24 de jun de 2017

mais dois russos

acrescentem-se à bibliografia russa traduzida no brasil (1900-1950), aqui, os seguintes títulos:

- fiódor gladkov, a nova terra - diário de uma professora, pela athena, 1935. não localizei o nome do tradutor. por provável interposição da tradução espanhola de piedade lifchuz (madri, 1931).

- leonid andréiev, judas iscariotes, pela norte, 1942. sem créditos de tradução, porém reproduz a de georges selzoff e allyrio meira wanderley (1931).





o drama da coisa - e aí, como faz?


hoje recebi o depoimento de um amigo, sério e dedicado bibliotecário, que reproduzo abaixo - quando a gente diz que livro não é produto perecível e que os efeitos deletérios das edições fraudadas se contam por décadas e décadas a fio, é mais ou menos isso.

Como você sabe, trabalho numa Biblioteca Pública.
No mês passado, uma jovem usuária que começou a fazer Ciências Sociais veio me pedir algumas orientações sobre diferenças de edições de um mesmo livro, editoras etc.
Expliquei o que é edição / impressão e a alertei sobre a editora Martin Claret.
Ela comentou que iam estudar um clássico do liberalismo - LOCKE -, e levou o exemplar da Biblioteca - coleção os Pensadores.
Durante a aula, a colega que estava sentada ao lado com um exemplar da editora Martin Claret não conseguiu acompanhar a aula, pois o trecho havia sido interrompido/omitido por uma frase extremamente/porcamente resumida. Uma frase para terminar o parágrafo, mas que omitia toda uma argumentação do autor (era o x da aula - a argumentação do autor) que ocupava algo em torno de 2 páginas. Olhe só, 2 páginas de um texto de ciência política sintetizadas em uma frase sem muito sentido...
Realmente a editora Martin Claret continua provocando sérios problemas para os compradores dos seus livros.
Tenho alertado todos os usuários para que não usem /comprem livros desta editora.
Repassei para todas as Bibliotecas da rede da Prefeitura de São Paulo um aviso sobre esses e outros problemas que tenho visto. A grande maioria dos meus colegas desconhecia esses problemas. Acho que é natural que isto aconteça. Acabamos ficando presos na rotina do dia-a-dia na biblioteca do bairro e não prestamos atenção a esse tipo de problema. Tenho a impressão de que nosso setor de seleção e aquisição sabia dos problemas (tanto que nunca comprou nada da editora), mas não emitiu nenhum aviso para não aceitarmos doações de usuários desta editora. 

23 de jun de 2017

mais cinco autores e suas respectivas estreias em livro no brasil

Schopenhauer, 1887: 

O primeiro volume de Schopenhauer a ser publicado no Brasil em tradução brasileira foi Metaphysica do amor. Esboço sobre as mulheres (Pensamentos e fragmentos). A tradução ficou a cargo de Manuel Coelho da Rocha, muito provavelmente tomando por interposição a versão francesa de Jean Bourdeau (1880), Pensées e fragments. Foi publicada pela editora Laemmert em 1887.

A Semana, 1887, ed. 0144


Sua quarta edição em 1904, pela Bibliotheca Philosophica da Laemmert, vem, como consta em sua nova capa, "augmentada com um appendice sobre a pederastia". Essa tradução de M.C. da Rocha foi reeditada pela Cultura Moderna em 1938.



Para um histórico de Schopenhauer no Brasil, veja-se aqui.


Tolstói, 1890:

A obra que inaugurou Tolstói em livro no brasil foi A sonata de Kreutzer, em tradução de Visconti Coaracy. Foi publicada em 1890 pela B.-L. Garnier e serializada no Diário de Notícias logo após seu lançamento, de dezembro de 1890 a janeiro de 1891.

Essa edição se reveste de grande importância, e tanto maior por ter sido a primeira publicação em livro de um autor russo no Brasil, assim inaugurando a fértil bibliografia que veio a se multiplicar algumas décadas depois entre nós.

