18 de abr de 2015

mário de andrade e a "coleção cultura musical"

já comentei isso em outros posts, mas repito porque acho importante: a "cultura brasileira" foi uma pequena e efêmera editora (1934-1938) que, entre outras coisas, mantinha uma coleção de obras sobre músicos, a "coleção cultura musical", dirigida e organizada por mário de andrade.

em se conhecendo o nariz empinado de mário de andrade em relação à literatura de tradução, acho interessante que, claro, nem ele próprio foi capaz de abdicar dessa atividade que interconecta povos e culturas por meio de suas obras. e até imagino que tenha sido ele mesmo a indicar e escolher os tradutores dos livros que integravam sua coleção.

fica aqui mais uma singela sugestão para um TCC, uma monografia de final de curso, em nível de graduação: a trajetória da coleção cultura musical, da editora cultura brasileira.





12 de abr de 2015

a utopia

um artigo interessante de ana cláudia romano ribeiro sobre as várias traduções brasileiras de a utopia, de thomas more, aqui.

4 de abr de 2015

o velho e o mar II

prosseguindo a questão levantada no post anterior, o velho e o mar, aqui, marlova assef, a quem agradeço também pelas imagens, confirma que a edição da civilização brasileira de 1956 traz o início "melvilliano": "O velho chamava-se Santiago".




capa, 1956                                                                                           sobrecapa, 1956


interessante notar que se trata de um licenciamento da livros do brasil para a civilização. a edição portuguesa lançada pela livros do brasil não traz data de edição, mas no google books consta o ano de 1954, aqui.


vale notar que a livros do brasil publicou apenas uma edição da tradução de fernando de castro ferro, e já a partir de 1956 substituiu-a por outra tradução, da lavra de jorge de sena, em circulação até a data de hoje. a tradução licenciada para a civilização passou por revisão para adequá-la ao português brasileiro.



mas, neste caso, aquela minha hipótese de um dedinho do ênio silveira nesse inusitado começo, que levantei em o velho e o mar, parece não se sustentar. em licenciamento, não se costuma (nem se pode muito) mexer no texto, salvo para fins de estrita adaptação linguística. isso leva a indicar que a fonte daquela inspiração melvilliana foi no ultramar mesmo, e quiçá por gosto mesmo do próprio tradutor (por maior que seja minha dificuldade em ver alguma coerência e compatibilizar os dois partidos anteriormente apontados).

concluindo, um dado interessante: castro ferro veio a se radicar no brasil, imagino que por volta daquela mesma época. aqui fundou uma editora, a expressão e cultura, e continuou na atividade tradutória por muitos anos. encontra-se um artigo interessante seu, "o mundo selvagem dos livros", no jornal opinião, sobre sua experiência de editor no brasil, aqui.

o velho e o mar

um caso interessante foi levantado por andré balaio no facebook, aqui.

trata-se do início d'o velho e o mar, de hemingway, em tradução de fernando de castro ferro, que saiu inicialmente pela civilização brasileira em 1955, teve dezenas de reedições, e em algum ano entre 2000 e 2005 passou para a bertrand, ambas pertencentes ao grupo editorial record.

 civilização brasileira, 44a. edição, 1999

 bertrand, 80a. edição, 2013



um leitor pode achar que é o tradutor inventando moda. difícil. à primeira vista, nas duas frases iniciais, até poderíamos pensar que se trata de uma adaptação. mas vê-se na sequência que se trata de tradução mesmo, e de uma mesma tradução, razoavelmente fiel ao texto, o que elimina a hipótese de se tratar de uma adaptação. mas é difícil que essa grande diferença nas frases iniciais se deva à iniciativa de um tradutor, visto que este, imediatamente a seguir, mostra bastante aderência ao original. não faria muito sentido adotar um partido tão "liberal" nas duas ou três primeiras frases e em seguida passar para um partido mais convencional.

o velho e o mar foi, até onde sei, o primeiro livro de hemingway publicado no brasil, por iniciativa de ênio silveira, grande admirador seu - tendo inclusive traduzido, sob o pseudônimo de a. veiga fialho, uma coletânea de contos de hemingway (the fifth column and the first forty-nine stories).



