18 de jun de 2014

tradução e criatividade

a revista língua portuguesa de junho, n. 104, publicou um artigo chamado o quebra-cabeça da criatividade, disponível aqui.  fui gentilmente entrevistada pela jornalista renata d'elia sobre tradução e criatividade, entrevista esta que resultou numa breve e simpática citação na matéria:



meu ponto, na verdade, não era tanto um "equilíbrio das expectativas" e sim a ideia de que uma tradução "criativa", isto é, não diretamente decalcada do original, pode ser mais "fiel" do que uma tradução demasiado colada a ele. transcrevo abaixo a íntegra de nossa conversa.
Como a criatividade se aplica ao trabalho do tradutor? Há algum tipo de inspiração para quem traduz? Você se lembra de algum caso em que a criatividade ... fez muita diferença em relação a um texto original? 
Se criativo for aquele capaz de lançar mão de certa liberdade interior, intelectual e emocional, para gerar coisas novas e inesperadas, então creio que algum arrojo, destemor mesmo, pode conferir um grau de criatividade a uma tradução. Creio que a gente pode falar em alguma dose de ousadia ou intrepidez.  Pois a grande questão é que somos uma espécie de Houdinis, presos dentro daquela implacável caixa do original no fundo da água, e de alguma maneira temos de conseguir nos desvencilhar e subir à tona com um texto em português, extraído de dentro daquela caixa após mil malabarismos mentais.  
Se há alguma inspiração nisso, é aquela disposição mais especial num dia ou noutro, quando você sente suas faculdades mais aguçadas, quando seu processador mental consegue vasculhar com maior eficiência e rapidez as toneladas de informações meio que adormecidas dentro dele, quando você consegue estabelecer ligações nem sempre muito óbvias, numa relação mais desimpedida entre o original e seu próprio repertório. Aí podem surgir coisas interessantes, que então vão se depositando no texto em português e que aí você vai consolidando e desenvolvendo ao longo do trabalho – mas, retomando a velha duplinha inspiração/ transpiração, há de se transpirar muito para que aquela centelha mais inspirada consiga contagiar todo o texto.  
E veja, muitas vezes uma tradução criativa não significa que ela faça muita diferença em relação ao original; muito pelo contrário, soluções criativas tendem a aproximar mais o texto traduzido ao texto original, a gerar uma maior afinidade entre eles. Pois é um equívoco supor que uma tradução muito colada ao original seja uma boa tradução: pelo contrário, esse servilismo geralmente resulta num decalque sem muito viço, mecânico, inexpressivo. Em suma, essa tradução mais colada ao original é a que, paradoxalmente, costuma ficar mais distante dele, sobretudo em obras literárias. Por isso é preciso um certo arrojo, uma certa coragem – pois sentimos medo, claro: de não captar bem algumas conotações, de errar, de ser meio obtusos – para elaborarmos com alguma desenvoltura outras soluções não tão imediatamente evidentes. 
O que pode acontecer é que muitas editoras mantenham códigos mais ou menos cerrados, em alguns casos impedindo essa maior desenvoltura, esperando algo mais simples ou convencional, em nome de um “leitor médio” abstrato. Mas nem sempre é este o caso, sobretudo em obras de maior densidade literária. Se não tudo, muito depende mesmo é da atenção, do cuidado e da dedicação do tradutor. Nesses casos, sempre haverá o que poderíamos chamar de criatividade, sim.

mais um alerta contra as ervas daninhas da germinal

sebastião ramos osias avisa aqui, na caixa de comentários, que cruzada sem cruz, a tradução de berenice xavier do livro arrival and departure, de arthur koestler, que saiu pelo instituto progresso editorial (i.p.e.) em 1948, teria sido plagiada por "uma tal de juliana borges", em edição publicada pela germinal em 2000, com o título de chegada e partida.




não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.

o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:

arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)

após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.

o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.

também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.

suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.

  • para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
  • para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadasaqui;
  • para hermann broch, com os sonâmbulosaqui;
  • para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
  • para isaac b. singer e o escravoaqui.

encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.


em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.

de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.