Infelizmente não obtive imagem de capa. Sobre a fortuna bibliográfica de Tolstói no Brasil, veja-se aqui.


Hegel, 1936:

A primeira obra integral de Hegel traduzida e publicada no Brasil foi a Enciclopédia das ciências filosóficas, em três volumes, pela Athena Editora, em 1936. A tradução coube a Lívio Xavier, e não me parece impossível que tenha sido feita a partir da tradução espanhola de Eduardo Ovejero y Maury. Teve diversas reedições.



Jane Austen, 1940:

Somente em 1940 sai no Brasil a primeira tradução de um livro de Jane Austen. Trata-se de Orgulho e preconceito, em tradução de Lúcio Cardoso. Teve inúmeras reedições e foi objeto de apropriação fraudulenta pela editora Best-Seller, como apontei aqui e aqui.


Para outras traduções feitas por Lúcio Cardoso, veja-se aqui.


Emily Dickinson, 1945:

Os primeiros poemas de Emily Dickinson a ser traduzidos e publicados em livro no Brasil foram "I never lost as much but twice", "I died for Beauty – but was scarce", "This quiet Dust was Gentlemen and …", "I never saw a Moor" e "My life closed twice before its close", apanhados na seção "Cinco poemas de Emily Dickinson" em Poemas traduzidos, por outro grande nome de nossas letras: Manuel Bandeira. Poemas traduzidos teve sua primeira edição em 1945, pela R.A. [Revista Acadêmica].




Vide também o post anterior sobre outros cinco autores aqui.

19 de jun de 2017

um novo rubaiyat

ivo barroso concede a seus leitores e admiradores a oportunidade de conhecer 28 ruba'i de khayyam de sua lavra, numa bela e cuidadosa edição:







mais um russo no brasil, 1900-1950

acrescente-se à bibliografia russa traduzida no brasil entre 1900 e 1950, aqui:

quero!, de aleksandr ostapovich avdeenko, romance publicado pela athena editora em 1937. embora não constem os créditos, a tradução foi feita por heitor ferreira lima (dirigente do pcb).

o título adotado em português - quero! para o original ia liubliù, isto é, "eu amo", tal como na tradução inglesa da obra, i love (1935), ou na francesa, j'aime (1944) - parece sugerir que heitor ferreira lima se baseou na tradução espanhola !quiero!. esta foi publicada em 1935 pela ediciones europa-américa, madri, da linha comunista soviética a que também se filiava o pcb.

sobre a europa-américa madrilenha, vide um artigo interessante aqui.

"Instrumento soviético de agitprop en lengua española creado tras el VI Congreso de la Komintern (Moscú, julio-septiembre 1928). Ediciones Europa-América inicia su actividad en París (“París-Buenos Aires”), quedando prácticamente paralizada en 1930 tras los abandonos provocados, sobre todo, por desviaciones trotsquistas. Se reactiva en España en 1932, también como edeya, se expande en 1933 junto con ampli y marenglen, sobrevive tras el fracasado golpe de estado de 1934 y mantiene su activismo hasta 1938, y de nuevo en París (“París-México-Nueva York”) languidece durante unos meses en 1939, terminada la guerra de España, hasta que comienza la nueva guerra mundial."

não localizei imagem de capa da athena, mas aí fica a da europa-américa:



agradeço a bruno gomide pela identificação de avdeenko e pelo título original do romance.

18 de jun de 2017

estudo comparado

franciele graebin dedicou sua dissertação de mestrado (unb, 2016) a uma análise comparada das quatro traduções brasileiras de mrs. dalloway: a de mario quintana, a de tomaz tadeu, a de claudio marcondes e a minha. disponível aqui.







agradeço a bento moura pela notícia sobre esse estudo.

ecos de portugal no brasil, II

"ecos de portugal no brasil" é uma série de breves crônicas que venho publicando na revista digital InComunidade,

saiu agora a segunda delas, sobre o caso de persuasão, de jane austen. a crônica está disponível aqui.

veja-se também o marcador "landmark" aqui.

