiger Hoffman - Editora Boitempo
10º - O duplo - Paulo Bezerra - Editora 34 
 a relação completa dos finalistas de todas as categorias está aqui.

atualização em 27/09/12: avisa nilton resende no facebook:

houve mudança na indicação do Jabuti em tradução (pelo menos em tradução). segundo e-mail distribuído pela CBL, houve "uma inconsistência no resultado". colo aqui o e-mail. e depois, o resultado corrigido.
e-mail:
"Em sua 54ª edição, o Jabuti, o mais prestigiado prêmio do mercado editorial, sempre primou por valorizar o setor, consagrando, a cada ano, os maiores talentos do livro brasileiro.
A apuração da 1ª fase foi realizada em sessão pública no último dia 20 de setembro, com a presença de jornalistas, jurados e membros do conselho curador.
Em virtude de um questionamento feito por um jurado, sempre prezando pela transparência das informações, a comissão do Jabuti solicitou nova compilação dos votos à Disoft, empresa responsável pelo sistema, com acompanhamento da auditoria Parker Randall, ocasião em que foi identificada inconsistência no resultado apurado pelo sistema. Conheça aqui a lista atualizada de finalistas que seguirão para a 2ª fase do Prêmio."
 
o resultado atual na categoria tradução: 
Tradução
1º - Odisseia - Trajano Vieira - Editora 34
2º - Madame Bovary - Mário Laranjeira - Companhia das Letras
3º - Guerra e paz - Rubens Figueiredo - Cosac & Naify
4º - Heine Hein? Poeta dos contrários - André Vallias - Editora Perspectiva
5º - Duplo Canto e Outros Poemas - Bruno Palma - Editora Ateliê
6º - Os sonâmbulos - Marcelo Backes - Editora Saraiva
7º - Poesia completa de Yu Xuanji - Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao - Editora UNESP
8º - O duplo - Paulo Bezerra - Editora 34
9º - Poemas - Regina Przybycien - Companhia das Letras
10º Ilusões Perdidas - Rosa Freire d'Aguiar - Companhia das Letras
que pode ser visualizado aqui: http://www.premiojabuti.com.br/resultado-fase1-2012

22 de set de 2012

um país de tradutores


La Argentina un país de traductores
ótimo texto, que se aplica ao brasil também - indicação de claudio marcondes: un país de traductores, aqui.

21 de set de 2012

belas infiéis


sai o primeiro número da revista belas infiéis, publicada pelo programa de pós-graduação em tradução, da universidade de brasília, disponível aqui.

a revista contém uma seção historiográfica chamada "arquivo", que abriga levantamentos bibliográficos de traduções por autor publicadas no brasil. este número traz o artigo "joseph conrad no brasil", disponível aqui.

20 de set de 2012

luto


carlos nelson coutinho, um dos nomes mais íntegros, dignos e esclarecidos do pensamento político brasileiro.

18 de set de 2012

thomas de quincey no brasil

em 2005, em sua coleção "intoxicações", a ediouro lançou confissões de um comedor de ópio, de thomas de quincey, em tradução de luiz roberto mendes gonçalves e introdução (além de capa e projeto gráfico) de joca reiners terron:


chamou-me a atenção uma afirmativa de terron em sua introdução ao angustiado relato autobiográfico de de quincey, tingida com algumas pinceladas um tanto pop ou popizantes: "A publicação no Brasil de clássicos da literatura cabeça-feita estrangeira [...] é relativamente recente" (p. 9) e, quanto às confissões, cita a edição da l&pm nos anos 80. i beg to differ, como dizem.

pois vejamos: de quincey chega ao brasil em 1935, ano em que é lançada a tradução de elias davidovich, aliás um dos primeiros tradutores também de freud entre nós. note-se que o prefácio é de j.p. porto-carrero, um dos fundadores do movimento psicanalítico no brasil.



em 1946, a josé olympio relança as confissões, agora em tradução de ana maria martins, com belas xilogravuras de santa rosa e introdução de brito broca:


em 1977, a revista escrita livro, ano I, n. 2, publicada pela editora vertente, lança nova tradução (ignoro o autor), acrescida de comentários de baudelaire extraídos de paraísos artificiais, com ilustrações de maninha cavalcante, inaugurando entre nós uma abordagem mais "contracultural" da obra:



passam-se alguns anos e sem dúvida é a l&pm que populariza esse viés de contracultura, lançando as confissões como primeiro volume de sua coleção "rebeldes & malditos", em 1982, com tradução de ibañez filho:

aqui numa capa mais apelativa, de 2000.


em suma, o lançamento da ediouro se deu não duas, mas sete décadas depois da primeira publicação das confissões de um comedor de ópio entre nós, e é a quinta tradução brasileira. este é um dos pontos que repiso constantemente: nossa bibliografia traduzida é muito mais rica, muito mais variada - e, por que não, até moderna para sua própria época - do que às vezes podemos imaginar, tão imersos estamos em nossa fatídica desmemória cultural.

ensaísta de vastíssima produção, as únicas outras obras de thomas de quincey publicadas no brasil são, até onde sei:
  •  do assassinato como uma das belas artes, em tradução de henrique de araújo mesquita, pela l&pm (1985), 
  • os últimos dias de immanuel kant, em tradução de heloísa jahn, pela forense universitária (1989)
  • os últimos dias de immanuel kant, em tradução de tomaz tadeu, pela autêntica (2011)




por fim, uma informação que não sei se é verdadeira, mas é bem simpática: consta que o primeiro livro digital foi publicado em 1993 - era do assassinato considerado uma das belas artes. ver aqui.

