30 de abr de 2012

jack london no brasil IIIa.



de novo, a questão da literalidade. agora não se trata de uma expressão idiomática tomada ao pé da letra, e sim de um nome próprio: white fang, fielmente traduzido em todas as edições brasileiras como "caninos brancos".

fico pensando qual a probabilidade de alguém dar tal nome a seu cachorro (ou lobo): "caninos brancos, vem!", "pega, caninos brancos!" ou um simples chamar à distância: "caniiiinos braaaaancos!". em inglês, é fácil: algo mais ou menos como huái(t)fen - até segue a regra informal de nomes para cães: curto, com vogal bem marcada na tônica, para decorar mais fácil o chamado. sob este aspecto, "caninos brancos" é uma maldade - e na leitura do livro acaba sendo um suplício também. acho que só perde para o lusitano "colmilhos brancos"... pensei, pensei, não cheguei a nenhuma sugestão alternativa. fica registrado mais um quebra-cabeça.

27 de abr de 2012

jack london no brasil III



JackLondonwhitefang1.jpg


I.
white fang (1906), obra meio irmã e uma espécie de espelho invertido de the call of the wild, foi introduzida entre nós também por monteiro lobato, com o título caninos brancos, publicada pela companhia editora nacional em 1933, onde se mantém até hoje. na verdade, embora seja posterior a the call of the wild (1903), foi ela a primeira obra de jack london a chegar no brasil. aqui na edição brochura e na edição capa dura:

1933:


em 1954:
Caninos Brancos -coleção Terramarear

aqui nas capas de 2002 e 2004:
CANINOS BRANCOS


agradeço a angelo giardini de oliveira pela imagem de capa da primeira edição, em 1933, na coleção terramarear. um dado simpático, que também devo a ele: a arte da capa, como se vê assinadinho no canto inferior esquerdo (u. campos), é de jurandyr ubirajara campos, genro de monteiro lobato e ilustrador também de sua obra infantil.

II.
passam-se sessenta anos até aparecer uma nova tradução. sai em 1993, na autoria de vera caputo e luiz roberto mendes gonçalves, pelo círculo do livro:

Caninos Brancos

a partir daí, parece se alastrar a redescoberta de white fang


III.
em 1995, sai a tradução de geraldo galvão ferraz na coleção eu leio, da ática:



IV.
em 1998, a melhoramentos publica a tradução de antivan guimarães mendes:



V.
em 2000, sai uma pretensa tradução pela martin claret, em nome do indefectível pietro nassetti, com reedições sucessivas até a data de hoje:



trata-se de uma cópia deslavada de colmilhos brancos, tradução de olinda gomes fernandes que saíra pela editora civilização, do porto, em 1969. veja aqui.

VI.
em 2003, sai a mais recente tradução de white fang, feita por rosaura eichenberg e publicada pela l&pm:




quanto a adaptações:

- ana carolina vieira rodriguez, em 2005, na coleção aventuras grandiosas da rideel, muito condensada (apenas 32 páginas):



- laura bacellar, também em 2005, na coleção reencontro da scipione, mais substancial, com 88 páginas:

Caninos Brancos - Jack London - Adaptado

de quadrinização, há uma da ebal, na edição maravilhosa 72, de 1953:



e uma bem adocicada, adaptada do filme da disney, pela cine quadrinhos, da abril, em 1991:

Caninos Brancos Cine Quadrinhos Raro Excelente 1991

em suma, há cinco traduções integrais de white fang no brasil, além de uma espúria. entre as cinco legítimas, uma é esgotadíssima (a de vera caputo e luiz roberto gonçalves) e as demais continuam em viçosa circulação.

o levantamento da bibliografia de jack london traduzido no brasil ainda está em andamento: acompanhe aqui.

26 de abr de 2012

jack london no brasil II




continuando o levantamento das traduções de the call of the wild no brasil, iniciado aqui, agora apresento as demais distribuídas  por títulos e, dentro do bloco de cada título, por ordem cronológica de edição e de cada nova tradução. notem-se algumas capas absurdas, quanto à caracterização de buck, o cão protagonista da história.

[o] chamado selvagem
I.
após a tradução de monteiro lobato em 1935, chamada o grito da selva, passam-se cerca de trinta anos até sair outra: é chamado selvagem, em 1964, feita por sylvio monteiro e publicada pela livraria exposição do livro (que depois passou a se chamar hemus):



a tradução de sylvio monteiro segue o seguinte itinerário: sai pelo clube do livro em 1967, numa de suas usuais edições bizarras, porém com o título de as vozes da floresta. não consegui imagem de capa.

em 1972, é publicada com o título anterior, na coleção de clássicos juvenis da abril cultural:



em 1986, volta a sair pelo clube do livro, sem crédito de tradução, apenas indicando que foi revista por luiz roberto de godoi vidal:



em 2008, volta para a hemus (isto é, a antiga exposição do livro):

CHAMADO SELVAGEM (2008 - Edição 1)

um dado interessante é que, em 1966, a ediouro (que então se chamava tecnoprint) publica um chamado selvagem sem créditos de tradução, "recontado" por clarice lispector, numa edição de aparência patética:



esse texto "recontado" sai em 1970 na coleção elefante, também da ediouro:



e lá se mantém, aqui na capa horrorosinha de 2007:



eu não estranharia muito se clarice lispector tivesse recontado chamado selvagem a partir da tradução de sylvio monteiro.

