20 de dez de 2012

boas festas!

como todo ano, este blog dá uma parada em 20 de dezembro e retorna em 10 de janeiro.

a todos, um feliz natal e um maravilhoso 2013!




18 de dez de 2012

georges selzoff II

agradeço a gutemberg medeiros por ter enviado gentilmente um material excelente sobre a pequena editora de georges selzoff, com sua "bibliotheca de auctores russos", do começo dos anos 30, sobre a qual falei aqui.

eis o logo, superbonitinho e caprichado, usado na contracapa das edições:


guilherme de almeida, quando georges selzoff anunciou que montaria uma editora com f. [?] olandim dedicada à tradução de grandes obras da literatura russa, saudou calorosamente a iniciativa. a saudação de guilherme de almeida foi reproduzida na edição d'os inimigos, pela "bibliotheca de auctores russos". informa gutemberg que foi reproduzida também em outras edições.





note-se como a capa era moderninha, com o desenho das letras no mais autêntico art déco. preciosa também a segunda capa, com a lista dos livros publicados e das obras programadas. das obras "no prelo", creio que apenas águas da primavera chegou a sair. por mais que tenha procurado em arquivos, bibliotecas, imprensa e sebos, não localizei nenhuma referência às outras sete anunciadas na programação.

por outro lado, temos em 1932 ninho de fidalgos, de turguenieff, em provável tradução de elsie lessa.
assim, salvo melhor juízo, tenho para mim que águas da primavera e ninho de fidalgos foram as publicações derradeiras da casa, num total de doze títulos, sendo dez de autores russos e dois de autores brasileiros, colaboradores de georges selzoff: allyrio wanderley e orígenes lessa. ver a respeito o post já citado, aqui.

17 de dez de 2012

que simpático!

superlegal a entrevista de lucas simone no metrópolis, sobre sua tradução de a aldeia de stepantchikovo e seus habitantes,
de dostoiévski, pela editora 34.




15 de dez de 2012

"pague quanto acha que vale"



ernandes fernandes deixou um comentário muito útil e informativo aqui, no post sobre os livros que a rideel tirou de catálogo (mas, pelo visto, o descarte continua em circulação):
Ontem vi alguns destes livros "proscritos" da Rideel, entre eles A Cidade do Sol, sendo vendidos em máquinas dispostas em estações da Linha Amarela do Metrô de São Paulo com o sugestivo aviso "Pague quanto acha que vale" (com a ressalva de que a máquina não aceita moedas e nem dá troco). E fiquei pensando: E se eu comprasse o tal livro com uma nota falsa? Afinal, o livro também é uma fraude! Aliás, estas máquinas sempre têm coisas como livros com defeitos gráficos, livros "Folha Explica" defasados, livros da Ediouro com capas que parecem ser dos anos 80 e outras coisas do tipo. 
obrigada por avisar, ernandes.


14 de dez de 2012

georges selzoff I

ao que parece, os tempos heroicos da literatura russa no brasil ganham uma alavancada um pouco mais sistemática por iniciativa de um leto, natural de riga, iúri zéltzov, que depois afrancesou o nome para georges selzoff. imigrando para o brasil, estabeleceu-se em são paulo (não sei a data; provavelmente na esteira da revolução soviética).

no começo dos anos 1930, ele criou uma pequena editora, a georges selzoff & cia., usando também o nome comercial de "edição cultura". a editora publicava uma coleção chamada "bibliotheca de auctores russos". teve vida efêmera, com quiçá uma dúzia de livros, e parece ter encerrado suas atividades em 1932 ou 1933.

há notícias esparsas sobre ele, aqui e ali: conta boris schnaiderman que foi ele o primeiro a traduzir algumas obras russas diretamente do original. como não tinha pleno domínio do português, as traduções eram feitas a quatro mãos, sendo ele auxiliado ora por um, ora por outro escritor brasileiro.