17 de set de 2012

pois é

encontro aqui uma noticiazinha de 2009.
Millôr Fernandes processou a TV Globo por plágio da tradução de The Play Boy of the Western World, de John Synge (O prodígio do mundo ocidental, Brasiliense, 1968), segundo ele, "quase impossível de traduzir". A Justiça determinou que a emissora se retratasse em horário nobre. Mas Millôr abriu mão da retratação. Segundo ele, não era sua intenção humilhar o empresário Roberto Marinho, mas apenas conquistar seu direito de indenização pelo plágio, como conseguiu.

obras órfãs e abandonadas

uma notícia importante, que eu soube por meio de alexandre pesserl: na quinta-feira passada, dia 13 de setembro, o parlamento europeu aprovou uma diretriz liberando o uso de obras órfãs e abandonadas, para digitalização sem fins comerciais, após busca diligente, segundo critérios estabelecidos por lei.

a resolução do parlamento europeu está aqui, e reproduzo seu teor abaixo:
Orphan works to go publicPLENARY SESSION Free movement of services − 13-09-2012 - 13:13Photos, films or poems protected by copyright but whose right holders cannot be found could be made available to the public across the EU, under new legislation approved by Parliament on Thursday. The directive will allow anyone to access so-called orphan works, taking forward the project of making Europe's cultural heritage available online.The text, approved by 531 votes to 11, with 65 abstentions, and informally agreed by Parliament and Council, aims to make it safer and easier for public institutions such as museums and libraries to search for and use orphan works.Today, digitising an orphan work can be difficult if not impossible since, in the absence of the right holder, there is no way to obtain permission to do so. The new rules would protect institutions that use orphan works from future copyright infringement claims.
"Diligent" searches to protect copyrightUnder the new rules, a work would be deemed to be "orphan" if a "diligent" search made in good faith failed to identify or locate the copyright holder. The legislation lays down criteria for carrying out such searches.Works granted orphan status would be then be made public, for non-profit purposes only, through digitisation. A work deemed to be "orphan" in any one Member State would then qualify as "orphan" throughout the EU. This would apply to any audiovisual or printed material, including a photograph or an illustration embedded in a book, published or broadcast in any EU country.
Compensation if copyright holder shows upMEPs agreed that the right holder should be entitled to put an end to the orphan status of a work at any time and claim appropriate compensation for the use made of it.They nonetheless inserted a provision to protect public institutions from the risk of having to pay large sums to authors who show up later. Compensation would have to be calculated case by case, taking account of the actual damage done to the author's interests and the fact that the use was non-commercial. This should ensure that compensation payments remain small.At the insistence of MEPs, the text includes an article to allow public institutions to generate some revenue from the use of an orphan work (e.g. goods sold in a museum shop). All of this revenue would have to be used to pay for the search and the digitisation process.
Procedure:  Co-decision (Ordinary Legislative Procedure), 1st reading agreement

15 de set de 2012

via federico carotti, facebook aqui

14 de set de 2012

a título ilustrativo sobre as irredutíveis diferenças entre traduções de diferentes tradutores, vejam-se as traduções do mesmo conto feitas pelo anônimo da cultrix e por ruth guimarães:

anônimo (martins, 1947)
Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

isa tavares (boitempo, 1995)
Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. ... Mas gostaria bem de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, um saco sob a cabeça a guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar?

anônimo (martins, 1947)
Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)

isa tavares (boitempo, 1995)
Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
... e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe – nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar – de verdade – e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça.

anônimo (martins, 1947)
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

isa tavares (boitempo, 1995)
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos!

anônimo (martins, 1947)
Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

isa tavares (boitempo, 1995)
Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. “Aqui, pelo menos”, refletiu ele, “não me acharão: está muito escuro.”
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! “mais um instante e irei ver outra vez os bonecos”, pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: “Podia jurar que eram vivos!”

13 de set de 2012

programa de domingo


a quem estiver em são paulo, não perca transfusão II, na casa guilherme de almeida. a programação completa está aqui e este é o programa de domingo de manhã:

DOMINGO, 16 DE SETEMBRO
TRADUÇÃO LITERÁRIA COMO AUTORIA
Mesa-redonda, das 10h30 às 12h
DIREITOS AUTORAIS DO TRADUTOR
Com Denise Bottmann (Registro – SP) e Luciana Arruda (São Paulo)
Até que ponto se respeitam, na prática, os direitos autorais do tradutor, assegurados por lei, é uma questão que tem gerado discussões e poucos resultados concretos em prol dos tradutores profissionais. A importância da denúncia de abusos contra o trabalho do tradutor, como o plágio, por exemplo, será abordada paralelamente a questões conceituais e jurídicas que respaldam os tradutores na defesa de seus direitos.

a gente se vê lá!

12 de set de 2012

daquelas coisas que me deixam doente

por ocasião da aula inaugural na pós-graduação em estudos de tradução (pget) na ufsc, tentei expor as razões - de fundo conceitual - que me levam a duvidar de um trânsito fecundo ou sequer possível entre teoria e prática de tradução - disponível aqui.

num nível mais simples, volta e meia encontro barbaridades em textos cheios de palavras difíceis, de nomes compridos, de frases altissonantes e propostas grandiloquentes. faz lembrar um pouco a história da montanha que pariu um rato. mas, ainda mais aquém disso, fico assombrada com a facilidade, a leviandade mesmo, com que se trata "a vítima" da ocasião.

pois como é que alguém há de pretender analisar a sério a tradução que augusto meyer fez de don segundo sombra, de ricardo güiraldes, tomando-a e dando-a como se tivesse sido feita em 1997?! mas nem para saber que augusto meyer, a essas alturas, já estava morto fazia quase trinta anos? e nem para se interessar em saber quando fora efetivamente feita ou publicada pela primeira vez? tivesse esse mínimo de curiosidade ou cumprisse essa preliminar tão básica e evidente, viria a saber que o dom segundo sombra de meyer fora publicado mais de cinquenta anos antes da data indicada em sua dita análise: a saber, em 1944.

e talvez assim soubesse avaliar melhor que, naquela primeira metade do século XX, usar um "dê-le pra cá, dê-le pra lá" ou um "só vendo o barulho que fazia aquele cristão" ou um "animalada" exigia desenvoltura e até uma pitada de ousadia. e talvez assim soubesse avaliar a que ponto augusto meyer (aliás usando prodigamente seu mais castiço gauchês) se afastava da chamada norma culta, e talvez assim não se saísse com tal despropósito: "A tradução de Meyer pode ser caracterizada como próxima da linguagem padrão, visto que o tradutor não buscou nenhum tipo de equivalência ou compensação".