14 de jun de 2017

cinco autores e suas respectivas estreias em livro no brasil


shakespeare, 1882 ou 1933? 

o caso de shakespeare envolve uma certa polêmica.

entre os estudiosos da shakespeariana brasileira, celuta gomes sustenta a primazia de josé antônio de freitas, maranhense "que se integrou nas letras portuguesas", com sua tradução de otelo, publicada em lisboa em 1882.

márcia peixoto martins, por seu lado, sustenta que o simples dado da nacionalidade não garante a inserção de um autor ou tradutor no sistema literário de seu país de origem: "por tradução brasileira entenda-se feita em português do brasil, levando-se em conta os aspectos sintáticos, lexicais e de registro, entre outros, e observando uma poética literária compatível com 'modos de escrever' adotados por nossos autores". neste sentido, a primeira tradução brasileira de shakespeare seria tragédia de hamleto, príncipe da dinamarca, feita por tristão da cunha e publicada pela editora schmidt em 1933. vide aqui.


goethe, 1877 (excerto), 1884 (íntegra)

vem do rio grande do sul a primeira tradução brasileira publicada em livro entre nós, um excerto de fausto. trata-se de fausto e margarida, poema dramático em XII quadros da tragédia de goethe, por múcio teixeira. porto alegre, 1877[8]. vem apresentada como "uma imitação de goethe", como diz seu autor, ou uma tradução em paráfrase, como dizem alguns comentadores. teve grande sucesso e várias reedições no prazo de poucos anos.

também em porto alegre temos a primeira publicação de uma obra integral de goethe, o poema hermann e dorothea, porém vazado em prosa. a tradução foi feita por carolina von koseritz, e saiu publicada em 1884 pela typographia de gundlach, de porto alegre.

encontro menções a uma tradução de werther que teria sido feita por eduardo laemmert (1808-1880; portanto, provavelmente teria sido anterior às traduções acima citadas), com o título de amorosas paixões do jovem werther. todavia, essas menções parecem derivar, todas elas, de uma vaga afirmação de laurence hallewell, que a apresenta explicitamente como mera hipótese em seu o livro no brasil, e não encontrei nenhuma notícia concreta da existência efetiva e eventual publicação dessa tradução. assim, como marcos introdutórios, fiquemos com as duas traduções de existência comprovada, a de múcio teixeira e a de carolina von koseritz..


dostoiévski, 1896

também do rio grande do sul vem o primeiro volume de dostoiévski traduzido no brasil. foi o jogador, em tradução de alcides cruz, publicado pela livraria americana de pelotas, de costa pinto, em sua coleção "nova bibliotheca economica".

o livro saiu, calculo eu, por volta de 1895-6: avento essa data porque foi em 1896 que o almanak litterario e estatistico do rio grande sul publicou o anúncio de página inteira da livraria americana, com o jogador entre os três títulos já publicados em sua referida coleção. 



aliás, uma notícia interessante nos é dada por juremir machado, narrando os primórdios do jornal gaúcho correio do povo, no final do século XIX: "fez uma promoção de assinaturas. quem assinasse por ano, escolhia um livro numa lista de dez best-sellers, entre os quais o jogador de dostoievski". vide aqui.


freud, 1931

ao que tudo indica, a primeira tradução de freud saiu entre nós em 1931: tratava-se de cinco lições de psicanálise.

na verdade, houve uma tentativa anterior: o médico iago pimentel, com planos de traduzir a obra, chegou a publicar em 1926 um excerto de algumas páginas em a revista, uma efêmera publicação literária de carlos drummond, pedro nava e outros. com o encerramento da revista, porém, iago pimentel parece ter interrompido a tradução, e desde então não houve mais notícias de seu projeto.

assim, a tradução integral das cinco lições de psicanálise veio a sair apenas em 1931, pela cia. editora nacional, em sua coleção "biblioteca pedagogica brasileira". feita diretamente do alemão, a tradução foi realizada a quatro mãos: por josé barbosa corrêa e durval marcondes, este tido como o pioneiro da psicanálise no brasil. para mais efemérides freudianas entre nós, vide aqui.