17 de jun de 2014

ivanhoé

Anno Litterario de 1905


almanaque brasileiro da garnier, 1907

por que me aferrar a walter scott, a "d'avellar" e a detalhes do catálogo da h. garnier aparentemente insignificantes de mais de cem anos atrás? nessa crônica que venho esboçando, o quadro geral é composto por três linhas de força principais: 1. a trajetória de uma das mais importantes editoras do país, a garnier; 2. a relativa estagnação econômica nas décadas finais do século 19 e na virada do século 20; 3. a lei dos direitos autorais de 1898.

assim, uma importante editora de repente se vê acéfala, perdendo seu proprietário que exercia gestão direta de seus negócios, em meio à crise política que se segue à implantação da república, é transferida para um sucessor ainda mais idoso do que o falecido, desde sempre morador em paris, com seus próprios assuntos e negócios a cuidar, o qual envia um gerente francês para assumir a editora, o qual desconhece o brasil e a língua e contrata um gerente regional, isso em meio a uma estagnação econômica geral e o encarecimento das tarifas de importação, seja de livros, seja de papel - e perante a entrada em vigor de uma legislação referente aos direitos autorais que passa a inviabilizar uma prática secular, qual seja, a utilização brasileira de traduções cujos direitos pertencem a casas editoriais estrangeiras (portugal, sobretudo), opção, aliás, já dificultada pelo alto custo do papel importado. continua a ser mais barato imprimir as edições nacionais no exterior, em paris, sobretudo. porém, o uso de traduções portuguesas para as edições nacionais se torna inviável devido à nova lei autoral. além disso, a concorrência ameaça: a laemmert assume o posto de principal editora e livraria no brasil, até então ocupado pela b.-l. garnier. o finado garnier já sabia disso; desde 1891, antes de falecer, já tentava vender a empresa, sem conseguir.

daí, a meu ver, o esforço de manter um catálogo, de manter um mínimo de atividade editorial - pois hyppolite, o idoso irmão sucessor que herdou a b.-l. garnier, preferira antes investir na reforma da livraria, não da editora. a parte editorial, mais lenta, passa a retomar alguma atividade maior já no século 20 - como, porém? trazendo autores inéditos no país em formato de livro, como edgar allan poe, alardeando ser "traducção brasileira" (assim, em aparente obediência à nova lei autoral), porém simplesmente reproduzindo traduções portuguesas do século anterior. é interessante notar, a propósito, que as primeiras edições de walter scott no catálogo da h. garnier, a partir de 1905, não trazem créditos de tradução. é apenas a partir de 1907, 1908 que passa a aparecer o nome de "k. d'avellar" ou "r. d'avellar" - suspeito que devido a algum tipo de pressão, seja dos concorrentes, seja dos clientes, seja de quem fosse.

foi o pior dos caminhos. o gerente brasileiro saiu da h. garnier em 1906, poucos anos depois de ser contratado. a partir daí se intensificam os lançamentos de walter scott, de balzac e outros autores estrangeiros.

16 de jun de 2014

walter scott, anúncios

anúncios no jornal correio da manhã:

04 de julho de 1906



14 de setembro de 1906



12 de maio de 1909





walter scott, anúncio

no correio paulistano de 10 de março de 1907, temos o anúncio de chegada à livraria de nada menos que quatro obras de walter scott pela h. garnier:


o anúncio se manteve durante dez dias seguidos, até 19 de março, e depois por mais dez dias salteados em abril, veja em nossa hemeroteca digital, aqui.


ivanhoé em folhetim

interessante notar que o jornal correio paulistano publicou o ivanhoé inteiro durante 41 edições, em longuíssimos excertos a cada vez, entre 30 de julho e 9 de outubro de 1905, na mesma tradução anônima que saiu naquele ano pela h. garnier:


ver nossa hemeroteca digital, aqui.


o walter scott da h. garnier, II

note-se que ivanhoé foi o primeiro título de walter scott publicado pela h. garnier (1905). já apresentei meu palpite em o walter scott da h. garnier, I, de que se trataria de uma contrafação da tradução portuguesa lançada pela guimarâes & libânio em 1901, mera hipótese de trabalho que teria de ser investigada antes de poder afirmar qualquer coisa com certeza.