transcrevo abaixo alguns trechos de entrevistas onde schnaiderman fala um pouco de seltzov.
Aliás, está errado dizer que eu teria iniciado a tradução direta do russo. Não iniciei, não. Já tinha ocorrido isso no começo da década de 1930, com uma coleção de uma editora com nome de Biblioteca de Autores Russos. Quem iniciou foi George Seltzoff.
Revista E, SESC, n. 161, aqui 
O senhor chegou a ter alguma notícia do Georges Selzoff, da Bibliotheca de Auctores Russos?Conheci. Ele era amigo dos meus pais. (Pega um livro, Águas de Primavera, 1932.) Aqui está Georges Selzoff e Brito Broca, justamente baseado no princípio de um, que escreve em português, e o outro, que sabe russo.
Mas há outras obras que ele assina sozinho.Ele assinava sozinho mas não produzia sozinho.
Por exemplo, Um Jogador, de Dostoiévski. Bibliotheca de Auctores Russos. Agora, ele publicava e ele mesmo vendia.
De onde ele vem, o senhor se lembra?Ele vinha de Riga. Era de formação russa. É que em Riga, quando houve a Revolução, muitos fugiram da Rússia Soviética e ficaram nas proximidades. Muitos, certamente, esperavam que o regime comunista durasse pouco. Havia grandes núcleos de russos, principalmente em Riga. Eu o conheci pessoalmente. Quando eu tinha uns 10 anos, ele devia ter uns 35, 40.
Eu só consegui ver publicações dele de 1930 a 1933. Ele durou mais como tradutor?Não. Eu o encontrei depois, mas ele já não se ocupava mais disso. Financeiramente não teve muito retorno. É estranho, porque havia um interesse grande pela literatura russa e ele procurou aproveitar isso. Então,
conseguiu difundir os livros, mas ele não estava organizado como editor. 
entrevista a gutemberg medeiros, revista usp, v. 75, nov. 2007, aqui 
No Brasil se fez tradução direta do russo antes de mim. Houve um indivíduo chamado Iuri Zéltzov, assinava como Georges Selzoff, à maneira francesa, porque era mais chique. E ele fundou uma editora, a Bibliotheca de Auctores Russos. Agora, ele não sabia português suficiente. Então, ele se associou a dois escritores brasileiros, o Brito Broca e o... o... [estala o dedo] Às vezes o nome está na ponta da língua e não sai... e o Orígenes Lessa. Ficaram trabalhando pra ele. Ele ficava traduzindo do russo como podia, traduzindo pro português, e eles iam colocando num estilo aceitável.  
entrevista a raquel cozer em 2010, relembrada em a biblioteca de raquel, aqui . ver também aqui

curiosa, tentei levantar as publicações da selzoff/cultura. gutemberg de medeiros menciona publicações de 1930 a 1933. infelizmente só consegui localizar edições em 1931 e 1932. também não consegui encontrar nenhuma menção à contribuição de orígenes lessa para as traduções publicadas pela casa. [vide retificação mais abaixo.] por outro lado, encontrei menções ao paraibano allyrio meira wanderley em algumas edições da casa. como schnaiderman especifica aqui que selzoff "ia lendo o texto russo com o português precário que tinha, e eles punham em português decente”, talvez a memória o tenha traído e talvez se tratasse de fato de allyrio wanderley, já então residente em são paulo.

o resultado a que cheguei até o momento é o seguinte:
  • um jogador (das notas de um rapaz), de dostoievski, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931


  • khadji-murat, de tolstoi, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931

Autor:Tolstoi, Lév. Nikolaevich, graf. 1828-1910.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:'Khadji Murat'.
Imprenta:São Paulo [Edição Cultura] 1931. 
Descrição física:173 p. ilus.
Notas:Registro Pré-MARC
Classificação Dewey:
Edição:
891.73
Indicação do Catálogo:II-108,3,20
II-104,4,7

  • padre sergio, tolstoi, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931 (vinhetas e ilustrações de m. barychnicoff):

  • judas iscariotes, de leonide andreieff, tradução a quatro mãos com allyrio m. wanderley, 1931 (capa e ilustração de m. barychnicoff):

Autor:Androev, Leonid Nikoaevich, 1871-1919.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Judas Iscariotes.
Imprenta:São Paulo, G. Selzoff, 1931. 
Descrição física:141 p. ilus.
Notas:Registro Pré-MARC
Assuntos:Judas Iscariote.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Classificação Dewey:
Edição:
225.92
Indicação do Catálogo:225.92/J92an7 

  • o pavilhão no. 6, de anton tchecoff, não encontrei referência de tradução, 1931

Autor:Tchecoff, Anton.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O pavilhão nº 6.-
Imprenta:São Paulo [Bibliotheca de Auctores Russos] 1931. 
Descrição física:187p. il.
Notas:Português.
Indicação do Catálogo:VI-90,3,13

  • konovaloff, de maximo gorki,  não consta referência de tradução, 1931, com menção a uma segunda edição revista no mesmo ano
Autor:Gorki, Maximo.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Konovaloff.-
Edição:2.ed.-
Imprenta:São Paulo [Bibliotheca de Auctores Russos] 1931. 
Descrição física:156p.
Notas:Português.
Indicação do Catálogo:VI-87,2,24 