às vezes penso que os mais insensíveis, os mais empedernidos ao ofício tradutório são muitos dos que pretendem pontificar sobre ele. às vezes penso que o mais despretensioso dos leitores perceberia com clareza muito maior o frescor regionalista dessa mesma tradução tão sumariamente (e erroneamente) caracterizada pelo autor de Avaliando Traduções [sic!] - disponível aqui.

quanto às várias edições de dom segundo sombra na tradução de augusto meyer, tenho notícias das seguintes:
  • 1944, com reedição em 1952, pelo ministério das relações exteriores;
  • 1981, pela francisco alves;
  • 1997, com reedições em 1999, 2001, 2005 e 2011, pela l&pm
atualização: há, por outro lado, uma avaliação sensível e fundamentada dessa mesma tradução de augusto meyer, feita por um praticante do ofício, pablo cardellino soto: disponível aqui.

10 de set de 2012

entrevista à aletria

logo

uma longa entrevista que dei a joão camilo, no site do instituto cultural aletria, sobre os saques à nossa produção tradutório-cultural - Traduções e plágios: uma entrevista com Denise Bottmann.

9 de set de 2012

a dobradinha FBN/Martin Claret IV

eis o que a fbn aceitou cadastrar e oferecer em seu programa nacional do livro de baixo preço, para abastecer 2.700 bibliotecas públicas de norte a sul do país, à livre escolha delas:


reproduzo abaixo o que venho divulgando faz anos e que apresentei à presidência e à coordenação da fundação biblioteca nacional, quando eu soube das irregularidades em seu programa de abastecimento das bibliotecas públicas (e com verba pública, claro): 



02/03/2009



οιδιποθσ

sófocles, rei édipo (j. b. de mello e souza, jackson)
sófocles, édipo rei (jean melville, martin claret)

além de plagiada, a edição usa "chapa fria". sobre o termo "chapa fria", veja aqui.

este parece ser mais um caso de montagem de edições diferentes. a jackson teve surripiadas todas as notas de autoria de mello e souza.

a. notas de mello e souza:
1. conforme antigo costume grego, os que tinham alguma súplica a fazer aos deuses acercavam-se dos altares trazendo ramos de louros, ou de oliveira, enfeitados com fitas de lã.
2. havia em tebas dois templos dedicados a minerva (palas) e um a apolo, junto do ismênio, no qual, segundo heródoto (viii, 134), se colhiam bons oráculos.
3. ter à cabeça uma coroa de louros significava ter ganho um prêmio, ou ser portador de uma notícia auspiciosa.
4. os gregos supunham que, por intermédio da sacerdotisa de delfos, falava pelo oráculo o próprio deus apolo.
5. "causa o sangue o flagelo sobre a cidade" diz, literalmente, sófocles.
6. os interpretadores assinalam esta passagem como sendo das mais notáveis da tragédia, pois édipo vai fazer o contrário do que diz, em uma anfibologia trágica, usada com frequência por sófocles.
7. literalmente: "às plagas do deus ocidental" porque, para os gregos, o hades, região dos mortos, ficava na zona escura do mundo, isto é, no ocidente, visto que a luz vinha do oriente.
8. justifica-se essa alegoria, visto que marte, além de ser deus da guerra, era-o também da peste, a que se refere o sumo sacerdote, em sua primeira fala.
9. um dos títulos conferidos ao deus apolo, por ter nascido na lícia (cf. horácio, iii, ode iv).
10. segundo a lenda a que se refere heródoto, (l. v., 59), agenor era um rei da fenícia. seu filho cadmo fundou tebas, dando seu nome à colina principal, e ao recinto fortificado da cidade (cadméia). de cadmo foi filho polidoro, pai de lábdaco. a este rei sucedeu o infeliz laio.
11. tirésias tinha, com efeito, o tratamento de rei, prova de que o sacerdócio o igualava aos reis de fato, se não o punha acima deles. isso explica a altivez e o desassombro com que, por vezes, falava tirésias a édipo.
12. "este dia te dará o nascimento e a morte" - diz o original, literalmente, mas a idéia evidente é a de que édipo iria descobrir na mesma ocasião os dois terríveis lances de sua trágica existência.
[...]
27. que édipo se houvesse ferido com um simples colchete do manto real, não admira, visto que essa peça do vestuário grego era muito maior que os atuais colchetes, e bastante forte para ser assim utilizada. heródoto conta em suas histórias, (v, 87) que as atenienses mataram um covarde, servindo-se dos próprios colchetes de suas roupas como punhais. para isso bastava forçar a fita metálica, dando-lhe a forma de um gancho ou de um estilete pontiagudo.