andré balaio argutamente aponta uma ressonância melvilliana no início "O velho chamava-se Santiago". de minha parte, repito, acho muito difícil que uma alteração tão grande do original tenha sido por iniciativa do tradutor, em vista da sequência da tradução. eu tenderia a ver aí um dedinho do próprio ênio silveira, um ímpeto "estilístico-comercial" (cabe lembrar que moby dick saíra não muitos anos antes na tradução de berenice xavier). mas essa minha hipótese só faz sentido se supusermos e pudermos confirmar que desde 1955 foi esta a versão publicada, a mesma que ainda em 1999 estava em circulação.

encontro referências ao outro início, publicado pela bertrand, pelo menos desde 2005. em sendo fundada a hipótese acima aventada, seria plausível supor que foi no momento da transferência dessa tradução de um para outro selo da record, isto é, da civilização para a bertrand, que se procedeu à alteração do início, (re)aproximando-o do original.

sobre fernando [de] castro ferro, veja nosso rastreamento nos comentários do post aqui.

atualização em 05/04/2015: agradeço a allison roberto pelas imagens abaixo. como se vê, é em 2001 que a bertrand que passa a publicar a tradução, com seu novo início:



poe


um artigo de maria rita drumond viana sobre várias traduções d'o gato preto, de poe, aqui.

os contos de poe em tradução de julio cortázar (1956, em reedição revista e corrigida pelo tradutor), aqui.

imagem: aubrey beardsley (1894-95), the black cat


1 de abr de 2015

entrevista

o jornal cândido, da biblioteca pública do paraná, fez uma entrevista comigo, que publico aqui na íntegra.


Entrevista a Cândido, 3 de fevereiro de 2015

1. Em primeiro lugar, quem é o tradutor? Ou melhor, quem pode traduzir? Alguém que conheça a língua do livro a ser traduzido e também o idioma para o qual o texto será vertido? É isso? O que mais?
Sim, creio que o conhecimento das duas línguas, a de partida e a de chegada, são um bom começo - um excelente domínio sobretudo da língua de chegada, em nosso caso o português. Acredito também que o tradutor deve traduzir da língua estrangeira para sua língua materna, e não vice-versa. São raros, raríssimos os casos de estrangeiros que venham a conhecer tão bem o português que consigam autonomia completa na língua - os exemplos que me ocorrem são os de estrangeiros imigrantes ou de famílias imigrantes que acabaram se estabelecendo no Brasil, como Elias Davidovich, Tatiana Belinky, Paulo Rónai, Boris Schnaiderman e poucos mais.
Além do conhecimento do par de línguas, creio ser quase indispensável um conhecimento pelo menos geral dos assuntos tratados no texto. No caso de obras literárias, isso significa um mínimo de conhecimento de história da literatura, de estilos e escolas, bem como de técnicas literárias.
E, por fim, prática e experiência. Mas, para começar, creio que bastam, sim, os requisitos acima citados.

2. Há uma discussão, talvez superada, não sei, a respeito do tradutor respeitar o texto original ou então reescrever com liberdade. Qual a sua opinião sobre o assunto? Pode citar algum exemplo?
Ah, essa é uma discussão infindável, interminável, em particular na tradução literária. Pessoalmente, não conheço ninguém que defenda integralmente a ideia de "reescrever com liberdade", em termos estritos. No caso, isso seria mais uma paráfrase ou uma adaptação, e não tanto uma "tradução". Mas, tirando esses dois extremos - uma reescrita livre e descolada do texto ou uma adesão servil ao literalismo (que, no limite, nem faria sentido) -, há um extenso campo de variações e modulações possíveis. O praticante mais radical de uma reescrita livre seria, talvez, Ana Cristina César, a tal ponto que suas chamadas traduções são, a rigor, textos apenas inspirados por um original, digamos assim. Quanto ao literalismo mais colado ao original, há também o peso da experiência: um exemplo são as duas traduções de Josely Vianna Baptista  para Paradiso, de Lezama Lima, onde é possível ver seu amadurecimento desde aquela que foi sua primeira tradução profissional, em 1987, e a reelaboração a que procedeu na edição lançada agora em 2014.