  • os inimigos, de anton tchecoff, contendo também "delírio (gussieff)", "algazarra em família", "no carro (o caminho do mestre-escola)", "verotchka", "estudante (conto do jardineiro chefe)", "zinotchka" e "uma noite atroz", com menção a selzoff e olandim como editores, 1931*

  • os sete enforcados, de leonide andreieff, tradução a quatro mãos com orígines lessa, 1932. agradeço a josé mota victor a gentileza por enviar imagem da página de rosto: 

  • ninho de fidalgos, de ivan turguenieff, não encontrei referência de tradução, 1932. provavelmente elsie lessa, mulher de orígenes lessa (vide atualização abaixo):
Autor:Turguenieff, Ivan.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Ninho de fidalgos. -
Imprenta:São Paulo Georges Selzoff 1932. 
Descrição física:184p.: il.
Notas:Português
Indicação do Catálogo:VI-88,4,31 

  • águas da primavera, de ivan turguenieff, tradução a quatro mãos com brito broca, 1932, com menção a uma segunda edição no mesmo ano. não localizei imagem de capa nem exemplar em nosso acervo, mas encontrei uma edição da melhoramentos nos anos 1950, com "tradução revista por marina stepanenko". quem sabe não será a de selzoff/ broca?



agora, uma curiosidade. até onde consegui apurar, a única obra não russa que a editora georges selzoff (edição cultura) publicou foi um livro justamente de seu assíduo colaborador, allyrio meira wanderley - sol criminoso, em 1931:



em 1933, quando as atividades de selzoff como editor já pareciam ter se encerrado, temos uma tradução sua a quatro mãos com a. meira, pela companhia editora nacional, em sua "bibliotheca pedagogica brasileira", série 4, vol. IV - porque morremos, de alexandre lipschütz:


Autor:Lipschutz, Alexander, 1883 - clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Porque morremos.
Imprenta:São Paulo, Comp. ed. nacional, 1933. 
Descrição física:243 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Assuntos:Morte - Causas. clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Entradas secundárias:Meira, Georges trad. clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
577.7
Indicação do Catálogo:577.7/L767w7 


atualização: descobri que a cidade que o diabo esqueceu, livro de contos de orígenes lessa tão constantemente reeditado até data recente, teve sua primeira edição em 1932 (alguns dizem 1931), pela editora georges selzoff.

isso parece indicar que pode ter havido uma "sinergia" tal como no caso de allyrio wanderley. um pequeno detalhe reforçando a hipótese desse intercâmbio é o fato de que, em 1932 e depois em 1933, orígenes lessa teve outros dois livros seus publicados pela companhia editora nacional: não seria totalmente implausível supor que tivesse sido ele a indicar selzoff para a tradução do livro de lipschütz para a c.e.n.

atualização em 16/12/12: ha! encontro à p. 190 do dicionário crítico de escritoras brasileiras (escrituras, 2002), de nelly novaes coelho, a informação de que elsie lessa, que se casara com orígenes lessa em 1930, traduziu ninho de fidalgos! nelly não dá o nome da casa publicadora, mas como, até data recente, a única edição brasileira de ninho de fidalgos, com este título, foi a que saiu pela editora de georges selzoff, talvez seja uma mera questão de juntar a com b. (apenas em 1962 a lux publicará ninho de nobres, em tradução do russo por rui lemos de brito.) para allyrio wanderley, ver aqui.

* atualização em 18/12/12: agradeço a gutemberg medeiros pela imagem de capa d'os inimigos. ver georges selzoff II, com outros materiais a respeito, aqui.

atualização em 11/3/13: de fato trata-se da tradução de selzoff com broca, devidamente creditados no verso da página de rosto. ver aqui.

atualização em 8/4/13: eis a página de rosto da edição de ninho de fidalgos:


12 de dez de 2012

prêmio paulo rónai de tradução



saiu a relação dos candidatos, habilitados e inabilitados, ao prêmio paulo rónai de tradução literária pela fundação biblioteca nacional. a íntegra está aqui.

houve cerca de quarenta inscrições e, infelizmente, nada menos que quinze foram inabilitadas. a razão principal, de longe, foi a ausência ou irregularidades no cadastramento da obra no isbn. campeão de inabilitações: o grupo record. uma pena, mas quem sabe assim as editoras passam a respeitar mais a obrigatoriedade do registro em nossa agência brasileira do isbn.

com isso ficaram de fora importantes obras de tradução, várias delas de tradutores de renome, como maurício santana dias (no caso dele, por cpf errado), joana d'ávila melo, andré telles e josé roberto o'shea.

quanto aos remanescentes, desejo boa sorte!