b. notas de mello e souza pirateadas pela martin claret:
1. conforme antigo costume grego, os que tinham alguma súplica a fazer aos deuses acercavam-se dos altarestrazendo ramos de louros ou de oliveira, adornados com fitas de lã.
2. havia em tebas dois templos dedicados a minerva (palas) e um a apolo, junto do ismênio, onde, segundo heródoto (viii, 134), se colhiam bons oráculos.
3. os gregos supunham que, por intermédio da sacerdotisa de delfos, falava pelo oráculo ali existente o próprio deus apolo. [vasta trapalhada, a claret trocou a nota 3 pela 4]4. ter à cabeça uma coroa de louros significava ter ganho um prêmio ou ser portador de uma notícia auspiciosa.
5. "causa o sangue o flagelo sobre a cidade" diz, literalmente, sófocles.
6. os comentadores assinalam esta passagem como sendo das mais notáveis da tragédia, pois édipo fará o contrário do que diz, em uma anfibologia trágica, usada com frequência por sófocles. 7. literalmente: "às plagas do deus ocidental" porque, para os gregos, o hades, região dos mortos, ficava na zona escura do mundo, isto é, no ocidente, visto que a luz vinha do oriente.
8. justifica-se essa alegoria, visto que marte, além de ser deus da guerra, era-o também da peste, a que se refere o sacerdote em sua primeira fala.
9. um dos títulos conferidos ao deus apolo, por ter nascido na lícia (cf. horácio, iii, ode iv).
10. segundo a lenda a que se refere heródoto, (1. v., 59), agenor era um rei da fenícia. seu filho cadmo fundou tebas, dando seu nome à colina principal e ao recinto fortificado da cidade (cadméia). de cadmo foi filho polidoro, pai de lábdaco. a esse rei sucedeu o infeliz laio.
11. tirésias tinha, com efeito, o tratamento de rei, prova de que o sacerdócio o igualava aos reis de fato, se não o punha acima deles. isso explica a altivez e o desassombro com que, por vezes, falatirésias a édipo.
12. "este dia te dará o nascimento e a morte" - diz o original, literalmente, mas a idéia evidente é a de que édipo iria descobrir na mesma ocasião os dois terríveis lances de sua trágica existência.
[...]
27. que édipo se houvesse ferido com um simples colchete do manto real, não admira, visto que essa peça do vestuário grego era muito maior que os atuais colchetes, e bastante forte para ser assim utilizada. heródoto conta em suas histórias (v, 87), que as atenienses mataram um covarde, servindo-se dos próprios colchetes de suas roupas como punhais. para isso bastava forçar a fita metálica, dando-lhe a forma de um gancho ou de um estilete pontiagudo.

se, conforme reza a lei 9610/98, "quem vender, expuser a venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com o contrafator, nos termos dos artigos precedentes", então algumas solidárias responsáveis são, por exemplo, a saraiva, a fnac, a cultura, a travessa, a curitiba.

imagem: http://www.interney.net/

24/05/2010

"ó labuta infecunda"

artigo de alfredo monte sobre antígona, que indiquei como leitura de sábado, traz um trecho comparativo das quatro traduções da tragédia de sófocles existentes no brasil: a compilada por j.b. de mello e souza (jackson), a de mário da gama khoury (zahar), a de domingos paschoal cegalla (difel) e a de donald schüler (l&pm). muito instrutivo, para quem gosta de comparar soluções e também para quem não tem muita ideia do grau de irrepetibilidade e irredutibilidade entre elas.

a editora martin claret apresenta em seu catálogo um pastiche em nome de "jean melville", calcado na tradução compilada por mello e souza, incluindo a cópia fiel e integral das notas elaboradas pelo mestre para a edição da jackson.

para exemplificar o que chamo de "pastiche", reproduzo aqui o trecho apresentado por alfredo monte. assim, o leitor poderá avaliar o tipo de cosmético aplicado na edição em nome de "jean melville" e poderá também consultar no link dado acima as outras três soluções (gama khoury, cegalla e schüler).

j.b. de mello e souza, jackson, disponível para download aqui:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/antigone.pdf

O CORIFEU
Oh! Agora é tarde! Parece-me que o que estás vendo é a justiça dos deuses!

CREONTE
Ai de mim – agora sei – que sou um desgraçado! Sobre mim paira um deus vingador que me feriu! Ele me arrasta por uma via de sofrimentos cruéis… ele destruiu toda a alegria de minha vida! Ó esforços inúteis dos homens!

(entra um MENSAGEIRO que vem do Palácio)

O MENSAGEIRO
Senhor! Que desgraças caem sobre ti! De uma tens a prova em teus braços… as outras estão no teu palácio… creio que tu deves ver!

CREONTE
Que mais me poderá acontecer? Poderá haver desgraça maior do que a fatalidade que me persegue?

O MENSAGEIRO
Tua esposa acaba de morrer… a mãe que tanto amava este infeliz jovem.. Ela feriu-se voluntariamente para deixar a vida.

CREONTE
Hades, que a todos nós esperas, Hades que não perdoas, nem te comoves… dize: por que, por que me esmagas por essa forma? Mensageiro das desgraças, que nova desgraça me vens anunciar? Ai de mim! Eu já estava morto, e tu me deste mais um golpe ainda…

 "jean melville", martin claret:

CORIFEU

Oh! Agora é tarde! Talvez o que agora vemos seja a justiça dos deuses!

CREONTE
Ai de mim, agora sei que sou um desgraçado! Paira sobre mim um deus vingador que me feriu e me arrasta por uma senda de atrozes sofrimentos… ele destruiu toda a alegria de minha vida! Ó labuta infecunda dos homens!

Entra um Mensageiro que vem do palácio.

MENSAGEIRO
Senhor! Mais desgraças caem sobre ti! De uma tens a prova em teus braços… a outra está no teu palácio… creio que deves ver!

CREONTE
Que mal ainda poderá se abater sobre mim? Haverá maior infortúnio do que a fatalidade que me persegue?

MENSAGEIRO
Eurídice acaba de morrer… a mãe que tanto amava este infeliz jovem... Ela voluntariamente se feriu, para abandonar este mundo...