3. Você tem vários livros traduzidos, da língua inglesa, francesa e do italiano. É isso mesmo? De qual idioma mais traduziu? 
Acrescento que traduzi também algumas coisas do espanhol. Gosto muito das línguas neolatinas e adoraria poder traduzir mais do francês e do italiano, mas, como a demanda por traduções do inglês é muito maior, acabo traduzindo bem mais do inglês do que de outras línguas.

4. Quanto tempo demora, em média, para traduzir uma lauda ou uma página? Você se programa, no caso de uma tradução já acertada, para trabalhar determinado número de páginas por dia ou pensa em caracteres ou traduz até o seu limite de energia naquele dia? 
Varia muito, muitíssimo, de tradutor para tradutor e também em função do texto e de suas dificuldades. Em meu caso pessoal, e em termos esquemáticos, foi assim: no começo eu me estabelecia uma jornada de 44 horas semanais, rendessem o que rendessem. Para livros de complexidade média, naquela época isso rendia cerca de dez páginas ou doze laudas por dia, resultando numa faixa de trezentas laudas ao mês, mais ou menos. Com o tempo, a experiência e sobretudo a facilidade proporcionada pela internet, para consultas e pesquisas, minhas horas de trabalho passaram a render mais laudas ou, dito de outra maneira, passei a precisar dedicar menos horas para chegar àquele tanto de laudas diárias. Hoje em dia, sou meio anárquica a esse respeito: às vezes, num surto inesperado qualquer, chego a fazer 20, 25 laudas num dia, sobretudo com textos fáceis, trabalhando oito, dez horas, e depois passo alguns dias sem fazer nada ou apenas duas ou três laudas, conforme vem a vontade. Tudo isso, naturalmente, supondo um texto não especialmente difícil. Para textos de maior dificuldade linguística, estilística ou temática, o rendimento é outro, cerca de metade ou dois terços disso. 

5. Quando realizou a sua primeira tradução? 
A primeira tradução profissional, digamos assim, ou seja, formalmente contratada e devidamente remunerada, foi em 1984, para a Editora Brasiliense. Era um livrinho do Perry Anderson, que saiu em português com o título de A crise da crise do marxismo. Já antes disso, eu gostava de traduzir artigos que achava interessantes (principalmente do Guy Debord, então pouco conhecido no Brasil), que eram publicados em alguns veículos da imprensa libertária (lembro-me dos baianos O inimigo do rei e Barbárie).

6. Até março de 2015, data da publicação da matéria, qual o número de obras que você traduziu? 
Hmmm, não sei dizer com certeza. Uns 120 livros, talvez, e uns vinte ou trinta artigos avulsos. Eu até mantinha uma listagem atualizada, mas nos últimos dois anos ando meio relapsa nisso.

7. Você vive das traduções? Paga-se bem ao tradutor? Quanto? As casas editoriais respeitam o tradutor? 
Sim, vivo exclusivamente de traduções. Olha, o preço de lauda que as editoras pagam aos tradutores varia incrivelmente, desde níveis vergonhosos até níveis que, para mim, são satisfatórios. Fica difícil dizer quanto. Mas creio que qualquer pessoa sensata só se dedicaria à atividade de tradução como única fonte de renda se a remuneração fosse suficiente para suas expectativas. No meu caso, com certeza é razoavelmente acima ou até bastante acima do salário de um professor universitário nos anos iniciais de carreira. Então, para mim está bom. Agora, para um pai ou mãe de família de classe média, com filhos para sustentar, com financiamento da casa para pagar etc., não creio que fosse tão satisfatório assim.
E sim, claro, as casas editoriais com as quais trabalho costumam respeitar bastante o tradutor. Bom, do contrário complica, não é mesmo? Quer dizer, a gente está na atividade porque é bem remunerada, é bem tratada, sente-se satisfeita, não é mesmo? Do contrário, por que se faria algo mal remunerado, sendo desrespeitado e se sentindo insatisfeito? Não faria sentido.