11 de dez de 2012

eu é que agradeço

fiquei tão emocionada com essa postagem do roberto denser, aqui, que tomo a liberdade de transcrevê-la abaixo:


SEGUNDA-FEIRA, 19 DE NOVEMBRO DE 2012


Um Breve Agradecimento

traducao
Foi a Denise Bottmann quem abriu meus olhos. Antes dela, antes desse contato diário com a internet, e, como consequência, com sua luta (guerra, na verdade) e seu trabalho, eu nunca havia me preocupado com a qualidade ou procedência das traduções dos livros que eu comprava ou lia (sim, há uma diferença), exceto quando me via diante de uma inegável tradução ruim, que reconhecia apenas como leitor e de forma empírica, uma vez que não sou algo que se possa chamar de especialista em tradução — Fique claro: acredito que não seja preciso ser especialista para perceber quando o tradutor trabalhou com esmero, com o cuidado que a obra merecia etc.

O que me levava a essa despreocupação era a confiança cega que eu dedicava aos livros. Entenda: na escola, aprendi a vê-los como um produto acabado, isento de erros, onde se encontrava a verdade incontestável que eu devia aprender e aceitar. “Está na bíblia, logo é verdade: aprenda e aceite.”, uma lógica que foi exportada para os outros livros, e que nunca, ou quase nunca, ousamos contestar e que resulta numa passividade na forma como os vemos ou os entendemos — pelo menos em parte de nossas vidas, ou durante uma vida toda, a depender do rumo que se tome — semelhantes àquela que muitos dedicam à tevê. Via de regra, não temos acesso ao processo de criação, tradução etc. do livro e, por consequência, passamos a ignorar tudo o que está por trás. Pegamos o livro pronto e, pensamos, acabado — da melhor forma que seria possível.

Mais uma vez: nós vemos o espetáculo pronto, ignoramos os ensaios, os erros, as repetições intermináveis, a escolha da trilha sonora, a elaboração dos figurinos, tudo o que está por trás daquela coisa deslumbrante que é o resultado final dum espetáculo teatral. E ao nos vermos diante desse resultado, muitas vezes ignoramos aquilo que para o elenco foi considerado uma série de erros, uma péssima execução. Eis o paralelo que faço com traduções ruins, mas não somente: também há os plágios, há a apropriação de traduções em domínio público, para as quais se atribui uma autoria qualquer, uma falta de ética terrível e inconcebível num país sério... Deixarei para falar sobre isso em outra oportunidade, pois, como o título sugere, escrevi esse texto tão somente para agradecer, e de forma breve.

E o que quero agradecer? Quero agradecer à Denise por ter aberto meus olhos. Por me ter feito perceber, de forma mais consciente, a importância da tradução que, ouso dizer, chega a ser tão importante quanto a obra — e o que me leva a ficar irritado quando alguém afirma que o trabalho do tradutor é apenas um “bico”. Foi graças à Denise que passei a tomar cuidado com minhas leituras: hoje, antes de ler um livro, costumo olhar a tradução, pesquisar na internet sobre o tradutor, procurar alguns dos seus trabalhos anteriores etc., e, só então, comprar a obra. Cheguei ao ponto de escolher os livros pelo tradutor, da mesma forma como costumamos escolher pelo autor ou pela editora. Se estou na livraria e dou de cara com duas edições de uma mesma obra, com traduções diferentes, sempre levo a de um tradutor no qual confie, o qual conheça. É assim com as traduções da Denise (as quais compro de olhos fechados), do Ivo Barroso (por quem nutro o tipo de admiração que se dedica aos heróis, o tipo de respeito que se dedica aos pais e avós, e que traduziu alguns dos livros mais importantes que já li e reli em toda a minha vida, e que meu alemão limitado a poucas palavras jamais me permitiria encarar no original), do Herbert Caro (que me proporcionou momentos de plenitude ao lado de Thomas Mann), do Paulo Bezerra (meu conterrâneo, tradutor daquele que é o escritor mais importante da minha formação) e tantos outros que não cito, mas dos quais procuro o nome quando me vejo diante dum livro traduzido.
Obrigado, Denise, por abrir meus olhos. 

Obrigado, tradutores, pelo trabalho sagrado ao qual vocês se dedicam. Muitas das obras que vocês traduziram, mudaram a minha vida e, tenho certeza, a de muitos outros leitores.

novo blog


volta e meia, aspirantes ou iniciantes no ofício de tradução de literatura e humanidades pedem dicas e sugestões. às vezes ocorre também uma desinformação bastante grande, com a ideia de que a atividade de tradução editorial seria muito mal remunerada, com prazos muito apertados e uma série de equívocos em torno de nosso ofício.