CREONTE
Hades, que a todos nós esperas, Hades implacável, dize: por que, por que me esmagas assim? Mensageiro agourento, que novas desgraças me vens anunciar? Ai de mim! A quem já estava morto, feriste de novo…

segue-se um exemplo de apropriação das notas de mello e souza na edição da ed. martin claret:

mello e souza:
(28) Segundo a lenda citada nas Fenícias, de Eurípedes, Tirésias teria dito a Creonte que só reinaria, vitorioso, em Tebas, se sacrificasse o seu filho Megareu. Creonte não queria tal sacrifício; mas, por sua própria vontade, ou por acidente, o jovem morreu nas fortalezas da cidade. Como se vê, Eurídice considerou o marido culpado também por esta morte.

"jean melville":
28 Segundo a lenda citada nas Fenícias, de Eurípedes, Tirésias teria dito a Creonte que só reinaria, vitorioso, em Tebas, se sacrificasse o seu filho Megareu. Creonte não queria tal sacrifício; mas, por sua própria vontade ou por acidente, o jovem morreu nas fortalezas da cidade. Como se vê, Eurídice considerou o marido culpado também por essa morte.

a dobradinha FBN/Martin Claret III

eis o que a fbn aceitou cadastrar e oferecer em seu programa nacional do livro de baixo preço, para abastecer 2.700 bibliotecas públicas de norte a sul do país, à livre escolha delas:

 

reproduzo abaixo o que venho divulgando faz anos e que apresentei à presidência e à coordenação da fundação biblioteca nacional, quando eu soube das irregularidades em seu programa de abastecimento das bibliotecas públicas (e com verba pública, claro):


31/01/2009

jack london na claret


mais um cotejo que estava no fundo do baú: jack london, white fang.

caninos brancos teve várias traduções no brasil, desde a primeira feita por monteiro lobato até a mais recente de rosaura eichenberg.

a insaciável claret recorreu ao infatigável nassetti, garfando a tradução portuguesa de olinda gomes fernandes, pela editora civilização, porto, 1969. a tradução de olinda traz o nome de colmilhos brancos, mas a inclemente claret preferiu a forma consagrada no brasil, caninos brancos mesmo.

este plágio traz as substituições habituais na claret - alterações cosméticas da primeira frase; troca de termos menos usuais, como "arrostar" por "enfrentar", "cabedal" por "couro macio", "terra ártica" por "terra do pólo norte" e assim por diante.

Capítulo I.
- civilização:
[...] Um vento recente arrancara às árvores o seu manto de geada, e elas pareciam inclinar-se umas para as outras, negras e agoirentas, na luz agonizante. Reinava sobre a paisagem um silêncio imenso. Aquela região era desolada, sem vida, sem movimento, tão só e gelada que a palavra tristeza não chegava para a descrever. Havia nela uma sugestão de riso, mas de um riso mais terrível que qualquer tristeza - um riso sem alegria, como o sorriso da esfinge, um riso frio como o gelo e com algo do horror da infalibilidade. Era a sabedoria despótica e incomunicável do riso eterno perante a futilidade e os esforços da vida. Era a terra árctica, agreste e gelada. (olinda gomes fernandes)

- claret:
[...] Um vento recente arrancara às árvores o seu manto de geada, e elas pareciam inclinar-se umas para as outras, negras e agourentas, na luz agonizante. Reinava sobre a paisagem um silêncio imenso. Aquela região era desolada, sem vida, sem movimento, tão só e gelada que a palavra tristeza não era suficiente para a descrever. Havia nela uma sugestão de riso, mas de um riso mais terrível que qualquer tristeza - um riso sem alegria, como o sorriso da esfinge, um riso frio como o gelo e com algo do horror da infalibilidade. Era a sabedoria despótica e incomunicável do riso eterno perante a futilidade e as agruras da vida. Era a terra do pólo Norte, agreste e gelada. (pietro nassetti)

Capítulo III
- civilização:
[...] Henry sentou-se no trenó e ficou a observar. Não podia fazer mais nada, já perdera de vista o companheiro; mas, de vez em quando, aparecendo e desaparecendo por entre os grupos isolados de árvores, lobrigava o Desorelhado. Calculou que o cão estava perdido. Dir-se-ia que o próprio animal tinha consciência do perigo em que se encontrava, mas corria traçando um extenso círcuo exterior, enquanto a alcateia de lobos se movimentava num círculo interior e mais acanhado. Tornava-se fútil admitir a possibilidade de o cão ultrapassar o círculo formado pelos seus perseguidores e conseguir alcançar o trenó. (olinda gomes fernandes)

- claret:
[...] Henry sentou-se no trenó e ficou a observar. Não podia fazer mais nada, já perdera de vista o companheiro; mas, de vez em quando, aparecendo e desaparecendo por entre os grupos isolados de árvores, lobrigava o Desorelhado. Calculou que o cão estava perdido. Dir-se-ia que o próprio animal tinha consciência do perigo em que se encontrava, mas corria traçando um extenso círcuo exterior, enquanto a alcatéia de lobos se movimentava num círculo interior e mais acanhado. Tornava-se fútil admitir a possibilidade de o cão ultrapassar o círculo formado pelos seus perseguidores e conseguir alcançar o trenó. (pietro nassetti)

Último capítulo
- civilização:
[...] A este não se podia censurar o seu juízo errado. Passara toda a vida a tratar seres humanos, produtos de uma civilização que os enfraquecera, que levavam vida fácil e descendiam de muitas gerações criadas de igual modo. Comparados com Colmilhos Brancos, não passavam de entes frágeis e débeis, incapazes de se agarrarem à vida com força suficiente. Ele vinha directamente da selva; no meio onde se criara, os fracos não subsistem; e não havia quaisquer contemplações. (olinda gomes fernandes)