8. Considera o mercado editorial brasileiro profissional no que diz respeito a traduções? Pode apontar algum caso de profissionalismo? 
Ah, sim, altamente profissional! Estou acostumada a trabalhar para algumas editoras em caráter relativamente constante: Companhia das Letras, L&PM, Intrínseca, Objetiva, Zahar. São, todas elas, exemplos de alto profissionalismo na área de tradução, com excelentes editores. Não me lembro de ter trabalhado para alguma que pecasse por flagrante falta de profissionalismo - essas mal se sustentariam no mercado, imagino eu. Ademais, editoras que não zelam pela qualidade das traduções que publicam acabam fazendo um péssimo negócio, seja a curto, médio ou longo prazo. A maior bobagem que pode fazer uma editora é pagar mal ou desrespeitar seus profissionais.

9. O que é o maior problema para um tradutor? Pode citar algum caso seu, o qual foi difícil superar algum problema? 
Hmm, problemas sempre há: seja na tradução, com dificuldades que não consigo superar ou cujas soluções não me satisfazem plenamente; na preparação do texto, quando o revisor não entende bem o partido adotado na tradução ou mesmo falha em entender alguma coisa e faz intervenções desastradas; na divulgação da obra, quando cai na mão de algum resenhista de juízos demasiado rápidos ou desatentos, criticando infundadamente alguma coisa ou deixando de citar o nome do responsável pela tradução, e assim por diante. Mas faz parte.

10. Quais as suas traduções de que mais gosta? 
Ah, várias! Gosto muito de Piero della Francesca, de Roberto Longhi; de Walden, do Thoreau; de Mrs. Dalloway e Ao farol, ambas de Virginia Woolf (aliás, ambas premiadas). Recentemente tive uma experiência fabulosa, não nessa área mais lítero-humanística, e sim de ensaio de tipo jornalístico, que foi traduzir um livro sobre beisebol, de Michael Lewis, chamado Moneyball - foi sensacional, pois contratei um especialista para me orientar na área, visto que não entendo nada de beisebol e foi até meio imprudente de minha parte aceitar fazer essa tradução. Mas foi uma relação tão legal, tão séria, tão enriquecedora e ao mesmo tempo tão discreta e pouco invasiva que agora fico sonhando em desenvolver um novo tipo de trabalho, numa parceria assim. E o texto, achei que ficou ótimo - então estou adorando essa tradução também, por essa faceta inédita para mim.

11. Quem são os mais importantes tradutores em atividade no Brasil? 
Pergunta difícil, e inevitavelmente incorrerei em muitas injustiças, pois existe um grande número de bons, ótimos e excelentes tradutores em atividade no Brasil. Mas vamos lá: entre os grandes tradutores profissionais, sem dúvida destacam-se Ivo Barroso, Ivone Benedetti, Leonardo Fróes, Paulo Henriques Britto, Josely Vianna Baptista. Há outros grandes tradutores que não têm a tradução como atividade exclusiva e sequer principal, mas que são quase que uma espécie de "sal da terra" em nossa seara. Penso, por exemplo, em Marco Lucchesi, Jorio Dauster, Paulo Bezerra, Mamede Jarouche. Há um pessoal mais jovem, que começa a se consolidar e se destacar na área com trabalhos de alto nível, como Alípio Corrêa e Débora Landsberg. Mas, como disse, este é um exercício de injustiças, pois certamente há outros nomes de grande valor.

12. O que faz uma tradução ser considerada ruim? 
Bem formulada a questão, pois concede espaço para abrigar um fenômeno infelizmente não muito raro: pode ser desde a má vontade e - lamento dizer - eventual obtusidade de críticos e resenhistas até uma edição malfeita, com erros de revisão, má diagramação etc., que obscurecem a qualidade efetiva da tradução, até os casos mais triviais de incompetência do próprio tradutor, que leu, não entendeu e traduziu errado mesmo - e nenhum preparador ou revisor se deu conta dos erros e deixou passar. Em tempo: erramos, viu? Difícil encontrar alguma tradução que não contenha algum erro de entendimento ou de modulação.

13. O que eu não perguntei, deveria ter perguntado e você quer dizer sobre o assunto? 
Traduzir é uma delícia! Além de ser a coisa mais importante que existe. Já pensou um mundo sem acesso às línguas, obras e realizações de outras pessoas, de outras terras, culturas e épocas diferentes das nossas? Não dá nem para imaginar.




aqui "reconstruir um texto original", matéria de marcio renato dos santos utilizando excertos das entrevistas que vários tradutores demos.