é para esse contingente de interessados em ingressar ou avançar na tradução editorial que criei um despretensiosíssimo e informalíssimo blog chamado tradução lítero-humanística. está aqui.

imagem: aqui

10 de dez de 2012

relançamento de escola de tradutores e texto de ivo barroso


aliás, falando no paulo rónai detetor de malandrices de tradução (ver o caso de sérgio milliet aqui), acaba de sair uma nova edição de escola de tradutores, onde o trecho pertinente à garfada de milliet está à p. 101. aliás, essa nova edição pela josé olympio traz texto de orelha por ninguém menos que ivo barroso!

transcrevo:

Se hoje a tradução é motivo, entre nós, de estudos e debates, uma boa parte dessa seriedade em encarar o assunto se deve à postura e aos escritos do professor Paulo Rónai que, desde os anos 1950, nos veio edificando com obras fundamentais sobre a arte de traduzir, embora escritas numa linguagem corrente, sem o pedantismo dos compêndios didáticos e universitários.
Entre seus opúsculos de divulgação, avulta-se, sem dúvida, este Escola de tradutores que, lançado inicialmente em 1952, alcançou inúmeras edições ao longo do tempo, aprimorado com precisas revisões e a adição de novos capítulos. A presente edição da José Olympio traz aos leitores – tanto àqueles que têm na tradução o objeto de seu trabalho intelectual, quanto aos que intentam ilustrar-se nos meandros dessa atividade primordial – os fundamentos da arte de traduzir, não só hauridos nos mais prestigiosos comentaristas do gênero como nos ensinamentos que lhe advieram de suas próprias vivências. Paulo Rónai comenta aqui os paradigmas da tradução literária vis-à-vis à técnica, analisa exemplos de traduções de um mesmo texto elaboradas por tradutores diversos, apontando-lhes os acertos, os distanciamentos e mesmo as imprecisões. Seu estudo sobre as versões de um poema de Carlos Drummond de Andrade (“José”), apresentado em três línguas distintas (francês, alemão e inglês), permite-lhe abordar as sutilezas envolvidas na tradução poética e como os tradutores conseguiram escapar de certas armadilhas linguísticas e se adequar aos rigores da métrica.
Os ensinamentos de Paulo Rónai – como os que se encontram neste livro – concorreram para uma conscientização entre nós da importância do tradutor, seja adquirida pelo próprio, seja no que diz respeito aos agenciadores de seu trabalho, os editores. Os profissionais que se formaram nos ditames da escola de Rónai hoje encaram sua atividade com uma responsabilidade de quase autor,  procurando por isso enfronhar-se o mais profundamente possível no sentido da obra e nas qualidades estilísticas de quem a escreveu. Os próprios leitores se preocupam agora em saber quem se incumbiu da tradução do livro que adquirem, certos de que um nome de abalizada capacidade representa um passaporte para a qualidade do produto adquirido. E os editores cada vez mais procuram selecionar e adequar seus colaboradores, cientes de que eles deixaram de ser os anônimos do passado para se tornarem um selo de qualidade do que expõem nas livrarias.
Ivo Barroso
tradutor 
4ª capa
Os ensinamentos de Paulo Rónai – como os que se encontram neste livro – concorreram para uma conscientização entre nós da importância do tradutor, seja adquirida pelo próprio, seja no que diz respeito aos agenciadores de seu trabalho, os editores.
Ivo Barroso

9 de dez de 2012

sérgio milliet? que coisa...

alguns anos atrás, gabriel perissé havia comentado em sua coluna na revista língua portuguesa as semelhanças que detetara entre as traduções de "paulo m. oliveira" e de sérgio milliet para os pensamentos de pascal.

"paulo m. oliveira" foi o pseudônimo usado por aristides lobo em suas traduções, geralmente feitas nos períodos que passou no cárcere nos anos 1930 - ver aqui. a tradução dos pensamentos de pascal foi publicada pela athena editora em 1936, com algumas reedições nos anos 40. infelizmente não localizei imagem de capa.

em 1957, a difel inaugura sua coleção "clássicos garnier" com os pensamentos pascalinos, em tradução que se dizia de sérgio milliet.

hoje, cá estou eu relendo alguns artigos de paulo rónai apanhados em escola de tradutores e lá encontro à p. 92 (minha edição é de 1987):
Teria gostado de compará-lo com os trabalhos de seus vários predecessores, mas só tive à mão, no momento, uma única versão em português, a de Paulo M. Oliveira, da Atena Editora (São Paulo, s.d.). O confronto dessa versão com a de Sérgio Milliet mostra que este, embora tenha aproveitado trechos inteiros do trabalho de seu antecessor, soube divergir dele quando a interpretação carecia de exatidão, clareza ou elegância. [destaque meu, db]
bom, conheço esse trabalho de alterar um texto para melhorar a precisão, a clareza e o torneio de frase pelo nome de "revisão" ou "copidesque". quanto a "aproveitar trechos inteiros do trabalho de seu antecessor" sem dar a fonte nem os créditos correspondentes, em minha terra isso se chama "plágio".