- claret:
[...] A este não se podia censurar o seu juízo errado. Passara toda a vida a tratar seres humanos, produtos de uma civilização que os enfraquecera, que levavam vida fácil e descendiam de muitas gerações criadas de igual modo. Comparados com Caninos Brancos, não passavam de entes frágeis e débeis, incapazes de se agarrarem à vida com força suficiente. Ele vinha diretamente da selva; no meio onde se criara, os fracos não subsistem; e não havia quaisquer contemplações. (pietro nassetti)

em tempo: outra coisa absolutamente obrigatória nos livros é a ficha catalográfica. esqueci de comentar que a claret não é dada a tais vezos, sequer a colocar o nome original da obra na página de créditos.

em compensação, ela nunca se esquece de especificar "copyright desta tradução: editora martin claret, ano tal", nem de estampar cinicamente, na primeira página, o soturno selo da abdr: "cópia não autorizada é crime: respeite o direito autoral".


sobre o escândalo que é esse programa de aquisição de acervos da fbn, ver aqui. 

a dobradinha FBN/Martin Claret II


eis o que a fbn aceitou cadastrar e oferecer em seu programa nacional do livro de baixo preço, para abastecer 2.700 bibliotecas públicas de norte a sul do país, à livre escolha delas:



reproduzo abaixo o que venho divulgando faz anos e que apresentei à presidência e à coordenação da fundação biblioteca nacional, quando eu soube das irregularidades em seu programa de abastecimento das bibliotecas públicas (e com verba pública, claro):

I. alceste:


18/02/2009

εθριπεδεσ να μαρτιν ψλαρετ - αλψεστε


um bom tempo atrás, a clássicos jackson publicou eurípides nas famosas traduções, acompanhadas de introdução e notas, de j. b. de mello e souza. essas traduções continuam ativas no catálogo da ediouro.

como a μαρτιν ψλαρετ tem uma compulsão irrefreável em se apropriar do alheio, ela resolveu copiar alceste, electra e hipólito da jackson/ediouro e tascou o nome de seu inseparável colaborador πιετρο νασσεττι.

e nós leitorinhos, em nossa irrefreável compulsão masoquista, pagamos caro por mais um lesa-memória e perdemos mais uma chance de ir formando um mínimo de bagagem cultural.

eurípides, alceste
introdução

1. tem esta bela tragédia de eurípedes, por principal objetivo, a exaltação do amor conjugal que atinge o mais sublime heroísmo.
alceste, laodâmia e penélope, esposas de admeto, protesilau e ulisses, respectivamente, constituem o tríptico das mais nobres figuras figuras femininas que a lenda grega nos apresenta. das três, porém, coube à incomparável rainha de feres praticar o rasgo de abnegação que lhe assegura a primazia entre as esposas modelares. (j. b. mello e souza)

2. tem esta bela tragédia de eurípedes, por principal objetivo, a exaltação do amor conjugal que atinge o mais sublime heroísmo.
alceste, laodâmia e penélope, esposas de admeto, protesilau e ulisses, respectivamente, constituem o tríptico das mais nobres figuras figuras femininas que a lenda grega os apresenta. das três, porém, coube à incomparável rainha de feres praticar o rasgo de abnegação que lhe assegura a primazia entre as esposas modelares. (πιετρο νασσεττι)

1. Ó palácio de Admeto, onde me vi coagido a trabalhar como servo humilde, sendo embora um deus, como sou! Júpiter assim o quis, porque tendo fulminado pelo raio meu filho Esculápio, eu, justamente irritado, matei os Ciclopes, artífices do fogo celeste. E meu pai, para me punir, impôs-me a obrigação de servir a um homem, a um simples mortal! Eis por que vim ter a este país; aqui apascentei os rebanhos de meu patrão, e me fiz protetor deste solar até hoje. Sendo eu próprio bondoso, e servindo a um homem bondoso, — o filho de Feres — eu o livrei da morte, iludindo as Parcas. Estas deusas prometeram-me que Admeto seria preservado da morte, que já o ameaçava, se oferecesse alguém, que quisesse morrer por ele, e ser conduzido ao Hades.
Tendo posto a prova todos os seus amigos, seu pai, e sua velha mãe, que o criou, ele não achou quem consentisse em dar a vida por ele, e nunca mais ver a luz do sol! Ninguém, senão Alceste, sua dedicada esposa; e agora, no palácio, conduzida a seus aposentos nos braços de seu marido, vai desprender-se sua alma, porque é hoje que o Destino exige que ela deixe a vida. Eis por que, para me não macular, eu abandono estes tetos queridos. Vejo que já se aproxima Tânatos, o odioso nume da Morte, para levar consigo Alceste à merencória mansão do Hades. E vem no momento preciso, pois aguardava apenas o dia fatal em que a mísera Alceste deve perder a vida. (j. b. mello e souza)

2. Ó palácio de Admeto, onde me vi coagido a trabalhar como servo humilde, sendo embora um deus, como sou! Júpiter assim o quis porque tendo fulminado pelo raio meu filho Esculápio, eu, justamente irritado, matei os Cíclopes, artífices do fogo celeste. E meu pai, para me punir, impôs-me a obrigação de servir a um homem, a um simples mortal! Eis por que vim ter a este país; aqui apascentei os rebanhos de meu patrão, e me fiz protetor deste solar até hoje. Sendo eu próprio bondoso, e servindo a um homem bondoso — o filho de Féres —, eu o livrei da morte, iludindo as Parcas. Estas deusas prometeram-me que Admeto seria preservado da morte, que já o ameaçava, se oferecesse alguém, que quisesse morrer por ele, e ser conduzido ao Hades.
Tendo posto a prova todos os seus amigos, seu pai e sua velha mãe, que o criou, ele não achou quem consentisse em dar a vida por ele, e nunca mais ver a luz do sol! Ninguém, senão Alceste, sua dedicada esposa; e agora, no palácio, conduzida a seus aposentos nos braços de seu marido, vai desprender-se sua alma, porque é hoje que o Destino exige que ela deixe a vida. Eis por que, para me não macular, eu abandono estes tetos queridos. Vejo que já se aproxima Tânatos, o odioso nume da Morte, para levar consigo Alceste à merencória mansão do Hades. E vem no momento preciso, pois aguardava apenas o dia fatal em que a mísera Alceste deve perder a vida. (πιετρο νασσεττι)
imagem: sinodal.com.br