aqui as imagens da capa, da página de rosto e da última página de texto de ivanhoé, em sua edição pela livraria garnier, gentilmente enviadas por raquel sallaberry brião, do jane austen em português, a quem agradeço muito:





vale lembrar que a h. garnier deixou de existir em 1911, a partir de então passando a se chamar livraria garnier que, naturalmente, manteve o catálogo da h. garnier e procedeu a várias reedições. a título ilustrativo, vejam-se os dois padrões de edição em capa dura da mesma obra pela h. garnier e pela livraria garnier:




15 de jun de 2014

o walter scott da h. garnier, I

um autor que vale a pena ser visto no catálogo da h. garnier é walter scott, autor favorito da casa. entre 1905 e 1911, a editora publicou nada menos que catorze volumes (com quinze romances) de scott em sua "collecção dos autores celebres da literatura extrangeira". foram eles:
ivanhoé: romance histórico (tradução anônima, 1905);
kenilworth (tradução anônima, 1906);
os puritanos da escócia (tradução anônima, 1906);
o talisman, ou, ricardo na palestina (tradução anônima, 1906);
waverley (tradução anônima, 1906);
quintino durward (trad. k. d’avellar, 1906);
a prisão d’edimburgo (trad. k. d’avellar, 1906);
a formoza donzella de perth: seguido d'o misanthropo, ou, o anão das pedras negras (1. trad. fauconpret, 2. anônima, 1907);*
o official de fortuna, ou, uma lenda de montrose (tradução anônima, 1908)
guy mannering, ou, o astrólogo (trad. k. d’avellar, 1908);
woodstock (trad. k. d’avellar, 1909);
o mosteiro (trad. k. d’avellar, 1910);
anna de geierstein, ou, a donzella do nevoeiro (trad. k. d’avellar, 1911);
os desposados: novella tirada da historia das cruzadas (trad. k. d’avellar, 1911).



já comentei em vários posts anteriores o problema de contrafações na h. garnier e, de passagem, mencionei a alta frequência com que aparece o nome de "k. d'avellar" ("k. de avelar" e até "r. d'avellar") como tradutor não só de scott, mas também de dickens, balzac e chateaubriand. o que me surpreendeu foi a absoluta falta de qualquer referência a esse nome em qualquer outra fonte que não fossem as edições da h. garnier (em boa parte reeditadas posteriormente pela livraria garnier).

aqui no caso das traduções de walter scott, o interessante é notar que seis delas haviam sido traduzidas entre os anos 1830 e os anos 1850 por caetano lopes de moura (médico baiano que morava em paris e era tradutor contratado pela aillaud para seu catálogo de obras em português, para exportação basicamente para o brasil, pela laemmert), a saber: o talismã ou o ricardo na palestina; os puritanos da escócia; quintino durward; o misantropo, ou o anão das pedras negras; waverley; a prisão de edimburgo. 

parece-me curioso que o título original the black dwarf tenha recebido idêntica tradução na h. garnier, o misanthropo, ou, o anão das pedras negras, ainda mais a tantas décadas e a tantos quilômetros de distância (é de se lembrar que caetano lopes de moura vivia na frança). além dele, temos um subtítulo muito parecido para os desposados na tradução anônima publicada pela portuguesa galhardo & irmãos, de 1837: primeira novella tirada da história das cruzadas. analogamente, a única tradução de ivanhoé que traz o subtítulo de romance histórico, de que tenho notícia, é a publicada pela guimarães libânio em 1901. é difícil crer que essas ocorrências não passem de meras coincidências.

a propósito, um resenhista comenta o lançamento de o talisman em 1906 em termos muito elogiosos, destacando o pleno domínio da prosa e um lavor literário que, a seu ver, não pertencia àquela época e que devia ser bastante anterior. vide na péssima digitalização da brasiliana, disponível aqui.

todos esses indícios levam a crer que poderia ser bastante interessante verificar a procedência das traduções de walter scott publicadas pela h. garnier, fosse anonimamente ou em nome desse misterioso "k. d'avellar".

aqui umas capinhas de época, inclusive das traduções de caetano lopes de moura (pena que não consegui imagem da página de rosto d'o misantropo, onde consta os subtítulo):








* no caso do volume da h. garnier que traz a formoza donzella de perth e o misanthropo, a coisa é tão bizarra que a tradução vem em nome do célebre tradutor francês de walter scott, auguste defauconpret.

11 de jun de 2014

luto




meus respeitos por wladir dupont.


a família mantém seu blog aberto, aqui.