diplomático, paulo rónai não usa o termo, mas não deixa margens de dúvidas em sua incisiva descrição do procedimento adotado: como diz ele, sérgio milliet aproveitou trechos inteiros do trabalho de paulo m. oliveira.


a partir de 1966, essa "tradução" de milliet passa a ser publicada pela tecnoprint, em sua coleção de "clássicos de bolso":



















que fique então aqui registrada a constatação de mestre tão abalizado, já desde a época do lançamento da obra pela difel.


6 de dez de 2012

victor hugo, obras completas

reproduzo abaixo uma descrição das obras completas pela editora das américas, que encontrei na internet. embora não sejam efetivamente completas, segundo a profa. júnia barreto, trazem a maior parte da produção hugueana.

Obras completas de Victor Hugo - Edameris, formato 14 x 20 cm, 44 volumes, 1957, vários tradutores

Títulos
1- Os miseráveis - Tomo I
2- Os miseráveis - Tomo II
3- Os miseráveis - Tomo III
4- Os miseráveis - Tomo IV
5- Os miseráveis - Tomo V
6- Os miseráveis - Tomo VI
7- Os miseráveis - Tomo VII
8- Nossa senhora de paris - Tomo I
9- Nossa senhora de paris - Tomo II
10- O homem que ri - Tomo I
11- O homem que ri - Tomo II
12- O homem que ri - Tomo III // Noventa e tres - Tomo I //
Noventa e tres - Tomo II
13- Noventa e tres - Tomo III
14- O arquipélago da mancha // Os trabalhadores do mar - Tomo I
15- Os trabalhadores do mar - Tomo II // O último dia de um condenado
16- Han da Islândia - Tomo I
17- Han da Islândia - Tomo II // O segundo bug-jargal
18- Napoleão, o pequeno
19- História de um crime
20- História de um crime // Paris
21- Coisas que eu vi - Tomo I
22- Coisas que eu vi - Tomo II
23- Coisas que eu vi - Tomo III // Literatura e filosofia entremeadas - Tomo I
24- Literatura e filosofia entremeadas - Tomo II // William Shakespeare - Tomo I
25- William Shakespeare - Tomo II // Victor Hugo narrado por uma testemunha de sua vida - Tomo I
26- Victor Hugo narrado por uma testemunha de sua vida - Tomo II
27- Victor Hugo narrado por uma testemunha de sua vida - Tomo III // Atos e palavras - Tomo I
28- Atos e palavras - Tomo II
29- Atos e palavras - Tomo III
30- Atos e palavras - Tomo IV
31- Atos e palavras - Tomo V // Pós-escrito de minha vida - Tomo I
32- Pós-escrito de minha vida - Tomo II // Em viagem - Tomo I
33- Em viagem - Tomo II
34- Em viagem - Tomo III
35- Em viagem - Tomo IV // Cartas à noiva - Tomo I
36- Correspondência - 1815-1882 - Tomo I
37- Correspondência - 1815-1882 - Tomo II // Teatro Hernani
38- Teatro: Marion de lorme // O rei se diverte // Lucrécia Bórgia
39- Teatro: Maria Tudor // Angelo // A esmeralda // Ruy Bras
40- Teatro: Os burgraves // Poesia: Odes e baladas - Tomo I
41- Poesia: Odes e baladas - Tomo II // As orientais // As orientais // Os cantos do crepúsculo
42- Poesia: As expiações // As vozes // Os raios e as sombras // As contemplações // Teatro em verso
43- Teatro em verso (continuação): A lenda dos séculos // Canções das ruas e dos bosques // O ano terrível // Os anos funestos // A arte de ser avô // O burro
44- Poesia: A piedade suprema // Religião e religiões // Toda a lira // Fim de satâ // Os quatro ventos do espírito // O papa // Poemas sobre Victor Hugo

os miseráveis no brasil



fiquei surpresa ao ler no artigo de júnia barreto, aqui, que les misérables de victor hugo teria recebido cerca de vinte traduções no Brasil! não pretendo de maneira nenhuma pôr em dúvida a afirmação da pesquisadora, mas, em sendo fundada como certamente o é, sem dúvida há de se tratar de mais um daqueles casos de sumiço completo das traduções mais antigas, inclusive de quaisquer referências rastreáveis sobre elas. vejamos, pois.