II. electra:

19/02/2009

εθριπεδεσ να μαρτιν ψλαρετ - ελεψτρα

electra, além de prantear o pai, demonstra seu pesar em cair nas garras de μαρτιν ψλαρετ e seu fâmulo πιετρο νασσεττι.



eurípides, electra:
a. trad.: j.b. de mello e souza (jackson/ediouro)
b. plágio: pietro nassetti (martin claret)




a. o trabalhador - ó veneranda argos, da terra por onde corre o ínaco e de onde, outrora, comandando mil navios de guerra, até as plagas de tróia velejou o rei agamêmnon! tendo vencido a príamo, que reinava sobre a terra ilíada, ele retornou a argos, deixando em ruínas a cidade ilustre de dárdano; e depositou nos altos templos numerosos despojos daqueles bárbaros. foi feliz, lá na ásia, sim! - mas, aqui, de regresso ao lar, pereceu vítima da astúcia de sua esposa clitemnestra, e sob o golpe de egisto, filho de tiestes. pereceu o detentor do cetro antigo de tântalo; e é egisto quem manda agora nesta terra, e possui a tíndaris, esposa do atrida. este deixara em sua casa, ao partir para tróia, seu filho orestes e sua filha electra. um velho, que fora mestre do pai, conseguiu levar consigo orestes, quando egisto ia matá-lo; e confiou-o, na terra de focéia, a estrófio, para que o criasse; mas a jovem electra permaneceu no lar paterno. logo que atingiu a puberdade, os mais ilustres helenos pediram-lhe a mão; mas o usurpador, receando que do consórcio da princesa com um árgio eminente nascesse um descendente que vingasse um dia a morte de agamêmnon, preferiu conservá-la solteira.

b. o trabalhador - ó veneranda argos, da terra por onde corre o ínaco e de onde, outrora, comandando mil navios de guerra, até as plagas de tróia velejou o rei agamemnon! tendo vencido a príamo, que reinava sobre a terra ilíada, ele retornou a argos, deixando em ruínas a cidade ilustre de dárdano; e depositou nos altos templos numerosos despojos daqueles bárbaros. foi feliz, lá na ásia, sim! - mas, aqui, de regresso ao lar, pereceu vítima da astúcia de sua esposa clitemnestra, e sob o golpe de egisto, filho de tiestes. pereceu o detentor do cetro antigo de tântalo; e é egisto quem manda agora nesta terra, e possui a tíndaris, esposa do atrida. este deixara em sua casa, ao partir para tróia, seu filho orestes e sua filha electra. um velho, que fora mestre do pai, conseguiu levar consigo orestes, quando egisto ia matá-lo; e confiou-o, na terra de foceia, a estrófio, para que o criasse; mas a jovem electra permaneceu no lar paterno. logo que atingiu a puberdade, os mais ilustres helenos pediram-lhe a mão; mas o usurpador, receando que do consórcio da princesa com um árgio eminente nascesse um descendente que vingasse um dia a morte de agamêmnon, preferiu conservá-la solteira.

e por aí vai, um embuste do começo ao fim.

imagem: richmond, electra, wikimedia.commons


III. hipólito:


20/02/2009

εθριπεδεσ να μαρτιν ψλαρετ - ηιπολιτο

eurípides, hipólito.
a. mello e souza (jackson)*
b. pietro nassetti (claret)
a. vênus:
(...) há tempo indo hipólito, da casa
de piteu, visitar a ática terra,
e ver e assistir aos venerandos
mistérios; o viu fedra, nobre esposa
de seu pai, e então por arte minha
um furioso amor concebeu n'alma.
e antes de vir aqui, no mais sublime
do rochedo de palas, donde avista
esta terra trezênia, um templo a vênus
levantou: porque amava amor ausente.
os vindouros dirão que ali a deusa,
pelo amor a hipólito, foi posta.
coa morte dos palântidas, fugindo
do sangue derramado à triste mancha,
teseu com a consorte aqui aporta,
para cumprir seu anual desterro.
assim a miseranda, suspirando,
e das setas de amor atravessada
morre em silêncio; o mal ninguém lho sabe.
mas este amor não me convém que afrouxe:
mostrá-lo-ei a teseu, será sabido.
ao meu duro adversário autor da morte
será seu mesmo pai; pois que netuno
anuiu a teseu, por dom, três vezes
todo o voto outorgar que lhe fizesse.
sim é ilustre fedra; porém morre:
pois o seu mal a mim mais não me importa,
que de sorte punir meus inimigos,
que um ponto não se ofusque a minha glória.

b. vênus:
(...) há tempo indo hipólito, da casa
de piteu, visitar a ática terra,
e ver e assistir aos venerandos
mistérios; o viu fedra, nobre esposa
de seu pai, e então por arte minha
um furioso amor concebeu n'alma.
e antes de vir aqui, no mais sublime
do rochedo de palas, donde avista
esta terra trezênia, um templo a vênus
levantou: porque amava amor ausente.
os vindouros dirão que ali a deusa,
pelo amor a hipólito, foi posta.
co'a morte dos palântidas, fugindo
do sangue derramado à triste mancha,
teseu com a consorte aqui aporta,
para cumprir seu anual desterro.
assim a miseranda, suspirando,
e das setas de amor atravessada
morre em silêncio; o mal ninguém lho sabe.
mas este amor não me convém que afrouxe:
mostrá-lo-ei a teseu, será sabido.
ao meu duro adversário autor da morte
será seu mesmo pai; pois que netuno
anuiu a teseu, por dom, três vezes
todo o voto outorgar que lhe fizesse.
sim é ilustre fedra; porém morre:
pois o seu mal a mim mais não me importa,
que de sorte punir meus inimigos,
que um ponto não se ofusque a minha glória. 