II.
em 1966, muito discretamente, sai o chamado selvagem pela melhoramentos. tão discretamente que não consegui localizar os créditos de tradução nem a imagem de capa.

em 1996, pela mesma melhoramentos sai o chamado selvagem em tradução de luiz antonio aguiar. não posso afiançar se é a mesma tradução anterior, mas acho bastante provável.



III.
outro chamado selvagem que teremos é uma adaptação publicada pela atual em 2005, numa coletânea chamada três animais:

TRES ANIMAIS: O CHAMADO SELVAGEM / BELEZA NEGRA / HEROI, O GATO

IV.
em 2011 temos outro o chamado selvagem, agora em tradução de josé luiz perota, pela dracaena:




- o apelo da selva
agora mudando um pouco os títulos, em 1974, surge o apelo da selva em tradução de rui guedes da silva para o círculo do livro:



este mesmo apelo passa em 1981 a ser publicado pela abril cultural, em sua coleção "grandes sucessos":



mas nem mesmo o círculo do livro resiste ao apelo e em 1988 relança a tradução de rui guedes atendendo ao chamado:

Autor:London, Jack,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1876-1916.
Título original:The call of the wild.Portugues
Título / Barra de autoria:Chamado selvagem / Jack London ; ilustracoes de Ballestar ; [traducao: Rui Guedes da Silva . -
Imprenta:Sao Paulo : Circulo do Livro, [1988]. 
Descrição física:159p. : il. ; 22cm. -
Série:(Colecao Jovem. Circulo de aventuras)


- o chamado da selva
outro título é o chamado da selva, uma adaptação muito condensada (apenas 32 páginas) de rodrigo espinosa cabral, que sai em 2005 pela rideel:




- o chamado da floresta
I.
em 1993, sai o chamado da floresta, em tradução de luiza helena martins correia, pela ática. sendo da linha dos paradidáticos da ática, é de longe a tradução com maior número de reedições, a despeito da capa tão antipática:



II.
em 1995, é lançado o chamado da floresta em tradução e adaptação bastante condensada de sônia robatto, pela globo:

Autor:Robatto, Sonia.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O chamado da floresta / Jack London; tradução e adaptação Sonia Robatto. -
Imprenta:São Paulo : Globo, c1995. 
Descrição física:44p. : il. col. ; 29cm. -
Série:(Grandes classicos juvenis)

III.
em 1996, sai o chamado da floresta em tradução de célia eyer, pela newton compton. não vi a tradução, mas, como geralmente as publicações da newton compton no brasil eram feitas a partir da newton compton italiana (e, ademais, este volume traz o prefácio de mario biondi para a edição italiana de 1995), não me parece improvável que tenha sido indireta, por interposição do italiano:

Fotos de  Livro - O Chamado da Floresta - Jack London

IV.
em 2003, é lançado o chamado da floresta na tradução de william lagos, pela l&pm:



resumindo, e sem contar as adaptações, temos oito traduções integrais de the call of the wild no brasil, com cinco títulos diferentes: o grito da selva, [o] chamado selvagem, as vozes da floresta, o apelo da selva e o chamado da floresta.



atualização em 30/05/2012: opa, mais uma tradução integral, agora pela abril em sua coleção "o prazer da leitura", o chamado da selva. só falta descobrir o autor da tradução. com ela, são nove traduções integrais, com seis títulos diferentes. agradeço a eduardo kataoka pela indicação.

atualização em 24/3/13: a tradução é de Flávia Maria Baião Fusaro. agradeço a informação a eduardo kataoka.





só para constar, mais uma quadrinização, esta de 1958, em literatura em desfile da garimar, o chamado das selvas:

25 de abr de 2012

dickens X

I.
the chimes (1844) aparece no brasil em 1935 como a voz dos sinos, em tradução de elsie lessa, identificada na orelha do livro, pela cultura brasileira:*

veja-se **


essa tradução de elsie lessa, incluindo a voz dos sinos e o guarda-chaves, é reeditada em 1941 na coleção excelsior, da livraria martins:



e em 1946 pelo clube do livro com o respectivo crédito, coisa meio rara na editora:*



* este volume do clube do livro traz também aventuras de alguns marujos ingleses, em tradução de isak mielnick, e o homem e o espectro, sem crédito de tradução (julgo ser a mesma da edição da garnier de 1908 - veja aqui).

e pela itatiaia em 1976:



II.
em 1959, the chimes sai como "os carrilhões" na coletânea histórias humanas, em seleção e tradução de josé paulo paes, pela cultrix: 



em 1966, essa tradução de josé paulo paes ressurge pela tecnoprint/ ediouro na coletânea os mais brilhantes contos de dickens:

Os Mais Brilhantes Contos de Dickens

e em 2005 na coletânea o manuscrito de um louco e outras histórias, também na ediouro:



III.
em 1961, sai o carrilhão em tradução de maria lúcia de mello e souza para a coleção primavera, da paulinas:

O Carrilhão - Charles Dickens Coleção Primavera 1961

IV.
em 2004, sai pela martin claret um volume com cântico de natal e os carrilhões, com tradução em nome de "john green" (nome que consta em outras traduções espúrias da editora). quanto ao "cântico de natal", não passa de cópia da tradução de tito marcondes, de 1946. veja-se aqui. quanto a "os carrilhões", não cheguei a pesquisar suas fontes, mas é visível a presença de elementos lusitanos no texto ("registo", "antes queria", "ensolhado", "caluda", o uso do "você" no começo do conto, que depois curiosamente prossegue com o "tu", etc.).


acompanhe as traduções de dickens no brasil aqui.

no caso de a voz dos sinos, agradeço a fabrizio lyra pela retificação feita em comentário abaixo.


* atualização em 27/03/2013: de fato, essa edição pela cultura brasileira, em tradução de elsie lessa, inclui também "o guarda-chaves". recebeu uma breve nota no correio de são paulo, em 11 de junho de 1935.

** atualização em 26/05/13: agradeço a dainis karepovs pela referência e imagem de capa e aba.

23 de abr de 2012



dia do livro, dia de são jorge, padroeiro deste blog e de muitas coisas mais - de e para federico:




22 de abr de 2012

jack london no brasil I


JackLondoncallwild.jpg


Old longings nomadic leap,
Chafing at custom’s chain;
Again from its brumal sleep
Wakens the ferine strain.








alguma hora eu adoraria acompanhar a fortuna histórica de jack london no brasil: fartíssima e variadíssima. mas  as pesquisas demandariam um tempo que anda meio escasso. de qualquer forma, é impossível deixar de agradecer à sugestão de fabrizio lyra, aqui, tanto mais que já adiantou várias indicações, complementadas por duas outras indicações de um gentil anônimo.

por outro lado, como é cansativo fazer as pesquisas - não por causa delas em si, mas pelos disparates com que a gente se depara. por exemplo:

Autor:London, Jack, 1876-1916.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O tesão de ferro.
Imprenta:Rio de Janeiro, Ed. do povo, 1947. 
Descrição física:286 p.
Notas:Registro Pré-MARC

o tesão de ferro?! certamente deve ser o tacão de ferro (the iron-heel) - e isso no catálogo oficial de nossa biblioteca nacional. afora os vários registros das obras em diferentes registros do autor, por data de nascimento e morte, também na fbn:

london, jack, 1826-1916
o jovem suicida viveu noventa anos, então?

london, jack, 1856-1916
ou terão sido sessenta?

london, jack, 1876-1316
ou algo que nem consigo calcular, séculos vividos às avessas numa máquina do tempo?

london, jack, 1876-1916
bom, até que enfim acertam.

que seja. tento me concentrar em the call of the wild (1903), e logo surgem outras dificuldades: faltam registros de capas, faltam créditos de tradução, alguns créditos parecem estranhos, alguns títulos exigem certo esforço de identificação, afora as ilustrações do buck como husky siberiano ou uma espécie de pastor alemão (ele era uma cruza de são bernardo com collie). depois, vai dando uma certa exasperação com algumas bizarrices,  dados que não batem, muitas repetições, tanto mais do mesmo e tantas lacunas de outras obras de jack london. haja leitor para tantas versões e adaptações de the call of the wild. afora a variedade de títulos: o grito da selva, chamado selvagem, o chamado da floresta, o apelo da selva, as vozes da floresta, o chamado da selva.

só para espantar um pouco a irritação, comecemos em 1935 e a tradução de monteiro lobato. já se comentou o suficiente sobre o trato bastante livre que ele dava aos textos que traduzia. outro aspecto menos lembrado é que foi monteiro lobato, ardoroso admirador de jack london, quem introduziu sua obra no brasil. fez as traduções de caninos brancos (1933), o lobo do mar (1934), a filha da neve (1934) e o grito da selva (1935).

foi com o grito da selva que ele inaugurou a "coleção para todos", da companhia editora nacional. que lástima que não consegui uma imagem de capa da edição de 1935! abaixo, a capa da edição de 2002 e a pavorosa capa da edição de 2007:

  

por ora, é só. nova tradução vai aparecer apenas em 1964 e então se sucederão várias. voltarei a elas mais para a frente.

aproveito para registrar uma quadrinização simpática, em que pelo menos o buck aparece como um são bernardo. é a edição maravilhosa 117, da ebal, de 1956 (como base para o texto, provavelmente foi usada a tradução de lobato):



















a continuação está aqui.