I.
os miseráveis é um interessantíssimo caso em que a tradução brasileira saiu antes mesmo do lançamento da obra original. já comentei esse episódio aqui. no entanto, a tradução serializada a partir de março de 1862 no jornal do commercio - anônima, mas de provável autoria de justiniano josé da rocha e antônio josé fernandes dos reis - não foi a que saiu publicada no lançamento internacional simultâneo da obra em abril do mesmo ano. no rio de janeiro, uma das oito cidades escolhidas para esse lançamento, a edição saiu pela filial brasileira da livraria civilização/editor eduardo da costa santos, do porto, em tradução lusitana de antónio rodrigues de sousa e silva, em cinco volumes.


assim temos essa coisa curiosa: a tradução brasileira em folhetim sai na frente, até se antecipando ao lançamento do próprio original, mas a tradução lançada em livro no brasil é portuguesa.

(já em portugal, entre as décadas de 1860 e 1880, são lançadas mais duas traduções, além da de antónio rodrigues de sousa e silva: a de francisco ferreira da silva vieira e a de joão de mattos)

portanto, e aproveitando para fazer a indispensável distinção entre edição e tradução: no século XIX até tivemos edições brasileiras d'os miseráveis, mas traduções brasileiras de les misérables em livro, não, nenhuma, mesmo tendo sido o rio de janeiro uma das praças escolhidas para o lançamento internacional da obra.

II.
é a partir do século XX que vamos ter algumas traduções brasileiras d'os miseráveis em livro. e aí também começam os problemas. algumas edições trazem traduções anônimas, outras são reedições de traduções portuguesas, outras apresentam alguns elementos um pouco ambíguos.

eis o que obtive em meu levantamento - que não surpreenda muito a disparidade na quantidade de volumes; alguns têm apenas 200 páginas, outros 500 ou mesmo mais de 600; alguns são em formato maior, outros em formato menor; alguns têm ilustrações, outros não, e assim por diante:
  • 1925, companhia graphico-editora monteiro lobato, em dois volumes
  • 1944, editora moderna, em dois volumes
  • 1945, cia brasil editora, em dois volumes
  • 1956, editora progresso, em cinco volumes, tradução portuguesa de sousa e silva, aquela de 1862
  • 1956, editora das américas (edameris), em sete volumes, tradução de frederico ozanam pessoa de barros
  • 1959, edigraf, em três volumes
  • 1968, edições de ouro, em dois volumes. a edições de ouro era da tecnoprint, que a partir de 1985 passa a se chamar ediouro. e aqui surge algo curioso:
Autor:Hugo, Victor, 1802-1885.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Os miseráveis.
Imprenta:Rio de Janeiro, [Tecnoprint, 1968] 
Descrição física:2 v. il.
Notas:Registro Pré-MARC

Autor:Hugo, Victor,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1802-1885.
Título original:Les miserables.Portugues
Título / Barra de autoria:Os miseraveis / Victor Hugo ; introducao, Carlos Heitor Cony ; traducao, Casimiro L. M. Fernandes. -
Imprenta:Rio de Janeiro : Tecnoprint, [1988?] 
Descrição física:714p. : il. ; 21cm. -
Série:(Colecao Universidade de bolso)
Notas:Ediouro.
Traducao de: Les miserables.
BNB 88/01 

Autor:Hugo, Victor,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1802-1885.
Título original:Les miserables.Portugues
Título / Barra de autoria:Os miseraveis / Victor Hugo ; introducao, Carlos Heitor Cony ; traducao, Casimiro L. M. Fernandes. -
Imprenta:Rio de Janeiro : Ediouro, [1993]. 
Descrição física:714p. : il. ; 21cm. -
Série:(Classicos de bolso)
Notas:Traducao de: Les miserables.
BNB 94/01 

duas das fichas desses três exemplares em nosso acervo na biblioteca nacional apresentam um dado que me surpreendeu um pouco: os créditos de tradução a casimiro ou, melhor dizendo, casemiro l. m. fernandes.

casemiro fernandes era um conhecido tradutor da globo de porto alegre, nos anos 30 e 40. a tecnoprint/ ediouro, por sua vez, tinha o costume de incorporar catálogos inteiros ou obras avulsas de editoras extintas. foi o que aconteceu, por exemplo, com a tradução de casemiro fernandes (com souza jr.) de o vermelho e o negro de stendhal, que após o fechamento da globo gaúcha passou a ser publicada pela ediouro. ora, ocorre que não localizei absolutamente, em lugar algum e em tempo algum, qualquer edição anterior dessa tradução que a tecnoprint/ ediouro atribui a casemiro fernandes. talvez fosse inédita, talvez fosse a anônima da edigraf, talvez tenha se perdido no sorvedouro dos tempos, talvez, talvez... mas, salvo melhor juízo, não me sinto muito convencida da fidedignidade desses créditos.