baudelaire, 1872 (excerto), 1937 (íntegra)

o caso de baudelaire é interessante.

desde 1872, quando sai no brasil seu primeiro poema em livro - este também uma paráfrase, feita por carlos ferreira "sob inspiração de baudelaire" -, temos esporádicas publicações de poemas dispersos em coletâneas várias. essa situação perdura até 1937, 65 anos durante os quais se publicam, ao todo, meros dezesseis poemas avulsos, por diversos tradutores.

em 1937, finalmente surge a primeira publicação integral, em volume autônomo, pela athena editora: pequenos poemas em prosa, em tradução de um enigmático "paulo m. de oliveira". tratava-se de um pseudônimo utilizado por aristides lobo durante os períodos em que esteve preso durante a ditadura varguista e realizou diversas traduções. sobre baudelaire no brasil, vide aqui; sobre "paulo m. de oliveira", vide aqui.



10 de jun de 2017

moacir werneck de castro tradutor

  • o segredo do major thompson, de pierre daninos, difel, 1957
  • o jogador, de dostoiévski, civilização brasileira, 1976
  • notas do subterrâneo, dostoiévski, civilização brasileira, 1986
  • o eterno marido, dostoiévski, civilização brasileira, 1976
  • os campos de honra, de jean rouaud, círculo do livro, s/d (record, 1990)
  • o destino de um homem, somerset maugham, globo, 1956
  • a hora antes do amanhecer, somerset maugham, globo, 1943
  • o diabo no corpo, raymond radiguet, difel, 1958
  • eugénie grandet, honoré de balzac, difel, 1961*
  • a secreta mentira, sherwood anderson (com james amado), globo, 1950 (reed. pela cultrix em 1967 como a verdade de cada um e pela l&pm em 1987 como winesburg, ohio)
  • convergências – ensaios sobre arte e literatura, octavio paz, rocco, 1991
  • os três mosqueteiros, alexandre dumas, difel, 1960 
  • o general em seu labirinto, gabriel garcía márquez
  • do amor e outros demônios, gabriel garcía márquez
  • geração perdida, aldous huxley
  • major bárbara e outros textos, bernard shaw
  • homem e super-homem, bernard shaw, melhoramentos, 1951
  • aventuras de uma negrinha que procurava deus, bernard shaw
  • vida e época de nero, carlo maria franzero (com geir campos), nacional, 1958
  • o mal negro, nina berberova
  • o monge negro, anton tchecov, rocco
  • medo de espelhos, tariq ali, record, 2000
  • misti, guy de maupassant
  • monte oriol, guy de maupassant
  • as aventuras do barão de münchhausen, g. a. bürger, philobiblion, 1978; villa rica, 1990
  • teresa raquin, émile zola, pongetti, 1942
  • o crepúsculo do capitalismo, michael harrington
  • petróleo: a terceira guerra mundial, pierre péan
  • antimemórias, andré malraux, difel, 1968
  • "o despertar", isaac bábel, in os russos: antigos e modernos, leitura, 1944
  • stavisky: roteiro para o filme de alain resnais, jorge semprún, paz e terra, 1974
  • aquela rua em paris, elliot paul, globo, 1945
  • "os bandidos", ernest hemingway, in os norte-americanos: antigos e modernos, leitura, 1945
  • vida e morte de trelawny, margaret neilson armstrong, globo, 1943
  • os cinco filhos de addo, charles bonner, josé olympio, 1944
  • a casa dos mortos, edith wharton, globo, 1947
  • "profissão: latin americanist. richard morse e a historiografia norte-americana da américa latina", tenório trillo, in estudos históricos, fgv, v.2, n.3, 1989

* a tradução de moacir werneck de castro para eugênia grandet foi indevidamente apropriada pela editora martin claret, que a atribuiu a um fictício "alex marins". veja aqui