* na verdade, mello e souza adverte em seu prefácio que se trata de uma tradução portuguesa antiga de autoria desconhecida

imagem: valérie dréville no papel da fedra de racine

sobre o escândalo que é esse programa de aquisição de acervos da fbn, ver aqui.

a dobradinha FBN/Martin Claret I

eis o que a fbn aceitou cadastrar e oferecer em seu programa nacional do livro de baixo preço, para abastecer 2.700 bibliotecas públicas de norte a sul do país, à livre escolha delas:


reproduzo abaixo o que venho divulgando faz anos e que apresentei à presidência e à coordenação da fundação biblioteca nacional, quando eu soube das irregularidades em seu programa de abastecimento das bibliotecas públicas (e com verba pública, claro):


10/04/2008

max weber: pioneira vs claret

a ética protestante e o espírito do capitalismo.


mais da metade da ética protestante é composta de eruditíssimas notas. nelas, o copidesque nem se deu muito ao trabalho de mexer. já o texto, mais valia nem ter mexido.

tradução original de m. irene szmrecsányi e tamás szmrecsányi (pioneira, 1983, 3a. ed.), p. 144:

Alberti, Pandolfini, e os demais de sua espécie são representantes daquela atitude que, a despeito de toda obediência externa, era internamente emancipada da tradição da Igreja. Com toda a sua semelhança à ética cristã do tempo, na realidade, equivalia de maneira ampla ao caráter pagão da antigüidade, que Brentano acha que omiti, na sua significação para o desenvolvimento do moderno pensamento econômico (e também da moderna política econômica). Que eu não trato de sua influência aqui, é bem verdade. Isto estaria deslocado num estudo sobre a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

tradução atribuída a pietro nassetti (martin claret, 2007, edição revisada [?]), p. 154:

Alberti, Pandolfini, e os demais de sua espécie são representantes daquela atitude que, apesar da obediência externa, era totalmente* emancipada da tradição da Igreja. Com toda a sua semelhança à ética cristã do seu tempo, na realidade, equivalia de maneira ampla ao caráter pagão da Antigüidade, que Brentano acha que omiti, na sua significação para o desenvolvimento do moderno pensamento econômico (e também da moderna política econômica). Que eu não trato de sua influência aqui, é bem verdade. Isto estaria deslocado em um estudo sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo.

* quanto à troca de "internamente" por "totalmente", parece confirmar que o revisor pouco se importa se isso anula o sentido da contraposição entre externo e interno no humanismo de alberti. talvez o scan não estivesse muito nítido e o "revisor" passou o olho batido e pensou que era "inteiramente"...

trad. m. irene szmrecsányi e tamás szmrecsányi (pioneira, 1983, 3a. ed.), p. 186:

é bem sabido que essa atitude possibilitou ao pietismo tornar-se uma das principais forças a favor da idéia de tolerância. Neste ponto, podemos inserir algumas observações a respeito. Sua origem histórica no Ocidente, se omitirmos a indiferença humanística do Iluminismo, que, em si mesma, teve grande influência prática, pode ser encontrada nas seguintes fontes principais: 1) as razões puramente políticas (arquétipo: Guilherme de Orange); 2) o mercantilismo (especialmente claro para a cidade de Amsterdã, mas também típico de numerosas cidades, terratenientes e governantes que recebiam os membros de seitas por considerarem-nos valiosos para o progresso econômico; 3) a ala radical da religião calvinista. A predestinação tornou fundamentalmente impossível que o Estado verdadeiramente promovesse a religião através da intolerância. Deste modo, ele não poderia salvar uma única alma. Apenas a idéia da Glória de Deus dava à Igreja a ocasião de reclamar sua ajuda na supressão da heresia.

tradução atribuída a pietro nassetti (martin claret, 2007, edição revisada[?]), p. 196:

como se sabe, essa atitude possibilitou ao pietismo tornar-se uma das principais forças em favor da idéia de tolerância. Nesse ponto, podemos inserir algumas observações a respeito. Sua origem histórica no Ocidente, se omitirmos a indiferença humanística do Iluminismo, teve influência prática,* podendo ser encontrada nas seguintes fontes principais: 1) as razões puramente políticas (arquétipo: Guilherme de Orange); 2) o mercantilismo (especialmente claro para a cidade de Amsterdã, mas também típico de numerosas cidades, terratenientes e governantes que recebiam os membros de seitas por considerá-los valiosos para o progresso econômico; 3) a ala radical da religião calvinista. A predestinação tornou impossível que o Estado verdadeiramente promovesse a religião por meio da intolerância. Desse modo, ele não poderia salvar uma única alma. Apenas a idéia da glória de Deus dava à Igreja a ocasião de reclamar sua ajuda na supressão da heresia.

* essa supressão também demonstra a alarmante falta de entendimento do hipotético revisor apressado: o sujeito, na oração interpolada, é evidentemente a indiferença humanista do iluminismo, não a origem histórica do pietismo no ocidente. 

além da cópia ilícita e adulterada, tem como entender weber desse jeito?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagens: http://www.wikipedia.pt/www.npr.org

sobre o escândalo que é esse programa de aquisição de acervos da fbn, ver aqui.