continuando:
  • 1980, otto pierre, em dois volumes, não consta crédito de tradução. de todo modo, a otto pierre era um braço editorial português que publicava apenas traduções lusitanas
  • 1981, círculo do livro, em três volumes, na tradução portuguesa de carlos dos santos, que saíra em 1976 pelo círculo de leitores (lisboa)
  • por fim, em 2007 a martin claret publicou os miseráveis em tradução de regina célia de oliveira, em dois volumes. já comentei aqui que júnia barreto, se bem entendi, sugere em seu mesmo artigo que essa tradução de regina célia de oliveira "preserva parte" da tradução de ozanam de barros. a alegação é séria e teria de ser comprovada antes de se poder asseverar qualquer coisa.
III.
assim como é importante não confundir edição e tradução, igualmente importante é não confundir tradução e adaptação. sobre isso, ver aqui.

no caso d'os miseráveis, existem várias adaptações infantojuvenis, como as de miécio tati, luiz antonio aguiar, walcyr carrasco, rosana rios, júlio emílio braz, josé angeli, mas são - precisamente - adaptações, muito condensadas, desde trinta e poucas páginas até a faixa de 120/150 páginas.

há uma adaptação mais extensa, pelo clube do livro (1958), em dois volumes, totalizando cerca de 500 páginas, reeditada em 1976 pela hemus em volume único. na hemus apresenta-se como "texto integral", e nas duas editoras credita-se a suposta tradução a josé maria machado, o indefectível "pietro nassetti" do clube do livro. além de se tratar de um texto condensado, não dou um figo seco pela validade de tal atribuição.

IV.
fico um pouco desconcertada com a discrepância entre a informação fornecida pela pesquisadora júnia barreto e os dados que consegui levantar. a menos que se somem as casas que editaram uma mesma tradução ou se incluam adaptações infantojuvenis e paradidáticas, nem de longe consegui me aproximar da vintena de traduções brasileiras de que tive noticia em seu artigo, sob outros aspectos tão meticulosamente documentado. em meu levantamento, ainda que provisório e certamente incompleto, e mesmo concedendo o benefício da dúvida às traduções anônimas e supondo que não sejam meras reedições de outras anteriores, o resultado que obtive foi de, no máximo, sete traduções brasileiras em livro de les misérables.

assim, deixo mais uma sugestão de pesquisa historiográfica, esta, talvez, para uma dissertação de mestrado: um levantamento efetivo, bem detalhado e documentado das traduções brasileiras d'os miseráveis, que possa inclusive apurar eventuais "partes preservadas" de uma tradução para outra.

anônima, ed. moderna*

?, ed. brasil

anônima, edigraf*

ozanam de barros, edameris, 1956
ozanam de barros, edameris, v. 3, 1967
ozanam de barros, cosac naify, v. 1, 2002

* atualização: quanto à edição da edigraf, recebi a confirmação de que não há qualquer menção ao tradutor em nenhum de seus volumes. idem em relação à edição da moderna. isso parece sugerir aproveitamento de traduções anteriores. para corroborar essa hipótese, seria necessário um cotejo, sem dúvida; mas, a meu ver, isso reforça a hipótese que vem se desenhando para mim, qual seja: se tivermos duas ou três traduções brasileiras dessa obra de victor hugo publicadas em livro, já é muito.  

3 de dez de 2012

que são jerô nos proteja, II

aliás, já vi que presqu'île virou quase-ilha [sic], que um doubler que devia ser fazer as vezes de, substituir, virou dobrar; que o duque de lauzun virou nome de um lugar ("les dames aimées jadis de Lauzun", "amadas damas deviam visitar outrora em Lauzun"); que a covinha no queixo de baudelaire era como "um golpe final do polegar de um estatuário" (para "le coup de pouce final du statuaire"), e por aí vai.

não me importa nada o que dr. milton lins, eminente médico e beletrista nas horas vagas, faz ou deixa de fazer. o que não perdoo é que a academia brasileira de letras, nas pessoas de ivan junqueira, carlos nejar e evanildo bechara como membros da comissão julgadora, tenha-lhe atribuído o título de "melhor tradutor literário do brasil" em 2010.

veja aqui a saga da maior bofetada publicamente desferida no digno ofício da tradução.